Notas iniciais
Senti falta de escrever contos de fadas! Por que eu passei tanto tempo sem fazer isso mesmo?

Era uma vez uma linda princesinha.

Ela estava a caminho da padaria para comprar seus habituais brioches (afinal, realeza não come pão) quando foi raptada por um dragão.

O dragão a capturou em suas muito bem feitas garras e voou com ela para muito, muito, muito longe mesmo.

Eles atravessaram a Floresta da Perdição.

Eles atravessaram A Grande Montanha.

Eles atravessaram o Complexo das Fazendas.

Eles atravessaram o Penhasco da Dor.

Eles atravessaram o Grande Lago da Desesperança.

E, por fim, chegaram ao tão almejado destino: uma singela loja de doces.

*

Ainda no reino, um cavaleiro ficou sabendo dessa história graças à fofoca dos aldeões.

Como todos sabem, não existe fonte mais confiável de informação que a fofoca dos aldeões.

Ele decidiu então resgatar a pobre donzela indefesa. Porque é para isso que servem os cavaleiros, não é?

Esse cavaleiro em particular não era exatamente forte, bravo, valente, forte, inteligente, bonito ou forte. Ele sequer tinha uma armadura ou uma espada ou treino de combate. Mas ele tinha um cavalo! E esse é o único pré-requisito para ser considerado um cavaleiro.

O jovem cavaleiro montou em seu cavalo pangaré e se dirigiu prontamente à Floresta da Perdição.

(a fofoca da aldeia era convenientemente específica quanto ao rumo que o dragão tomou)

*

A Floresta da Perdição não era grandiosa ou notável no que se refere a extensão. Se o viajante andasse em linha reta a uma velocidade constante, conseguiria atravessá-la em pouco mais de três horas.

É por isso que, depois de 14 horas, o cavaleiro começou a suspeitar que havia algo ligeiramente errado.

Talvez ele tivesse errado o caminho?

Para garantir, ele pegou sua pequena bolsa de suprimentos em busca de uma bússola. Depois se lembrou que não tinha uma bússola, deu de ombros, mudou de direção aleatoriamente e continuou sua jornada.

Já era noite quando o cavaleiro decidiu aceitar que talvez existisse a possibilidade de estar perdido.

Não se chamava "Floresta da Perdição" à toa, sabe?

O cavaleiro não era o primeiro a se perder ali e, com certeza, não seria o último. Por sorte, sua bolsa de sobrevivência tinha um item essencial: um cobertor rosa quentinho e aconchegante, o qual ele sempre levava para as aventuras.

Felizmente, assim ele se salvou de congelar até a morte durante a noite.

Infelizmente, um urso surgiu do nada pela manhã e ficou maravilhado com o cobertorzinho rosa e aconchegante.

O cavaleiro pensou: o que valia mais a pena, entregar seu precioso cobertor e seguir viagem ou arriscar a própria vida lutando para mantê-lo?

A segundo opção pareceu, de longe, a mais sensata, então ele não teve outra escolha senão brigar com um urso no meio da floresta pela posse do cobertor.

E o cavaleiro puxou o cobertor de um lado.

E o urso puxou do outro.

E o cavaleiro agarrou com mais força.

E o urso puxou com os dentes.

E o cavaleiro berrou:

— É meu! Larga, bicho feio!

E o urso respondeu:

— Grrrrrrr!!!!

Foi uma batalha épica.

O cavaleiro saiu vivo, mas não intacto. Naquela luta uma parte essencial de si foi estraçalhada.

Isso mesmo, seu cobertor rosa e felpudo foi rasgado em pedaços.

O urso, satisfeito, carregou em seus dentes uma parte rasgada do objeto que tanto o encantou.

O cavaleiro chorou sua perda, engoliu o luto, montou em seu pangaré e seguiu em frente.

Após mais 5 horas e 27 minutos, ele finalmente achou o fim da Floresta da Perdição, sem sequer imaginar a sorte que tinha. Vários outros se perderam até a morte, a saída nunca encontrada.

Mas esse não é o caso dele, então vamos seguir em frente!

*

Depois da Floresta da Perdição, havia A Grande Montanha. Assim chamada pelos habitantes devido a suas enormes dimensões e, mais importante, à falta de criatividade do povo.

O cavaleiro olhou para cima, tentando encontrar o topo, mas era alto demais para ser vislumbrado por um mero humano com os pés firmes no chão. Era tão alta que muitos morreram tentando conquistá-la e chegar ao topo.

(Havia um motivo para a chamarem de "A Grande" afinal...)

Ele então deu de ombros e se pôs a escalar. O que mais havia para fazer?

E ele escalou e escalou e subiu e ofegou e continuou subindo. O cavaleiro já havia subido 1/3 da montanha (impressionante!) quando se deu conta de um pequeno detalhe: seu cavalo não sabia escalar.

Ele podia continuar, claro, mas abandonar seu cavalo valia a pena? Seu tão amado cavalo? Aquele que ele criou desde que era só um potrinho magricela?

Com um suspiro, ele desceu da montanha, montou em seu cavalo, acariciou levemente e aceitou que a princesa ficaria raptada para sempre se dependesse dele.

Mas seu cavalo, sentindo a desesperança do dono, simplesmente deu a volta na montanha. Ela era alta, sim, mas não extensa. Era até estranhamente fina se comparada a outras montanhas.

Eles rodearam A Grande Montanha e seguiram viagem.

O cavaleiro fingiu que essa tinha sido a ideia dele o tempo todo.

*

O Complexo das Fazendas parecia o lugar mais tranquilo dessa bagunça toda. Um observador casual diria que é uma linda planície recoberta de belas fazendas, cada qual cuidada por um alegre fazendeiro bondoso e sempre disposto a ajudar estranhos viajantes.

O observador casual, além de estar muito errado, é um otimista incurável.

Quando o cavaleiro adentrou a planície, logo viu que não seria tão fácil assim passar por lá: os fazendeiros eram oportunistas e extorquiam os passantes. Cada fazenda tinha o seu respectivo pedágio.

Para piorar, a divisão de terras era no mínimo uma loucura. Elas podiam ser organizadas como enormes retângulos alinhados e separados por cercas, não?

Aparentemente, não. Seria fácil demais.

Os limites eram confusos, as fazendas eram misturadas, as formas das plantações eram esquisitas e a única cerca existente fazia zigue-zague e, em certo ponto, uma espiral.

Não achou que se chamava "Complexo" à toa, achou?

O cavaleiro, com toda a sua astúcia, respirou fundo e ordenou que o cavalo fosse em frente. Sem planos, sem expectativas, sem sequer entender a geografia local. Apenas foi.

E foi detido logo na primeira fazenda.

O primeiro fazendeiro exigiu três moedas de ouro para que ele passasse por sua fazenda.

O cavaleiro se desculpou e disse que tinha apenas duas moedas de prata (que era toda a sua mesada), mas o fazendeiro riu da proposta e disse que jamais aceitaria um valor tão baixo.

Depois de pedir, argumentar, chorar e implorar, o cavaleiro convenceu o fazendeiro a deixá-lo passar em troca de trabalhos de graça (exploração?) na fazenda.

Assim, depois de passar a tarde colhendo verduras da horta, ordenhando vacas, escovando cavalos, pegando frutas das árvores e pintando a casa do fazendeiro com uma nova e brilhante demão de tinta, o cavaleiro pôde passar.

Ele fez o trabalho tão bem que o fazendeiro até mesmo o pagou com uma moeda de bronze.

Na segunda fazenda, o fazendeiro era bem mais rígido. Ele exigia 15 moedas de ouro como pedágio.

O cavaleiro disse que só tinha duas moedas de prata e uma de bronze, mas o fazendeiro riu da proposta ridícula.

O cavaleiro gritou, argumentou, chorou, esperneou, mas o fazendeiro era implacável. Ele não precisava de ajuda na fazenda nem aceitava menos que o valor estipulado.

Depois de muito tempo chorando no ouvido do fazendeiro como uma criança manhosa, ele o fez ceder. O fazendeiro disse que aceitaria o cavalo como forma de pagamento.

Isso mesmo, o cavalo.

Valia a pena?

Provavelmente não.

Mas o cavaleiro precisava muito passar... E ele poderia pegar seu cavalo depois, certo? Na volta, se ele pagasse o preço estipulado. Seria mais como um empréstimo...

Por fim, ele aceitou e, relutante, deixou seu pangaré com o fazendeiro.

Mas seus problemas ainda não haviam acabado.

O terceiro fazendeiro lhe cobrou 10 moedas de ouro.

O cavaleiro já estava de saco cheio com toda a complicação desse lugar, com sua geografia irregular e suas taxas aleatórias, e desabafou tudo com o pobre terceiro fazendeiro, que teve o azar de servir de psicólogo para nosso herói.

Depois de muito choro e raiva e discursos de como não era justo, o fazendeiro se compadeceu (ou simplesmente não aturava mais ficar ouvindo as reclamações do cavaleiro) e o deixou passar de graça.

Ele finalmente chegou ao fim do Complexo.

(E teve sorte, algumas rotas passavam por mais de 20 fazendas, não por meras 3. Não que ele soubesse disso)

*

O Penhasco da Dor era um desafio, admito.

Era uma queda mortal em pedras pontiagudas e um espaço largo demais para ser simplesmente pulado. Nada simples, fácil e muito menos seguro.

E o pobre cavaleiro não tinha sequer seu fiel cavalo para lhe dar apoio moral.

Então ele se sentou, admirando a longa fenda mortal entre si e o resto de sua jornada. Cair ali era morte na certa.

Sem mais ideias do que fazer, o cavaleiro (agora sem cavalo) pegou uma moeda de prata e a jogou. Se desse cara, ele tentaria dar a volta, se desse coroa, ele pensaria em outra coisa.

Ele jogou.

Coroa.

Que bom, parecia grande demais para dar a volta mesmo.

Ainda sem ideias, ele pegou a outra moeda de prata.

Se desse cara, ele tentaria voar sobre o desfiladeiro, se desse coroa, ele pensaria em outra coisa.

Jogou.

Coroa.

Que bom, ele não sabia voar mesmo.

Só para acabar, ele pegou a moeda de bronze. Se desse cara, ele tentaria pular o penhasco a pé (loucura!), se desse coroa, ele desistiria dessa história toda.

Jogou.

Cara.

Espera, cara?

Cara!

CARA!

O corajoso aventureiro olhou para os lados e, ao garantir que não havia testemunhas, virou a moeda de "cara" para "coroa".

Bem melhor.

Infelizmente, um gênio brotou literalmente do chão apenas para repreendê-lo.

— Ei! O que você pensa que está fazendo? Não pode simplesmente trapacear no cara ou coroa!

— Aaaahhh! Quem é você?

— Eu sou o gênio do cara ou coroa, ora.

— Então você é tipo... Um gênio da lâmpada?

— Não exatamente... Mas você está me enrolando. A questão é: você trapaceou na moeda! Seu trapaceiro!

— Mas se eu pular eu vou morrer!

— Devia ter pensado nisso antes de apostar!

— É, mas... Espera aí, você é tipo um gênio da lâmpada, né?

— Você já perguntou isso, e não exat-

— Então você é mágico?!

— Uh... É, acho que sim.

— Pode usar mágica pra me pôr do outro lado então?!

— Não.

— Por favor?

— Não.

— Por que não?

— Porque não.

— "Porque não" não é resposta!

— Porque você trapaceou!

— Por favor?

— Não!

— Por favor?

— Não!

— Por favorzinho?

— Não...

— Pooooooor favooooooooor!

— Hunf, tá bom!

— Sério?!

— É, que seja. Só para de me amolar.

Então o gênio do cara ou coroa conjurou um enorme estilingue, que brotou do chão, e arremessou o cavaleiro sem cerimônia alguma.

O cavaleiro aterrissou de cara no chão, mas, tirando isso, estava ótimo.

Doeu muito.

Não achou que se chamava "Penhasco da Dor" por nada, não é?

Pelo lado positivo, sua missão estava perto do fim.

Só faltava um lugar.

*

O Grande Lago da Desesperança. O obstáculo final.

O cavaleiro não sabia nadar.

Ao ver a grande extensão do lago, água por todos os lados e tudo o mais, o cavaleiro perdeu toda a vontade que tinha de continuar. Aquele obstáculo era intransponível. Não havia jeito. Não havia solução. Não havia esperança.

(Tenho que comentar o motivo do nome?)

Não! A história não terminaria assim!

Com a determinação renovada, o cavaleiro tirou sua camiseta de algodão e desfiou metade dela, conseguindo um longo fio. Então jogou o fio no meio do lago.

Ele pescaria um grande peixe, montaria nele e atravessaria aquela maldita poça d'água!

Ele esperou, esperou, esperou.

Nada.

Então passou por sua cabeça que talvez ele devesse usar uma isca.

É, fazia sentido, não?

O cavaleiro se ajoelhou, cavou a terra fofa e pegou uma minhoca, então a amarrou na linha e jogou de novo.

Logo obteve resultado: um peixe mordeu a isca!

E era um peixe bem grande, o tipo que ele precisava!

Infelizmente, o peixe era tão grande que rasgou a frágil linha de algodão.

Mas o cavaleiro não se abalou e desfiou o resto da camiseta! Depois pegou uma nova minhoca e já estava pronto para amarrá-la quando ela gritou:

— Nãããão! Piedade!

— Ahn?

— Piedade! Não me jogue às feras!

— Você fala?

—... É.

— Mas você é uma minhoca!

—... É.

— Você é uma minhoca que fala!

—... Você é meio lerdo, né?

— E você é uma minhoca que fala!

— Pode me chamar de June.

— Ah... Oi, June.

— Oi, pode não me matar?

— Mas eu preciso atravessar o lago!

— E não pode nadar?

— Eu não sei nadar!

— Se não me matar, eu te ensino a nadar!

— Ah... Tá bom.

Então June, a minhoca, ensinou o cavaleiro a nadar.

Como ela era uma minhoca, não tinha braços ou pernas, por isso o cavaleiro aprendeu a nadar como uma enguia, mas era melhor que nada.

Assim, ele conseguiu atravessar o Lago da Desesperança e, por fim, chegar a seu destino.

A loja de doces.

*

O cavaleiro, usando a cabeça pela primeira vez na vida, decidiu dar a volta e entrar pela porta dos fundos. Muito menos chances de dar errado.

Não havia uma porta dos fundos.

Ele deu de ombros e bateu na porta da frente mesmo.

Toc toc toc.

Nada.

Toc toc toc toc toc.

Nada.

Toc toc toc toc toc toc toc.

Nada.

— Ô de casa, abre a porta!

— Já vai, já vai!

O dragão abriu a porta.

— Quem é você?

— Eu sou um cavaleiro! A princesa está?

— Ah... Quem quer saber?

— Eu.

— Mas quem é você?

— Um cavaleiro!

— Mas cadê seu cavalo?

— Uh... Essa é uma longa história.

— Tá.. Não tem princesa aqui, pode ir embora.

— Não acredito em você! Eu quero entrar!

— Só clientes entram.

— Eu posso ser cliente!

— Tem dinheiro?

— Ten... — O cavaleiro percebeu que deixou as moedas do outro lado do penhasco. — Tenho não.

— Então sem serviço. — O dragão disse por fim e fechou a porta na cara dele.

Não que isso tenha abalado a determinação do cavaleiro.

Ele voltou ao lago, tirou suas calças, as desfiou, entrelaçou os fios e fez uma pequena rede de pesca.

Incrivelmente, essa ideia funcionou e ele pegou alguns peixes pequenos.

Ele bateu de novo.

— Com licença, senhor Dragão?

— O quê?

— Aceita peixes como forma de pagamento?

— Ahn... Tá, claro. Aceito sim.

— Viva!

O cavaleiro, finalmente, entrou na loja depois de entregar os peixes para o dragão.

— É uma bela loja.

— Obrigado, é minha. — Respondeu o dragão.

— Sua? Sério? Que legal!

— É, eu queria fazer uma loja de conveniências, mas o lugar é muito inconveniente, sabe? Dá um trabalhão chegar aqui.

— É, faz sentido... Mas, voltando ao assunto, cadê a princesa? E eu não tenho que te matar, né? Eu não tenho uma espada... Nem quero te matar, na verdade.

— Nah, pra quê mortes desnecessárias? A princesa está ali. — Ele apontou para uma mesa, na qual a bela monarca estava sentada comendo doces.

— E aí? — Ela cumprimentou docemente.

— Ah... Você não precisa ser salva?

— Não, valeu, estou bem aqui.

— Sério?

— É, ele é meu primo. — Ela apontou casualmente para o dragão. — Eu vou passar o fim de semana na casa dele.

— Seu... Primo?

— É, nem dá pra perceber, né? Puxamos lados diferentes da família.

— Então... Você não foi raptada?

— Não.

— E está bem?

— É.

— E não precisa ser salva?

— Nop.

— Ah... Uh...

— Você é meio lerdo, né?

— Bem... Acho que eu vou indo então. Que bom que você está bem.

— Ok, tchau. E... Por que você está só de cueca?

— Ah, eu usei o resto das roupas pra pescar.

— Tá, faz sentido, bom te conhecer!

— Igualmente... Dragão, pode me dar uma carona? Por favorzinho?

— Claro.

Então o cavaleiro, apenas de cueca e botas, voou junto do dragão de volta para casa e, no meio do caminho, pegou seu pangaré de volta.

Fim.

Moral aceitável um: ursos podem ter um excelente gosto para tecidos.

Moral aceitável dois: se tiver um obstáculo a sua frente, tente dar a volta.

Moral aceitável três: não confie em observadores casuais.

Moral aceitável quatro: você não precisa ser corajoso, brilhante ou forte para viver uma aventura, só precisa insistir e seguir em frente.

Moral aceitável cinco: encher o saco das pessoas pode sim dar resultados.

Moral aceitável seis: princesas podem ser parentes de dragões, então não acredite em toda fofoca que ouvir.

Notas finais
Agradecimentos: —Meu irmão. —Larissa Prescott. (porque os dois ficariam chateados comigo se não fossem mencionados) —Você que leu isso. Espero que tenha curtido. Bye!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!