Aquela Errada Paixão.
6 Fred, o estrábico.
Notas iniciais
Seu cachorro era muito feio. Ele poderia ser um filhote, porém era para lá de estranho. Ela também tinha sérias suspeitas de que fosse gay, se é que isso é possível. E sim, quem o conhecesse, sempre concordava.
– Ér, acho que ele gostou de você. – Ele disse, não fazendo a menor ideia de quem era aquele cachorro. Como nunca havia ido a casa dela, não sabia o que pensar sobre a cena.
– Ah... Esse é o Fred, meu cachorro. – Ela confessou meio envergonhada. O que diabos ele estava fazendo ali?
Nesse exato momento, a resposta para sua pergunta chegou com malas e uma careca que parecia um diamante.
– Pai? De onde essas malas vieram?
– Bem, nós resolvemos ficar mais alguns dias por aqui. – Disse seu pai, como se isso fosse a melhor ideia que ele já teve em sua vida inteira e tivesse acabado de ganhar na mega cena.
– O QUE? A GENTE NÃO IA EMBORA HOJE? – O problema dela: Ela explodia fácil. Odiava quando uma pessoa dizia algo e depois mudava de ideia, fazendo outra coisa totalmente inversa a sua primeira palavra. Essa era a gota d’água para sua nada grande paciência. Ficou realmente com raiva. Queria mais do que tudo ir embora naquela tarde, esquecer tudo que havia acontecido e se mergulhar o resto das férias na internet e no celular.
– Falou certo, ia. – Aquela careca parecia rir da reação da filha.
Nesse exato momento, sua mãe apareceu ao lado de seu pai. Olhou feio para a filha, que era a única coisa que sabia fazer perto dela. Esse gesto, seguido da conversa que se passou, foi o que fez ele entender o motivo do rancor da menina no dia anterior, quando ela falou sobre a sua infância e como seus pais a tratavam melhor nessa época.
– Arrumou a cozinha? – Começou a dizer, seu tom de voz ameaçador.
Ela baixou a cabeça, observando seu cachorro que tentava desesperadamente se soltar de seus braços.
– Na verdade o... – Respondeu a menina, já certa da bronca que iria levar por “não ter ajudado” seu primo a arrumar tudo.
– Arrumou sim. Ficou se matando desde que acordou. E ainda arrumou o resto da casa. – Ele soltou de repente, cortando a resposta dela. A menina o olhou, abismada. Seu olhar era algo como “O que você pensa que está fazendo?” e “Obrigada. Muito, muito obrigada. Tipo mesmo.”.
– Bom mesmo. Quero que você pegue o resto das malas no carro. – Seu olhar era duro. Ás vezes, ela poderia jurar que um brilho de maldade cintilava no olho da mãe ao brigar com ela.
– Por que você não ajudou? Suas mãos estão completamente vazias.
– Porque eu já tive que arrumar sua mala enquanto a inútil dormia.
“E eu não fiz nada, não é?” Pensou a menina. Sua vontade era de gritar que não pediu para ficarem mais alguns dias naquele fim de mundo, muito menos para ela arrumar a sua mala.
Levantou, praticamente atirando Fred no colo da mãe. Imediatamente a postura maternal mudou, acariciando e fazendo vozinhas retardadas com o cachorro, que olhava para ela em um olho e para o nada em outro.
– Mereço... – Sussurrou, revirando o olho juntamente. Falou baixo o bastante para ninguém ouvir. Porém alguém ouviu. O mesmo alguém que prestava atenção nela toda vez que a via.
Marchou em direção ao carro, com o menino ao seu encalço. Agarrou algumas malas com fúria enquanto ele pegava outras. Ela sentia um nó crescendo em sua garganta. Antigamente, sempre que sua mãe era injusta, o nó era de tristeza. Hoje em dia, era de pura raiva. Mágoa acumulada por anos.
Voltou a casa, largando as bagagens no sofá e subindo para o quarto que seria seu lar pelos próximos “alguns dias”. Jogou-se na cama, abafando um grito que viera da alma em seu travesseiro. Lágrimas queimavam seus olhos. Inútil, sua mãe dissera. Ela era uma inútil.
Alguém abriu a porta. Esperou que ele falasse, mas ao invés disso escutou a voz de uma criança.
– Ei, você esta bem? – Falou sua priminha, com os grandes olhos infantis cheios de preocupação.
Ela olhou para trás e viu a criança encarando-a. Ergueu os braços em sua direção, como um convite para ir deitar com ela. A menina sorriu e correu, pulando junto à prima.
– Estou bem sim. – Respondeu, enxugando uma minúscula lágrima que queria descer de seu olho esquerdo. Era tão pequena que a pequenina não viu. Melhor assim.
– Tão chamando você para brincar com a gente. Pique-esconde agora. Você quer? – Ela parecia tão esperançosa que não havia como dizer não.
– Ok. – Ela sorriu. Quem sabe uma brincadeira a faria melhor.
Levantou da cama e olhou para a porta. Ele olhava tudo encostado na parede, silencioso. Certamente fora ele que trouxera a pequena até lá. Certamente era ele que estava chamando para brincar.
– Você não presta mesmo. – Sorriu a menina, falando para ele. Não sabia o porquê, mas aquele pequeno gesto a fez feliz.
– O que eu fiz? – Disse ele, fazendo uma cara de inocente. Ela passou ao seu lado, trombando de brincadeira em seu ombro.
– Vamos logo, albino.
– Atrás de você, baixinha.
Correram até fora com toda velocidade, a criança liderando o trio. Chegando lá, encontrou com mais três crianças. Seus primos, o mais velho com 12 anos, o do meio com 10 anos e o menor com cinco. Ah, e claro, ele. Todos homens, o que fazia ela, sua priminha de 9 anos e outra com menos de um as únicas mulheres adolescentes/crianças da casa. Os meninos observavam os recém-chegados à brincadeira com um olhar travesso. Ela deu um pequeno sorriso.
– EU NÃO VOU CONTAR. – Gritou o do meio, abaixando-se.
Imediatamente, todos se abaixaram, restando apenas o mais sedentário e lerdo em pé. Ele olhou ao redor, percebendo que deveria ter abaixado. Em seguida, se jogou ao chão rapidamente. Todos olhavam para ele, rindo.
– Nem adianta, você vai contar! – Disse o moreno de cinco anos.
– Tudo bem. – O maior respondeu, parecendo realmente triste. – Mas só até 30.
Deitou a cabeça entre os braços e começou a gritar.
– UM, DOIS, TRÊS... – Todas as crianças saíram correndo, juntamente com a maior.
Ela se escondeu embaixo da mesa, perto da churrasqueira. Não era um esconderijo muito bom, mas a toalha grande que cobria a mesa lhe dava uma vantagem.
– Ah, sai fora! Esse aqui já é meu! – Disse, empurrando seu primo de 10 anos quando ele se enfiou embaixo da mesa com ela. Ele saiu correndo que nem um retardado, indo para o lado aposto ao dela.
Ficou lá, tentando escutar se a contagem já estava chegando a trinta. Não ouviu nada, o que indicava que ou ela estava ficando surda ou ele já havia chegado. Respirou minimamente, tentando ao máximo não fazer nenhum barulho.
– ACHEI! – Ela ouviu a voz do menino, falando provavelmente para sua prima, que havia se escondido em uma árvore ali perto, esperando ele se afastar um pouco para correr e se salvar.
Enquanto isso, ele fazia de tudo para achar ela. Queria ver a cara da garota quando a achasse de surpresa. Pensou em todos os lugares possíveis para ela estar. Na árvore, onde achou sua outra prima; atrás da casa, onde achou seus dois primos. Agora só faltava mais dois.
–EU VOU ACHAR VOCÊS. – Gritava ele, fazendo seus priminhos rirem loucamente. O de 12 anos, que ainda não havia sido achado, fez o erro de mudar de esconderijo. Assim que o viu, os dois saíram correndo em disparada, numa disputa de quem chegava primeiro. Obviamente, o menor chegou.
– Isso não é justo, eu sou fraco para correr. – Disse ele, ofegando.
– Falta só mais uma, vai procurar. – Diziam as crianças.
Ele saiu à caçada. Procurou uns dois minutos, até ver o Fred entrando debaixo de uma mesa.
“Peguei.” Pensou, sorrindo maliciosamente. Andou silenciosamente até a mesa, entrando embaixo dela por trás.
– Não! Sai daqui Fred! Vai embora! Vaza! – Ela tentava desesperadamente expulsar o cachorro, enquanto sussurrava o mais alto que o momento permitia. Ele apenas a olhou com a língua pendendo para um lado.
– Coitado do cachorro.
Ela virou rapidamente. Seu rosto estava a centímetros do dele. Ele a encarava com um olhar sapeca.
– Eu não te vi entrando. – Caramba, como ele era lindo.
– Eu sei ser silencioso quando quero. – Seu rosto se aproximava ainda mais. Ela conseguia sentir os olhos dele seguindo a linha de sua boca. Ele chegou tão perto que se um deles se movesse um milímetro para frente, seus lábios se tocavam.
– Não agora, babaca. – Ela virou, saindo rapidamente debaixo da mesa, correndo para a salvação.
Ele ficou parado. Havia chegado tão perto. Da próxima vez, tinha que tomar certeza que não haveria para onde ela fugir, a não ser em direção a seus lábios. E ele já fazia ideia de quando seria o momento perfeito. Quem sabe naquela mesma noite, em uma cama em que certos primos apaixonados dividiam em uma errada paixão.
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