Aquartix
1 Capítulo 1
Enquanto cantarolo uma das minhas músicas favoritas e passo os dedos pelo meu cabelo fino e ondulado, em frente ao único espelho da minha cabine, penso que realmente posso vencer. Apesar de ter pensado em desistir tantas vezes, sei que não são alguns pensamentos e alguns quedas que significam que estamos constantemente perdendo tudo que temos, todas as chances.
A tarde está fria, os moradores temporários de Hasdeen se encolhem dentro dos casacos, enquanto passam por mim dentro do nosso lar doce lar. Sempre esperei ter uma vida qualquer, de trabalho e dedicação, aliás, tem gente que faz muito drama, eu não vou ficar dizendo que queria uma vida melhor, eu não tenho ela, não há nada a fazer que não seja lutar por ela. É péssimo depender de uma coisa incerta. Não há uma família que me apoie e pergunte se está tudo bem com o tal filho. Meus amigos são minha família. Josh e Caio. A pressão para vencermos está grande. Encontro os dois no treinamento matinal, como sempre, sempre em seus olhos eu vejo o dia que nos conhecemos, todo dia tem seu lado bom e ruim, mesmo que a parte ruim seja maior, eu os conheci e primeiramente esse é o lado bom pra quem nem amigos tinha.
***
–... Aqui estão os termos que explicam a idade moderna. – Dizia meu professor, o Sr. Smith. E então a vice-diretora, Sarah, esposa do diretor entrou na nossa sala.
– Gostaria de pedir que todos os alunos sem dislexia e déficit de atenção desçam para a ala das piscinas quentes do primeiro andar. – Disse ela, a que nós costumávamos chamar secretamente de velhaca. Olhei para meus colegas com dificuldades de atenção e percebi, eles olharam sem entender nada, e assim como eu estavam mais do que perdidos.
– Enquanto falo com esses quinze, o professor continuará a matéria com os 11 que permanecerem aqui. – Disse a vice. Desci para a ala das piscinas quentes do primeiro andar, junto aos meus colegas, porém sozinha ao mesmo tempo. Ninguém fazia esforço para chegar perto de mim, me dar Bom Dia ou falar comigo, era como se tentassem fazer com que eu me sentisse inferior todos os dias, um pouco estranho porque eu era quase a única das meninas que não acordava às cinco da manhã pra se maquiar. Me sentia a única com conteúdo, tinha muito orgulho dentro de mim por isso.
– Estão todos os aqui? É, acho que sim. – Disse ela, respondendo sua própria pergunta enquanto arrumava o microfone e soltava uma piscadela ao marido, que estava sentado no degrau. – Vocês estão entre 26 alunos, precisamos de pelo menos dois de vocês, alguém notou algumas capacidades diferentes em si mesmo? – Ela perguntou, e ninguém respondeu.
– Não sei vocês, mas aguentar vir na escola já é uma capacidade anormal. – Disse um dos meus colegas, gesticulando para seu amigo gordo, que se achava legal, mas não era.
– Vocês acham isso engraçado? Vocês sabem que eu posso dar castigo de duas semanas para todos vocês. Vamos ver se você for escolhido, acho que vai perder esse ar da graça Sr. Fletsher. – Disse ela, e o garoto se sentiu um tanto quanto humilhado e abaixou a cabeça, mas segurando a risada. Então Sarah concluiu: – Isso ainda não estava ao conhecimento de vocês e de ninguém que seja mais novo que vocês, os bombardeios atômicos de 2043 prejudicaram muitas pessoas, famílias e crianças da geração de vocês que estavam nos meses de gestação ou em fase de crescimento. Será a primeira seleção já ocorrida nessa escola, só posso desejar sorte e que tudo começa hoje para no mínimo dois de vocês. – Disse ela e eu não entendi bem o que era– Então, como vocês podem perceber, essas toxinas prejudicaram o cérebro, o reconhecimento e a facilidade de concentração, leitura e aprendizagem de algumas crianças, já outras produziram alguns anticorpos contra isso, e a minoria possuiu habilidades, poderes de se transformar usando a arte da concentração, os estudiosos nem sabem explicar depois de todos esses anos o que foi isso, quem tem isso fica totalmente diferente de um humano. – Completava ela e as expressões faciais dos outros (e minha também), eram as mesmas, alguns até riam achando que era pegadinha ou brincadeira de mal gosto com as pessoas que perderam entes queridos em 2043.
– Se eu fosse vocês não acharia tão estranho, cheguem em casa e perguntem pros pais de vocês o que são os Aquartix, eles já sabem mesmo que tudo comece hoje, eles sabem. Tivemos que informar a todos, alguns nem mandaram seus filhos hoje, achando que era bobagem, ou que, ora, que eu havia enlouquecido! – Intrometeu-se o diretor. – Passem para a sala três e vistam os macacões de mergulho, estaremos esperando vocês na ala quatro do campus. Os testes vão acontecer em ordem de chamada, começando pela turma que chegar primeiro. – Completou ele, e eu segui para a sala três, junto com as outras meninas e eu só ouvia elas comentando “dessa vez enlouqueceram de verdade” “muito estranho não acham?”, eu me calei e me vesti logo porque sempre era o que fazia de melhor, me calar, pensar mas não falar. A nossa turma foi a segunda a chegar até as piscinas quentes das salas de número quatro, foi individual, que sorte. Seria um vexame e tanto, não gosto muito de água, mas encaro sempre que preciso. Como uma vez que meu irmão estava se afogando em uma piscina, eu entrei para tentar salvá-lo, eu consegui, acho que nos momentos desesperadores somos postos ao limite, nada sai como o ensaiado, porém muitas vezes ta certo, ei, pêra, ninguém ensaia pra salvar o irmão na piscina.
Os nomes foram sendo chamados, e quanto notei, eu já era a próxima, olhei para meu macacão, para ajeitá-lo nos ombros, estava me sentindo extremamente sufocada com aquela roupa, mas não era uma roupa comum, não bastou muito tempo para eu reparar na ilustração do macacão azul. Dizia “Aquartix”, a segunda letra era um espelho, cheio de água. O pingo da penúltima letra, era uma gota de água, me senti mal, como se aquilo me mostrasse alguma coisa naquela manhã. Qualquer lugar que tivesse o poder de refletir semelhantemente com um espelho, eu enxergava aquela bendita água.
– Margareth Courtney! – Chamou Sonorus, um professor na casa dos 40.
– Pois não. – Disse enquanto entrava na sala.
– Se você fosse um animal aquático qual seria? – Perguntou ele.
– Pois bem... – Comecei e falar e fui interrompida.
– Nada disso, pense apenas para você mesma. Esqueci de avisar, mas só pense, obrigado.
Tentei pensar naquele dia, mas até hoje não sei o branco que me ocorreu na memória, eu não queria ser um animal, eu queria ser eu. Mas mesmo assim respondi:
– Já pensei.
– Já pode pular na água – disse ele – Se concentre no animal que pensou e saia quando ouvir o apito. – Disse ele e eu pulei, não pensei em nada, aliás, em nem queria ser um animal nem nada parecido. Demorou uns vinte segundos e eu não senti falta de ar alguma. Esperei mais vinte, e tudo estava bem, ouvi o apito e sai. – Muito bem, obrigado e pode ir embora. – Ouvi enquanto tirava a cabeça para fora da água e coçava meus olhos sem lente. Peguei a toalha que uma mulher me alcançou e sai da piscina, caminhei uns doze passos e...
– Esp... Espera! – Disse Sonorus correndo até a mim. – Nunca vi nada parecido, não que já participei de uma seleção dessas, mas isso não pode ser possível. Você é exemplar, isso é incrível senhorita Courtney. – Ouvi isso e percebi a falta de ar imensa que eu já estava sentindo, olhei para ele e ele olhou para mim, que extrema agonia que foi esse lento e interminável momento, penso que devo ter sido um daquele momentos que você acha que vai morrer mas que não dá nem sequer tempo de fazer um testamento mentalmente de seus bens, eu já estava arroxeando, e agonizando. – Gente, olha isso. – Disse ele apontando para o meu pescoço e meus pés, olhei também e eles pareciam pés feitos para nadar. Senti uma dor de dente horrível e percebi que meus dentes estavam extremamente maiores do que o normal. Tudo muito estranho. Eu pensava e pensava acorda Marg, você não pode morrer, tem muito por fazer.
– Tudo bem, se acalme e concentre em ser totalmente você, volte para você mesma. – Falou Sonorus, e eu me concentrei e consegui voltar.
– Nossa que susto. – Eu disse, respirando rapidamente, mal deixando o ar entrar nos meus pulmões e já expirando-o. Que sensação horrível. – Eu estou sonhando? Diga que sim, que estranho, oh céus, isso é muito estranho. – Disse colocando a mão na testa, fazendo força pra me lembrar quem eu realmente era.
– Você está sonhando. – Disse ele, sorrindo.
– Sério? – Nenhum sonho pode ser tão real.
– Qualquer sonho pode ser real, mas você não está sonhando, é isso que digo o que você pensou ser um sonho, é real. – Ele filosofou, com um pingo de exibição pela capacidade de brincar com as palavras.
– Mas... – Indaguei e ele interrompeu-me.
– Você me pediu pra afirmar que estava sonhando. Cuidado com o que pede as pessoas. – Ele terminou e eu tentei levar isso para a minha vida, não sei de que modo, mas tento sempre, se dá certo, ninguém sabe.
– Você é incrivelmente diferente, garota. – Comentou Sonorus me alcançando mais uma toalha. – Carimbem o nome dela! – Gritou ele para a equipe que me assistiu pular na água. – Você é uma dessas crianças com capacidades de transformação, mas geralmente viram animais e não tinham nos falado que casos assim fossem possíveis... ainda mais... ainda mais com pulmões de peixe.
– Pulmões de peixe? – Eu disse, quase rindo e não acreditando no que tinha acabado de acontecer.
– Isso. Estudei bastante sobre. – Respondeu ele, encantado. – Você vai precisar treinar a partir deste ano, essa é a má notícia é que tudo de normal acabou para você e vai ter que perder seus próximos anos treinando, mas a maioria do nosso país perde anos em muitas coisas e ganha muito poder ou imagem depois, e se você souber transformar isso em algo bom, ótimo. Vocês não estarão sozinhos e podem contar comigo até o fim da minha vida, palavra. – Ele disse, e eu pensei que o único lado bom da fama é quando pode-se transformar ela em algo bom, que acrescente na vida de alguém e não simplesmente como uma forma de ganhar dinheiro. Mas o que eu estava pensando em fama se nem sabia como chegaria lá ouse havia mais alternativas.
– Vocês? – Perguntei, porque isso significava que não seria apenas eu.
– Josh Hyman, e Kyle Shimidt da outra turma de sétimo ano. Acho melhor conversar com eles, troquem ideias. – Respondeu ele e eu me retirei da sala totalmente pensativa sobre tudo que tinha acabado de acontecer naquela manhã.
As vezes o mundo consegue ser tão estranho, que se fosse alguém me contando que passou o que tinha acabado de passar eu nem acreditava. Duvidaria duas vezes e mais cinco até tentar entender. Tentar entender e aceitar logo de saída é sempre mais fácil e ter a certeza de que está certo, mas estive pensando e tanta certeza é pra pessoas incultas e ignorantes. As dúvidas movem o mundo, se não fossem as dúvidas não haveria respostas e assim por diante.
Sai e me dirigi à cantina do outro lado do prédio redondo que chamava de escola, mas que pelo visto agora tinha sido o lugar onde tudo começou. Servi-me, como sempre faço, cumprindo minha rotina, para que ninguém percebesse que eu era uma das selecionadas. Sentei em uma mesa totalmente vazia, comi meu sanduíche, aliás, é verdade o que dizem que entrar na água dá fome.
– Olá, sabemos quem é você. – Disse um garoto enquanto sentava do meu lado. – Sou Kyle, prazer. E ele é o Josh. – Completou ele, apontando para outro garoto, os dois sentaram um de cada lado meu.
– O prazer é meu. Sou Margareth ou simplesmente Marg. – Disse.
– Marg, gostei desse apelido. Nós já sabíamos, acabamos de falar com Sonorus para saber quem mais foi selecionado. Seremos só nós três. – Disse Josh.
– Ah. – Respondi, com um ar de ignorância involuntária, nunca conseguia tratar bem as pessoas estranhas, não sei o motivo, elas me traziam uma insegurança ruim, uma insegurança de lá vamos nós as novas amizades novamente, explicar tudo, até que alguém te conheça o suficiente para você chamar de super amigo, porém pra quem mal tinha amigos não estava indo mal, as pessoas costumam reclamar das amizades, só que sempre tem aqueles que dão o azar de não achar ninguém que seja legal com eles ou algo do tipo, mas amigo é amigo e se é amigo algo de bom já está feito.
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