Aquarela de um mundo sem cor
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— Eu vejo cores. Eu vejo cores em tudo ao meu redor, não só em coisas visíveis, mas em cheiros, sons, gostos, lembranças. E vejo cores nas pessoas também, não estou falando sobre a cor de pele, estou falando que vejo a cor da alma delas. Cada pessoa tem sua cor e tonalidade específicas. Quando olho para minha mãe vejo amarelo dourado um pouco fluorescente, penso que é porque ela irradia alegria e tem um sorriso quase permanente no rosto. Sua cor contagia outras pessoas, de modo que as vezes uma pessoa azul adquire um tom fraco de verde quando conversa com ela.
Eu não via cor em mim mesma, acho que era porque eu não sabia quem eu era. O que eu era.
Sério, o que eu era? Eu sempre me perguntava.
Vinha me perguntando isso há uns meses, desde que eu apaguei uma cor do mundo. Aliás, cinza é uma cor, ainda é uma cor, apesar da sua tonalidade deprimente. Mas eu costumava ter medo dessa cor, muito medo mesmo. E eu vi essa cor numa pessoa. Era um homem esguio, com a barba por fazer, usando boné surrado, contudo nenhum desses detalhes importa, o que realmente importa é que ele era cinza, um cinza escuro muito opaco e repulsivo.
Meu pai também é cinza e prefiro não olhar pra ele, sempre que eu posso eu evito. Ele é divorciado da mamãe e eu agradeço que seja, porque eu não suporto olhar pra cor dele por mais de dez segundos. Por isso, moro com minha mãe e seu amarelo me trás paz e sorrisos diários. No entanto, meu sorriso não tem aparecido em meu rosto nos últimos dias, mesmo quando minha mãe mostra seu amarelo mais cintilante. Eu simplesmente não consigo sorrir depois do que eu fiz.
Eu estava saindo da faculdade, aquela aquarela resplandecente, conversando com alguns dos meus amigos, uma azul, um rosa, outra marrom e algumas alaranjadas, todos variando o tom vez ou outra dependendo dos assuntos da nossa conversa. E então eu avistei o único cinza na multidão, o cinza opaco e repulsivo. Ele estava encostado no muro da universidade me encarando por baixo daquele boné estúpido. No mesmo momento, lembranças me atingiram como um golpe inusitado. As minhas lembranças eram dessa mesma cor, nessa mesma tonalidade de cinza. Meu coração pulsou forte, açoitando meu peito violentamente.
Meu primeiro pensamento foi: CORRE!
Dei uma desculpa qualquer aos meus amigos tão coloridos e me afastei na intenção de ir para casa. Embora quisesse muito e meu instinto gritava para eu correr, não o fiz. Pensei que talvez eu pudesse atrair mais a atenção do cinza se corresse. Mas ele já estava concentrado em mim a algum tempo. Foi então que percebi que havia feito exatamente o que ele queria. Me afastei do bando.
O trajeto até o ponto de ônibus era um pouco distante e passava por uma rua pouco movimentada. Era noite e eu caminhei depressa esperando chegar o mais rápido possível ao ponto.
Cinco metros a minha frente havia um beco escuro, ali morava o diabo. Foi exatamente ali que o cinza tapou minha boca com uma fita isolante e me agarrou puxando-me para a ruela desértica. Não tive muita reação, ele havia me pegado de surpresa, não pude fazer muita coisa além de me espernear.
Rapidamente ele arriou as calças e me posicionou de quatro como uma cadela, prendendo meus braços e pernas. Já dá para ter uma noção do que aconteceu em seguida. Apenas devo salientar que foi doloroso, foi desesperador e eu não tinha ideia se iria sobreviver depois daquilo, possivelmente ele iria me matar. Mas de qualquer forma eu já estava morta mesmo, se dentro de mim havia alguma cor, essa cor se fora naquele momento.
Enquanto tudo aquilo estava acontecendo, outras lembranças cinzas passavam pela minha mente. Um cinza já bastante familiar. Meu pai costumava fazer umas visitas muito desagradáveis ao meu quarto no meio da madrugada quando eu tinha apenas cinco anos. Agora acho que sei o que essa cor significa.
Em suma, o que mais me surpreendeu, no fim das contas, foi o que aconteceu em seguida. Eu sobrevivi, afinal, e isso é óbvio, pois não estaria contando essa história se não tivesse sobrevivido. Entretanto, a maneira com que eu fiz isso me deixou assustada, não de momento, mas depois.
Quando ele terminou comigo, eu só era um corpo sem vida, o rosto deformado numa feição de terror, coberto por lágrimas e manchado com meu rímel. Naquele momento, eu senti algo maligno dentro de mim subir do umbigo até meu cérebro. Foi como um fogaréu me consumindo, corrompendo-me.
Um segundo depois eu estava por cima do cinzento e, com meus próprios dentes, mordi seu pescoço na região onde ficava a jugular e simplesmente arranquei todo um pedaço fora. Lembro-me do sangue jorrando feito uma fonte daquelas que vemos em praças cheias de cores. Agora recordando disso, a cor dessa lembrança é vermelha escura, da mesma cor que o sangue podre daquele cinza.
Eu vacilei um pouco, sabe. Depois que eu percebi que o cinza havia morrido — ele tinha agonizado bastante antes de ir dessa para melhor- um choro ameaçou escapar da garganta, mas eu o engoli e depois só senti alívio. Tudo havia acabado. Acabado para ele, não para mim. Sabia que teria que viver com aquilo pelo resto da vida e eu, de fato, não me importava. Pensei: antes ele do que eu, além do mais ele mereceu, merecia até pior.
Ali do lado havia uma caçamba de lixo, seu fedor só perdia para o do corpo do cinza — aquele verme mal tinha morrido e já estava cheirando podre, só que esse era o seu próprio cheiro, o aroma gracioso de um porco imundo, mais asqueroso que aquele latão de lixo. Enfim, a caçamba. Eu joguei o cinza na caçamba. Ele era pesado, porém a partir daquele momento eu era a garota mais forte do mundo.
Procurei me limpar de todo aquele sangue que havia espirrado em mim e fui pra casa. Ninguém nunca soube disso, você é a primeira pessoa pra quem eu conto essa história, então pode se sentir especial se quiser.
Sabe, certas coisas acontecem por um motivo muito importante e depois daquele dia eu soube o motivo simples de aquilo ter acontecido comigo. Eu tinha uma missão.
Os dias se passaram, as semanas se passaram, e eu seguia com minha vida normalmente. Não como se nada tivesse acontecido, isso não tinha como ignorar, mas alguma coisa despertou dentro de mim. E uma coisa incrível aconteceu comigo.
Eu, finalmente, enxerguei minha cor.
Preto.
Embora o preto seja uma ausência de cor, eu enxergava algo, era preto. Antes disso eu não via nada no espelho, não tinha nada pra ver, nem preto, nem cor alguma, só via meu corpo.
Engraçado, não é? Eu, na verdade, tenho uma cor.
Você também tem. E eu vejo ela. Estou vendo-a agora mesmo. Quer saber qual é?
Cinza.
Você tem a mesma cor daquele primeiro cinza. Não o cinza do boné surrado. Não. Aquele cinza familiar. O meu pai.
Agora, você entende qual é minha missão? Entende que o cinza que apaguei naquele beco escuro, não foi o último que matei? Tenha certeza de uma coisa apenas, você é o próximo. Mas novamente, não será o último, já que tenho como missão limpar o mundo da cor cinza. Depois de você, vou atrás do meu pai, vou caçá-lo nem que seja a última coisa que eu faça.
Você entende, não entende? — cerro os cílios encarando o cinza repugnante que tenta se libertar das cordas no chão daquele galpão sujo e abandonado.
Reviro os olhos, às vezes penso que cinzas não podem entender pretos.
— Vamos acabar logo com isso, perdi tempo da minha vida contando essa história para você — digo sacando minha faca do coldre por baixo da saia.
O cinza se debate enquanto corto sua garganta. Sua cor vai embora e só o que vejo é seu sangue cobrindo seu rosto.
Um cinza a menos.
Depois de limpar a bagunça, vou até meu carro e, do porta luvas, retiro uma lista com vários nomes de cinzas que já foram assinalados e outros que ainda estão pendentes. O próximo da lista é meu pai. Ele morrerá essa noite ainda. Pego o GPS e programo-o até a casa dele.
— Seu destino levará duas horas, quarenta e cinco minutos e dez segundos — a voz feminina do GPS anuncia devagar.
Contagem regressiva.
Ligo o carro e caio na estrada.
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