Aquarela
2 Cavalheiro da Armadura Brilhante
Notas iniciais
Granny's era um lugar aconchegante, pelo menos na maior parte do tempo. A comida era boa e ligeiramente barata, tudo era extremamente limpo e ainda vinha com o bônus de alguém para flertar. Ruby, a garçonete. Morena, alta e alguém com muito orgulho do seu corpo, levando em conta o quanto ela parece gostar de mostra-lo a todo tempo.
Já se faziam uma semana desde o incidente e eu não conseguia dormir sequer duas horas por noite, além de ter meus pensamentos levados constantemente a uma certa prefeita arrogantemente linda, o colega do quarto ao lado era muito barulhento nas suas atividades noturnas. O cara é uma máquina de fazer sexo. Normalmente não sou tão curiosa assim mas preciso descobrir quem é esse cara e principalmente quem é seu companheiro. Sim, companheiro. Quem pensou que podia haver tanta diversidade em uma cidade que aparenta ter parado nos anos sessenta?
Por mais incrível que pareça Regina Mills não tentou nenhum contato até hoje, quer dizer, para quem fez todo um espetáculo por um amassadinho de nada imaginei que ela ia chegar logo com um xerife estilo faroeste na minha porta. Bem, se ela estiver esperando que eu faça o primeiro contato vai morrer antes e nem se trata de orgulho, somente não vou correr atrás de mais contas, estou fugindo delas como o diabo foge da cruz. Economizo o máximo que posso desde que saí da policia como se esperasse que o dinheiro resolvesse em que se investir sozinho. Nunca pensei em abandonar a profissão mas houveram coisas que não tornaram mais suportáveis minha estadia lá, então resolvi deixar tudo e começar uma vida nova em outro lugar. E aqui estamos.
Se minha mãe me visse agora provavelmente saíria distribuindo folhetos com meu rosto desenhado, com um escrito em letras garrafais bem grandes: decepção da família. Mais um dos motivos pelo qual só uso o sobrenome de meu pai.
— Bom dia, chapeuzinho. — saudei Ruby, me sentando em um dos bancos em frente ao balcão, ela inclinou a cabeça para o lado e me deu um sorriso se inclinando mais que o necessário sobre o balcão para me dar um vislumbre do seu decote. Sorri, mas continuei a lhe encarar.
— Bom dia, loira. Gostando de Storybrooke? — bufei e voltei a lhe encarar.
— Será que você vai me fazer essa pergunta toda minha vida? Até mesmo depois que eu me casar e tiver três filhos? — ela levantou uma sobrancelha e sorriu.
— Bem, talvez. De qualquer forma você não me parece do tipo que vai se casar, loira. Me entende não é? — ela respondeu e depois me deu uma piscadela.
— Claro, claro. O negócio do gaydar. Eu entrei pela porta e vinte segundos depois você já duvidava da minha heterossexualidade. Surprise, bitch, homossexuais podem se casar.
— Só para você saber, foram quinze. — sorri para ela. Ouvi a campainha sinalizando a entrada de alguém mas não dei muita importância. — E então o que vai ser hoje?
— Depende. — me inclinei sugestivamente ainda sorrindo para Ruby. — Você está no cardápio? — ela soltou uma gargalhada, inclinando a cabeça para trás.
Engraçado como sempre demorei anos para adquirir alguma intimidade com uma pessoa e com Ruby não foi necessário mais que uma semana. Ela me faz bem como nenhum outro, por isso me atrevo a fazer essas piadinhas, porque não passava disso, brincadeiras inocentes.
Sorri, nem sequer notando a pessoa que já estava quase ao meu lado. Aquela que morava nos meus pensamentos sem nem sequer pagar aluguel.
— Lhe aconselho a se conter em locais públicos, Senhorita Swan. Poderiam pensar que você é algum tipo de maníaca e eu, infelizmente... — ela disse sorrindo, dando uma pausa antes de continuar. Sarcasmo enchia sua face. — seria obrigada a lhe expulsar da cidade.
— Você sabe, não precisa ter ciúmes Regina. Tudo que consigo pensar é em você e seu lindo carro amassado. — quase sorri ao ver que havia conseguido irritar a prefeita, ela era extremamente adorável com raiva.
— Coloque-se em seu lugar, Swan. Para você é Senhora Prefeita. Quanto ao meu carro, fica pronto na próxima semana, lhe enviarei o valor.
— Não prefere trazer pessoalmente? — para que eu possa te ver de novo, completei mentalmente, ela estreitou os olhos. — Só para garantir, que eu não fuja da dívida.
— Hm. Tanto faz, contanto que me pague.
— Ótimo. — não consegui esconder o sorriso. Ela se virou para Ruby que nós observava com uma das sobrancelhas levantadas e um meio sorriso nos lábios.
— Ruby, um café. — Chapeuzinho assentiu e se virou para preparar o pedido "de sempre" da mulher, sem esperar pelo por favor que já sabíamos que não viria.
— Então... Como vão as coisas na prefeitura? — tentei puxar assunto, a essa altura Regina se sentou em um dos banquinhos ao meu lado.
— Nem tente, Senhorita Swan. Não somos amigas, nem nunca seremos e eu certamente não estou interessada em dormir com você.
Levei alguns segundos para me recuperar daquele coice, parece que alguém está de ferraduras novas. Despertei com o som familiar de Ruby rindo, enquanto fazia o café.
— É bom que você não faça meu tipo, então.
Ela sorriu ao me encarar como se dissesse: Eu faço o tipo de todo mundo. O que não é mentira, maldição. Olhe só para essa mulher, não tem nem um fio de cabelo fora do lugar.
Ruby pigarreou e só então reparei que estávamos nos encarando, e que consequentemente todos no estabelecimento observavam a cena. Regina pegou o café, deixou alguns dólares sobre o balcão e fez seu caminho para fora do lugar.
— Te vejo na próxima semana, Senhorita Swan. — ela disse sem se virar, e foi embora, rebolando. Meu sorriso era tão grande que pensei que minha cara podia relaxar, como aqueles pijamas velhos. Fiquei encarando a porta e sorrindo para mim mesma, como uma imbecil, assim como no nosso primeiro encontro.
— A Prefeita, hein. Você é ambiciosa. — Ruby disse, me tirando dos meus pensamentos.
— Quero duas rosquinhas bem grandes e um chocolate quente com canela para aliviar minha dor de cotovelo. — disse distraidamente e ela sorriu.
— Olha só, Emma. — pelo seu tom pude ver que era sério, as brincadeiras haviam acabado. — Ela não se envolve com ninguém desde seu divorcio. A mulher é uma cadela com todo mundo, se você acha que pode ultrapassar todas essas barreiras que ela coloca em torno de si mesma, boa sorte. Mas se você quer somente uma noite para se divertir, me procure. — ela disse essa ultima parte sorrindo.
— E o gaydar? Apitou com ela? — pelo sorriso dela, acidentalmente acabei de confirmar meu interesse.
— Regina era casada com uma mulher, Emma. Sabe, ela não foi sempre arrogante com todo mundo. Mas algo aconteceu entre elas, algo que ninguém sabe ao certo, e isso a fez virar o que é hoje.
— Parece história de filme romântico clichê. Agora você vai me dizer que cabe a mim salva-la de si mesma? — respondi, ironizando, sem tirar o sorriso de meu rosto.
— Claro, agora você é seu cavalheiro da armadura brilhante. — ela disse sorrindo.
— Ela me odeia.
— Talvez. Mas não dizem que o ódio e o amor andam juntos? Você pode odiar alguém sem ama-lo mas não pode amar alguém sem odiá-lo.
— Quando você se tornou uma filósofa, Ruby? — eu disse, tentando mudar de assunto. — Agora me dê logo essas rosquinhas, preciso de muito açúcar. Vou sair para procurar emprego hoje.
— Então, Emma Swan está oficialmente se tornando uma moradora de Storybrooke?
— Parece que sim. É exatamente o tipo de lugar que eu preciso. — para seguir em frente, completei. Memórias tristes começaram a tomar conta da minha mente, sacudi a cabeça. Xô capeta. — Está sabendo de alguma coisa, Ruby? Qualquer coisa, preciso trabalhar.
– Hm... Graham comentou estar procurando alguém para lhe substituir. Ele está planejando sair da cidade, Regina vai ficar muito puta. O cara vai simplesmente largar o cargo e sumir sei lá pra onde.
— E ele faz exatamente o que? — perguntei, num súbito interesse.
— É o xerife. Como a cidade é muito calma, acredito que não precise tanta experiência. Você trabalhava em que, Emma?
— Eu era policial. — Ruby sorriu e tentei fazer o mesmo, acho que falhei.
— Você tem experiência. Regina vai estar desesperada. Emma será contratada. — ela disse com uma voz engraçada, batendo palminhas no final, fui obrigada a rir.
— Essa foi a pior rima de todos os tempos. Porque ela me contrataria? Eu quase a matei semana passada. — ela revirou os olhos.
— Deixa de ser dramática, loira. Além de tudo, você será sua única opção, ela não terá escolha. Pense nisso como uma oportunidade de se aproximar da fera.
Resolvi seguir a sugestão de Ruby, os demônios não poderiam me assombrar em uma cidade diferente, certo? Cheguei a delegacia da cidade, parecia incrivelmente pequena, e não havia sequer alguém detido. Em Storybrooke o único perigo que se corria era morrer de tédio.
Avistei um homem sentado a mesa preenchendo alguns papéis, notei o distintivo em sua cintura, era o tal Graham. Me aproximei devagar e chamei pelo homem.
— Pois não? — ele perguntou, levantando a cabeça e me dando um sorriso, caralho quanto dente.
— Eu sou... — não pude completar, pois ele me interrompeu.
— Emma Swan, eu sei. Você é o assunto da cidade. Não temos novos moradores em um longo tempo.
— Bem a nova moradora veio a procura de um emprego. — disse logo, não queria prolongar assunto, não fui com a cara desse Graham.
— E em que posso ajuda-la? Não seria melhor ver isso com a Prefeita?
— Ah, eu bem que queria... — não me contive, as palavras escaparam antes que pudesse impedir, o homem me olhou desconfiado. Vou tentar contornar. — Mas fiquei sabendo que você decidiu deixar o emprego e como tenho quase certeza de que a Prefeita não foi informada sobre isso decidi vir aqui mesmo.
— Fez bem, fez bem... Regina me mataria se eu colocasse o pé para fora da cidade sem alguém ocupando o cargo. — ele sorriu novamente, me encarando. — Você tem alguma experiência, Emma?
— Hm, eu trouxe meu currículo. — lhe entreguei os papeis e comecei a mexer as mãos, nervosamente.
— Se formou com as melhores notas da academia, — ele disse lendo as informações ali contidas. — Ocupava um ótimo cargo no FBI, boas recomendações... Me diga, Emma, o que a fez desistir de tudo isso e vir morar em uma cidade praticamente desconhecida no Maine?
— Prefiro não falar sobre isso. — disse encarando um ponto qualquer. — Então, vai me ajudar a conseguir o emprego? — perguntei, esperançosa.
— O emprego é seu. — ele sorriu.
— Mas e Regina?
— Acredito que ela ficará feliz por saber que o cargo foi ocupado por uma pessoa competente. — ele sorriu, me estendendo o distintivo.
— Bem vinda a Storybrooke, Xerife Swan.
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