Após a morte

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Aqui está o Capítulo 2. Espero que gostem. :3

Acordei, dando um longo suspiro e agradecendo novamente. Não abri os olhos por um tempo e fiquei apenas ofegante relembrando da insuportável dor de momentos antes.

Enquanto aproveitava meu alívio, uma voz me gelou.

– E então? Vai ficar aí?

Era a mesma voz gutural. A mesma voz da pessoa do telefone. A mesma voz daquela criatura que tinha me matado.

Fiquei com medo de abrir os olhos, então os mantive fechados. A criatura respirava forte perto do meu ouvido. Pus as mãos em volta e percebi que ainda estava deitada na grama. Aquela grama molhada e grudenta de sangue. O pavor tomou conta de mim, e eu não tinha ideia do que fazer.

Abrir os olhos.

Lá estava eu. No mesmo lugar. A floresta sangrenta, o céu de sangue, e a criatura que me matou, estavam lá.

Eu conseguia mexer as pernas, mas na tentativa de levantar, uma pontada gerou uma dor surreal na minha nuca.

Com a única mão que consegui levantar, passei pelo meu rosto calmamente. Senti a parte rasgada da minha boca. Com o toque, a ardência e a dor voltaram. Minha boca queimava e eu não conseguia mexê-la. A estaca não estava mais lá, mas o sangue, o rasgo e o buraco que foi deixado, estavam.

Não conseguia falar nem gritar, mas ainda podia chorar.

Lembrei da garra que estava fincada em meu braço. Levei a mão até ele, e a garra também não estava mais lá. A dor voltou. A agonia também. O sofrimento também. Tudo em dobro.

Naquele momento, a ideia de que aquilo era um sonho já tinha desaparecido da minha mente há muito tempo.

O que estava acontecendo?! Onde eu estava? E por que aquilo estava acontecendo comigo?

Eram perguntas sem respostas. Eu só poderia perguntar àquela criatura, mas nem falar eu conseguia.

– Está se sentindo bem? — Uma voz feminina e delicada falou. A mesma voz da ligação.

Eu fiquei quieta, movendo os olhos para procurar quem falava.

– Oh, querida! Não se mexa! Você está muito machucada...

Dizendo isso, ela pôs o braço de baixo da minha cabeça e levantou meu corpo. Minha boca permanecia aberta, e eu nem sabia como conseguia respirar. O vento passava por entre o buraco da nuca à boca. Doía. Doía muito.

Me segurando com cuidado, a mulher me levantou. Eu não conseguia ficar de pé sozinha, então ela me levou até uma das árvores para eu ficar encostada.

Tudo o que queria no momento era voltar a minha vida de sempre, e perguntar o porquê daquilo...

– Não se preocupe, tudo ficará bem. — Ela sorriu.

A mulher parecia ter mais ou menos a mesma idade que eu. Não sabia o que ela estava fazendo lá, e porque suas roupas e rosto estavam tão limpos. O lugar todo estava ensanguentado demais para ela estar com a aparência limpa.

Antes de sumir entre as folhas, ela me deixou sentada, encostada naquela árvore. Não sei o que faria comigo, mas seu tom de voz delicado me acalmava um pouco.

A dor ainda tomava conta de todo meu corpo. Os ferimentos abertos, o sangue escorrendo, o rasgo na minha boca, o buraco atravessando minha nuca, o buraco no meu braço e a dor... Tudo... Tudo parecia real demais para ser um sonho.

Meu rosto estava sendo lavado por minhas lágrimas. A unica coisa limpa que tinha naquele lugar, fora as roupas e a pele daquela mulher.

A criatura não estava mais por perto. Pelo menos eu não a vi. Minha cabeça estava rodeada de pensamentos, mas no momento, até pensar era doloroso. Eu desejava morrer, mas nada aconteceu.

A mulher chegou com uma caixa de madeira com algumas manchas de sangue. Quando abriu, vi linhas, agulhas, seringas, líquidos, panos... Era como um Kit de Primeiros Socorros, o que eu realmente precisava.

– Bom, vai doer um pouquinho, com certeza... Mas é para o seu próprio bem!

Aquela dor já parecia fazer parte de mim. Dor a mais não faria diferença.

Ela começou pegando um pequeno bote vazio. Nele, despejou um líquido amarelado. Molhou um dos panos e passou pelo meu rosto, como se estivesse tirando toda a sujeira. Os ferimentos ardiam conforme o líquido caía sobre eles, mas eu podia aguentar. Pude ver toda a nojeira que saiu do pano, que, antes, estava limpo. Fiquei horrorizada em saber que aquilo saiu de mim. Do rosto que sempre fiz questão de manter muito bem tratado.

– Vamos pra pior parte agora. Aguente firme.

O sorriso no rosto da mulher era meio assustador. Ela parecia muito doce e fazia as coisas com delicadeza e carinho, mas seu sorriso não era muito convidativo.

Pegando uma das agulhas grandes e a mergulhando no líquido amarelado, ela passou uma grossa linha preta pelo furo da agulha, preparada para costurar algo. Eu sabia que seria minha boca, que ainda permanecia aberta devido ao corte.

Pude sentir a agulha entrando e saindo pelas minhas bochechas. A linha grossa passando por entre elas causava uma dor horrível. A mulher sorria e cantava enquanto me costurava, acariciando meu queijo e o levantando, para ir fechando minha boca devagar.

No fim, minha boca já estava fechada, mas minha garganta ainda estava aberta, até minha nuca. Eu não entendia como era possível estar viva daquele jeito. A dor eu sentia, mas a morte não chegava.

– Vamos tapar esse buraquinho agora, tudo bem? — Ela conversava comigo como se eu pudesse responder. Eu agradecia pela sua ajuda mentalmente, porque a dor ia se amenizando aos poucos.

Vi quando a mulher se levantou e caminhou até um dos cadáveres. Ela não podia estar fazendo o que eu pensei. Mas fez. Ela pegou um pouco da carne, já em decomposição, de um dos mortos, para tapar o buraco deixado pela estaca de madeira.

O cheiro daquilo me causava ânsia, mas nem vomitar eu conseguiria.

Suas mãos, agora cobertas por sangue, foram gentilmente colocadas dentro da minha nuca. Ela passou um pouco de um gel pelas bordas do ferimento. Depois, começou a cobrir apenas uma parte com a carne.

– Prontinho! Boca costurada e buraco fechado! — Ela sorriu. — Vamos ver o seu braço agora.

O buraco deixado pela garra da criatura era um pouco grande. Aquela garra grossa fez grandes estragos no meu braço.

A mulher parecia saber exatamente o que fazer, como um médico que realiza a mesma cirurgia várias vezes.

Ela pegou um galho que estava do meu lado, mergulhou no líquido e deixou lá. Foi nessa hora que eu vi que tinha uma lâmina dentro da caixa de madeira. A lâmina que ela tinha acabado de pegar e estava usando para cortar a pele do meu braço.

– Aguente. Já está acabando.

Ela abriu a parte cortada com as mãos, e assim pôde ter uma visão melhor do machucado. Entre um osso e outro, havia um buraco que precisava ser fechado. Nas extremidades dos dois ossos, ela passou o gel e esperou secar. Com a lâmina, cortou o galho exatamente do tamanho da parte que faltava para meu braço voltar ao normal... Ou seja, um pedaço do meu osso estava sendo substituído por um galho.

Depois que tudo estava seco e parecia bem fixo, ela pegou mais carne morta e botou por cima do galho. Envolveu toda aquela parte com carne para o buraco sumir. Logo após isso, costumou meu braço.

– Novinho em folha!

Para finalizar o trabalho, a mulher pegou mais um pano, molhou em outro líquido com coloração verde e passou sobre todos os machucados e partes costuradas. Ardia. Queimava. Mas eu aguentei.

– Agora você precisa descansar, Thania. Boa noite!

Eu não queria dormir, mas de repente o sono me dominou e eu adormeci.

Quando acordei, o lugar não era mais o mesmo. Eu estava dentro de uma caverna. O cheiro dos cadáveres era ainda mais forte. Minhas dores estavam bem menores, já eram suportáveis. A caverna era escura e não dava para ver muita coisa. Tinha uma lareira bem próxima a mim, o que permitia o mínimo de visão do lugar. Tinham muitos corpos pendurados, e do meu lado, uma pilha deles. Vários ossos estavam espalhados pelo chão e os insetos faziam a festa naquela nojeira toda.

Eu conseguia mexer a cabeça e o braço que não foi ferido. Tentei me levantar mas senti uma pontada na nuca. Preferi ficar ali mesmo.

Eu já estava com fome, mas de qualquer forma, não poderia comer. Até mesmo uma água, se eu bebesse, vomitaria, porque o cheiro da carne podre que a mulher botou em mim era predominante.

Eu não podia fazer muita a coisa, se não, ficar olhando os insetos devorarem as carnes mortas.

Passei longo tempo olhando e pensando na minha situação. Aquilo tudo era loucura. Mas eu não tinha o que fazer a respeito.

Os insetos não pareciam mais satisfeitos. De repente uma voz fina e baixa ecoou pela caverna.

– Pessoal, aquela é carne viva! É tudo o que queremos!

Quando me dei conta, era um dos insetos que tinha falado aquilo. E depois disso, todos eles vieram correndo para cima de mim.

Eu tentei me afastar mas eles eram pequenos e rápidos. Pareciam mais famintos que nunca. Conforme iam chegando mais perto de mim, pareciam maiores. Cada vez maiores. Eu pude vê-los sorrindo com dentes afiados enquanto subiam em mim.

Eu queria poder gritar, mas o som nunca sairia.

Os insetos, ferozmente comeram toda minha roupa. Depois, tudo o que senti foram suas mordidas. No começo, eram mordidinhas como as de um filhote de cachorro, até que começaram a enfiar mais seus dentes dentro da minha pele e puxar, arranco pedaços.

A dor veio novamente. As lágrimas também.

Um deles ficou olhando fixamente para mim por um tempo. Ele percebeu que eu estava chorando, horrorizada, com medo e dor. Parecia não gostar das lágrimas caindo e foi calmamente caminhando até meus olhos. Eu sacudi a cabeça freneticamente na tentativa de jogá-lo no chão, mas essa atitude só fez ele, e todos os outros, encravarem suas pequenas garras em mim.

Perto do meu olho, estava o inseto. Olhando fixamente para ele. Aquilo me causou um certo pânico. Eu não podia fazer mais nada.

– Que gosto será que tem? — Ele disse sorrindo, abrindo a boca.

Eu fechei os olhos com força. Meu corpo todo estava sendo devorado. Uma das partes que poderiam gentilmente ficar intactas seriam meus olhos! Mas ele não teve um pingo de pena. Começou a arrancar pedacinhos da minha pálpebra, já que eu não abria os olhos. Eu tentei gritar, mas não dava. Eu chorei mais e mais, e o inseto sorria mais e mais.

Assim que meus olhos já estavam totalmente descobertos, ressecando por não poder piscar, ele resolveu morder. As lágrimas ainda caiam e o pavor só aumentava. Insatisfeito com o pequeno pedaço que conseguiu arrancar do meu olho, ele abriu bem a boca, fincou os dentes afiados e puxou.

Senti o sangue descer, e também, um dos insetos entrando no novo buraco do meu rosto, onde ficava meu olho esquerdo.

Tentei me mexer, me sacudir, me levantar... Mas não adiantou.

Meu corpo já estava virando uma massa de carne e ossos, quando de repente, senti uma enorme pancada na cabeça e desmaiei.