Aprisionada
2 Capítulo 1 Parte 1
Acordar numa segunda-feira aos berros de sua amiga, com o sol batendo na sua cara e com uma dor de cabeça lancinante, não era o melhor jeito que havia para começar o primeiro dia de aula na faculdade. Hoje estava sentindo dor, não apenas física, mas emocional. Fazia 1 ano que meus pais haviam falecido.
–Vamos logo, Jéssica! Caralho, não acredito que você vai me fazer chegar atrasada no nosso primeiro dia de aula!
Lentamente, levantei de minha cama que me parecia ainda mais acolhedora nessa manhã, coloquei uma roupa qualquer (meu qualquer consiste em jeans rasgados, blusa larguinha, óculos, tênis e bolsa de franjas) que usava na maioria de meus dias, e fui ao banheiro.
"Meu Deus, você é o Bicho-Papão! Como você consegue acordar tão feia? Deveria ser proibido um ser humano que tivesse essa aparência!" Eu pensei, analisando meu rosto no banheiro de cima da pia. Meus olhos azuis estavam bastante escuros, provavelmente pelo fato de que estava apreensiva com meu primeiro dia de aula, já sabia que seria difícil pois não tenho nenhuma habilidade social. Não era extremamente divertida, muito menos convencida e interessante. Pelo contrário, eu sou uma pessoa que preza sentimentos, que acredita que todos nós somos iguais e que sabe que todos têm uma história que nunca irão saber por inteiro. Isso me assusta, mas ao mesmo tempo me deixa intrigada, é algo que eu sempre achei lindo.
Saí de meus pensamentos que provavelmente me deixariam aprisionada pelo resto dos dias dentro daquele cubículo chamado banheiro e fui tomar meu café da manhã, que consistia em uma maçã que estava com um gosto horroroso, mas não me apetecia fazer café nessa hora e principalmente, no estado lastimável em que me encontrava. Digamos que eu parecia um zumbi, cabisbaixa, com olheiras... Mas isso era facilmente encoberto pela maquiagem.
–Vamos, sua vaca! Seu primeiro dia! Que orgulho, tá vendo eu disse que você não era tão imprestável como você achava! –Meg saiu pelos corredores correndo e pegando suas chaves, dando pulinhos de alegria.
–Você é muito panaca, Megan. Mas eu te amo e meus sinceros foda-se para sua “panaquisse”. –Eu falei, com um sorriso, pois eu realmente não me importava com sua extroversão. Achava-a divertida, apesar de que às vezes passava um pouco dos limites...
Passamos o trajeto inteiro conversando sobre garotos, comida e filmes que iríamos assistir, portanto sua súbita última pergunta me pegou desprevenida:
–Você sabe que eu gosto muito de você Jess, mas você acha que poderá se apaixonar novamente? Você sabe qual é a última coisa que te prende ao Clarck, você vai deixa-lo arruinar sua vida por causa de um erro, que a propósito nem foi seu?
Olhei para janela, estava chovendo e o dia estava estranhamente claro e frio, minhas lágrimas começaram a se misturar com as gotas de chuva, desciam sem ao menos pedir permissão, não conseguiriam ser repreendidas nem mesmo que eu tentasse. Elas possuíam vida própria, e a cada lágrima era um pedido de salvação, uma dor e o pior, uma gota de esperança que estava se esvaindo de mim. Havia bastante tempo que eu não pensava naquele garoto, e sinceramente, era hora de deixar toda minha mágoa ir embora.
–Eu vou me desprender daquilo, foda-se. –Falei num sussurro, esperando realmente eu Megan tivesse entendido que estava sofrendo em silêncio. Novamente.
Odiava compartilhar minhas dores, eram apenas minhas. Quando elas estavam extremamente insuportáveis eu ficava fraca, e recorria as dores físicas, ou seja, me cortava. Não tinha nenhum orgulho disso, pelo contrário, eu mostrava um lado meu que odiava. Eu virava um caco de vidro, me cortava comigo mesma. De qualquer forma, eu achava ridículo.
Sem reparar, chegamos à faculdade. Era imensa. Seattle Legmus University era uma das maiores e melhores faculdades do país e eu tinha orgulho de ter sido aceita lá. Era uma faculdade que possuía vários campos e áreas verdes. Era habitada por vários animais (não estou falando apenas dos alunos), macaquinhos e pássaros diversificados. Nada mais, mas para uma faculdade do século 21, já estava de bom tamanho. Haviam, aparentemente, 4 Campus. Eu ficaria no Campus 3 e Megan no Campus 2.
Por ser o primeiro dia de aula, a faculdade como um todo, estava uma confusão. Alunos procurando salas e campus, conversando e palpitando sobre os diferentes tipos de cursos, verificando seus armários, conhecendo as quadras... Coisas de calouros.
–Bom, seu campus é o 3, né? Ele fica entre o 4 e o 1. Não me pergunte a razão disso, mas ele fica a mais ou menos dez minutos de caminhada para o meu Norte e o seu Sul. Vai logo senão você vai perder sua primeira aula.- Disse Megan, ansiosa para seguir seu caminho.
–Ok... Vai logo, formiguinha... Nos vemos às 17:30.
Seguindo com meu caminho, percebi que haviam mais pessoas do que eu imaginava, e aparentemente, eles eram filhinhos de papai. Infelizmente, a melhor faculdade de Psicologia era aquela, apesar de seus pormenores, era lá que eu ficaria. Nas minhas mãos, se encontrava um papel com meus horários, salas e armários.
Cheguei ao campus 3 e me dirigi ao meu armário, a combinação de senha seria o dia em que nunca poderei esquecer, e não quero. 0817. Minha mãe havia me levado para a praia nesse dia, tinha sido a primeira vez em que tinha colocado os pés na areia, e apesar de ser uma memória fraca e simples foi a que ficou depois de sua morte. Dia 17 de Agosto sempre seria o melhor dia da minha vida. Sem ao menos perceber, já estava divagando e acabei me chocando com alguma pessoa. Na hora, fui para o chão.
–Ai meu Deus! Olha por onde você anda, por favor? Será que é pedir demais para uma 4 olhos? –Disse uma loira oxigenada que parecia mais com um dragão de silicone.
–Incrível como a menina “4 olhos” –eu disse, deixando meu desprezo evidente, enquanto uma pequena multidão começava a se formar e eu me levantava- consegue ter notas melhores que um dragão plastificado, honestamente, eu apenas vim aqui por causa que essa faculdade é boa e principalmente, por que eu fui aceita e não tive que pagar ninguém para me aceitar, como última opção por que sou incrivelmente... –olhei de soslaio para as pessoas e prendi meu olhar nela.- Estúpida.
As pessoas me olhavam com os olhos arregalados, pelos vistos, aquela garota era popular e não iria pegar bem para mim se eu começasse afrontando-a no meu primeiro dia de aula. Mas ela pediu, então, meus sinceros foda-se para a opinião dos outros e dela. Eu ainda continuava encarando-a, agora com meu queixo levemente levantado para cima, pois a garota era consideravelmente maior que eu. Pobrezinha, não tinha a menor ideia de que não estava me afetando nenhum pouquinho com seu olhar de morte. Eu fazia-o bem melhor que ela.
–Olha só meu amorzinho, -ela disse, ficando mais perto de mm e quase encostando seu corpo no meu, numa tentativa de me intimidar- eu não tenho medo de acabar com sua vida aqui nessa faculdade, não me dê motivos para fazê-lo.
–Se eu tivesse medo das suas ameaças eu acho que me importaria, mas eu não tenho medo de vadias que mentem.
Ok, eu tinha pegado pesado, mas ela me chamou de amorzinho. AQUELA VADIA ME CHAMOU DE AMORZINHO!
Todas as pessoas já estavam prestando atenção em tudo o que falávamos, até mesmo nossas respirações eram audíveis.
–Você me chamou do quê? –Ela disse num sussurro, e agora eu percebi que tinha irritado bastante a Barbie.
–É, deixe-me te explicar, vadia é...- Não consegui terminar a frase, ela já estava em cima de mim, puxando meus cabelos. Aquela coitada não sabia com quem tinha se metido, eu era forte. Ó sim, 8 anos de ballet não servem só para saber fazer alguns passos.
Virei-a agora de costas para o chão e dei apenas um puxão de cabelo e ela começou a querer me bater, como se quisesse lutar com uma criança de três anos de idade. Depois de uma gargalhada minha, eu me levantei, tendo plena consciência que ela ainda estaria no chão, pois eu praticamente desisti de lutar contra ela.
–Onde você está indo? Vem resolver isso como mulher! –Ela gritou no corredor e todos olharam para mim, odiava atenção.
–Eu não brigo com alguém que não tem chance de ganhar. –Disse, seguindo meu caminho para a Sala 13, e lentamente a multidão se dispersou.
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