Apresentação para o rei.
1 Música.
Eu acredito que a música pode levar todos ao delírio, já que me mata aos poucos.
Não estava planejando tocar para o rei, mas como fui chamado no castelo não podia recusar. Eu, com minha total empolgação e consciência de que daria meu melhor, decidi adentrar nos domínios da realeza. Os portões se abriram e eu sentia minhas mãos tremerem enquanto segurava meu violão. Respirei fundo enquanto me dirigia ao trono, as paredes negras embrulhavam meu estômago, estava silencioso demais.
Treinara dia após dia desde que me mandaram aquele convite: eu tocaria no castelo. Seria minha honra, mas também minha perdição. Meus olhos se arregalaram, o rei era famoso por ser impiedoso. Ele matava todos que o desagradam. Eu tinha consciência que daria meu melhor, porque se não o fizesse, seria morto.
Continuei andando, o clima escuro, sombrio, velhas armaduras. Um guarda me apontou a sala do trono e andei hesitante. Eu já não estava mais confiante, gostava de tocar, mas não sabia se ia agradar. O trono era de ferro, com encostos de veludo. O rei trajava escuras vestes, como as paredes do castelo. O que mais chamou minha atenção é que ele possuía uma máscara que cobria toda a face, impossibilitando de ver sua expressão. Isso poderia me deixar mais aliviado, mas me deixou mais amedrontado. Eu queria saber as expressões do rei no meio da música para ver se era do agrado da majestade, pelo menos teria uma chance de, se começasse errado, me corrigir. Eu precisava me corrigir.
O rei balançou a cabeça e colocou as mãos suavemente nos braços de ferro do trono. Eu engoli a seco e respirei fundo, sabia o esquema: eu tocaria e se caso o rei gostasse bateria uma única palma, eu sairia do castelo e quem sabe ganharia algum dinheiro. Eu não me importava com o dinheiro, já teria como prêmio suficiente o fato de eu ficar vivo. Se a música não agradasse ele apontaria o dedo indicador da mão direita e eu não saberia o que aconteceria depois, mas não seria boa coisa.
Eu toquei enquanto olhava para a face mascarada do rei, o sentimento de indiferença dele como se me julgasse a todo momento, me fazia congelar. Pedi em pensamento para minha estrela da sorte me fazer sair vivo dessa enquanto reprimia uma lágrima. Era impressionante o fato da música, algo que sempre me agradou e eu sempre amei, estava sendo minha pior inimiga na ocasião. Eu estava com medo da reprovação.
Quando acabou a apresentação eu sorri, esperando a opinião. O rei rapidamente se mexeu no trono, o que me fez dar um pequeno pulo de susto. Suor escorria pelas minhas vestes junto com lágrimas ao ver subitamente o dedo da mão direita ser apontado. Eu pensei em gritar, suplicar, mas não adiantaria nada. Eu era um total fracasso.
O rei então sacou a espada, que ficava escondida atrás do trono de cor preta, assim como suas vestes, seu castelo e meu sentimento de incapacidade, e se dirigiu até mim. Com um aceno e alguns gestos me obrigou a se ajoelhar. Abaixei a cabeça, eu poderia tentar lutar, mas se caso perdesse seria morto por tentativa de assassinato e se caso ganhasse alguém, fanático fervoroso pela realeza, me mataria por ter matado o líder. Lágrimas rolavam pela minha face enquanto o medo me tomava. O rei empunhava a espada e se preparava para me degolar. Antes de dar o último suspiro me permiti ver a realeza enquanto tirava sua máscara e para minha surpresa, a majestade tinha a minha face.
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