Notas iniciais
Estou aguardando os comentários, hein! Espero que gostem. Só para esclarecer, "POV" é Point of View em inglês, que traduzido para o português fica "Ponto de Vista". Sendo essa uma história narrada em primeira pessoa, cada vez que eu mudar a narração para um personagem diferente eu aviso colocando o nome do personagem e a sigla "POV", certo?

Beijão!

Aprendizes do Amor

—

—

—

— James!

A voz feminina era risonha enquanto eu beijava o pescoço delicado, minhas mãos passando pela cintura fina enquanto a ouvia rir. O perfume suave e as mãos pequenas em minha nuca estavam começando a fazer meu auto controle se esvair.

— O quê? – Questionei, fitando o belo rosto da mulher diante de mim com um sorriso de canto. Ela era linda e deliciosa.

— Você disse que ia apenas me deixar em casa. – A ruiva colocou uma mecha do cabelo para trás da orelha, se fingindo de inocente. Estávamos diante da casa dela, no meu carro, aproveitando o início da noite de uma sexta-feira que prometia ser espetacular.

— E o que estou fazendo demais? – Questionei, me aproximando suavemente. Segurei o queixo feminino entre os dedos e de repente nossos lábios estavam afastados por milímetros. Encarei-a nos olhos. – Estou apenas te beijando. O que há de errado nisso?

Ela não me respondeu. Estava vermelha, nervosa, arfante... Ansiosa.

Sorri com malícia, pouco antes de capturar aquela boca cujo batom já estava borrado num longo beijo, onde nos explorávamos já nos deixando levar pelas sensações. Minhas mãos já estavam em seus quadris e ela estava quase cedendo em finalmente permitir que as coisas realmente esquentassem quando um som alto, irritante e persistente quebrou o clima.

Inicialmente pensei que pudesse ser o alarme do carro, mas com desgosto percebi que era meu celular.

Interrompi o beijo para tatear as vestes, e quando vi o nome no visor, não acreditei.

— Me dá um minuto. – Pedi à ruiva, que já se aprumava no banco, parecendo profundamente envergonhada do que estávamos fazendo. Quando a vi fechando os botões da blusa, escondendo o que eu demorei tanto para conseguir ver, eu já sabia que não ia dar em nada. – Alô. – Atendi já irritado.

— James, preciso da sua ajuda.

Arqueei uma sobrancelha com o tom de voz da pessoa do outro lado.

— Espero que seja um motivo coerente para você nem ao menos me dizer um oi decente. – Resmunguei.

— Que sensível.— A voz risonha do outro lado parecia ter uma pitada de divertimento. – É um motivo coerente. Esteja aqui amanhã de manhã.

— Amanhã de manhã? – Suspirei, relaxando no banco de couro.

— Você pode?

Olhei para o lado, encarando a ruiva que agora mal me olhava, absorta em encarar as próprias pernas. Eu tinha flertado com ela a porra da semana inteira. A garota era tímida. E quando finalmente rolava alguma coisa... Por que, Deus, por que comigo?

— Posso. – Suspirei, e então desliguei.

Eu não ia fazer nada aquela noite mesmo.

xxx

Fazia um dia gelado. No auge do inverno, as ruas de Charlotte estavam cobertas de neve, e o mesmo se aplicava aos tetos das casas e qualquer mínimo lugar que não tivesse uma cobertura que protegesse o que quer que fosse daquela coisa gelada que tinha acabado com minhas meias e botas num espaço de tempo equivalente a míseros minutos, mesmo que no decorrer desse pequeno tempo eu tenha permanecido parado ao lado do meu carro, enfiado numa quantidade de roupas capaz de me fazer rolar uma ladeira tranquilamente. Era em momentos como esses que eu me perguntava porque é que família tem que ser uma coisa tão complicada.

Suspirei, ajeitando os óculos escuros no rosto ao me dar conta de inutilidade de meus pensamentos. Apertei meu celular contra a orelha e enquanto era direcionado à mensagem automática do correio eletrônico, meditei sobre a razão inicial de eu estar ali: meu irmão gêmeo, Henry HardCastle.

— Oi, aqui é Henry HardCastle. Não posso atender agora, mas retornarei sua ligação assim que eu puder. Deixe seu recado após o sinal!

— Henry, meu querido irmão. Deixe-me dizer pela enésima vez que se você não aparecer logo aqui, eu irei chutar essa sua bunda magra quando nos vermos. Essa neve toda parece cocô de pombo, aliás. – Fiz a pequena observação olhando para chão. Qual era a graça que as pessoas viam em ficar com as meias molhadas naquele frio dos infernos? — Com amor, James. – Acrescentei, sem evitar adicionar uma nota de sarcasmo à minha voz, desligando em seguida. Enfiei o celular dentro das vestes sentindo-me inclinado a entrar no meu carro, um Jaguar f type Coupe, e sumir daquela cidade ridiculamente fria.

Ao invés de fazer isso, entretanto, olhei para trás, observando com alguma esperança o porteiro, um homem já velho, me fitar com algum descaso, dentro de sua maldita cabine quentinha enquanto bebericava alguma coisa quente dentro de uma xícara. Por que Henry não podia aparecer logo e me dizer de uma vez por todas o que ele queria para me fazer dirigir em pleno sábado de manhã até aqui?

Voltei-me para frente outra vez, contrariado, e me encostei no capô do carro, enfiando as mãos nos bolsos da calça enquanto observava a alameda onde meu irmão morava. Os dois lados da rua eram margeados por árvores imensas e desnudas de folhas. Crianças riam, pessoas andavam por ali e aparentamente aquele devia ser um bairro extremamente tranquilo. A cara de Henry. Se não fosse o frio e o fato de eu não sentir meus pés, talvez eu cogitasse passar alguns dias das minhas futuras férias aqui, afinal ia ser um mês inteiro e era difícil ver meu irmão com alguma frequência...

Arqueei uma sobrancelha. Mas no que diabos eu estava pensando?

Não, definitivamente não. Nada de férias aqui. Prefiro sol, praia e garotas de biquíni. Garotas com biquíni – ou sem eles -, ah, essas definitivamente me interessam...

— James, você está aí!

A voz tipicamente bem humorada veio da direção oposta à que eu olhava. Virei-me lentamente para trás para ver meu irmão gêmeo, Henry HardCastle, vestido em trajes de corrida com os inseparáveis headphones no pescoço correndo em minha direção. Ele era alto como eu, alcançando facilmente mais de um metro e oitenta de altura. Quem nos visse na rua facilmente nos confundiria, e se não fosse pelas diferenças em nossos estilos e jeitos, posso dizer que seríamos cópias fiéis um do outro no que diz respeito à semelhança física. Os olhos azuis são os mesmos, assim como os cabelos castanhos abundantes.

— Até que fim. – Respondi de volta, com um sorriso, e me aproximei para saudar Henry.

Nos abraçamos rapidamente, já que fazia algumas semanas que não nos víamos. Eu era produtor musical de uma das maiores gravadoras do país e Henry era fotógrafo. Naturalmente sempre estávamos atarefados.

— Ouvi sua mensagem agora a pouco. – Ele me explicou, risonho, apontando para o celular.

— Minha simpática mensagem? – Caçoei, vendo-o rir enquanto caminhávamos em direção a portaria do prédio.

— Sim. Ainda bem que veio rápido. – Henry suspirou, passando a mão pelo cabelo. Cumprimentou o porteiro com um aceno e minutos depois já estávamos dentro do elevador.

— Alguma coisa urgente? – Perguntei, começando a ficar curioso enquanto observava meu irmão esfregar as mãos, com frio.

Henry suspirou, e o sorriso de repente não era mais tranquilo. Guardando o celular nas vestes, ele encolheu os ombros, parecendo envergonhado.

Não evitei arquear a sobrancelha.

— Você por acaso vai me dizer que é gay agora?

Henry me olhou como se eu sofresse algum tipo de distúrbio incurável.

— Não cara. – E então começou a rir tranquilamente, enquanto as portas do elevador se abriam.

Dei ombros, colocando as mãos nos bolsos.

— Então não faça esse suspense todo, oras. – Resmunguei de volta, observando ele destrancar a porta.

Henry nada disse, mas continou rindo feito o verdadeiro mestre yoda que era. Nunca vi sujeito mais calmo. Entramos no apartamento e eu imediatamente me joguei no sofá, esticando as pernas sobre o móvel central. Henry se largou no sofá da frente, parecendo cansado, e então nos encaramos.

— Preciso de sua ajuda. – Ele disse de repente, sem a sombra de qualquer riso no rosto.

Franzi o cenho.

— Vamos matar alguém?

Henry riu mais uma vez, passando a mão pelos fios desalinhados do cabelo.

— Não James... — Ele endireitou-se no sofá, apoiando os braços sobre as pernas. -... Preciso de sua ajuda... Amorosa.

Minha sobrancelha esquerda se arqueou lentamente.

— Quê?

Henry nunca teve problemas com mulheres, até onde sei. Até pouco tempo atrás ele namorava, inclusive, mas eu não sabia que a coisa estava tão ruim assim desde o término da relação. Será que ele ainda gostava da tal garota?

— Eu estou afim de uma garota e não faço ideia de como me aproximar dela. – Henry confessou, passando a mão pela nuca nervosamente.

Isso elimina a teoria anterior. No que diabos Henry se meteu?

— Você vai ter que me explicar isso. – Decretei, sem rodeios.

Henry relaxou no sofá, suspirante. Continuei o encarando, pacientemente.

— Eu a vejo todos os dias na cafeteria da esquina. Eu não faço ideia de onde ela mora. Só sei que todos os dias ela está lá, em alguma hora do dia, com um livro.

— Sabe o nome dela?

— Sei. É Emily.

— Certo. E já tentou falar com ela?

— Não.

— Já pensou em puxar assunto?

— Sim.

— E puxou?

— Não.

— Então você basicamente vai até esse café e a encara diariamente feito um psicopata. – Concluí.

Henry franziu o cenho.

— Não sou psicopata.

— Então pare de agir como um.

— James...

Me levantei um salto, passando a mão pelos cabelos.

— Anda, vai tomar um banho. Vamos até essa cafeteria.

Por um instante os olhos de Henry quase saltaram da cara dele.

— Mas por que?

— Como por que? Precisamos fazer alguma coisa. Não foi para isso que você me chamou aqui?

Henry abriu a boca para falar, feito um peixe, mas por fim deu ombros, sabendo que eu tinha razão.

— Volto já. – Ele me comunicou, pouco antes de sumir pelo corredor que dava no quartos.

Apenas dei ombros, decidido a aguardar. Aproveitei aquele tempo para observar o apartamento de Henry. Era grande e bastante organizado até, com várias fotografias de paisagens espalhados pela casa. O que será que Henry viu nessa tal de Emily para pedir minha ajuda? A garota devia ser no mínimo muito gostosa.

Maneei a cabeça, pensativo, e pelos minutos seguintes me propus a explorar a cozinha de Henry me fartando com um omelete que ele, penso eu, havia deixado para comer na volta da sua corrida matinal. Minha suspeita se confirmou quando Henry me viu dando uma última garfada no que seria seu café da manhã.

— James! – A voz veio da porta da cozinha.

Girei no banco de mogno em que estava sentado e encarei meu irmão. Henry estava vestido em jeans e uma camisa xadrez, os cabelos molhados.

— Está até parecendo gente. – Comentei, limpando a boca com um guardanapo.

— Porra James, você comeu meu café da manhã. – Henry se aproximou e observou a panela vazia, descrente. – Não acredito.

— Bem, agora você não vai mais parecer um psicopata indo ver a Emily. Vai estar comendo, como as pessoas normais fazem.

— Idiota.

— Me agradeça futuramente quando estiver com ela.

Henry girou os olhos, bufando. Deixamos a casa dele pouco depois, e fomos andando até a cafeteria da esquina enquanto eu reclamava sobre aquela maldita neve.

— Compre botas novas. – Henry me aconselhou, quando paramos diante de um estabelecimento um tanto simpático. Pelas janelas dava para ver que estava lotado, e subitamente Henry começou a se mexer como se estivesse com formigas na cueca. – Não consigo vê-la.

— Suponho que seja porque não entramos ainda. – Pontuei, com uma sobrancelha arqueada.

Ele mal me ouviu, obviamente. Girei os olhos, tirando os óculos escuros ao entrar na cafeteria. Henry me acompanhou e eu olhei em volta tentando enxergar uma garota suficientemente bonita por ali. Eu ainda tentava entender o que diabos eu fazia longe da minha cama, sem um corpo feminino desnudo ao meu lado num sábado pela manhã. Entenda que é difícil de se superar uma coisa dessas.

— Muito bem. – Comecei a falar, agora já sentado com Henry ao meu lado. – Quem é ela?

Sem respostas. Olhei para meu irmão e por um momento considerei a hipótese dele estar sofrendo um derrame. Os olhos azuis, como os meus, estavam se movendo em várias direções enquanto ele brincava com o cardápio, parecendo sem ação. Mas o que diabos há de errado como esse sujeito? Agora entendo o porque do desespero dele em me pedir ajuda.

— Certo, certo. – Suspirei, e então passei a mão pelo queixo. – Henry, pare. – Sem resultados. Experimentei chutá-lo por baixo da mesa, e só então prendi a atenção do ser. – Pare. Abra o cardápio e leia o que tem escrito nele.

Henry pareceu voltar a realidade. Tentando se controlar, ele abriu o cardápio, como eu falei, e num avanço significativo começou ao menos a fingir que lia alguma coisa.

— Ela está aqui. – Ele murmurou, e seu tom agora estava mais similar ao que eu conhecia.

— Que bom. – Relaxei na cadeira, passando a mão pelos cabelos. Tinha neve neles. Eca. – Odiaria pensar que vim até aqui por nada. Onde ela está?

— Na janela. – Henry disse, e então estendeu a mão no ar, chamando uma garçonete qualquer.

Enquanto ele fazia o pedido, observei a única garota sentada na mesa ao lado da janela. Ela tinha cabelos dourados e repicados que batiam exatamente no meio das costas num corte moderno, e isso de alguma forma chamava especial atenção para o rosto de traços clássicos e simétricos. Eu não pude ver a cor dos olhos, mas sei que ela olhava a neve cair do lado de fora como se aquilo fosse a coisa mais interessante do mundo. Bonita.

— Hm, gostei dela. – Comentei, enquanto Henry observava a garota discretamente. – Combina com você.

Henry suspirou, e não havia sombra de sorriso no rosto dele.

— Ela é muito quieta. Não faço ideia de como me aproximar.

— Oras, sente com ela.

— Não sei como fazer isso.

— Basta encostar a bunda na cadeira. Sabe como é?

Henry me metralhou com o olhar. Encolhi os ombros, dando um sorriso de canto.

— Ok. – Corrigi a postura e analisei a situação. — Vamos lá. Você pediu quantas canecas de chocolate quente?

— Duas.

— É simples. Leve uma para ela e uma para você.

— James...

E no momento seguinte, a garçonete surgiu com as duas canecas, e as colocou diante de nós dois. Antes de sair, juro que vi ela me dando um sorrisinho. Talvez isso me rendesse algo bom...

Ok, foco. Olhei para as canecas e para Henry, que encarava a garota parecendo realmente tomar coragem para ir até lá. Se eu não soubesse que ele já saiu com quase tantas garotas quanto eu, ia zoar.

— Anda, vai lá. – Apoiei o cotovelo na mesa, e deixei meu rosto descansar sobre minha própria mão.

Henry nada me disse. Encarou a garota e respirou fundo, pegando as duas canecas. Mas bastou ele se levantar e sair da mesa para surgir um grupo de garotas que só pode ter saído do inferno, e que foram à direção a Emily, todas falando num tom de voz tão ridiculamente alto que eu me perguntei se só eu estava ouvindo elas falando naquele tom.

Óbvio que meu irmão teve que voltar, tão espantado quanto eu. Quando Henry se jogou ao meu lado, bufante, eu respirei fundo. As garotas tinham sentado na mesa da garota loira.

Íamos ter um belo trabalho dali para frente.

— Como vou fazer isso? – Henry desabafou, frustrado.

— É o que vamos descobrir.

Porque ser o cupido da vida amorosa do meu irmão era no mínimo um cargo que eu não fazia ideia de como ocupar.