Aprendizes do Amor
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Aprendizes do Amor
"Will you stand above me?
Look my way, never love me?
Rain keeps falling
Rain keeps falling
Down, down, down
Will you recognize me?
Call my name or walk on by
Rain keeps falling
Rain keeps falling
Down, down, down, down..."
Don't You (forget About Me) – Simple Minds
***
Nota da autora: "POV" é o mesmo que "Point of View" (em inglês), ou "Ponto de vista", (em português). Como a história é em primeira pessoa, vou dividir a narração de cada personagem assim. Espero que gostem!
Boa leitura!
xxx
(James POV)
Cheguei em casa levemente desapontado com o rumo que meu sábado estava tomando. Quando saí do elevador, sentindo meus dedos congelados dentro daquelas malditas meias ensopadas, suspirei pesadamente. Eu poderia estar acordando agora. Poderia ter tido uma noite sensacional... Mas estou aqui, me arrastando pelo corredor em direção a porta do meu apartamento enquanto sinto que há neve também na minha cabeça. Deprimente para alguém que costuma chegar assoviando enquanto se recorda da noite anterior com um sorriso melhor do que essa cara terrível que estou agora.
Suspirei. Não adiantava se lamentar, agora era aproveitar o restante do dia, o qual eu sinceramente espero passar dentro do meu apartamento tomando minhas cervejas enquanto trabalho em alguma coisa. Preferencialmente, ouvindo AC/DC ou algo que o valha. A noite talvez seja válido sair com Harry, um dos meus melhores amigos, embora ele sempre esteja mal humorado. Talvez seja porque eu costumo zoar aquela coisa arrepiada que ele chama de cabelo e que sinceramente mais parece uma réplica real dos chapéus da Ku Klux Klan. Não evitei rir sozinho. O humor negro dele pode servir para me distrair e mulheres bonitas frequentam bons pubs aos sábados, afinal de contas.
Girei a maçaneta da porta com esses pensamentos e então, finalmente, estava em casa. Minha casa de piso de madeira corrido, tons escuros e meu sofá preto de couro, o local favorito onde eu gostava de me jogar quando tinha um dia estressante.
Fechei a porta e me larguei no couro preto e fofo, tirando as botas com os pés enquanto recostava a cabeça nas almofadas. Agarrei o controle remoto do home theather e de repente a voz de John Legend estava tocando ao fundo. Não tinha sido exatamente uma manhã estressante, mas eu estava com fome e tinha neve derretida nos meus pés. Isso é algo fora dos meus padrões.
Levantei do sofá e decidi que, em primeiro lugar, ia tomar uma ducha que veio como uma verdadeira salvação. Vesti minha calça jeans mais confortável e pouco antes de preparar um sanduínche, abri meu laptop decidido a chechar meus e-mails. O aquecedor estava ligado e andar sem camisa parecia natural quando peguei uma longneck de cerveja na geladeira. E eu estava contente, prestes a digitar minha senha para dar início ao meu trabalho, quando um som alto e estridente explodiu no ar, me fazendo pular de susto.
Era uma música. Uma música tão alta que meu celular, sob a bancada de mármore, começou a se mover sozinho suavemente, como se tivesse vida própria. O som era tão ridiculamente alto que acredito que ouvir até mesmo meus próprios pensamentos era impossível. Que porra de música era aquela?
— DON'T YOU FORGET ABOUT ME, DON'T, DON'T, DON'T, DON'T, DON'T YOU FORGET ABOUT ME...
Franzi o cenho, reconhecendo a canção. Mas quem diabos estava ouvindo Simple Minds naquela altura num sábado pela manhã?
Suspirei, passando a mão pelo cabelo. Murphy, querido Murphy, eu nunca duvidei da sua existência. Não precisa me provar nada, sério mesmo.
Decidido a descobrir a origem daquele som estridentemente alto, me concentrei por alguns segundos para tentar saber qual vizinho estava escutando aquela música num volume capaz de me fazer ter a sensação de que minha cabeça ia descolar do pescoço, embora eu tivesse a sensação de que o Simple Minds estava tocando no meio da minha sala. Com algum custo, percebi que o chão tremia com mais intensidade do lado esquerdo, no apartamento ao lado, o qual até ontem não havia ninguém.
Arqueei a sobrancelha, vendo um dos meus quadros balançarem na parede. Que bela manhã de sábado, essa.
Sem me importar em vestir uma camisa, abri a porta do apartamento e caminhei lentamente até me deparar com a porta do apartamento vizinho escancarada enquanto uma cena no mínimo bizarra se desenrolava diante de meus olhos.
Era uma garota baixinha, com não mais do que um metro e sessenta e cinco de altura no máximo, balançando os braços e pernas de maneira totalmente descoordenada, dançando como se estivesse possuída por alguma entidade que definitivamente gostava de Simple Minds. Ela vestia um mísero shorts que quase não aparecia debaixo do camisetão do Pooh, e devido a isso as longas pernas leitosas estavam plenamente a vista. Os cabelos eram curtos, na altura dos ombros, num tom de castanho escuro que contrastava com a pele clara.
Talvez se ela não tivesse me feito pensar em cometer um homicídio àquela hora da manhã, poderia até ser um daqueles casos em que eu certamente me empenharia em conquistá-la. Ela era bonita.
Passei a mão pelo cabelo, ainda vendo-a saltitar pelo apartamento segurando uma vassoura. Os móveis estavam espalhados, encostados nas paredes, e havia uma sequência assustadora de caixas de papelão fechadas, abertas, e algumas outras empilhadas num canto, explodindo de roupas, pelo o que pue observar rapidamente. Apenas aquele maldito aparelho de som estava funcionando.
Sem muito o que fazer para chamar a atenção daquele ser, me aproximei e toquei o ombro dela.
Foi como dar uma um choque elétrico de mil volts na desconhecida. Ela pulou no ar feito um gato fugindo da água gelada, enquanto dava vários passos para trás, esbugalhando um par de olhos muito azuis que se cravaram no meu rosto. O cabo da vassoura que ela supostamente usava para limpar a casa, para meu descontentamento, estava encostado na altura do meu estômago e ela tinha a boca escancarada num grito abafado pelo volume da música.
Nos encaramos por alguns segundos. Levantei um dedo no ar, com um sorriso, e apontei para o som, fazendo um claro gesto de "abaixe" no ar.
Ela continou me olhando em choque por alguns segundos, mas felizmente entendeu o que eu quis dizer. Em passos desajeitados, correu até aquela porra de aparelho dos infernos e finalmente deu a paz que meus tímpanos necessitavam. Quando a música tornou-se algo agradável, num volume aceitável, finalmente a garota me olhou novamente. As maçãs do rosto delicado estavam vermelhas.
— Me desculpe. Eu meio que me empolguei. – Se desculpou, coçando a nuca.
Sorri com alguma compreensão, observando-a, e dei ombros.
— Não há problema, vizinha desconhecida. – Fiz um gesto de displicência com as mãos, e então olhei em volta. – Você chegou hoje, pelo visto.
A garota deu ombros, segurando a vassoura entre as mãos agora parecendo esquecida do episódio anterior, antes de responder:
— Cheguei hoje de manhã. Acabei de me mudar e estou bem empolgada para falar a verdade. A vista daqui é linda e Max, meu gato, também adorou. Acho que ele deve estar em umas dessas caixas. – Ela fez uma mísera pausa para rir, apertando os olhos para uma das caixas. – Max? Max? – Esticou o pescoço, mas o gato não apareceu. Esperto. – Bem, é isso. Qual é seu nome? O meu é Hope Summers. Vim da Califórnia.
Demorei um pouco para responder, ainda digerindo a quantidade de palavras que aquela pequena garota podia dizer por segundos. Pobre Max.
— Meu nome é James HardCastle. – Sorri, e então coloquei as mãos nos bolsos.
Hope sorriu largamente, expondo uma fileira de dentes parelhos. De repente percebi como ela tinha uma pele absurdamente leitosa. Como alguém podia ser tão branco morando na Califórnia?
— Prazer, James. – Ela me respondeu, e daquela vez me olhava diretamente. Não sei se era a cor chamativa ou o fato dela ser aparentemente agitada, mas seus olhos eram simplesmente enormes. Eu ainda estava decidindo se aquilo era bonito ou assustador.
Nos encaramos por alguns segundos pouco antes de eu me retirar, sob o pretexto real de precisar trabalhar. Pouco antes de sair, a vi aumentando um pouco mais o som e me perguntei se íamos ser bons vizinhos.
Eu esperava que sim.
***
(Henry POV)
Eu encarei a rua pela janela mais uma vez, incapaz de me controlar enquanto fazia uma pausa para descansar.
Ao fundo Muse entoava uma das várias músicas que eu tanto gostava, apesar de eu não conseguir me lembrar o nome da canção no momento. Depois de James ir embora, algumas horas atrás, eu tinha me dedicado a limpar meu apartamento. A louça suja tinha sumido, assim como o monte de embalagens de comida que eu consumia ao longo da semana. Dava uma preguiça incrível levar tudo aquilo para fora, então eu aproveitava as horas livres para dar um jeito na bagunça nos fins de semana.
Sorri comigo mesmo, antes de voltar a passar o pano umedecido no chão, e alguns minutos depois estava livre daquela tarefa chata. A sensação de limpeza foi tão boa que me joguei no sofá, com as mãos atrás da cabeça, e fiquei alguns minutos ali, meditando. Eu adorava a vida que levava. Fazia coisas que eu gostava e tinha uma profissão que sinceramente me proporcionava memórias ótimas. Era só olhar para alguma parede aleatória do meu apartamento para notar isso. A do corredor era um exemplo, já que lá estava uma sequência de fotos de países diferentes onde eu já havia sido contratado para fotografar: Índia, Itália, Brasil, Chile...
Fui interrompido subitamente quando a campainha tocou. Me coloquei de pé, aproveitando para me espreguiçar, e quando abri a porta me deparei com minha vizinha do apartamento ao lado. Era uma senhora baixa, cujos cabelos grisalhos estavam sempre penteados numa trança sobre o ombro. Ela era tão baixinha que eu tinha que olhar para baixo para enxergá-la.
— Sra. Wilson, bom dia. – Coloquei as mãos nos bolsos, dando um sorriso. – Como vai?
— Henry, bom dia! – Ela me ofereceu um sorriso radiante, e então encolheu os ombros. – Eu vou bem, meu querido. Quer dizer. – Ela coçou a bochecha, sem jeito. — Na realidade tenho um pedido para fazer, se você não se incomodar...Eu sei que sempre apareço para pedir isso, e me desculpe de verdade...
— Estou ouvindo. – Assegurei, embora já soubesse do que se tratava. A senhora Wilson tinha um Golden Retriver chamado Joe. Ele já não era um cão jovem e ela ultimamente estava viajando muito, devido a problemas de família, então sempre o deixava comigo. Eu adorava Joe e não via qualquer problema nisso, mas achava engraçado todo o esforço que Amelia Wilson fazia para pedir algo tão simples.
— É o Joe. Pode ficar com ele alguns dias? Juro que é a última vez. – Ela juntou as mãos, me olhando completamente envergonhada.
Dei ombros, sem evitar rir brevemente.
— Sabe que não me importo. Traga Joe quando precisar. – Pisquei um dos olhos para ela.
— Obrigado Henry! – Profundamente grata, a Sra. Wilson me agradeceu com um rápido abraço antes de sumir dentro do seu próprio apartamento. Ouvi latidos de Joe antes de fechar a porta e me arrastar em direção ao sofá.
Isso é, antes do meu celular começar a tocar desesperadamente no bolso de minha calça. Antes mesmo de atender eu já sabia que estava atrasado. O nome "Victoria Cooper" junto ao relógio central da tela indicava que eu estava atrasado para variar. Puta merda, vou levar bronca de novo.
— Alô? – Entoei, cuidadoso.
— Henry! Você está atrasado de novo!!!! – A voz furiosa de Victoria me fez afastar o fone da orelha. Ela é uma das pessoas que me assustam quando estão bravas. – Venha já para cá!
— Estou indo. – Me limitei a dizer, dando ombros. – Segura uns minutos que já chego aí.
— Você não saiu de casa ainda, né?
As vezes tenho impressão de que há uma câmera escondida em meu apartamento.
— Sim.
— Henry! Se você não fosse o melhor fotógrado dessa agência... — Victoria emitiu um som similar a um rosnado. Arregalei os olhos. -... Vê se anda logo! – E desligou.
Suspirei, desligando também, e tentei me apressar. Peguei minha bolsa, onde estavam todos os meus equipamentos, e pouco antes de correr em direção a porta, ainda consegui capturar uma maçã na cozinha. Quando tranquei a porta e corri para o elevador, constatei que tinha exatos quinze minutos para chegar na agência. Puta que pariu, eu ia ter que encarnar o Flash.
Quando as portas se abriram, passei correndo pela portaria e acenei para John, o porteiro, antes de disparar pela rua. James dizia que eu deveria usar mais o carro, mas só de olhar o trânsito eu já sabia que o metrô era melhor. A única coisa que eu não sabia que poderia me atrasar mais ainda era a fina garoa que começou a se tornar chuva quando eu ainda estava dobrando a esquina. Numa tentativa débil de abrir o guarda chuva, quase acertei uma senhora que estava atravessando a rua e por pouco não tropecei o hidrante que havia na calçada.
Talvez Murphy estivesse afim de me testar um pouco.
Suspirei, e continuei a correr até chegar ao metrô. Quando sentei no banco meu casaco estava molhado, assim como meu cabelo. Meu tênis havia sobrevivido, mas eu devia estar parecendo o diabo das tâsmania depois de uma garoa. Encarei meu reflexo na janela do metrô e só pude constatar uma coisa: Victoria ia me matar.
Passei a mão pelos cabelos e consultei o relógio. Sete minutos. Sete minutos para meu funeral. E mais dois se foram enquanto o metrô passava pelas estações rapidamente, até chegar à que eu desceria, que por sinal foi a seguinte. Quando as portas metálicas se abriram quase voei pela estação, que felizmente era ao lado da agência de modelos que eu trabalhava como fotógrafo.
Quando finalmente eu passei pelas portas, estava ofegante.
— Vai que tá no tempo ainda, Henry! – Bonnie, a moça da recepção, vinha chegando com uma xícara de chá em uma das mãos. Os cabelos castanhos e curtos estavam costumeiramente enfeitados por um lenço colorido. Ela me olhava com ares de riso. – Vai logo que a Victoria já está reunindo as modelos!
— Valeu Bonnie! – Exclamei, antes de correr até um dos elevadores, saltando imediatamente para fora dele quando as portas se abriram. Inevitavelmente quase esbarrei em alguém que aparentemente ia entrar. Quando encarei a pessoa, sorri sem jeito. — Victoria. – Dei um passo para trás, observando-a. Ela estava com os cabelos presos num coque alto, os olhos castanhos me metralhando debaixo da franja farta. Se não fosse a diferença de altura entre nós, que me deixa alguns centímetros mais alto que ela, poderia dizer que sairia correndo diante daquele olhar mortífero. – Bom dia. – Cocei a nuca, sem graça.
Victoria girou os olhos, suspirando.
— Por que você não compra um despertador? – Ela bufou, antes de dar meia volta. Olhou para trás quando me viu permanecer parado. – Anda, as modelos estão esperando!
A acompanhei, sem jeito, enquanto atravessávamos um longo corredor que era o acesso ao estúdio. Victoria Cooper era dona da agência, e no geral eu posso dizer que éramos também amigos fora dali. Menos quando eu me atrasava, era claro. Victoria odiava profundamente atrasos e eu não era exatamente a pessoa mais pontual do mundo. Talvez por ter sido modelo alguns anos antes, isso a tenha feito ser meio intolerante em alguns aspectos.
— Muito bem meninas. – Quando entramos no estúdio, todos os equipamentos de iluminação estavam prontos, assim como os figurinos e demais componentes necessários para o ensaio. Para variar, só eu estava atrasado. – Agora que encontrei nosso fotógrafo dorminhoco. – Victoria me lançou um olhar cômico, pouco antes de continuar. – Vamos dar início ao ensaio. Quem vai primeiro?
Enquanto Victoria questionava qual das modelos ia iniciar, corri para me organizar. Tirei meus equipamentos da bolsa e sistematicamente passei a montá-los no suporte disponibilizado pelo estúdio. Fiz uma pequena pausa para tirar meu casaco e agradeci mentalmente que tivesse escolhido uma camisa de mangas compridas por baixo do casaco. Me pouparia de passar frio. Enquanto ainda ajustava a câmera, finalmente mordi minha maçã, fazendo alguns procedimentos padrões enquanto as modelos começavam a circular pelo cenário, que consistia num pequeno jardim artificial com um balanço no meio. Aquele meio tempo foi suficiente para saciar a leve fome que eu estava.
— Muito bem. – Victoria agora estava sentada numa cadeira num canto, as longas pernas cruzadas enquanto a primeira modelo se sentava no balanço. Ela usava um vestido curto, cor de rosa, com os cabelos soltos. Pelas sombras e iluminação, imaginei que o dia deveria estar ensolarado. – Vamos dar início. Henry, quero os melhores ângulos. O rosto dela tem que ser o foco. Pessoal, dia ensolarado. Vamos lá!
Comecei a tirar as primeiras fotos e então me desconectei do mundo exterior. A única que eu ouvia era a voz de Victoria, que vez ou outra me dava alguns comandos mais específicos. Mas fora isso, eu me concentrava na modelo e tentava capturar cada piscar de olhos com a câmera, trazendo a tona o sentimento que a campanha pedia. Naquele caso, era sensibilidade. Enquanto os cabelos da modelo esvoaçavam, ela se balançava e mantinhas as pernas delicadamente dobradas, o rosto inclinado para o lado. Era linda. Não havia o que esperar de diferente de modelos em geral, e dentre algumas que eu já havia saído, podia dizer que elas podiam ser uma caixinha de surpresas.
O ensaio ocorreu sem muitas surpresa, com mais duas modelos que fotografei sem problemas. Quando Victoria chamou a última, entretanto, eu estava tão distraído olhando o rolo da câmera, que nem ao menos me dei ao trabalho de erguer o rosto para observá-la.
Foi quando eu levantei o rosto que tudo mudou. Porque sentada no balanço, usando uma coroa de flores no topo da cabeça, com os cabelos dourados soltos em torno do rosto simétrico, estava a garota do café, que eu sabia se chamar Emily. Ela usava um vestido branco levemente justo e curto. As pernas torneadas estavam cruzadas e não havia nenhuma expressão em específico no rosto familiar. Mas os olhos azuis-esverdeados, fixos em mim, eram de uma intensidade que me fazia perder a noção de tudo ao meu redor.
— Henry? – A voz de Victoria foi uma âncora de volta a realidade.
Voltei-me para Victoria, ainda anestesiado.
— Sim?
Victoria tinha uma sobrancelha arqueada. A equipe cochichava, aos risos.
— Pode começar.
Pisquei, sem jeito, e finalmente me toquei do papel que fazia. Por que eu não conseguia agir feito um ser humano normal perto dela?
Comecei a tirar as fotos e daquela vez não era só Victoria que fazia minha ponte com o mundo externo. Cada detalhe que pude absorver de Emily eu memorizei, decidido a realmente falar com ela. Era impossível não observar os olhos intensos em contra partida do rosto simétrico tão neutro sem se sentir inclinado a ir falar com ela. Havia em Emily um tipo de magnetismo que me atraía de uma maneira quase engraçada.
Quando a sessão foi encerrada, eu não conseguia desgrudar os olhos dela. Emily levantou-se e andou em direção ao vestiário, e enquanto isso eu pendurei a câmera no pescoço e me aproximei de Victoria, determinado a tentar arrancar alguma informação.
— Victoria. – Parei ao lado dela, observando-a digitar alguma coisa no celular freneticamente. – Quem é...
— Emily Collins. Começou recentemente, mas não é muito de fazer grandes campanhas. Prefere o anonimato. – Os olhos de Victoria se fixaram em mim. – É conhecida como rainha do gelo.
Franzi o cenho, coçando a nuca.
— Wow. Obrigado pelo dossiê. – Agradeci, rindo em seguida. Victoria deu ombros, voltando a escrever no celular, e eu fiquei olhando as demais modelos saindo pouco a pouco do vestiário.
De repente fiquei extremamente ansioso quando notei que só faltava ela sair. Enquanto arrumava meu equipamento, fiquei olhando cada uma das modelos passar por mim, todas me cumprimentando, até finalmente vê-la sair por último. Os cabelos loiros que alcançavam quase a metade das costas continuavam soltos, e o vestido curto tinha sido substituído por jeans e uma blusa simples branca. Em volta do pescoço havia um lenço vermelho. Ela estava muito bonita.
Tentei reorganizar meus pensamentos. James havia me dito que olhar fixamente para alguém assim era estranho, ou, nas palavras dele, era um indício de que a pessoa era psicopata.
Girei os olhos lembrando daquilo, e me coloquei de pé. Eu precisava tentar falar com ela. Nem que fosse um mísero oi. Por isso recolhi minha mochila e tentei me aproximar o mais normalmente que pude, tentando controlar o nervosismo que sempre me deixava sem ação. Eu não era inexperiente com mulheres, mas aquela em especial me deixava extremamente nervoso.
— Ei. – Chamei, embora ela tenha continuado andando. Franzi o cenho. – Ei, Emily.
Ela parou de andar e virou-se lentamente para mim. O rosto era a mesma máscara inexpressiva que eu tinha visto durante aquelas horas ali dentro. Mas os olhos... Havia alguma coisa. Algo que me encorajou a ir adiante.
— Sim? – Emily murmurou, sem demonstrar qualquer emoção.
Respirei fundo, antes de dizer:
— Suas fotos ficaram ótimas. – Iniciei, me aproximando. Precisava agir feito uma pessoa normal.
— Bem, obrigado. – Ela maneou a cabeça, fazendo menção de voltar a andar, virando de costas.
Fiquei parado sem saber ao certo o que dizer. Digo, eu não esperava que ela fosse tão... Seca. Mas precisava tentar. Eu sabia que havia algo a mais naquela garota.
— Você quer tomar um café comigo? — Soltei, quando ela deu o primeiro passo.
Emily parou de andar e o tempo que ela levou para se virar pareceu uma eternidade. Eu sentia minha respiração ofegante quando ela me encarou.
— Não gosto de café. – Me respondeu, sem maiores rodeios, e então suspirou, antes de falar. – Mas um chocolate quente serve.
Senti um sorriso bobo se espalhar por meu rosto.
— Um chocolate quente serve. – Concordei. – Podemos-
— No café de sempre. – Emily me interrompeu, ajeitando a alça da bolsa no ombro. – Estarei na mesma mesa de sempre. – Decretou, antes de recomeçar a andar com a mesma expressão neutra de antes.
Meus olhos se arregalaram ao término da frase dela. O tempo todo ela... Sabia quem eu era?
Fiquei encarando as costas femininas até ela sumir pelo corredor. Afinal de contas, modelos eram caixinhas de surpresa.
E aquela em especial parecia revelar bem mais do que uma pequena surpresa.
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