Aprendiz

3 Capítulo III


Notas iniciais
Feliz 2015! Me perdoem para demora em postar, eu estava viajando, mas estou de volta. Mais um capítulo para vocês!

— O QUÊ? Isso é um teste? — troquei olhares com Luccas.

— De fato não era, mas você foi razoável. Digamos que você sabe, pelo menos, o básico. Pensar, criar coragem e agir. Já é algo. Levantem-se. Os dois.

Levantamos-nos e ficamos um ao lado do outro. Larguei a estaca no chão.

— Ela realmente planejava te matar. Mas a fofa esqueceu que você é sangue do meu sangue. Você é muito mais forte que ela, graças a nossa linhagem. Não se preocupe, Luccas. Esta estaca nunca te mataria.

Luccas pegou a estaca.

— Mas ela pode matar você, Natalie. Trate de ser educada e não me force a usá-la. Anda. Vamos.

— Eu ainda vou para lá?

— Mas é claro que vai! Eles estão sentindo tanto sua falta!

Luccas sorriu e ambos desapareceram pela porta que entrei. Eu olhei para Gabrielle. Ela estava passando as páginas do livro grosso que carregava.

— Essa garota é um problema. — exclamou. — Sente-se aqui, Nickolas.

— Eu não estou certo se esta vida é para mim. — confessei.

— Oh, garoto. Você está apenas começando. Tenha paciência. Chegará um momento que as coisas serão mais fáceis. Logo logo você conhecerá os garotos de Luccas. Tenho certeza que eles vão adorar você!

— Anda, venha cá.

Sentei-me ao seu lado, deixando um espaço entre nós.

— Mais perto.

Encostei mais um pouco.

— Não tenha medo de mim.

Ela se encostou mais ainda e jogou o livro em minha perna.

— Este é o livro em que coleciono todos os meus feitiços. — Ela sorriu.

— Olhe, este aqui. — ela apontou para algum feitiço do livro. — Este é simples e eu acho que você vai adorar.

— Hum, o que ele faz? — perguntei, curioso.

— Ele te deixa invisível! Veja. — Gabrielle disse algo que mal entendi e despareceu. Ela simplesmente desapareceu, feito mágica.

— Feito mágica. — ela me repetiu, rindo.

Luccas voltou.

— Vejo que Gabrielle já mostrou um pouco dos seus truques.

Luccas sentou-se ao meu lado. Eu senti as mãos de Gabrielle apoiadas em meu joelho e logo após surgiu um barulho de alguém caindo no colo de Luccas. Ela apareceu novamente.

— Você realmente não leva jeito para cuidar de filhos rebeldes. Tão bonzinho que fez meu coração se derreter.

Ela sorriu e beijou seu nariz.

— Perdoem-me a pergunta, mas vocês dois são o que?

— Parece careta, mas somos almas gêmeas. Nossa união é maior até que o amor.

Gabrielle sorriu, escorregando para o lado de Luccas.

Pensei em falar que estava com muita fome, mas decidi permanecer em silêncio. Minha barriga roubou a cena roncando alto o bastante.

— Que péssimo pai eu sou. Me desculpe, Luccas.

Confesso que fiquei um pouco chocado ao ouvir um garoto que aparenta ter a mesma idade que eu denominando-se meu pai. Mas não comentei nada. Continuei calado.

— Oh, querido. Porque você não disse que está com fome? — disse Gabrielle.

— Estou bem. — neguei envergonhado.

— Um vampiro sente sua fome a quilômetros de distância. — afirmou Luc.

Bufei.

Um servo apareceu com dois copos de chá.

— Para você. — disse Luc referindo-se a mim.

Ah, o cheiro do sangue! Tão delicioso e tentativo que me deixaria fora do controle. Mas não me deixou. Permaneci calmo observando o servo indo em minha direção com a bandeja.

Mostrei novamente minha cara de nojo, mas peguei o copo e o tomei calmamente, tentando esconder a fome de um selvagem que se encontrava dentro de mim.

O servo ficou ao meu lado esperando-me tomar os dois copos para ir. Luc me observava me deixando desconfortável e Gabrielle olhava as decorações da casa.

— Então Luc, você está ganhando dinheiro com exatamente o que? — perguntou Gabrielle despreocupada.

— Venda de escravos. — disse ele focando sua atenção em Gabrielle.

— Mais algo?

— Sim, você sabe que faço várias coisas para ganhar dinheiro. — ele sorriu convencido. — ando administrando terras férteis. O Brasil é um ótimo local para cultivar. E ganho dinheiro explorando novos locais. Ah, o hotel que você está hospedado é meu. — ele se gabou fazendo-a rir.

— Você não muda. — disse ela por fim.

Acabei de tomar meu sangue e peguei o outro copo. O servo saiu.

— Você tem muito a aprender, Nick. — disse Gabrielle mudando de assunto.

— Oh, se tem! — concordou Luc, distraído.

— Como? — perguntei arqueando as sobrancelhas.

— Força. É o mais útil para sobreviver. — ela sorriu.

— E eu posso usar sua magia?

— Na verdade, não. — disse ela — Mas eu posso utilizá-la em você. Você tem que ser uma criatura sobrenatural e também tem de estar bem alimentado.

— Só isso?

— Sim. Quer começar?!

— Sim. — eu queria mostrar excitação, mas não encontrava meus sentimentos.

Luc acompanhava nossa conversa em silêncio.

Tomei o resto da bebida e coloquei-a num criado mudo. Luc saiu de seus pensamentos e juntou-se a nós.

O trio se formou: Nick, Luc e Gabrielle.

— Gabrielle lhe ensinará um pouco da magia, eu como lutar e como usar os poderes que temos.

— E o primeiro será esse. Você quer ficar invisível? — disse Gabrielle pondo seu dedo na página 48.

— Olha, quando eu era pequeno eu confesso que era louco para ficar invisível por um dia.

— Eu sei disso. — ela sorriu. — É justamente por isso que esse será seu primeiro feitiço.

— Como você sabe? — tentei disfarçar minha cara de assustado, mas duvido que funcionou.

— Nick, eu sou uma feiticeira. É claro que eu revirei suas lembranças e vi seu passado. Não vou deixar mais que esse bobo — ela apontou para Luccas — crie uma pessoa que não presta. Já basta Natalie me dando problemas.

Estava claro que Gabrielle não gostava de Natalie. Estava mais que claro.

— Certo. Como vou ficar invisível?

Esperei por explicação. E segundos depois ela sumiu, ficou invisível. Encarei o livro que estava no mesmo local, agora com as páginas passando sozinhas.

— Eu adoro fazer isso. — ela disse, voltando a aparecer novamente.

Gabrielle riu e passou o livro para mim. Ela colocou sua mão em meu ombro para se apoiar. Era estranho o toque dela. Eu não sei o que era aquilo. Talvez fosse a magia que predominava nela.

— Desculpa. — ela retirou sua mão. — É a magia.

— E então?

— Achei. Repita essa frase mentalmente.

Não sabia como falar, mas a repeti e repeti em minha mente.

Segundos após lá estava eu encarando minha mão invisível.

— Wow. Isso. É. Incrível. — falei pausadamente, dando ênfase no “incrível”.

Gabrielle sorriu, satisfeita. Luc ficou invisível, e Gabrielle ficou novamente.

O livro voou para sua mão indo a página seguinte.

— Esta te torna visível.

— Latim?!

— Sim.

— Qualquer coisa que eu falar em latim funciona?

— Nem tanto. Têm feitiços que são mais fáceis de fazer, mas tem alguns que precisam de ervas e outros materiais.

— Hum. — disse pensativo.

— Vamos brincar?! — disse Luc nos interrompendo.

— Eu ficarei aqui. Verei o que mais te ensinarei. Vão! Aproveitem por estarem invisível. — disse ela rindo.

— Mas faremos exatamente o que? — perguntei inocente.

— Verás. — disse Luc rindo.

Gabrielle prendeu sua atenção ao livro e Luc, eu não sei dizer. Ele estava invisível. Como saberia onde ele estava?

— Venha. — disse sua voz na porta da casa. A segui.

— Como saberei pronde ir? — perguntei confuso.

Ele riu novamente e fez um ato inesperado: Segurou meu braço.

— Eu te guio.

Admito que estava com medo de Luccas. Eu queria saber pronde Natalie foi e eu também estava com medo daquele lugar. Vai que eu fazia alguma besteira e era punido tendo que dividir alguma cela com ela? Deus que me livro ficar no mesmo lugar que aquela mulher! E me levar para um lugar que só ele sabe? Sim, eu estava inseguro e também previa minha morte. Ele notou minha tensão. Eu precisava de respostas, urgentemente.

— Se acalme Nick. Não farei nada com você, só iremos desfrutar das vantagens de ser vampiro.

Deduzo que ele piscou pondo seu sorriso indiferente.

Eu não sou medroso, só temo pela minha vida. Não quero a perder duas vezes. Eu posso ter pedido para morrer ontem, mas hoje já é diferente. E eu realmente não quero que isso aconteça ainda.

Confiei em Luc.

Ele apertou meu braço me puxando para fora da casa. Esbarramos-nos nas pessoas que estavam na rua. Foi tudo muito engraçado. Elas olhavam horrorizadas para nós. Deviam estar pensando que eram loucas por esbarrarem no nada.

Luc desviou da rua indo em direção a mata.

— O que você está fazendo?! — disse o mais baixo que pude.

— Você não consegue escutar ou sentir o cheiro de sangue?!

Não. Eu não estava focando nisso, claro. Não quero devorar inocentes.

— Sinta. — disse ele. — há algo matando pessoas logo após a floresta.

— Algo?!

— Sim. Uma criatura igual a nós.

Melhor que eu, de fato. Parei de andar.

— Confie em mim.

Disse Luc. Então foi aí que lembrei que Luc é bastante forte e experiente. Será que eu ficaria em segurança com ele? Me foquei em todos barulhos que vinham após a mata. Haviam gritos de terror, corações abalados, e um coração diferente. Esse estava calmo. E um grito em especial me chamou a atenção. De uma garota. Seu coração num ritmo acelerado, suas frágeis mãos derrubavam uma espada e alguém caminha em sua direção. Sem pensar duas vezes corri o mais rápido que pude. Luc me seguiu, acompanhando meu ritmo. Foi tudo muito rápido. Em poucos segundos chegamos na casa. Pude ver a garota. Seus olhos escuros transmitiam desordem. Me coloquei em sua frente, encarando a pessoa que iria o matar.

Luc matava os outros que estavam ao redor. Esses outros eram humanos que estavam quase mortos. E estavam com muito medo.

O vampiro a minha frente sorriu com divertimento. Seu sorriso me irritou. Ele sentiu minha presença, procurando a ameaça. Aproveitei sua distração me jogando em cima dele. O soquei até minhas mãos começarem a doer. Ele voltou seu olhar, confuso, me empurrou com tamanha força que me choquei com a parede. Eu não sabia se deveria matá-lo e, se fosse o caso, como o matar.

Vamos Nick. Levante-se e o mate. A voz em minha cabeça se repetia freneticamente.

Abri os olhos e senti algo me puxando pela roupa. O vampiro com seu olhar de urgência aproveitava meu momento de fraqueza. Acho que o orfanato me fez algo de útil. Sem perder tempo joguei minha mão em seu rosto resultando num belo soco. Sua cabeça fez um ângulo de 180º. Ele me soltou. Pondo sua mão na cabeça, a girou para o lugar original, fazendo seu rosto me encarar.

A garota já estava inconsciente não tão longe de mim.

Luc apareceu por trás do vampiro segurando seus braços em suas costas o deixando imóvel. Luc arrancou seu coração e o soltou.

Um estrondo surgiu. O vampiro desconhecido que havia feito o estrondo. Seu corpo caiu no chão e logo virou cinzas. O lugar estava silencioso. Só tinha cheiro de sangue. Várias pessoas mortas.

Luc foi em direção a garota, pondo sua mão no pulso dela. Ela estava viva. Eu podia sentir seu coração batendo.

— Ela está viva!

Ele me observou cautelosamente.

A garota acordou. Repeti a frase de latim me tornando visível novamente. Luc correu tão rápido que a garota nem sentiu sua presença. Ela encarou os corpos dos mortos já com lágrimas em seu rosto. Seu olhar foi parar em meu rosto. Conseguindo me levantar, fui em sua direção.

— Você está bem? — eu disse com a voz ainda afetada.

Ela era tão pequena, uma criança. Acho que tinha dez anos. Seu cabelo escuro cacheado coberto de sangue e seus olhos escuros com medo me observaram profundamente.

— Eu... — as lágrimas caiam. Seu olhar fitou novamente os corpos e um ato inesperado ocorreu, ela me abraçou.

E dessa vez eu não congelei. Abracei-a de volta. Como eu queria poder fazê-la esquecer disso tudo.

— Eu... Eu... — lutou ela com as palavras sem conseguir se expressar.

— Shhh, tudo ficará bem. — apertei o abraço.

A garotinha adormeceu em meu colo. Isso deveria ter esgotado todas suas forças, ela realmente precisava de um descanso. Cuidadosamente, a levei para casa de Luccas. Lá estava ele, sentado em companhia de Gabrielle, contando o ocorrido. Subi as escadas e deixei-a em meu quarto. Analisei-a e desci novamente.

— Porque você a abandonou? Ela não lhe havia feito nenhum mal, você está louco? — gritei, para minha surpresa, com Luccas que me olhou indiferente. Acusar alguém de ser louco era algo muito imprudente.

— Acalme-se, eu não iria abandonar a garota. Eu o testei para ver se você tem ainda um coração aqui. — Luccas tocou com seu dedo indicador o lado esquerdo do meu peito.

Eu o encarei, processando as informações.

— Então quer dizer que armaste aquilo tudo para outro teste? — perguntei, indignado. — Todas aquelas pessoas morreram por um teste?

— Rapaz, acalme-se. Eu não fiz aquilo acontecer, foi apenas um acaso.

— Nós não somos monstros, Nickolas. Acalme-se!

A voz da razão, Gabrielle, me fez notar os absurdos que estava cometendo. Luccas tinha me salvado, me acolhido e estava disposto a perder seu tempo para me ensinar tudo o que sabia.

— Me perdoem por tê-los entendido mal. — disse, após algum tempo de silêncio. O clima ficou estranho, mas para minha salvação um gatinho preto dos olhos amarelos apareceu.

— Lá vem a aberração de Gabrielle! — exclamou Luccas, demonstrando seu desprezo pela criatura.

— Oh, não fale assim da minha pequenina! — disse Gabrielle aninhando sua gatinha em seu colo.

— Como se chama? — perguntei, curioso. Eu sempre amei animais quando pequeno. Sonhei que teria pelo menos um gato e um cachorro para fazer companhia a meus futuros filhos e minha futura esposa, Samantha. Como estou com saudades dela!

— Foxxie. Quer segurá-la? – perguntou Gabrielle.

— Claro! – respondi, com um sorrisão. Gabrielle me entregou Foxxie cuidadosamente. Por um minuto imaginei que ela seria alguma bomba ou algo do tipo. Porém o gato miou e se aninhou em meu colo. Seus olhos amarelos me encararam. Senti uma atração incompreensível. Uma atração que me dava vontade de ficar sempre perto daquela gatinha. O que está acontecendo comigo? Pensei, horrorizado com a ideia. A gatinha tinha pelos macios e sedosos. Acariciei Foxxie, passando meus dedos em sua cabeça. Ela estava adorando.

— Que gatinha mais linda! – disse maravilhado.

— Muito obrigada, jovem cavalheiro! – a gatinha respondeu. Fiquei boquiaberto.

A gata se espreguiçou em meu colo, faíscas surgiram ao seu redor como uma explosão de pólvora, mas com um zumbido suave. As faíscas subiam animadas e desciam lentamente até cair em meu braço. Senti uma picada indesejável, parecia-me um leve choque de eletricidade. Encarei Foxxie, desnorteado. Não havia mais uma gatinha em meu colo. Havia uma moça ruiva dos olhos castanho escuro, ela estava com os braços ao redor do meu pescoço. Me olhava de uma forma arrebatadora. Se eu não amasse tanto Samantha, teria acabado de roubar-lhe um beijo. Seu rosto simétrico é perfeito e ela é tão branca quanto Luccas. Ela inclinou seu rosto para perto do meu, olhou em meus olhos com um suave sorriso e me beijou na bochecha. Me senti hipnotizado por seu cheiro. Ela saiu do meu colo, deslizando para sentar ao meu lado. Continuei a encarando, maravilhado. Mas Luccas interrompeu meu transe.

— Nickolas, meu caro! Há um fantasma furioso do seu lado tentando se comunicar com você. Ou matar você. Não acho que faz diferença.

Luccas disse, encarando algo ao meu lado.

— Fantasma? – perguntei incrédulo. Procurei, mas não encontrei.

— Sim. Ela está furiosa. – Ela? Mas quem poderia ser ela? O olhei horrorizado.

Gabrielle se levantou, indo em minha direção.

— Se acalme, querida. Ele te verá. – ela segurou meu antebraço, olhando para o lado. Rezei internamente para que não fosse quem eu pensava. Fechei os olhos e lentamente movi meu rosto para o lado. Quando o abri, lá estava ela. Com o seu vestido favorito. Lágrimas percorriam seu rosto. Oh, Meu Deus! Minha Samantha tornou-se um fantasma.

— Você mentiu! – me acusava, irritada e magoada. – Você me traiu!

— Não! – respondi magoado. Uma ponta de culpa cresceu em meu peito. Samantha morreu e eu não pude fazer nada. Seu vestido favorito estava manchado de vermelho. E esse vermelho era sangue. Seus cabelos negros cacheados estavam soltos. Ela usava os brincos que a dei. Duas pequenas pérolas brilhavam em suas orelhas. Ela desapareceu. Eu chorei.

— Samantha! – chamei desesperado, mas ela não retornou.

Notas finais
Querem saber o que aconteceu com Samantha? Eu também!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.