Aprendiz
1 Capítulo I
Notas iniciais
Já vai fazer seis meses que trabalho no Brasil. Sou Nickolas Truvine Strocken, tenho 17 anos, minha família morreu num acidente quando eu tinha 7 anos e, por conta disso, passei dez anos de minha vida num orfanato. Ainda não acredito que saí daquele inferno. Hoje é meu primeiro trabalho com o Sênior Luccas, eu sou o encarregado de segurar e cuidar de suas embarcações durante sua trilha. Era manhã, quase dez horas. Estávamos no dentro da floresta Amazônica fazendo trilha e eu era o último da fila em que carregava todos os mantimentos. Creio que um animal que passava por nós sentiu o cheiro da comida e acabou atacando-me por trás. Estranhamente, ninguém notara o que acontecera, a não ser pelo homem que estava logo a minha frente. Ele virou-se bruscamente e assustou de alguma forma o animal, fazendo-o fugir. O homem virou meu corpo que estava jogado no chão, me fazendo o encarar. O examinei, ainda com a vista embaçada, pude enxergar seu rosto alterado que demonstrava o que ele realmente era: um monstro. O medo me invadiu. Lutei desesperadamente tentando fazer com que ele me largasse, mas ele era extremamente forte e eu estava me sentindo mal, estava sangrando, estava morrendo. Rapidamente o homem-monstro me ergueu em seu colo, fazendo-me sentir mais ainda as dores do estrago que o animal me causara.
— Acalme-se meu jovem, tudo ocorrerá bem. — diferente de sua expressão ameaçadora, sua voz transmitiu calma e confiança.
Com enorme voracidade, o homem-monstro ao qual me carregara correu entre a mata, passando entre árvores que viraram vultos em diferentes tons de verde, marrom e cinza. Desmaiei.
Acordei confuso numa enorme escuridão que eu conseguia enxergar, para meu espanto. O silêncio é perturbador. Onde estou? O que aconteceu? Fiquei imóvel encarando a escuridão sem saber o que fazer. Notei a ausência de oxigênio. Entrei em pânico. Na adrenalina, rasguei com as mãos em espantosa facilidade o pano grosso que me cobria. Logo após o pano senti a terra me inundar. Lutei inutilmente. Decidi parar e pensar. O que eu deveria fazer? Ouvi vozes acima de onde estava e também ouvi os batimentos de seus corações, isso me deu uma força inexplicável. Enquanto as vozes e batimentos se distanciavam, fui cavando irracionalmente a terra com minhas próprias mãos e, enfim consegui saí. Quebrei o chão de pedra, colocando a cabeça para fora, examinei o local que estava totalmente deserto. Achando-o seguro, saí totalmente num pulo caindo em pé.
— Você demorou! — virei subitamente para voz familiar que me mencionara. Tudo que havia acontecido naquela noite veio à tona em meus pensamentos e o aviso de perigo predominou. Continuei paralisado o encarando. Todo meu corpo doía profundamente, principalmente minhas mandíbulas. A dor estava tão grande que decidi analisa-los, deixando de lado os bons modos e ignorando a presença do homem-monstro. Eles estavam diferentes, afiados e maiores.
— O que fizeste comigo? — grunhi para o homem-monstro que achou minha fúria divertida.
— Eu apenas dei uma segunda chance para sua vida, ou algo do tipo. — continuei a encará-lo, esperando mais respostas. Estou espantado. Que diabos de doença será essa que tenho? — Digamos que ser vampiro pra mim não é considerado vida, apenas mais um dos truques da morte. — explicou.
Fiquei horrorizado. Isso não é possível. Isso não é possível. Arregalei os olhos, incrédulo. Mas, apesar da ideia ser tão louca, tudo estava começando a ter algum sentido. Desejar comer o coração de uma pessoa nunca havia sido uma vontade minha, afinal de contas. Eu estava prestes a surtar.
— Porque fizeste isto para mim? — insisti, horrorizado. Sem saber como proceder, continuei parado. Nada daquilo fazia sentido. Será que isso é um pesadelo? Como faço pra acordar?
— Me senti culpado. — ele deu de ombros — Você morreu por minha causa. — explicou.
Não é uma boa desculpa, mas é um bom começo. Luccas não é um ser tão monstruoso como imaginei.
— E o que eu faço? — tentei disfarçar o medo que me transbordava, falhando.
Ele virou-se e foi em direção a uma casa, parou em frente ao portão, e fez um sinal para entrar. O segui.
— Vamos, entre. Aqui será seu novo lar.
Eu nunca tive um lar, por que agora, depois de morto, teria? Parei, analisando sua proposta. Seria seguro eu entrar naquela casa?
— Anda garoto! Entre logo, temos muito que fazer. — insistiu. Não sei como, mas sua voz me controlou. Entrei contra minha vontade. Logo no corredor da casa, havia um espelho na parede.
— Meu Deus! — falei alto, pausadamente, ainda mais assustado. Meus caninos estavam expostos e enormes. Passei a língua no dente, o examinando. Estava com as roupas ensanguentadas e rasgadas, imundo e com fome, meus olhos estavam contornados por uma escuridão aterrorizante que me fez ficar com medo de minha própria pessoa. Será possível uma coisa dessas? Eu não acreditava que aquilo realmente estava acontecendo. Recuei, distanciando meu olhar do espelho.
— Você precisa de um banho urgentemente. — disse Luccas, com uma expressão de nojo. — Mas vamos comer antes. Vou buscar algo. Fique a vontade e tente não devorar ninguém.
Voltei a me encarar no espelho. Minha atenção foi roubada por uns passos extremamente rápidos que desceram a enorme escada, silenciosamente.
— Olá, cavalheiro. — gelei ao ouvir a voz doce de quem descera as escadas.
Observei-a através do espelho. Com seu cabelo cacheado escuro e um elegante vestido de seda num tom azul escuro. Ela pertence a Luccas? A mulher tem uma feição delicada e ingênua, mas apenas sua presença me fez ter medo.
— Andou caçando? — ela riu graciosamente, deixando seu sorriso aparecer com uma fileira de dentes impecavelmente brancos.
— Perdoe-me. — Observei mais uma vez minhas vestes rasgadas. Fugi para longe da mulher.
No corredor em que o homem-monstro havia entrado era bastante mal iluminado. Acabei esbarrando-me em um servo que trazia uma bandeja. Ele se agachou e juntou tudo que caíra. Seu pescoço ficou visível e irresistível. Uma vontade estranha me surgiu, fiquei parado em transe o observando. A pulsação do seu batimento cardíaco era estável. Senti cada gota de sangue percorrer seu corpo. Minha boca estava salivando.
— Tu. Tragas outro chá. Aceita juntar-se a mim? — sua voz saiu como uma ordem com um tom sutil.
Acenei com a cabeça, rompendo o transe e marchei até onde ela estava sentada.
Logo apareceu o homem-monstro com outro servo.
— Beba. — ele entregou-me algo com o aroma delicioso. Bebi tudo num gole com extrema gula.
— O que estou bebendo? — perguntei, curioso, enquanto limpava minha boca. Não me contive e acabei lambendo meus dedos. Sem precisar da resposta, percebi o que me dera. Sangue. Minha mente entrou em uma confusão, senti repulsa e desejo ao mesmo tempo.
— Já vi que precisaremos ensinar bons modos ao rapaz. — comentou Luccas, com um sorriso no rosto. Ele estava animado com a ideia de me criar, o que era muito estranho para mim, pois sempre fui negado pelos pais do orfanato.
— Você precisa disso, se quiser sobreviver. — a senhorita pegou um copo da bandeja e tomou-o.
— Qual seu nome? — perguntei, mesmo sabendo seu nome, olhei pra o homem-monstro que me transformara.
— Luccas e o seu? — ele tinha uma aparência jovem, cabelo de um tom de loiro claríssimo e pele extremamente branca. Mais pálido que a mulher.
— Nickolas.
— Me chamo Natalie, bem-vindo a família. — a mulher ao qual me perturbara intrometeu-se na conversa com um sorriso.
— Posso falar a sós com você, Luccas?
— Claro. — ele sorriu.
Subimos as escadas de madeira e entramos em um dos quartos que havia no corredor.
— Você sabe que ela ainda pode nos escutar, não é?! — ele fez uma pergunta sem esperar a resposta, pondo uma de suas músicas clássica na radiola.
— Eu não quero ser isso. — fui direto ao ponto, dizendo seriamente. Por mais que eu não quisesse morrer novamente, eu estava disposta. Meu coração se partia só de pensar em Samantha, mas ela iria me entender.
— Estais brincando, meu caro? — o mesmo tom de divertimento voltou em sua voz. — Oras, não me venha com desculpas de que não quer. Você já é um. Não há voltas. Para de ser covarde e encare o desafio de ser um vampiro.
Confuso, sentei-me em um baú que ficava em frente à cama. Ele sentou-se ao meu lado, pondo sua mão em meu ombro disse:
— Não se preocupe, eu lhe mostrarei todos os caminhos, todas as alternativas, irei te ensinar tudo que estiver ao meu alcance para ter uma vida eterna maravilhosa. E quando aprenderes tudo, você estará livre de mim. Agora vá banhar-se e descansar. Amanhã teremos um dia agitado. Mandarei mais uma refeição. — com as mãos na cintura ele observou o quarto atentamente. — Amanhã trarei uma amiga especial para você conhecê-la, tente ser educado com ela. — Ele sorriu, indo com rapidez para porta, sem me dar a chance de falar algo, me cumprimentou brevemente com a cabeça e sumiu, saindo do quarto e indo para o corredor. Seus passos silenciosos e rápidos foram sumindo, e sumindo...
As palavras de Luccas têm uma influencia em mim que me nego a acreditar nessa hipótese. Talvez, quando criasse coragem, eu perguntaria por que eu estava me sentindo estranhamente conectado a ele. Depois de limpo, deitei-me na confortável cama e senti a exaustão tomando-me conta, dormi sem rodeios, esperando que no outro dia eu acordasse desse pesadelo.
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