Notas iniciais
- Ivana, está ai? – Ele batia na porta, mas ela parecia não ouvir. Impaciente, ele adentrou sem qualquer cerimônia ou cortesia.
- Vá embora, José Miguel, sua pergunta me ofende. – Disse, ao vê-lo em seu quarto.
- Você não está bem, deixe-me te ajudar, isso pode fazer mal ao bebê.
- VÁ PARA O INFERNO! Com a pergunta que me fez, você não tem consideração nenhuma por ele. – Ela o empurrou para fora do quarto, batendo a porta com força e quando ele finalmente saiu, ela desabou.
- Tudo é culpa de Valentina, essa maldita sempre atrapalhando minha vida. – Pensava ela, aos prantos.
José Miguel deixou o hotel, ele queria pensar sobre tudo que havia feito e dito, sobre o que sentia, sobre o que vivia e sobre o bebê. Durante o caminho para a casa, ele veio refletindo, a discussão interminável o fazia mais forte, mas por outro lado estava toda uma vida que planejara.
Chegando a casa, deixou a caminhonete na entrada e correu para dentro. Nem mesmo Chuy o fez parar, o garoto queria lhe contar seu dia, mas José Miguel não entendia nem o dele, imagine o de um terceiro? Em seu quarto ainda estavam as marcas da discussão que tivera com Ivana, a cama desarrumada e os vasos jogados ao chão o deixaram mais nervoso, ele se lembrava da conversa que tiveram. A voz rouca de Ivana penetrava em seu ouvido, desencorajando-o a qualquer atitude.
- Serei apenas eu e o bebê. – Repetia inúmeras vezes seu subconsciente. – Me ouviu, José Miguel?
Ao mesmo tempo em que Ivana o dizia tais palavras, a voz de Valentina vinha à tona.
- Te amo, José Miguel, te amo.
Em sua cabeça havia um turbilhão de coisas, seus sentimentos pertenciam a Valentina, mas sua honra e cabeça a Ivana. A decisão era difícil, mas ele teria que escolher entre a razão e o coração. Aquele rolo que o consumia demorou horas para se desenrolar, mas finalmente José Miguel tomou uma decisão.
- Preciso falar com Valentina. – Essa frase foi à última dita até a chegada no ‘Los Cascabeles’. Temeroso, ele apenas entrou na casa, sem dizer uma palavra a ninguém, Iluminada estava distraída que não percebeu sua entrada.
- Iluminada, onde está Valentina? – Perguntou ele, em um tom firme.
- Está no escritório, senhor. – Respondeu a moça assustada.
Sem qualquer comprimento ou beijo de ‘boa tarde’ ele começou a despejar, sem ao menos deixá-la reagir.
- Tomei uma decisão. – Disse ele, olhando fixamente nos olhos dela.
- Tomou, meu amor? – Antes que ele pudesse responder, Valentina o puxou para um beijo, que foi rejeitado pelo mesmo. – O que acontece, meu amor? Por que tão sério?
- Ficarei com Ivana e o bebê, é o certo e é o melhor para mim.
Indignada, Valentina andava de um lado para o outro procurando uma resposta para tudo aquilo. – Melhor para você? Ora, José Miguel, não sabemos nem se o filho é seu.
- Está vendo? Este é seu problema. Você duvida de tudo, Valentina, duvida de mim, de sua própria prima e de tudo que está ao seu redor, você não passa de uma mulher imatura e muito mimada.
Aos prantos, ela tentava rebater os insultos de José Miguel, que não parecia nem um pouco comovido com suas lágrimas. – E não tenho motivos para duvidar dela? Eu, assim como você, fui enganada por ela inúmeras vezes, ela me fez tudo que poderia fazer, mas eu ainda a amo, porém não posso perder meu bem mais precioso, você, meu amor, você.
Sem responder, José Miguel deixou-a falando com as paredes. Seu coração doía, mas ele precisava ser forte e dar espaço para a nova mulher que agora dominaria seu coração. A toda velocidade, ele queria chegar o mais rápido possível no hotel que Ivana estava hospedada. Chegando ao destino, correu para dentro, atrás de Ivana, a mulher que agora haveria de lhe completar.
- Senhor, ela deu ordens para que eu não deixasse o senhor subir. – Repreendeu o dono do hotel, colocando a mão em seu peito.
- Eu entendo, mas é um caso de vida ou morte.
- Sinto muito, senhor, não posso deixá-lo passar, não insista.
Desnorteado, José Miguel foi para sua caminhonete, quando olhou para cima e teve uma ideia.
- Já sei como chegar até ela. – Disse ele, entusiasmado.
José Miguel estacionou a caminhonete na calçada, ela tinha o tamanho ideal para que ele chegasse até o parapeito, agora era só subir. Com muito sacrifício, ele finalmente agarrou as grades de uma das janelas, com os pés ainda apoiados sobre a parede lisa. Horácio, que de seu armazém via tudo, correu para saber o que acontecia.
- O que faz ai, homem? – Perguntou Horácio, em meio às gargalhadas.
- Fale baixo. – Sussurrou ele. – Só torça para dar certo.
Os ‘ocupados’ moradores de San Pedro de Las Peñas já estavam todos aglomerados em frente ao hotel, apenas esperando o sucesso ou o fracasso da missão.
- Quase lá, quase lá. – Dizia José Miguel consigo mesmo.
Com as mãos na grade da janela de Ivana, o povo torcia para ele conseguir abri-la, por sorte, a janela estava entreaberta, e isso facilitou sua entrada.
Notando o tumulto lá fora, o dono do hotel foi ver o que acontecia.
- O que está acontecendo?
Horácio, embora não tivesse ideia do que o amigo faria, o defendeu.
- Não aconteceu nada, homem, é que achamos que tinha acontecido um acidente.
- Pois? – Perguntou o dono do hotel.
- Pois há um carro na calçada, homem, isso não é bom sinal.
- Ah, sim, deve ser de um rapaz que estava aqui atrás de uma moça. Acho que depois volta buscar.
- Deve voltar, era só isso mesmo, obrigado.
José Miguel andava devagar, Ivana havia adormecido em uma camisola rosa – bebê que deixava sua barriguinha de três meses muito aparente, e uma das mãos a cobria, como se ela quisesse proteger aquele pequeno e indefeso ser de todo o mal. O rosto angelical estava vermelho e inchado, ela havia chorado e isso era culpa dele.
- Como pude fazer essa mulher chorar? – Seu olhar era terno, ele acariciava suas mãos, quando finalmente não resistiu e beijou sua barriga. – Papai te ama, viu?
Deitado ao lado de Ivana, José Miguel ficou, suas mãos acariciavam seus sedosos cabelos, enquanto ele a beijava no rosto.
- Não abandonarei vocês, Ivana, por mais dolorido que seja, esquecerei sua prima e tentarei ser feliz com você.
Um sono profundo consumia Ivana, tão profundo que ele colocou sua cabeça em seu colo e ela continuou adormecida, apenas agarrou sua perna, e ele recebeu o gesto com um sorriso.
- Cuidarei muito bem de você, de você e de nosso bebê. – Pela primeira vez ele conseguira se referir a criança como nosso. Ele havia o rejeitado no começo, mas agora até sonhava em ser chamado de pai. – Essa pequena criaturinha me chamará de papai! – Sussurrava ele, sorridente. Embora muito abalado, o peso que ele sentia em deixar Valentina desapareceu. Ele via que qualquer laço sentimental poderia ser quebrado por um laço sentimental e sanguíneo ainda mais forte, o laço que une um pai e um filho.
Com toda a delicadeza que tinha, José Miguel puxou Ivana mais para cima, ele queria ficar com as mãos em seu ventre. Sentindo um toque em seus braços, ela começou a despertar, deixando-o assustado, afinal, ela não queria vê-lo. Temeroso, ele fechou os olhos, estava esperando o pior, mas ela voltou-se para o outro lado e adormeceu novamente. Aliviado, ele levantou-se da cama, iria ao banheiro, já que estava apertado.
Quando se levantou, voltou-se para trás fitando-a. Os pés pequenos davam continuidade as grossas e longas pernas, as coxas eram fartas e bem desenhada, o vestido rosa cobria parte delas, enquanto a outra parte ficava saciando seus olhos famintos. A cintura continuava fina, a única coisa que a fazia mais ‘maternal’ era a pequena barriga que salientava em meio à escultura que era seu corpo. O rosto angelical concluía a obra, deixando-a perfeita.
- Nunca percebi que era tão linda, estive cego por todo esse tempo.
Quando finalmente parou de admirá-la, foi usar o banheiro. No curto caminho até o banheiro, se deparou com algumas malas, e antes que pudesse desviar delas, tropeçou, assim caindo e fazendo um barulho estrondoso. Com a pancada, Ivana despertara rapidamente e sentando-se na cama, gritava apavorada:
- Quem está ai?
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