Aprendendo a Seduzir
4 Capítulo 4
Milo POV
18:02. Ele estava atrasado.
Eu conferi mais uma vez meu relógio de pulso com o horário do celular, e depois com o relógio da cozinha. Não havia erro, Ele estava mesmo atrasado.
Ele não poderia ter mudado de idéia, poderia? Porque se fosse o caso ele teria ligado avisando ou algo assim, não? Quer dizer, normalmente é isso que as pessoas fazem quando vão se atrasar e essas coisas. É o que manda a educação, sabe. Só que eu também não me lembrava se eu tinha dado meu telefone pra ele. Mas não seria tão difícil assim pra ele descobrir, não é? E no Sábado ele tinha dito que costumava ser pontual e tudo, não tinha? No teatro, eu digo.
Alías, foi mesmo muita coincidência encontrar ele lá, sabe. Principalmente quando eu já estava achando aquela noite o fim. Quer dizer, ninguém merece ter de passar o Sábado num programa família com a mãe e os irmãos, por favor. Ainda mais considerando-se tudo o que tinha acontecido na sexta a noite. Porque na sexta a noite, ou melhor, na sexta no final da tarde, depois que o Francês foi embora e o Dohko ligou pra me comunicar que eu só tinha mais dois meses (e como ele espera que eu consiga um patrocínio em dois meses, alguém me diz? Será que alguém já disse pra ele que isso leva no mínimo, sei lá, uns um seis meses?), o telefone tocou de novo e era o Deba, do pronto socorro, pra avisar que o Shura tinha sido esfaqueado. Sério. Esfaqueado. E tudo bem que foi só uma facada leve na perna, e que o médico disse que era um ferimento superficial que não ia deixar cicatriz, nem nada. Mas mesmo assim. Quer dizer, ele foi esfaqueado. E isso não era nem um filme.
E é claro que a culpa era totalmente minha. Porque fui eu que pedi pra eles (pro Deba e pro Shura, eu digo), ficarem na cola do Dohko pra descobrir quem tinha contratado ele, pra começo de conversa. E eu sei que eu não devia mandar outras pessoas fazerem o meu serviço sujo e tudo, mas se meu rosto já é conhecido demais para que eu possa simplesmente andar por aí sem causar tumulto, que dirá seguir alguém sem levantar suspeita. Então eu meio que não tinha muita alternativa, sabe.
E foi por isso que o Deba me ligou. Porque aparentemente aquela facada estava relacionada ao tal serviço que eu tinha pedido pra eles fazerem (que era, como eu disse, seguir o Dohko), e parecia que o Shura queria me contar alguma coisa. Então eu simplesmente saí correndo pro pronto socorro na mesma hora. Não que eu não fosse fazer isso de qualquer jeito. Correr para o pronto Socorro, eu digo. Porque o Shura e o Deba são meus amigos, vocês sabem. Então é claro que eu me importo com eles. Bastante. Só que eu também não tinha como saber que aquela coisa toda de seguir o Dohko pudesse acabar desse jeito, tinha? Porque o Dohko pode ser muitas coisas, sabe, mas ele nunca foi violento. Bom, pelo menos não que eu saiba.
Então eu mal entrei na emergência o Deba já foi falando:
- Parece que tinha outro cara seguindo o sujeito. Foi ele que atacou o espanhol.
O sujeito a quem ele se referia era um cara com quem, eles descobriram, o Dohko vinha se encontrando regularmente nos últimos tempos, e que a gente acreditava podia ter alguma relação com o contratante, se não fosse o próprio. Desde então eles meio que vinham tentando seguir a pista dele. Só que isso andava se revelando uma tarefa bem mais complicada do que a gente tinha pensado. Porque aparentemente era praticamente impossível apanhar o homem. Era quase como se ele se fundisse nas sombras. Meio como se ele se misturasse na multidão, ou sei lá. Quase como se fosse um de nós, sabe. Um ladrão, eu digo. Bom, ex ladrão, no nosso caso. Mas vocês entenderam.
E pelo que o Deba tinha acabado de dizer não era só a gente que estava atrás do cara. Então eu perguntei incrédulo:
- Outro? – Porque parecia um tanto absurdo que o homem realmente pudesse ter duas pessoas seguindo ele.
Mas o Deba simplesmente confirmou com a cabeça, bastante convencido, enquanto eu me aproximava do lugar onde o médico dava alguns pontos na perna do Shura.
E mal o espanhol colocou os olhos em mim já foi despejando:
- Ele perguntou quem havia me enviado. – ele disse. — Com quem eu estava. Eu disse que não era da conta dele, claro, e perguntei quem o mandara. Foi aí que ele se levantou e me atacou. Teria me matado se eu tivesse dado chance. Mas não dei. Corri. Provavelmente deixei um rastro de sangue por onde passei, mas corri o mais rápido que já corri na vida. E finalmente ele perdeu a minha pista. Não acho que conhecesse bem a área.
- Não entendo. – eu disse balançando a cabeça. Porque eu não entendia mesmo. De onde diabos tinha saído aquele cara? E por que atacar o Shura assim, sem motivo? Aquela violência gratuita me assustava. De verdade. Então eu me lembrei de perguntar:
- E esse cara, quem ele estava espionando? Ele estava seguindo o cúmplice, ou o próprio Dohko?
- O cúmplice. Com certeza. – ele respondeu fazendo uma careta pro médico que passava alguma coisa com um algodão no corte na perna dele.- O desgraçado veio andando, sei lá de onde, juro. Esgueirou-se pela entrada dos fundos, por entre os latões de lixo, quase antes de eu ter notado que ele estava lá. O Dohko abriu a porta pra ele, vi seu rosto sob a luz que vinha de fora do barracão. Ele estava usando um maldito capuz, por isso só consegui ver seu nariz.
- Claro. – eu disse, irônico. Porque, de verdade, o cara estava sempre se escondendo de alguma maneira. Era quase como se ele estivesse fugindo de alguma coisa, ou não quisesse ser reconhecido, não sei.
- Claro.- ele concordou. — Um segundo ou dois depois,- continuou — o outro sujeito apareceu. O que me atacou. Arquejando, como se estivesse seguindo o primeiro cara. O cúmplice do Dohko. Mas se movia sem fazer nenhum ruído. Era um profissional, Milo. Estou certo disso.
- E você tem certeza de que nunca tinha visto ele antes? – eu perguntei.
- Ele não era do Bronx. – ele garantiu. — Também não o reconheci do porto, nem de nenhuma das rodas que eu frequentei. E ele não falava como... bem, como qualquer pessoa do subúrbio. Se você quer saber, eu nem acho que ele seja americano. Mas ele era bom. Era danado de bom.
E devia ser mesmo. Pra conseguir pegar o Shura desprevenido. Porque eu era testemunha, ninguém vencia fácil o espanhol numa briga. Não mesmo. Bom, pelo menos não quando ele não era pego totalmente de surpresa daquele jeito.
E era por isso que eu tinha que dar um fim naquilo logo, sabe. Quer dizer nessa história toda de roubo de tiara, Dohko e perseguições frustradas. Porque aquilo já estava ficando realmente perigoso. E eu não podia continuar arriscando a vida dos meus amigos daquele jeito. Então talvez o melhor fosse eu pegar logo a droga da tiara e acabar de uma vez com aquilo. Só que, claro, pra isso eu precisava do maldito patrocínio pra convencer a porcaria da Saori Kido a me entregar a jóia. E óbviamente que eu não ia conseguir isso em dois meses. A não ser que eu me propusesse a aceitar a oferta do ruivo, é claro. Só que eu também não queria, ou melhor, não podia, envolver mais alguém naquela bagunça, podia? Principalmente agora. Depois que as coisas haviam tomado àquela proporção, eu digo.
Então quando eu me deparei com o francês àquela noite no teatro eu meio que prometi pra mim mesmo que não ia falar com ele. Mesmo que ele estivesse totalmente lindo com aqueles cabelos vermelhos caindo soltos e brilhantes pelos ombros e a pele que parecia tão branca mesmo sob a luz fraca do ambiente. Porque eu ainda não sabia muito bem o que fazer e não queria correr o risco de agir precipitadamente e tudo.
Só que é claro que eu não consegui cumprir minha promessa.
Porque, a quem eu queria enganar? Eu nem conseguia tirar os olhos do cara. Pior, desde a tarde passada que eu não conseguia sequer tirá-lo da minha cabeça. O que era totalmente absurdo, é claro. Porque vejam, na situação em que eu estava eu realmente tinha coisas bem mais urgentes pra pensar do que em como seria estar na cama com um francês que eu só tinha visto por uma hora, uma vez na vida. Muito mais urgentes, diga-se de passagem. Mas, bom, não tão interessantes, com certeza.
De qualquer forma, eu talvez tivesse conseguido cumprir minha promessa. Talvez. Se não fosse aquela noiva dele, é claro. Bom, pelo menos eu acho que era a noiva dele. A loira que estava com ele no camarote, eu digo. Quer dizer, quem mais poderia ser? E ficar olhando pra aqueles dois definitivamente me irritou, sabe. Não que eu estivesse com ciúme. Não mesmo. Porque não tinha como eu estar com ciúme de uma cara que eu nem conhecia direito, tinha?
É só que eu não conseguia entender muito bem, sabe. Quer dizer, ela tinha traído ele, pelo amor de Deus. Então como ele podia simplesmente ficar ali com ela como se nada tivesse acontecido? E tá certo que a mulher era linda e tudo (bom pelo menos a parte dela que eu conseguia ver acima do balcão do camarote — o que, no caso, era só o rosto dela), com aquele cabelo loiro prateado e os olhos azul piscina, mas mesmo assim.
E se fosse só isso, ainda tudo bem. Se ele só estivesse com ela por causa da aparência dela, eu digo. Só que não era. Não mesmo. Porque dava pra ver que existia cumplicidade entre eles. Bom, pelo menos se a forma como ela ria divertida do que ele falava servisse de indicação. E tá bom que ele também parecia um tanto irritado e tudo, mas era uma irritação superficial, sabe. Nada como o olhar totalmente congelante que ele me lançou na sexta feira na minha casa, ou como o àquele absolutamente cortante com que ele me encarou quando percebeu que eu estava olhando pra ele no teatro. Nada disso. E nem era eu que tinha corneado ele.
Então eu não estava realmente pensando muito bem quando resolvi seguir ele até o banheiro, sabe. E foi totalmente por impulso também que eu segurei o pulso dele naquela hora. Quando ele tentou fugir de mim logo que chegou, eu digo (Sério. Ele tentou fugir de mim e eu segurei ele. Qual era o problema comigo, afinal?).
E de repente ali estava ele. Parado na minha frente, incrivelmente lindo em uma calça social preta, uma blusa de malha escura e um blazer grafite, com os cabelos ruivos soltos pelas costas e uma sobrancelha fina erguida, esperando que eu me manifestasse. Então é claro que eu tinha que dizer alguma coisa, não é? Porque eu que tinha segurado ele ali, em primeiro lugar.
Então sem que eu percebesse as palavras meio que foram saindo da minha boca, sabe. E quando eu dei por mim estava feito. Eu já tinha aceitado à proposta dele e não dava mais pra voltar atrás. Só que eu também não queria mais voltar atrás. Não depois de ter sentido o que eu senti quando toquei nele. Aquele arrepio idescritível, como se só tocar a pele dele fosse capaz causar pequenos choques pelo meu corpo. Não depois de ter visto como ele ficava lindo tentando pronunciar meu nome. E definitivamente não depois de ter escutado ele rir.
Porque a risada dele era como cerveja gelada em um dia quente. Como conseguir chorar de verdade quando se está triste. Como um mergulho no mar azul de Mikonos, onde eu nasci. A risada dele era libertadora e revigorante. E de repente eu percebi que queria fazê-lo rir assim sempre. Nem me importava entender o motivo. Porque a risada dele era como voltar pra casa. E eu só queria ficar ali, olhando pra ele, pra sempre.
E foi então que eu decidi: A noiva dele já era. Porque ele ia ser meu ou eu não me chamava Milo Panagopoulos. E se eu ia ter que usar aquela coisa toda de patrocínio pra conseguir me aproximar dele, então que fosse.
E não me entendam mal, eu não estou dizendo que eu ia me apaixonar pelo cara. Mesmo porque eu sou totalmente contra essa coisa de se apaixonar. Mas que eu ia ter ele pra mim, ah, isso eu ia.
Só que já eram seis e vinte, se o meu relógio não estava errado (e ele não estava, porque eu já tinha conferido ele setes vezes, contando com a última, com o celular e o relógio da cozinha), e o combinado era que ele estivesse no meu apartamento às seis. E ele disse que costumava ser pontual e tudo. Então, bom, vamos admitir que talvez ele não viesse mais.
E foi exatamente quando eu pensava nisso que a campainha tocou. Eu já devia saber, é claro. Porque, vocês sabem, o telefone só chama quando a gente esquece dele, e a campainha só toca quando a gente desiste de esperar. É uma daquelas tais leis que regem o universo. Então eu já devia ter desistido há mais tempo, é claro. De esperar, eu digo. Quer dizer, pra que a coisa funcionasse e a campainha tocasse e tudo. Mas como parece que a gente também nunca lembra disso na hora em que deve, ele só estava chegando naquela hora mesmo. Vinte minutos atrasado.
E eu realmente esperava que aquele não fosse o tipo de 'pontualidade' que ele costumava empregar em todos os negócios dele. De verdade. Caso contrário eu realmente não saberia explicar como ele podia ser tão bem sucedido. Pra crédito dele, no entanto, eu tenho que dizer que ele estava totalmente perfeito em um Calvin Klein cinza e parecia bastante constrangido com o próprio atraso.
Então, como eu não sabia exatamente qual o 'cárater' das lições que eu teria de dar a ele, e como aquilo, em princípio, era pra ser apenas um negócio, eu o levei para o escritório (na melhor das hipóteses transar em um escritório também poderia ser bem exitante).
- Eu estou meio sem tempo hoje. – ele foi dizendo logo que entramos, enquanto acomodava-se à cadeira da escrivaninha e remexia uma pasta de couro preta que ele tinha trazido com ele (provavelmente ele tinha vindo direto do escritório) – então talvez não vá dá pra fazer muita coisa.
Eu olhei pra ele.
- E o que exatamente você gostaria de fazer? – Eu perguntei. E eu sei que isso não soou muito bem e que foi um pouco direto e tudo. Tá, foi totalmente direto e grosseiro. Mas eu tinha que saber, não tinha?
E foi então que ele levantou os olhos pra mim um tanto surpreso e corou. Sério. Ele corou. Meu Deus, quem em New York nos dias de hoje, com mais de 13 anos, ainda cora? Mas aparentemente aquele ruivo que parecia tão seguro de si, ainda corava. E aquilo, eu devo dizer, o deixava ainda mais sexy, se possível. Era incrível. Quando é que eu iria imaginar que um simples rubor pudesse tornar uma pessoa tão... desejável.
- Ah, bem... – ele começou desconcertado, com as bochechas e as pontas das orelhas totalmente rosadas. E eu me perguntei se eu algum dia eu já tinha visto, ainda que na infância, algo tão absolutamente adorável. E concluí que provavelmente não. – talvez eu não tenha me expressado muito bem no nosso último encontro, sabe. Mas a verdade é que você realmente não tem que se preocupar. Quer dizer, as aulas vão ser estritamente teóricas. Você não vai precisar nem tocar em mim, nem nada.
- Estritamente teóricas? – eu ecoei. Porque ele não podia estar falando sério podia? Quer dizer, como assim 'teóricas'? E eu não ia 'precisar' tocar nele? Do que diabos ele estava falando? Ele não poderia mesmo estar sugerindo que eu teria que passar sei lá quanto tempo naquela sala com ele falando sobre sexo, sem poder tocá-lo, poderia?
Não, porque aquilo era tortura, sabe. E alguém tinha que dizer pra ele que tortura é considerado crime nesse país. Quer dizer, ele poderia até ser processado por isso. E eu tenho certeza de que qualquer juíz no mundo me daria ganho de causa imediato assim que colocasse os olhos nele. Principalmente se ele me fizesse o favor de corar no tribunal. Sério.
Só que ele não devia se importar muito com isso. Porque ele apenas concordou rapidamente com a cabeça, cruzando as pernas e apoiando uma agenda no joelho, enquanto encaixava uns óculos no nariz. O que óbviamente fez com que eu perguntasse:
- O que você está fazendo? — Porque, sério, o que exatamente ele pretendia com aquela agenda e aqueles óculos?
- Eu vou tomar notas, é claro. – ele respondeu, desviando pra mim um olhar surpreso, como se eu tivesse acabado de perguntar a coisa mais estúpida do mundo.
Só que não era a coisa mais estúpida do mundo. Não mesmo. Porque, tomar notas? Ele não podia estar falando sério, podia? Quer dizer, tomar notas? Por favor! Onde ele achava que estava? No colégio?
Então eu só fiquei ali parado, olhando pra ele, enquanto ele escrevia alguma coisa na tal agenda. Os olhos multi cor, que hoje estavam de um castanho bronze, parecendo ainda maiores sob os óculos de aro fino, que meio que lhe davam um ar intelectual, de professor jovem. E eu pensei, não pela primeira vez, que a noiva dele era uma completa idiota.
- Você gosta tanto assim dela? – Eu acabei perguntando. Esse é o problema comigo, sabe. Eu raramente penso antes de falar.
- Como? – ele perguntou confuso, erguendo os olhos.
- Você sabe, sua noiva. Você gosta mesmo dela?
Ele me olhou como um adulto olharia pra uma criança que não consegue amarrar os próprios sapatos e disse, levantando uma sobrancelha:
- Bem, eu vou me casar com ela, não vou?
Eu sabia disso, é claro. E também sabia que ele só estava ali pra fazer com que ela se apaixonasse por ele, pra que assim ele não precisasse mais cancelar o noivado e tudo. Mas, ei, existem muitos motivos que podem levar uma pessoa a querer casar com outra, sabe? E eu ia dizer isso quando ele continuou, agora com alguma impaciência.
- Então... será que a gente poderia deixar a conversa pra depois e começar logo com as lições?
- Certo. – eu cedi
- E de quantas lições exatamente nós estamos falando? – Eu quis saber
- Não sei... – ele deu de ombros. — Quantas forem necessárias. Até você achar que eu estou pronto.
Até eu achar que ele estivesse pronto? Era piada, né? Porque ele simplesmente não podia estar mais pronto, fala sério! Exatamente a que ponto do absurdo aquilo tudo ainda podia chegar? Alguém me diz.
Então eu simplesmente perguntei, incrédulo:
- Você acha mesmo que isso vai dar certo?
E como ele continuasse apenas olhando pra mim aparentemente sem entender exatamente do que eu estava falando, eu continuei:
– Porque não se pode realmente fazer com que alguém se apaixone por você, sabe? Não importa quantas lições de sedução você possa ter.
E eu sei que aquilo era praticamente como dar um tiro no próprio pé. Já que ele poderia muito bem, sei lá, cair em si, concordar comigo e ir embora. E isso, vocês sabem, seria o fim do meu patrocínio. Sem falar de todos os meus planos de saber como era ter ele na minha cama. Mas eu também não sou tão canalha assim, não é? Então eu tinha que pelo menos alertar o cara.
Infelizmente eu acho que isso meio que irritou ele, porque ele retirou os óculos e olhou pra mim com um olhar de dar inveja a qualquer cubo de gelo. Se cubos de gelo tivessem olhos, é claro.
- E o que você sabe sobre se apaixonar? — ele disse — Você nunca se apaixonou.
Foi a minha vez de me indignar.
- Como você pode saber? – eu disse. Porque, sério, como ele poderia afirmar aquilo? O cara mal me conhecia.
- Porque você não teria tido tempo pra isso, non mon ami? – ele respondeu com um sorrisinho irônico nos lábios.
- Como é? – eu não podia acreditar naquilo.
- Ah, por favor! Você entendeu muito bem. — exasperou-se ele — Como você ia poder realmente gostar de alguém, se você parece totalmente incapaz de ficar com uma pessoa tempo suficiente pra isso? Quer dizer, existe alguém no mercado que você ainda não tenha levado pra cama?
Ele estava certo, é claro. Mas me incomodava o fato de ele se achar tão moralmente superior a mim só porque ele vivia um relacionamento monogâmico certinho com a noiva idiota dele enquanto eu... bem... enquanto eu primava por ampliar meus horizontes nessa área, por assim dizer.
Além disso, se vocês forem parar pra pensar quem tinha saído no prejuízo, heim? Eu, que estava com o coração intacto, ou ele, que acabara corneado e ainda tendo que apelar pra essa coisa de 'lições de sedução'com um completo desconhecido? Então eu simplesmente disse indignado:
- Na verdade, tem sim.
- Tem? Quem? – ele perguntou sarcástico
- Eu nunca dormi com a Angelina Jolie. – eu respondi — Ainda. Mas sempre há esperança.
Ele revirou os olhos, colocando mais uma vez os óculos e dizendo:
- Tanto faz. Mas será que a gente poderia começar logo com isso? Eu realmente estou um pouco sem tempo hoje, sabe?
- Tá, já entendi. Então... bom... – eu comecei. Só que eu não sabia exatamente como fazer aquilo. Porque a verdade é que eu nunca tinha realmente seduzido alguém. Deliberadamente, eu digo. As pessoas simplesmente se sentem atraídas por mim, sabe. Eu não sei por quê. Não é com se eu fizesse força pra isso acontecer. Quer dizer, eu nunca havia exatamente raciocinado sobre o tema, entendem?
Então, vocês hão de convir, que não tinha realmente como eu explicar a coisa toda pra alguém. Principalmente quando esse alguém era um ruivo totalmente lindo, com um sotaque francês enlouquecedor e capaz de provocar arrepios no meu corpo com um simples toque. Porque é bem difícil explicar algo pra uma pessoa quando tudo em que você consegue pensar é em tirar a roupa dela, sabe. De forma que eu realmente precisava de um assunto seguro pra começar. Quer dizer, alguma coisa que não fosse me fazer querer pular em cima dele, e atacar o cara (será que existia algum assunto assim?). Porque se ele era mesmo hetero como parecia ser, e nunca tinha tido qualquer tipo de experiência com outros homens e tudo, eu tinha que ir com calma, não tinha? Pra não correr o risco de me precipitar e assustar o cara, eu digo. Então eu finalmente falei:
- Certo. Nós podemos começar falando sobre a atmosfera sensual. – (a atmosfera me parecia uma questão relativamente segura.) – Eu nem consigo enfatizar suficientemente a importância do clima romântico, no momento da sedução. – eu comecei — Há aqueles que afirmam que isso nunca deveria ser feito durante o dia. Porque a luz do sol não é propícia à manifestação dos sentimentos românticos. – aquilo me pareceu bom, de forma que eu continuei. — E enquanto eu descobria que isso era verdade com algumas mulheres, que talvez se sentissem tímidas em relação a suas formas, também descobri que não havia nada mais libertador do que se despir, assim como das inibições, à brilhante luz do dia...
- Desculpe-me. – Ele me interrompeu, baixando os óculos. – Toda essa sua explanação está realmente bastante interessante, acredite, mas será que nós não podíamos ser um pouco mais objetivos e partir logo para a parte do beijo?
- B-beijo? – eu gaguejei. Ele realmente não estava ajudando em nada.
- Exatamente. – ele confirmou — Na verdade... existe um tipo de beijo em específico que eu gostaria de abordar. – ele continuou, virando algumas folhas da sua agenda como se procurasse algo.
Eu me forcei a pensar no patrocínio. E tudo bem, talvez eu pudesse controlar meus instintos mais básicos por isso.
- Aqui está. – ele disse então, parando em uma página da agenda e lendo. – 'A um passo da eternidade', originalmente com Burt Lancaster e Déborah Kerr. Você regravou esse filme no ano passado, não foi?
- Hum. – eu concordei vagamente, sem conseguir tirar meus olhos da boca dele. Da forma como ela fazia aquele biquinho enquanto ele falava, sabe. Pronta pra ser beijada. Droga! Maldita sugestão subliminar! (Só que aquilo também não era muito subliminar, era?)
- A Sa... digo, minha noiva, é louca por esse filme, sabe. – ele continuou. – Eu realmente nunca assisti, mas é considerado um dos melhores beijos do cinema e tudo. O beijo do filme, eu digo.
Céus, por que até a forma como ele pronunciava a palavra 'beijo' me exitava?
- E, bom, você realmente impressionou a crítica com essa cena, não foi? – ele perguntou.
- Hum. – eu confirmei mais uma vez, enquanto pensava no que aconteceria se eu arrancasse aqueles óculos do nariz dele e os jogasse no chão, levantasse ele da cadeira e o beijasse. Ele sairia dali puto da vida? Quebraria a minha cara? Ou corresponderia ao beijo?
- Pois bem. – ele concluiu, fechando a agenda e olhando diretamente pra mim – Me ensine.
- C-como é que é? – eu não pude deixar de perguntar, inrrompendo de meus devaneios.
Porque na boca de qualquer outra pessoa aquilo seria um convite, sabe. Explícito. Então isso meio que me afetou. Muito. E eu fui tomado por uma vontade totalmente incontrolável de descobrir se os lábios dele eram tão macios quanto pareciam.
- O beijo. Me ensine. – ele repetiu, olhando pra mim como se eu tivesse problemas sérios em assimilar sentenças simples.
E eu senti que estava perdendo completamente o controle. Principalmente quando eu me peguei levantando de onde eu estava e contornando a escrivaninha até a cadeira dele, e àquela voz dentro de mim que me dizia que 'era só um beijo, afinal, que problema tinha?' passou a fazer muito mais sentido.
E não que eu costumasse sair por aí beijando pessoas que já tinham deixado bem claro seu desinteresse por mim. Não é isso. Só que aquilo era completamente diferente, sabe. Eu nunca tinha sentido nada assim em toda minha vida. Fora de brincadeira. Era totalmente inexplicável
Então quando eu dei por mim eu simplesmente já tinha levantado ele da cadeira e levava minha mão em direção ao rosto dele, deslizando-a em suave carícia por seu pescoço até a nuca. Sentindo a pele branca e macia contrair-se sob meus dedos, e uma onda de prazer percorrer meu corpo. Era absolutamente indescritível. Mas antes que eu pudesse fazer qualquer outra coisa, ele se desvencilhou da minha mão e deu um passo pra trás, muito sério, dizendo:
- O que você pensa que está fazendo?
E, vejam bem, eu não estava acostumado a ter as pessoas perguntando o que eu estava fazendo enquanto eu tentava beijar elas. Então eu meio que me esforcei pra tentar achar alguma resposta lúcida. Só que era bem difícil manter a lucidez com aquele perfume de loção pós barba e colônia masculina que vinha dele.
- Ensinando você. – eu me vi respondendo tolamente
- Então me ensine à distância, s'il vous plaît. – ele retornou, glacial.
Qual era o problema com ele, afinal? Quer dizer, as pessoas normalmente costumavam gostar quando eu tentava beijar elas, sabe. Então por que aquele ruivo tinha que ser tão difícil?
- Isso não é o tipo de coisa que se possa descrever, sabe? — eu respondi — Eu tenho que te mostrar.
- Eu realmente non sei o que você está pensando, Sr. Scorpion, – ele retornou visivelmente irritado — mas eu non vim aqui querendo ser incluído no seu rol de amantes!
- Vamos esclarecer uma coisa, ruivo. – eu revidei — Você me procurou. Você pediu que eu o ensinasse. E você não me viu preocupado com minúncias sobre se era ou não adequado eu estar a te ensinar o que você me pedia, viu? Então não me venha agora interferir com a minha metodologia. E é só um beijo, afinal, qual o problema?
É, eu estava sendo totalmente manipulador, eu sei. E eu também estava me precipitando, é claro. Só que aquilo não era completamente minha culpa, sabe. Porque eu estava descobrindo ser totalmente impossível pensar direito na presença dele.
-Mas... – ele ia começar a dizer, mas eu não o deixei continuar.
- Só relaxe, ok? – eu disse, sem poder esperar mais, me aproximando dele. – Não se preocupe, não há nada de pessoal nisso. — eu continuei suavemente, me deixando inebriar por aquele perfume que vinha dele, enquanto deslizava mais uma vez minha mão por seu pescoço e sentia a pele branca arrepiar-se sob o meu toque – E você é até capaz de achar bem agradável. – Completei baixinho em seu ouvido, já completamente fora de mim, enquanto trazia o rosto dele pra mais perto e retirava seus óculos.
- Não creio. – ele ainda consegiu balbuciar em voz fraca antes que eu finalmente pressionasse meus lábios contra os dele.
Fale com o autor