Aprendendo a Seduzir
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens, se você não gosta, não leia
AVISO: Esse ch contém situação de incesto, se isso te ofende de alguma maneira é só ignorar o final do POV do Kanon, ok?
Milo POV
Eu entrei na casa nos Hamptons naquela noite de 31 de Dezembro, esperando e ao mesmo tempo sonhando encontrar Camus ali também como no Natal. Infelizmente – ou felizmente, dependendo da maneira como visse isso – ele não estava.
Excetuando-se a ausência da minha mãe e do Aioros, parecia que teríamos uma comemoração mais familiar esse ano – lá estavam Aoria e Marin, é claro, Saga, Kanon, e alguns amigos com suas famílias. Deba e Tessa (Tereza, na verdade – que era a namorada brasileira dele), Shura e também a Shaina – de alguma forma ela havia se tornado bastante amiga da Marin desde que nos conheceramos.
O Oria se aproximou de mim assim que entrei na sala e cumprimentei todo mundo.
– Aconteceu alguma coisa, o que foi? – ele disse.
Certo. Ele não era bobo.
Eu desconversei.
– O que te faz pensar que aconteceu alguma coisa?
– Por que você não se olha no espelho e responde? – ele respondeu.
Eu sorri com descaso. Sabia como devia estar parecendo depois de três noites sem dormir, indo a toda hora vomitar no banheiro, mas não ia dar o braço a torcer.
– Talvez eu tenha simplesmente comido algo que me fez mal. – eu falei mordaz, vendo-o fechar o rosto em resposta. Droga! Por que raios eu estaria falando assim com ele? Eu sabia porquê. Eu ansiava por uma briga e esperava que meu irmão me proporcionasse isso. Estava tão zangado comigo mesmo pela confusão em que me metera, que tinha necessidade de maltratar alguém além de mim mesmo, ou explodiria.
– Maldição, Milo! – ele esbravejou — Não venha bancar o cínico safado comigo. Eu sei que aconteceu alguma coisa. É com o ruivo de novo?
Eu suspirei.
– Aquele excesso de imaginação está afetando você novamente. – respondi tentando parecer causal — Não aconteceu nada.
Ele estreitou os olhos.
– Nunca é minha imaginação quando se refere a você. Sempre que cai alguma coisa boa em seu colo parece que você sempre descarta.
Descarta? Ele achava que eu tinha descartado o Camus? A ira quase explodiu dentro de mim. Será que meu irmão realmente pensava que eu desistiria por vontade própria de alguém como o Camus? Era por culpa dele... Bom, talvez não dele, mas dos gêmeos. Sim, era culpa dos gêmeos que eu o perdera. Se eles não tivessem me livrado daquela confusão há tantos anos, o Dohko não teria nada com que me chantagear. É claro que eu teria tido que deixar o país, ou ficar um tempo na prisão, mas o que importava isso agora? Preferia estar no Alasca, ou definhar em alguma cela, a saber que havia perdido o Camus.
Eu suspirei outra vez. Tudo o que queria era uma noite sem que a lembrança dele ocupasse toda minha cabeça, me impedindo de pensar em outra coisa. Eu devia ser capaz de fazer isso estando com a minha família, não devia? Ainda que aquela casa me lembrasse o modo como tínhamos nos amado aquela noite, no Natal. A forma como nossos corpos se encaixavam, e todas as coisas que eu sentia quando nossas peles se encontravam. Eu devia saber. No instante em que botei os olhos em cima dele pela primeira vez eu devia ter percebido, devia ter adivinhado que nunca me contentaria apenas em olhá-lo. E quando nossos lábios se encontram eu também devia ter me dado conta de que nunca ficaria satisfeito só com aquilo.
E agora, depois de descobrir como era estar dentro dele, ser parte dele, eu tinha certeza que jamais iria me satisfazer com nenhum outro. Eu precisava tê-lo de volta, mesmo que fosse só por um momento. Sentia necessidade de tê-lo novamente. Eu sabia que estava me rebaixando, mas não conseguia evitar. Desejava Camus. Ansiava por ele
Deus meu! Eu mal chegara e já estava consumido, só pensando nele. Como eu pude achar que ali poderia conseguir escapar dele? Ele estava na minha cabeça, no meu coração, e seguiria meus passos, me perseguindo, aonde quer que eu fosse. O inferno não era um fosso de danação em chamas. Não, o inferno era a pessoa saber que havia perdido alguém que amava e não saber se poderia consertar o estrago.
O Aoria continuava me olhando, esperando uma explicação. Eu apenas desviei os olhos evitando a resposta.
Ele suspirou frustrado.
– Por Deus, você nem parece mais o mesmo, Milo – ele disse então, desanimado.
– Se não sou mais o mesmo, — eu respondi mau humorado voltando os olhos pra ele outra vez — então não tenho idéia de quem eu possa ser. – Mais tarde eu me perguntaria a mesma coisa. Quem exatamente eu era? Será que eu era o homem que o Dohko achava que eu fosse? Ou aquele que o Camus pensava que eu era? Ou eu era o homem que todo mundo acreditava que eu fosse? Talvez uma estranha combinação de tudo isso. Vai ver era por isso que eu não conseguia me encontrar, ou porque parecia ser incapaz de decidir o que fazer. Havia tantas opções.
Meu irmão me olhava como se também não me reconhecesse.
A salvação veio na forma inesperada como o Deba se aproximou com a Tessa e o Shura.
– E aí, grego, – o brasileiro deu umas palmadas no meu ombro naquele jeito despachado dele – o que está pegando aqui?
– O Milo brigou com o namorado, e não quer me contar o que houve. – o Aoria respondeu por mim antes que eu tivesse a chance de fazê-lo.
Eu olhei pra ele irritado e abri a boca pra protestar, mas fui interrompido pela voz carregada de forte sotaque italiano da Shaina.
– Com o ruivo? – ela disse estendendo a taça pra que o garçom a servisse de mais champagne enquanto se acomodava em uma banqueta ao meu lado.
– Espera aí – eu a fitei boquiaberto – como você sabe do ruivo?
– Bom, você não tem sido exatamente discreto, não irmãozinho? – foi a vez do Kanon se meter na conversa. Eu voltei o rosto idignado pra ele, que apenas sorriu – Qual é, até o Oria percebeu!
– Ei! – O Oria se manifestou.
– O Misty também veio me fazer perguntas, — a Shaina comentou. O Misty era um jornalista, um paparrazi que não desgrudava do meu pé — eu me fiz de desentendida, — ela continuou — mas todo o mundo está comentando sobre 'o ruivo misterioso que conquistou o coração do Imprevisível'.
– Conquistou o coração, é? – o Shura zombou – Agora eu fiquei interessado, quem é o cara?
– Meu chefe. – A Marin, que em algum momento também havia se encostado ao balcão do bar onde nós estávamos explicou. — Camus Chevalier
Assim que o nome Camus Chevalier foi mencionado, o Deba gritou: – Ei, eu conheço esse nome! Ricaço, não é? Já vi em algum lugar! Acho que foi em uma revista. Estavam anunciando o noivado dele ou algo assim... Com aquela garota... – ele franziu a testa – Como é mesmo o nome dela? Aquela socialite que fez aquele comercial de cerveja.
– Paris Hilton? — o Shura arriscou.
– Não. — o Deba balançou a cabeça.
– Saori Kido. – eu completei, desgostoso.
– Isso! – ele pareceu feliz.- Eu li sobre isso em alguma revista enquanto esperava pra cortar o cabelo.
– Foi na Vip! – A Shaina falou. E então se virou pra Marin. – A edição de Outubro. Pega lá!
A ruiva correu procurar a revista.
A reportagem falava sobre o casamento e explanava a possibilidade da 'feliz união' representar uma significativa expansão da Invoice Finnancial and Factorig Corporate para o mercado japonês.
Abaixo vinha uma foto do casal.
Eu não sabia quem tinha produzido a foto, mas o briefing era bastante definido. Saori (rosto bem maquiado, cabelos escuros presos em um penteado elegante), de vestido e blazer creme Chanel. Camus em um terno cinza (Zegna? Ford? Impossível ter certeza), sentado em uma escrivaninha de mogno, segurando uma caneta de prata como se estivesse prestes a assinar um importante acordo, Saori de pé atrás dele, a mão no ombro do noivo, pose de esposa que apoia.
Eu senti vontade de vomitar outra vez.
Por Deus, quais eram as minhas chances de que o ruivo acreditasse em mim agora? Quer dizer, o raio do casamento dele com a dita cuja havia sido anunciado em uma revista. E não foi nem em uma revistazinha qualquer, não. Foi na Vip!
Eu quis de arrancar a revista da mão da minha cunhada e atirá-la longe, mas me controlei.
As três mulheres devoravam a matéria.
Fizeram vários comentários. Shaina disse que o Camus era 'lindo demais para um executivo' e a Marin que a Saori 'não fedia nem cheirava'. Tessa disse que a Saori era 'xexelenta', expressão ainda não conhecida por mim. Aprendi que queria dizer mais ou menos a mesma coisa que não fede nem cheira. Aumentando o vocabulário.
– E você não sabia nada sobre a garota? Nada? – O Shura quis saber
– Mais ou menos. – respondi — É complicado.
– Se fosse comigo io matava o maledeto – A Shaina falou — com minhas próprias mani.
Bem, baseado na reação dela quando nós terminamos o relacionamento eu podia apostar que sim.
– Você podia tentar pintar. – a Marin sugeriu – Você sabe, pra tirar esse sofrimento de dentro do corpo.
– É. – Tessa e o Deba concordaram — Acontece à beça. As pessoas pintam.
– Ou escrevem poesias – se meteu o Aoria.
– Isso me lembra aquelas mulheres nas praias em Corfu. — o Kanon, que permanecera inacreditavelmente em silêncio até então, se manifestou – Lembra Saga?
O Saga, que em algum momento também havia se juntado ao grupo, assentiu.
– As pintoras e poetisas do coração partido. – disse.
Eu também me lembrava delas dos nossos verões na ilha. Sempre caminhando sozinhas... olhos fundos, moleton cobrindo o corpo macilento.
– Andavam pela praia umas vinte vezes por dia. – o Saga explicou — Não sei por quê. Talvez achassem que as ondas consertavam tudo. Quase sempre iam explorar as dunas. Não sabiam que pertencia ao clube de golfe.
– De repente, — o Kanon continuou — estavam no meio do décimo primeiro buraco, as bolas raspando a cabeça delas.
Uma pausa estranha se instalou. Eles se olharam, e depois caíram na gargalhada.
– Desculpa – o Saga falou – É que... é que...
– Achavam que estavam vivendo um momento comovente, emocionante – disse o Kanon, o rosto contorcido de tanto rir. – Comungando com a natureza e tal... e, de repente... quase eram decapitadas por uma bola de golfe...
Eles voltaram a rir.
– Por favor, Milo... – o Saga pediu sem fôlego – tente se manter longe das praias, sim?
– E dos campos de golfe – o Kanon acrescentou, e dessa vez todos se juntaram as gargalhadas.
Eu olhei pra eles de forma fria.
Nenhuma intenção de andar por nenhuma praia.
Nem de começar a pintar.
Nem de escrever poesia.
As coisas já estavam ruins o bastante.
Ainda que eu nunca mais fosse amar alguém, não queria ficar amargo. Ou criativo.
oOOoOOoOOo
Camus POV
Quinze minutos pra meia noite.
Todos sentados na sala de estar esperando a grande novidade que havia trazido meu pai e Brigitta – a mãe do Dite – de volta de sua interminável Lua de Mel.
Sim, eles haviam voltado. Apareceram pela manhã sem avisar ninguém dizendo que passariam a virada do ano com a família. Tinham novidades pra contar. Meu pai perguntou da empresa – nada de novo –, e Brigitta reclamou da minha aparência. Acusou o Dite de não estar cuidando direito de mim, como se ele fosse minha esposa ou algo do gênero. Também notaram a falta do Hyoga. Ninguém perguntou da Saori.
– E então, por que não nos contam por que queriam reunir a todos nós esta noite? – O Dite começou, curioso, enquanto os criados se punham a servir o licor após a refeição.
Nós havíamos antecipado as festividades. Nossos pais ainda estavam no fuso Londrino, e seria difícil pra eles esperar até a meia noite pelo jantar.
O cozinheiro havia feito meu prato favorito, pato trufado com brie e damasco, e torta de maçã para sobremesa. Mas eu não conseguira comer direito. A comida estava estranha, com gosto de isopor. E a torta estava melada, parecendo cartolina úmida, os pedaços de maçã lembravam umas coisas mortas. Os outros não concordaram comigo.
O Shaka e o Mú experimentaram a torta, disseram que não tinha gosto de cartolina. O Máscara provou, nada de gosto de cartolina. Maçã sim, cartolina não. O Afrodite experimentou, disse que estava ótima. Comeu toda. Ele nunca se servia de sobremesa porque precisava se manter longe das calorias, mas aparentemente não havia problemas se a sobremesa fosse de outra pessoa.
O olhar do meu pai foi do Dite para sua sorridente mulher. Eles estavam agora sentados um ao lado do outro no sofá, como o rei e a rainha de alguma etnia mitológica de gigantes, trocando olhares como se compartilhassem algum segredo.
Em volta deles, como seu pequeno séquito, estávamos eu, Dite e Mascára, Shaka e Mú – convidados por nós, não pelos nossos pais -, Oliver e Karin – tios do Dite, Karin era irmã caçula de Brigitta -, com os pequenos Hans e Hugo, e Miles e Octavia, amigos de faculdade do casal.
Meu pai pôs o braço em volta dos ombros de Brigitta, e ela sorria.
O amor devia ser assim, eu pensei então sentido o coração aquecer e ao mesmo tempo se apertar. Brigitta provavelmente nunca iria acordar pela manhã e se deparar com meu pai traindo-a.
Por pouco tempo eu alimentara a tola idéia de compartilhar uma harmonia assim com Milo, mas agora...
Mon Dieu! Será que eu não podia passar pelo menos algumas horas sem pensar nele? Só uma ou duas horas, era tudo o que eu pedia. Isso andava parecendo uma coisa impossível nesses dias. Era como uma espécie de obsessão compulsiva, sabe? Tipo lavar as mãos o tempo todo. Ou comer nozes. Quando começava, não conseguia mais parar.
– Daqui a oito meses – meu pai anunciou, prendendo a atenção de todos pra depois fixar o olhar em mim e no Dite — vocês vão ter um irmãozinho ou irmãzinha a quem mimar.
Nós ficamos boquiabertos. E não fomos só nós. Admirados, todos se alegraram, e as mulheres correram para abraçar e cumprimentar Brigitta. Meu pai também não foi poupado de toda aquela efusão. Penduradas em seu pescoço, elas o puxavam para conseguir beijar seu rosto e abraçá-lo. Os homens foram mais comedidos, dando um beijo em Brigitta e um aperto de mão no meu pai. A exceção foi o Afrodite que com os olhos azuis piscina brilhando de contentamento emitiu gritinhos de satisfação e correu se pendurar nos dois feito uma criancinha.
Logo a contagem regressiva pro começo do ano começou e as felicitações se misturaram as saudações de 'feliz ano novo', ao espocar das rolhas de champagne e ao barulho dos fogos estourando lá fora.
Preso por uma multidão de braços eu me esforcei pra cumprimentar a todos, tentando lembrar de como sorrir. Então recuei um pouco e fiquei olhando a comemoração com uma sensação estranha de separação.
Estavam todos tão felizes, eu pensei. Oliver e Karin tinham seus filhos e estavam alegres porque o pequeno Hans e Hugo, um bebê, iam ter um primo com quem brincar. Miles e Octavia, recém casados pela segunda vez, ainda não haviam começado a aumentar a família, mas era evidente, por sua expressão, que planejavam fazer isso logo. O Dite estava radiante com a possibilidade de um irmãozinho e olhava de um jeito meio derretido pro Máscara. Eu não precisava ir muito longe pra adivinhar o que aquele olhar significava. Nunca foi segredo pra ninguém que o Afrodite sonhava em casar e adotar uma criança. Mesmo Mú e Shaka, provavelmente envolvidos pelo clima de festa, trocavam carinhos afetuosos um pouco a distância.
Eu os olhava com uma sensação estranha de confusão e inveja. Ter um filho não era novidade. As pessoas vinham fazendo isso durante anos a fio, então por que todo mundo agia assim? É claro que eu compreendia que aquele era um acontecimento muito feliz para minha família, e eu mesmo me sentia animado — na medida do possível — com a notícia, mas realmente não achava que fosse motivo para todo aquele espalhafato.
Ao mesmo tempo, queria que parassem com aquilo, porque quanto mais todo mundo se alegrava, mais agitado eu ficava. Tinha inveja do meu pai e Brigitta, assim como de Afrodite e Máscara e de Shaka e Mú. Invejava qualquer pessoa que tivera a sorte de encontrar alguém na vida – alguém afortunado o suficiente pra amar e confiar incondicionalmente em outra pessoa. Eu desejava isso, e achava que nunca iria acontecer. A pessoa não tinha que apenas receber amor, tinha que saber aceitá-lo, e eu não tinha idéia de como fazer isso.
Eu queria poder aceitar o que o Milo dizia sentir por mim, queria confiar nele, queria acreditar que tudo o que ele dizia era verdade, queria muito. E por um momento, quando olhara dentro dos olhos dele naquele dia, eu quase acreditara. Quase me convencera de que ele realmente se importava comigo. Quase. Mas ainda persistia aquela dúvida. Aquela voz no meu cérebro me falando que ele estava apenas dizendo o que eu queria ouvir. E isso era medo afinal.
– Suponho que você será o próximo? – eu ouvi a voz do Shaka dizer, também observando toda aquela alegria à distância. Eu não havia notado quando ele se aproximara.
Eu olhei pra ele forma interrogativa.
Ele apenas deu de ombros em resposta.
– Filhos – disse a guisa de explicação — Gosto da idéia de vê-lo atormentado por um monte de pirralhos aos berros. – Havia um tom de riso na sua voz.
– Poderia desejar a mesma coisa a você. – eu falei de forma fria.
– Duvido – ele disse no mesmo tom — Ainda aposto em você.
Eu balancei a cabeça.
– Isso nunca vai acontecer.
Ele sorriu.
Nós ficamos então em silêncio, ali em pé, separados do resto das pessoas. E, com excessão do Mú, mais ninguém pareceu notar que não estávamos tão envolvidos quanto eles.
O celular do Shaka tocou. Ele olhou no visor e disse:
– Tenho que atender essa ligação.
Era um dos clientes dele (político importante). Parecia que queria ir pra Milão ou algo assim, e que o Shaka providenciasse a papelada que precisava pra viagem.
Shaka colocou os óculos, consultou o que parecia ser um agenda interminável no Blackberry dele, depois disse:
– Não. O senhor não pode ir pra Milão amanhã, é aniversário da sua esposa. Não, não vou arranjar nada pro senhor. Isso mesmo, recusando. Você ainda vai me agradecer por isso. Estou te mantendo longe de um divórcio litigioso.
Ouviu um pouco mais e então deu um sorriso arrogante: — Me demitir? Não seja besta! – desligou. – Onde estávamos?
Eu o fitei incrédulo.
– Ah, Shaka – eu alertei – tudo bem você recusar arranjar viagens pra Milão pro seu cliente? E se for importante?
– Não se preocupe, – ele sorriu e virou a cabeça para olhar para os outros mais uma vez. — sei de tudo o que está acontecendo. A situação em Milão não requer a presença dele. Suspeito que esteja de olho numa mocinha italiana. Não vou facilitar pra ele.
Eu balancei a cabeça em negação. Dieu, eu estava cercado por loucos.
Nós ficamos em silêncio outra vez até o Mú vir chamá-lo pra ver alguma coisa.
Antes de sair, no entanto, ele se voltou para mim outra vez.
– Camus – disse.
– Oui? – eu respondi.
Ele me olhou com uma expressão cheia de significado, e então sorriu
– Prometa que não vai desistir daquele grego maluco ainda. Gostaria muito que ele fosse o pai dos seus pirralhos barulhentos.
oOOoOOoOOo
Milo POV
Era por volta das três horas da manhã, talvez menos, quando resolvi ir embora. Fui o primeiro a deixar o local, exceto pelos gêmos que haviam saído logo após a meia noite por conta de um caso em que estavam trabalhando; não aguentava mais aquele barulho e as pessoas felizes à minha volta. Todos me desejaram boa noite (se eu conseguisse pregar o olho já seria uma vitória) e um feliz ano novo (que aquela atura eu duvidava que aconteceria), e eu menti pra Marin que voltaria pro almoço no dia seguinte.
Eu entrei no carro e liguei rapidamente o aquecimento. Fazia uma madrugada fria e chuvosa. Pra piorar eu havia apanhado uma certa friagem nos últimos dias e ainda sentia meus ossos gelados. Bem feito pra mim por ter ficado lá, olhando pra ele feito um idiota em baixo de chuva, e depois vomitando no jardim sob toda aquela neve. Eu pensei que poderia comovê-lo um pouco, que ele mudaria de idéia depois de saber da verdade sobre a tiara. Mas o ruivo parecia um iceberg humano. Bem, da próxima vez eu já saberia o que esperar.
Outra vez aquela sensação de estar sendo seguido. Eu andava tendo essa sensação com uma constância um tanto alarmante ultimamente.
Outra olhada no retrovisor e mais uma coferida nos espelhos laterais do carro. Nada.
Maravilha! Agora além de obcecado pelo Camus eu também estava ficando paranóico. Eu realmente precisava começar a me preocupar comigo mesmo porque nesse ritmo logo eu estaria criando amigos imaginários e ouvindo vozes. Então poderiam me apelidar de 'Mente Brilhante' e me internar no St. Vincent porque teria ficado maluco.
Quando cerca de trinta minutos depois parei o carro em frente ao meu prédio fiquei surpreso de ver alguém estendido sob a chuva nos degraus de entrada do edifício. Eu não era o único que morava por lá, então pensei que pudesse ser algum dos outros inquilinos que se execedera nas festividades e bebera além da conta.
Fazia uma noite realmente fria, então resolvi parar pra acordar o pobre coitado. Foi aí que percebi que a roupa dele estava suja e rasgada em algumas partes, além de manchada de sangue.
Se fosse um bêbado com certeza tinha se metido numa bela briga, eu pensei enquanto virava o corpo pra cima com cuidado pra evitar causar mais dano caso o sujeito estivesse ferido.
Ele estava ferido. Percebi isso assim que vi seu rosto. Ali, na rua escura e nebulosa eu não conseguia distinguir suas feições mas podia perceber que estava inchado e todo machucado, quase inteiramente coberto de sangue, tão grosso que nem toda a chuva conseguira lavá-lo.
Foi nesse momento que um vento gélido soprou afastando um pouco o nevoeiro e a luz de um poste de iluminação incidiu sobre o rosto desfeito a minha frente. E eu finalmente pude ver de quem se tratava.
– Deus do céu! – eu ofeguei — Não!
oOOoOOoOOo
Kanon POV
– Eu quero que você tenha em mente que nós vamos fazer essa pesquisa aqui porque é mais seguro e não só pra conseguir entrar nos sistemas de segurança do governo. – meu irmão falou.
Ele estava de pé no escritório do nosso apartamento, ainda vestido no roupão de seda de seda preta que havia colocado depois do banho, andando de um lado pro outro em frente a escrivaninha.
– Humm – eu respondi, enquanto me sentava em frente ao computador, e iniciava o programa de quebra e descriptografia de dados que eu mesmo havia criado.
– Estou falando sério. A questão mais importante aqui não é esta. – os olhos dele se estreitaram.
– Se você está dizendo, — eu disse — eu acredito.
Ele apertou os lábios.
– Pode enfiar seus comentários debochados você sabe bem onde, Kanon. O motivo de escolher trabalhar aqui é que eu desconfio que Pandora tenha tantos programinhas ilegais quanto você, e eles devem ter o mesmo menosprezo pela privacidade alheia. Pode ser que consigam acessar o computador da central, e eu não quero dar chance pra eles xeretarem nada da investigação.
Eu olhei pra ele de forma displicente.
– Grande história, muito bem contada. Agora, se já acabou de tranquilizar sua admirável consciência, por que não vai pegar um pouco de café pra nós?
– Odeio quando você arma esse risinho de deboche. – ele disse mal humorado.
– Mesmo quando eu estou certo? – eu sorri.
– Pricipalmente nesses casos. – ele foi atá a cafeteira sobre a bancada – Estamos lidando com um grupo que não sabe o que é consciência, tem acesso a muitos recursos, habilidades técnicas fabulosas e um gostinho especial por penetrar em sistemas aparentemente seguros. – ao depositar as canecas na escrivaninha, tornou a sorrir – Isso tudo me faz lembrar alguém.
– É mesmo? – eu perguntei num tom neutro, sorrindo também enquanto aceitava o café que ele me oferecia.
– É por isso que eu quero usar todas as opções que temos em mãos, — disse — incluindo o cérebro criminoso que você tem aí dentro. – ele apontou pra minha cabeça.
– Maninho, ele está agora e sempre ao seu dispor. Por falar nisso, fiz alguns progressos sobre a Meikai e suas subsidiárias.
– Conseguiu alguma coisa? – ele se colocou em estado de alerta. – Por que diabos não me contou?
– Havia outras questões mais urgentes. Nós precisávamos de uma hora pra relaxar – eu lembrei – e eu precisava de você...
– Isso era prioritário – ele começou, mas parou de falar e balançou a cabeça, como se achasse que reclamar fosse perda de tempo. – O que conseguiu?
– Pode-se dizer que nada. – eu falei.
– Mas você acabou de me dizer que encontrou algo novo.
– Não, — eu corrigi — eu disse que havia feito alguns progressos, e esses progressos não significam nada. Eles não são nada. A Meikai não é nada. Eles nem mesmo existem.
– Mas é claro que existem. – uma onda de frustração pareceu invadir-lhe. – Eles aparecem em toda parte. Possuem companhias eletrônicas, empresas de armazenagem de produtos, complexos de escritórios e fábricas.
Nós haviámos feito pesquisas em cima do nome Pandora e chegamos a diversas empresas como a Pandora Jeweler, Pandora Unlimited, Hipnos Eletrônicos, e a Cronos Ltda. Todas listadas em endereços falsos, sem registros financeiros, ou cadastro de funcionários e igualmente ligadas ao grupo Meikai.
– Tudo isso existe apenas nos registros – eu expliquei – Pode-se dizer que a Meikai é uma empresa virtual. Só que na vida real ela não é nada, nem mesmo existe. Não há prédios comerciais, nem filiais, nem empregados, nem clientes. Tudo é fachada.
– Uma fachada virtual? Mas qual a finalidade disso? – de repente ele pareceu se dar conta – Uma distração, — esbravejou — um desperdício de tempo. Só pra nos fazer gastar energia, sei lá... Eles sabiam que faríamos uma busca completa a partir do nome Pandora e que chegaríamos a tal Meikai e depois as outras empresas fantasmas. Acabamos perdendo um tempo precioso rastreando o que nunca existiu, pra começo de conversa.
– Não perdemos tanto tempo assim – eu assinalei – E quem quer que tenha montado esse labirinto, um labirinto muito complexo e bem estruturado por sinal, ainda não sabe que desvendamos a estratégia.
– Eles acham que continuamos investigando – ele confirmou balançando a cabeça devagar. – Então vamos continuar a busca por meio dos canais oficiais, e cozinhar a pesquisa em fogo lento para que Pandora pense que ainda estamos entrando em becos sem saída.
– Issa vai aumentar a autoconfiaça deles, — eu concordei — enquanto nós nos concentramos em outras áreas.
– Certo, dá pra seguir nesse esquema. Agora, eu preciso que você me consiga tudo o que puder sobre Pandora. E não quero apenas o perfil, quero o que está por baixo. Preciso compreendê-los pra tentar obter uma percepção melhor do grupo.
– Então é por aí que temos que começar.
– Preciso de nomes, Kan. Nomes e dados. Dados dos membros conhecidos: Radamanthys, Zelos, Iwan, Flégias. Dos suspeitos, Valentine, Minos, Lune, Niobe... enfim, de todos. Todos os envolvidos nos atentados vivos ou mortos.
– O FBI talvez tenha alguma coisa. Os arquivos devem estar lacrados, mas nada que não possamos dar um jeito. – eu sorri divertido com a óbvia relutância no rosto dele – Isso vai levar algum tempo.
– Estamos com uma leve pressão em termos de tempo. – ele disse, então suspirou – Certo. Comece logo.
Eu assenti e me pus a trabalhar nos códigos, equanto Saga revisava mais uma vez tudo o que já havíamos descoberto sobre Pandora e os atentados.
Eu olhei pra sequência de códigos binários em verde na tela. Conhecia aquele caminho, já o percorrera antes, a trabalho, ou só por diversão, e atravessei os níveis fortemente codificados do FBI como uma sombra na escuridão. Sorri satisfeito quando vinte minutos depois a mensagem de 'dados carregando' aparaceu na tela. Minha parte terminava ali, agora era esperar o programa fazer a dele.
– Pandora Unlimited, Hipnos eletrônicos, Cronos Ltda., Grupo Meikai, — eu suspirei, me recostando na cadeira — nosso cara realmente gosta de simbolismos.
– E não pára por aí. – meu irmão levantou o rosto dos papéis, os óculos de leitura ainda sobre o nariz. — Wyvern, Basilisco, Harpia, Grifo, Minotauro...
– Todas criaturas mitológicas. – eu completei.
– A propria refência à Pandora. – ele continuou, levantando-se e se pondo a andar pela sala — A caixa de Pandora é muitas vezes vista como um elemento de destruição. Destruição e reconstrução. De modo que o simbolismo fica bem evidente. 'Os arautos de um novo mundo', 'Os senhores do caos'. Poder e destruição, é claro, mas também um distânciamento entre eles e os mortais. A crença, a arrogância de que eles, ou quem quer que os lidere, têm o conhecimento superior e a habilidade de governar a nós, pobres mortais. Talvez até se importem conosco, à maneira implacável e fria típica dos deuses. Poderão nos usar, como vêem fazendo com o garoto, Seiya, e a irmã dele, sempre que tivermos o potencial de sermos úteis aos seus propósitos. E depois de acabarmos nossa tarefa seremos recompensados ou punidos, conforme acharem mais adequado.
– Huumm... Esse é um ângulo que vale a pena analisar. – eu disse lançando meu olhar sobre ele outra vez. O roupão dele havia aberto, revelando deliciosas porções de carne nua e seda. Eu mordi os lábios — Mas acho que vamos ter que deixar isso pra amanhã.
– Ainda não. – ele disse, voltando a examinar os papeis — Está cedo, dá pra aguentar mais uma hora.
– Ótimo – em um movimento rápido eu fui até ele e o joguei de costas sobre a mesa.
– Ei! – ele reclamou.
– Se você aguenta mais uma hora, — eu disse sugestivo — acho que vai dar... Você me apressou, mais cedo.
Ele me olhou muito sério sob os óculos de leitura.
– Nós não vamos transar agora, Kan.
Eu comecei a desfazer o nó que prendia seu roupão.
– Tudo bem, eu transo sozinho e você só fica deitado aí quietinho.
Ele segurou minhas mãos.
– Qual parte do 'não' você não entendeu?
– Você não disse não. – Eu abaixei a cabeça pra acariciar-lhe o rosto com o nariz. – Você disse que nós não íamos transar, o que é completamente diferente. Se você tivesse dito 'não' – meus dedos se soltaram dos seus e se esgueiraram pra dentro do roupão -, é claro que eu respeitaria a sua vontade.
– Está certo, — ele disse tentando levantar — me escute um instantinho...
Mas eu não o deixei continuar. Antes que ele tivesse a chance de falar, minha boca já estava colada a dele. Os óculos atirados de qualquer jeito no carpete, enquanto minhas mãos se moviam, deslizando pela carne macia. Um gemido escapando de seus lábios.
– Tudo bem. – Ele desistiu e suspirou ofegante enquanto meus lábios percorriam uma trilha quente ao longo de sua garganta. – Acho que não tem muito mais o que nós possamos fazer aqui essa noite mesmo.
– Pelo contrário. – Eu levantei o rosto pra olhar dentro de olhos azuis escurecidos — Eu consigo pensar em um monte de outras coisas.
– Ah, é? – ele estreitou os olhos, sorrindo com malícia, enquanto seus dedos desabotoavam minha camisa com habilidade — Como o quê, por exemplo?
Eu senti uma onda de excitação me tomar diante daquele sorriso. Em segundos meu sangue estava quase fervendo.
– Deixe-me fazer algumas sugestões.
A primeira idéia foi-lhe comunicada em um sussurro enquanto eu via seus olhos brilharem de prazer
–Hum, isso me parece tentador. – ele disse — Só não sei se vai ser fisicamente possível.
Eu sorri.
– Nunca saberemos se não tentarmos.
oOOoOOoOOo
Saga POV
Ele soltou um palavrão e praguejou em nossa língua natal quando alguns minutos mais tarde nosso celular recomeçou a tocar pela terceira vez. Alternadamente.
Saindo de cima de mim, olhou no visor do aparelho e então soltou um suspiro frustrado conectando o telefone ao computador no modo de videoconferência.
O rosto de uma jovem loira vestida em uma farda policial apareceu na tela.
– É bom que alguém tenha morrido, June. – meu gêmeo falou irritado com a interrupção.
O rosto antes sério de June abriu um sorriso.
– Feliz ano novo pra você também, Boss. — Então os olhos verdes da garota passaram pela camisa aberta do Kanon, em pé de frente a mesa, até o roupão mal arranjado que eu vestira as pressas antes de me sentar diante da tela.
– Hum... – ela disse, em um tom sugestivo – estamos trabalhando em casa hoje? Por que eu não estou aí?
– Por que graças a Deus você não mora aqui. – o Kanon retrucou – Agora desembucha.
Ela levantou as mãos em sinal de paz.
– Tudo bem, tudo bem. – disse, e então ficou séria — Nós conseguimos aquelas informações que vocês pediram.
Eu e o Kanon trocamos olhares. Ele puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado na escrivaninha.
– Manda ver. – disse.
Ela assentiu.
– Radamanthys Wyvern, ou Radamanthys J. Hughes, como foi batizado, — ela começou -nasceu na Ilha Fellows na Inglaterra, no dia 30 de Outubro de 1975.
A imagem de um rosto bonito, másculo, boca bem feita e olhos da cor de wisky foi exibida em uma foto na tela.
– Eles raramente parecem loucos – eu murmurei.
– 'O Juiz', como é conhecido, — June continuou — veio de uma família solidamente estabelecida no Sul da Inglaterra. Mudou-se com os pais para os Estados Unidos em 1979, e foi naturalizado americano em 3 de fevereiro de 1982. Boas escolas preparatórias, Princeton, administrador na área de ciências. Provavelmente foi praparado pra seguir carreira política. Cumpriu serviço militar na Força Tática Especial em 1993 e trabalhou durante dois anos como atirador de elite para CIA. Não tem irmãos e seus pais já estão mortos.
– Bom trabalho, oficial, como conseguiu todos esses dados? – eu perguntei.
Ela sorriu.
– O loirinho que vocês me emprestaram sabe o faz. O comandante Shion conseguiu o nome de batismo do supeito e o garoto deu um jeito de levantar todas as informações no sistema. O Kanon só precisou ensinar o caminho e ele seguiu direitinho.
Eu lancei um olhar severo para o Kanon.
– Era pra June proteger o Hyoga enquanto estávamos fora, Kan — ralhei — não pra explorar o garoto.
– Mas o moleque tem habilidade, Sa. – meu irmão respondeu – E ele estava louco pra ajudar.
Eu balancei a cabeça — era mesmo inútil discutir com o Kanon – e me voltei outra vez para a garota na tela.
– Prossiga.
Ela assentiu.
– Ele se casou com Jéssica Alward, americana, em 1996, com quem teve uma filha: Anna, nascida em 23 de Dezembro do mesmo ano.
– E onde elas estão agora? – eu quis saber.
– Aparentemente mortas.
– As duas? – meu irmão perguntou
Ela assentiu.
– E na mesma data. Em 14 de Abril de 1999. Explosão. Sua casa toda foi pelos ares. Na versão que veio a público, ele mesmo quem a explodiu, mas eu duvido. Pra mim os federais estão por trás do ataque.
– Nós já vamos saber. – o Kanon estreitou os olhos e começou a teclar alguma coisa no computador.
Eu adorava observar a forma como os dedos alongados dele pareciam dançar sobre as teclas. Logo outra janela se abriu ao lado da imagem de June na tela. A mesagem de dados carregados aparecia em verde no fundo escuro enquanto um tracinho piscava no canto esquerdo esperando a execução do comando. Os dedos ágeis do meu irmão trabalharam nos teclados mais uma vez e logo páginas e páginas de arquivo descriptografados apareceiam na tela
Ele sorriu satisfeito quando seus olhos pousaram na informação que queria.
– Aqui está a confirmação. A hora, a unidade designada para o serviço e a autorização pra a ação. Parece que a esposa e a filha estavam em casa com dele.
– Você está me dizendo que o FBI fez a casa dele ir pelos ares a fim de liquidá-lo e acabou matando sua esposa e sua filha? – eu perguntei incrédulo.
– A esposa, a filha, dois de seus amigos mais próximos e mais três pessoas ainda não identificadas. – a June respondeu.
– Mas por quê? — eu estranhei.
– Olhe só os arquivos, Sa. O FBI estava de olho nele. Ele estava sendo caçado desde que assumiu seu envolvimento com um grupo rebelde dissidente do exército. O governo acreditava que eles tinham ligações com facções terroristas da Espanha, França, Colômbia e Oriente Médio, e que que usavam de sua posição pra facilitar a entrada de refugiados políticos no país.
– E eles tinham? – eu quis saber
– Nada ficou provado. – o Kanon falou.
– Pelo que consta no meu relatório ele havia se escondido, – ela disse — vivia mudando de um lugar para outro. Usava nomes e documentos falsos quando necessário.
– Com a esposa e a filha? – Eu perguntei outra vez.
– De acordo com esses arquivos, — foi a vez do Kanon — ele as mantinha sempre em sua companhia. Até que o FBI o localizou, cercou sua casa, entrou e fez o trabalho. Queriam eliminá-lo e desarticular o grupo. Foi o que tentaram fazer.
– Mas não precisava ser feito desse jeito. – June lamentou.
– Não. – o Kanon disse – Mas em uma guerra, é muito raro que qualquer dos dois lados pense nos inocentes.
– Parece que ele tem motivo pra se revoltar contra o governo, afinal. – eu falei.
– Com certeza – meu irmão concordou.
– Mas o que mais nos chamou atenção — a June continuou — foram os nomes que aparecem ligados ao suposto grupo rebelde de Radamanthys. Nomes como Zelos, Valentine, Minos, entre outros.
Nós nos entreolhamos.
– E tem mais. – ela prosseguiu — De acordo com os meus dados eles eram liderados por uma pessoa. Embora seu nome não seja mencionado, tudo indica tratar-se de um figurão militar. Aguém de alta patente dentro do exército e da CIA, a quem todos os textos referem apenas por Hades.
Nossos olhos se cruzaram outra vez.
Hades, o senhor implacável e invencível da morte. Que sujestivo! Seria ele puxando as cordas por trás de Pandora também? Provavelmente. E se fosse, o que ele queria? O que desejava aquele deus autoproclamado? O que todos os deuses queriam? Adulação, medo, poder e glória.
– Kan, — eu chamei de repente – você gostaria de governar o mundo? Ou ao menos parte dele?
Ele riu.
– Por Deus, não! Seria trabalho demais pra pouca remuneração, além de pouco tempo de sobra pra curtir meu reino. — ele disse — Se eu tivesse que escolher, prefiriria muito mais ser o cérebro por trás dos bastidores do governo. – sorriu — Quanto a governar? – ele olhou pra mim — Isso eu deixo pra você, maninho.
Nós rimos um pouco.
– Pois ele quer. – eu falei depois de um tempo, sério novamente — Quem quer que esteja apertando os botões de Pandora quer estar no poder. Se tirarmos a bravata, tudo o que ele deseja é estar no comando. Não parece ser por dinheiro. Não consigo encontrar nenhuma referência a dinheiro nas mensagens.
O Kanon concordou com a cabeça.
– Apenas: 'se rendam seus policiais facistas'. – falou – 'Renunciem e tremam de medo, seus políticos gordos'. Coisas do tipo.
– June, — eu disse, me voltando pra garota outra vez — reúna tudo que conseguir sobre esse tal Hades, acho que estamos chegando perto.
Ela assentiu.
– Vou fazer uma pesquisa em separado pra ele.
– E lembre, nada de usar o computador aí da central – o Kanon alertou.
Ela concordou novamente e ia encerrar a transmissão quando o sinal sonoro de um alerta de e- mail tornou seu rosto muito sério de repente.
– Opa, — disse — parece que nossos amigos não respeitam datas comemorativas. Nova menssagem, rapazes. – ela olhou pra gente outra vez — Saudações de Pandora.
Nós ficamos imediatamente alertas.
– Efetue as verificações de segurança – eu disse — e envie uma cópia ao departamento de eletrônica pro rastreamento da mensagem. Embora eu duvide que eles consigam alguma coisa. – completei.
– Positivo. – ela afirmou, e então, depois de alguns minutos, anunciou: — Verificações de segurança efuadas. O arquivo está limpo.
– Ponha na tela. – o Kanon mandou.
Ela assentiu e logo a tela ficou preta. A imagem de June sendo substituída por letras que brilhavam em verde.
'Somos Pandora.
Somos os arautos do novo mundo.
Somos os senhores do caos.
O atual governo corrupto com seus líderes autocentrados e de pouca fibra deve ser e será destruído. Vamos desmontar, remover e aniquilar tudo o que for necessário para abrir caminho, a fim de implantarmos a verdadeira república. As massas não precisarão mais tolerar abusos, a supressão dos seus ideais e das suas vozes, nem o descaso dos poucos que se agarram ao poder.
Sob nossas leis, todos viverão livres.
Somos Pandora e exigimos que os senhores nos mostrem o devido respeito previdenciando a libertação do seguintes heróis, que estão injustamente aprisionados nas instalações americanas em Cuba, que formam o campo de detenção de Guantánamo: Kagaho Adjo Ahmose, Edward Mitchel, Fiodor Ian Tarasov, e Verônica Bastazini.
Estes patriotas que lutaram pela liberdade deverão ser soltos ou todas as vidas que se perderão serão responsabilidade de vocês.
Apresentaremos nossas demais necessidades e exigências no momento certo. Ate lá uma pequena amostra do alcance de nosso movimento lhes será fornecida às 03:00 desta madrugada. Vocês acreditarão em nós. E então nos ouvirão.
Somos Pandora.' (1)
– Uma amostra? – Foi tudo o que nós fomos capazes de dizer, em uníssono, antes de conferir o relógio no monitor.
Os números marcavam 2:45.
oOOoOOoOOo
Camus POV
Eu estava exausto. Já ia perto das quatro quando todos os convidados finalmente se retiraram pra suas casas. Bom, pelo menos a maioria deles, o Afrodite havia saído em um encontro de ano novo com o Máscara logo após a meia noite. Eu não tive coragem de lhe pedir pra cancelar apenas por que eu me sentia um trapo e não queria estar sozinho com meus pesamentos outra vez.
Eu caminhei pelo corredor mal iluminado em direção a escada que levava aos quartos e acabei indo descobrir meu pai na biblioteca enquanto tencionava me servir de um pouco de literatura pra mais uma noite em claro.
Ele estava sentado lá, com seu livro preferido sobre o colo, uma taça de vinho na mão, e um fogo crepitante na lareira. Brigitta já havia se recolhido há algum tempo, ela sentia muito cansaço por conta da gravidez, meu pai explicara.
– Camus. – chamou.
– Oui? – Eu respondi apreensivo. 'Bom Deus, permita que ele não queira fazer perguntas'. 'Bom Deus, permita que ele não queira fazer perguntas' (prece interna)
Ele não queria.
Queria só alguém pra conversar mesmo.
Suspirando fundo – eu estava realmente muito cansado — eu me sentei na poltrona em frente a ele servindo-me também de um pouco do vinho, e então me dando conta de que não conseguia beber aquilo porque me fazia lembrar dele. Merd!
Ele perguntou sobre a recuperação do Hyoga e falou sobre a viagem e a empresa, mas eu não estava realmente escutando, em vez disso minha mente vagava pelas lembraças da última vez em que eu sentira aquele mesmo gosto de vinho em uma certa boca quente, macia, perfeita... Maldito seja!
– Camus? Petit? – a voz do meu pai chamou.
Eu pisquei rapidamente os olhos pra focar a visão.
E então a fatídica pergunta.
– Ce qui se passe? (2)
Eu respirei fundo de novo, mas dessa vez de frustração comigo mesmo. Qual era o meu problema afinal? Primeiro o Shaka, agora meu pai, desde quando eu havia me tornado uma espécie de livro aberto? Eu, o cara que passava horas todos os dias enquanto estava no no trânsito ensaindo a melhor cara de paisagem que alguém podia ser capaz fazer. E agora eu não conseguia mais me concentrar em uma simples maldita conversa? Que tipo de idéia fixa era aquela? O que aquele loiro havia feito com o meu cérebro?
Eu percebi que a coisa era pior do que eu pensava quando ouvi a mim mesmo dizendo:
– Père... Você acha que seria muito ruim se eu non me casasse com a Saori?
– Non se casar com a Saori? – ele pareceu surpreso — Et pourquoi? Elle est une fille si belle... (3)
Belle, eu pensei. Sim, a Saori era mesmo bonita, tudo bem.
– E se em vez da Saori, — eu insisti. Agora que havia começado iria até o fim — eu gostasse de outra pessoa? E se em vez dela, eu... eu gostasse de um homem?
As sobrancelhas grisalhas do meu pai se levantaram até onde podiam.
– Un homme?
– Oui. Et si j'ai aimé un homme? (4) Você acharia muito ruim?
Tudo bem, agora era oficial, eu havia enlouquecido.
Quer dizer, quem em sã consciência tem esse tipo de conversa com o próprio pai? (o Afrodite não conta).
Levou algum tempo até que ele respondesse.
– Ah, mon Dieu! – ele exclamou então parecendo aflito — Você... e o Afrodite...?
Ele não precisou terminar a frase.
– Non! — eu neguei — É claro que non!
Dieu, de onde ele havia atirado aquilo?
Suas feições pareceram relaxar com a minha negativa e ele suspirou.
– Bien, je adore l'Aphrodite, vous sais,(5) mas essa família já é très cofuse pra que tenhamos que lidar com mais essa situação, vous comprenez.
Eu assenti. É claro que eu entendia. Que idéia.
– Mon petit – ele disse então amavelmente – Se você non quer mais se casar com a Saori. Ou se quer partir pra une relation différente, vá em frente. C'est la vie. Só pense em un bon presente pra dar a Mademoiselle, porque elle va être très desapontada com a sua escolha.
Eu não tinha dúvida sobre isso.
E como minhas chances de realmente ter algum tipo de relacionamento de verdade com o Milo era, como vocês sabem, praticamente nulas aquela altura, eu disse ao meu pai que não se preocupasse, e pretextando uma dor de cabeça me retirei para o quarto.
Eu subia as escadas quando uma forte batida na porta de entrada ecoou pelo vestíbulo, me fazendo parar. Quem poderia ser àquela hora? Eu me perguntei. O Hyoga estava viajando, o Afrodite tinha a chave, e nós não estávamos esperando nenhuma visita.
Prestando atenção, eu ouvi, com um mau pressentimento que não sabia explicar, quando a porta foi aberta.
A exclamação espantada de Brian me fez descer apressado as escadas e correr até o vestíbulo.
Meu coração parou de bater.
A primeira coisa que eu percebi foi que Milo Scorpion estava na minha casa. Ele estava todo molhado. O cabelo grudado no rosto e os olhos arregalados, do tamanho de dois pires, destacando-se muito azuis na palidez gelada de sua face.
E só então notei que ele carregava algo pesado nos braços. Eu franzi a testa. Seria uma pessoa?
Ele adiantou-se, mesmo sem que alguém o tivesse convidado a entrar. Suas costas estavam levemente arqueadas sob o peso que carregava, e assim que entrou eu vi que se tratava realmente de uma pessoa.
Eu forcei alguns passos à frente. Por algum motivo minhas pernas pareciam feitas de chumbo. Meu coração batia descompassado sem que eu entendesse o porquê. Eu estendi a mão com os dedos entorpecidos quando ele parou bem a minha frente, oferecendo-me a pessoa que estava em seus braços, para que a visse, como numa espécie de sacrifício pagão.
Quando meus dedos tocaram o cabelo loiro, úmido e frio, foi como se todo o ar tivesse se projetado pra fora dos meus pulmões. Minha vista ficou turva. Eu sabia quem era mesmo antes de ver o rosto pálido e ensanguentado aninhado no ombro de Milo.
– Dite! — eu exclamei.
Notas:
1 — Alguns trechos e termos dessa mensagem, foram retirados da série Mortal de J.D. Robb — eu não levo muito jeito pra cartas terroristas XD
2 — O que está acontecendo?
3 — E por que? Ela é uma moça tão bonita.
4 — E se eu gostasse de um homem?
5 — Bom, eu adoro o Afrodite, você sabe.
Notas finais
Desculpe a demora dessa vez, mas, acreditem, eu realmente tive motivo, não vamos entrar em detalhes, digamos apenas que eu estava sofrendo de escasses. Escasses de tempo, escasses de idéia, escasses de inspiração, etc, ect, etc. Bom, acho que todo mundo que escreve deve saber como é isso, então peço a compreensão de vcs. Sei como é ficar curioso com a continuação de uma história, mas fazer o que, não dá pra inventar tempo, nem sair escrevendo qulquer coisa, então... vamos ao ch ^^
Primeiro, e antes de mais nada, abaixem as armas, o Afrodite não morreu, ok? Então por favor não me matem. *se esconde* Eu prometo que ele saíra dessa lindo e ileso, sem nenhuma marquinha XD
Eu sei que maioria de vcs morre de amores por ele *a autora morre de amores por ele tb* mas eu juro que não escolhi ele por causa disso, já era pra acontecer isso com ele desde o primeiro ch mesmo.
Certo. Agora que já esclarecemos esse ponto *sai do esconderijo* vamos falar do resto do ch ^^"
Com certeza o grande diferencial desse ch é o POV dos gêmeos, e como eu estava com muitas dúvidas de qual deles deveria narrar a cena, e considerando que a cena era meio grandinha, dividi ela e acabei fazendo um POV pra cada, o que deixou o ch gigantesco XD. Mas espero que não muito entediante. Eu fiquei muito em dúvida sobre expor ou manter nas entrelinhas a relação entre Saga e Kanon, resolvi expor. Afinal, era assim que eu tinha imaginado eles mesmo, então... Peço desculpas se ofendi alguém com isso.
E finalmente todas as cartas estão na mesa. Esse ch foi meio de passsagem, mas eu estou feliz porque até que enfim consegui revelar toda a dimensão da trama. Eu estava me sentindo culpada por não poder dar as informções que precisava, mas as vezes é dificil conseguir isso em uma fic estruturada em POVs. Eu sei que vcs ainda devem ter muitas perguntas, mas todas as informações serão relacionadas no seu devido tempo ^^".
E no final, Pandora não era Pandora. Quer dizer, não era a personagem Pandora de Saint Seiya. Aqui Pandora é uma organização. Sim, eu escolhi o nome de propósito pra brincar um pouquinho com vcs =D, e tb pq tinha a ver com a trama, claro, por causa do lance da caixa e tudo. Aliás acho que deu pra perceber que eu adoro flertar com a história original da saga, né? Então qualquer semelhança não é mera coincidência XDD
Quanto a Milo e Camus, como eu disse, foi um ch mais de passagem, principalmente no que se refere aos dois, mas eu precisava disso pro ch que vem. O que aconteceu com o Dite foi marcante e, claro, vai ter repercussões. E eu confesso que adoooro escrever essas cenas de família. A família do Milo quando se reúne é só risada, e eu vi uma oportunidade de explorar um pouquinho mais do Shaka, que estava tão apagadinho coitado. Enfim, espero que se divirtam.
Muito obrigada mais uma vez a todos que acompanham, e um agradecimento especial aqueles que me mandaram lindas reviews. Obrigada: Mel Dark, Kamy Jaganshi, Sarah, ddkcarolina, Kassiminha, Chakal_Maldito, sashinha, Hatake Sayuri, stocking, Soragami e Alexia-Black é sempre muito importante ter um feedback de vcs.
Bjos
PS: Créditos devidos a: Meg Cabot, Kathryn Smith, Marian Keys, J.D. Robb.
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