Aprendendo a Seduzir
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens, se você não gosta, não leia
Camus POV
A chuva caía sobre New York como uma vingança, tornando a neve escorregadia, em seguida meio derretida e suja, para só depois lavá-la completamente. Mesmo quando as ruas já estavam limpas, a chuva continuava a cair. Às vezes era uma garoa quase imperceptível, só notada quando chegava a molhar o rosto da pessoa ou sua roupa. De vez em quando também podia cair em forma de granizo ou em grossas e geladas gotas que enregelavam e ensopavam, parecendo até que o tempo nunca mais voltaria a ficar seco e quente outra vez.
Às vezes, como agora, a chuva caía torrencialmente, um muro de àgua que despencava do céu, provocando enxurrada e inundando tudo. Lançando a cidade inteira num triste aguaceiro cinzento.
Deitado na cama do meu quarto em Long Island, eu observava as gotas escorrerem na vidraça enquanto a luz da manhã se infiltrava pela janela, pálida e acinzentada. No final, eu não conseguira continuar naquele apartamento em Paris, eu pensei. Tudo nele me lembrava Milo. Por isso arrumara uma forma de fretar um vôo de volta a NY, na esperança reconfortante de me enterrar em pilhas e pilhas de trabalho.
Mas, à medida que o dia clareava, eu ia me sentindo cada vez mais distante do sono e da esperança que me enganavam. Não importava onde eu estivesse. Minha mente se recusava a me deixar descansar. Ficava repassando initerruptamente aquela noite – não toda ela, apenas as partes melhores e também as mais dolorosas. Lembrava-me das carícias de Milo umas mil vezes. E lembrava-me de sua traição duas vezes mais que isso.
E embora minha memória repetidamente me forçasse a repassar mentalmente tudo aquilo, uma parte minha ainda se recusava a aceitar que ele fosse tão horrível como eu estava achando. O coração me dizia uma coisa e a mente, outra. A qual dos dois eu deveria ouvir? Ou, melhor ainda, como fazer que ambos se calassem por um momento?
Finalmente, incapaz de permanecer deitado por mais tempo, eu atirei as cobertas para o lado e saí da cama, começando a me vestir.
Quando estava calçando as meias, uma criada entrou no quarto e pareceu surpresa por me encontrar ali, e desconfio que ainda mais por encontrar alguém acordado àquela hora da manhã.
– Não consegui dormir – eu aleguei apenas, sabendo que ela podia ver isso pelas minhas olheiras.
Ela não fez perguntas.
– O quarto está gelado. – comentou simplesmente, apressando-se a ligar o aquecedor. — O senhor deve estar congelando. – E então se pôs a ajeitar a cama.
O calor tirou o frio da minha pele, mas não podia me aquecer por dentro. Nada conseguiria fazer isso.
Lá embaixo, eu fui para a pequena mesa da sala de visitas onde sempre gostava de tomar o café da manhã. Meus dedos, eu percebi com irritação, tremiam levemente ao levantar o bule de prata. Eu enchi a xícara com o café quente e cheiroso. O sabor amargo foi como um presente em minha língua. Deu-me prazer. Tiraria disso toda satisfação que pudesse.
Algum tempo depois, quando terminava de besuntar manteiga em uma torrada, o Afrodite entrou na sala. Emitiu um gritinho de satisfação ao me ver de volta, então fixou o olhar azul piscina em meu rosto — nos olhos que eu sabia avermelhados e nas olheiras escuras que se desenhavam sob eles — e sua expressão de alegria se transformou em aflição.
– Deus do céu! O que é isso? – ele perguntou.
– Café da manhã – eu respondi, indiferente.
Ele bufou contrariado, então se sentou a minha frente, pegando um pãozinho da cesta de pão e partindo-o.
– Aconteceu alguma coisa entre você e o Milo? – ele tentou outra vez, enquanto se servia de uma fatia de queijo branco.
Eu obviamente pretendia discutir as coisas com ele, é claro. Mas não naquele momento. Se falasse naquilo agora, realmente ficaria doente.
– Não. – Eu menti.
Ele me olhou com uma expressão perspicaz. Essa era outra coisa que eu gostava no Afrodite: ele não era burro. Podia ser meio maluquinho com aquela coisa toda dos apelidos e a paixão por compras, mas não era burro.
– Então está com essa cara de quem foi atropelado por um caminhão e não dorme há três dias por que...?
– Obrigado pela parte que me toca, Dite. – eu falei mordaz, servindo-me de um pouco de presunto.
– Camus, é sério. Você parece péssimo. Eu nem estou te reconhecendo.
Eu engoli o presunto que parecia ter gosto de papelão e dei outro gole no meu café antes de respoder:
– É aí que você se engana, mon ami. Posso não estar na minha melhor forma física, mas estou finalmente em vias de me tornar eu mesmo outra vez. Isso tem algum sentido pra você?
Ele balançou a cabeça.
– Vou parar de me preocupar com o que as pessoas acham – eu expliquei -, com o modo como os outros pensam que eu deveria sentir ou agir. De agora em diante, vou fazer apenas o que a minha inteligência me apontar, como sempre fiz. Vou valorizar o que eu tenho como certo e parar de divagar sobre o impossível. Vou deixar de ser tão idiota.
Ele franziu a testa pálida.
– Ah, é? Que bom pra você! Agora vai me dizer o que provocou isso?
– É de se admirar as alegrias que alguém pode experimentar durante uma noite sem dormir. – Eu respondi, servindo-lhe de um copo do suco de laranja que ele sempre tomava.
– E o que exatamente não te deixou dormir? — ele perguntou outra vez, bebericando o suco.
Ele óbviamente não ia parar de fazer perguntas até que eu lhe dissesse alguma coisa. Além de ser naturalmente curioso, ele parecia realmente preocupado comigo. E na mesma medida em que eu queria esquecer temporariamente minha vergonha, também não queria lhe causar preocupação.
– Não quero discutir isso agora, — eu acabei falando — mas vou te dizer que é muito provável que Milo Scorpion não volte mais a aparecer por aqui.
De modo surpreendente, eu consegui manter a voz inalterada, embora meu peito doesse só de mencionar o nome dele. Eu era realmente um idiota. Muito mais do que jamais pensara que pudesse ser.
Os olhos azuis piscina se fixaram nos meus, entristecidos.
– Camus, eu sinto muito! – sua mão se fechou carinhosamente sobre a minha em cima da mesa.
Eu dei de ombros. Tinha que mostrar indiferença, ou desabaria de vez. E eu me recusava a dar essa satisfação aquele grego maldito. Já sofrera o suficiente depois que ele fora embora, não ia mais desperdiçar meu sofrimento com ele. Podia apostar que ele não estava fazendo isso por mim, então por que eu agiria de modo diferente?
A preocupação do meu amigo ficou ainda mais evidente quando eu retirei a mão que ele segurara para levar a xícara aos lábios outra vez. Ele nem precisava me dizer o que estava pensando. Pensava que a culpa era dele por ter dado meu endereço ao grego.
Eu fui impedido de dizer ou fazer qualquer coisa pela chegada de um criado.
– Desculpe, senhores, — ele disse — mas o senhor Scorpion está aqui. Devo mandá-lo entrar?
Eu senti uma reviravolta no estômago. Mon Dieu, o que ele estava fazendo ali?
Inspirando fundo e reunindo toda a coragem que podia para controlar o tremor das pernas, eu comecei a me levantar da mesa.
Não estava interessado em nada do que ele tivesse a dizer, e nem me importava que a pior parte do meu ser quisesse ver seu belo rosto de novo. Ia lhe dizer que não era bem vindo em minha casa, e que jamais voltasse a pôr os pés ali.
A mão do Dite em meu braço me fez parar.
– Deixe que eu vou. – ele disse.
– Eu não preciso da sua proteção, Afrodite. – Eu falei de forma fria. Estava irritado.
Ele se levantou e disse:
– Sei disso, meu querido. — ele revirou os olhos — Mas o Milo certamente precisa de proteção em relação a você. — Então sua expressão mudou de enfado para verdadeira preocupação. A voz estava calma quando disse no meu ouvido: — Se ele o visse agora ia saber que passou a noite rolando na cama, sem dormir por causa dele. Você não quer dar essa vantagem a ele, quer?
Eu não havia pensado nisso. Acabei cedendo.
– Pardon, Di. – eu disse – Merci.
Ele me dirigiu um sorriso e então se foi, ligeiro, para encarar o adversário.
– Talvez tenha vindo porque estava com remorso – comentou ainda antes de sair.
Eu teria rido naquele momento, se fosse capaz disso.
– Talvez – concordei, embora duvidasse disso.
oOOoOOoOOo
Milo POV
– Posso ajudá-lo, senhor Scorpion?
Eu estava observando uma das muitas pinturas qua adornavam a imensa sala de pé direito alto onde o criado pedira que eu aguardasse.
O som daquela voz fez com que eu me virasse.
Não era Camus. É claro que não. Eu soubera disso no momento em que ouvira os passos no vestíbulo. Meu coração teria saltado se fossem os passos dele. Meu coração continuava morto.
Então ele havia mandado aquele loiro efeminado em seu lugar? Eu pensei. Bom, acho que eu deveria ter imaginado algo assim, mas esperava que ele tivesse passado uma noite tão péssima quanto a minha. Sentindo talvez tanta falta minha, quanto eu sentira dele.
Evidentemente, que isso era pedir muito.
O que eu estava fazendo? Eu me perguntei então, não pela primeira vez. Eu havia dito a mim mesmo que não faria isso. Que não correria atrás dele. Se ele se recusara acreditar em mim quando eu dissera que a tiara não tinha nada a ver com o que acontecera entre a gente; se ele não fora capaz aceitar o que eu era, o que eu tinha sido, então é porque jamais seria.
Eu havia desistido dele.
E mesmo assim estava ali agora. Engolindo outra vez meu orgulho, explodindo por dentro.
Eu dispensei os rodeios e fui direto ao assunto:
– Ele não quer me ver.
O loiro assentiu, embora eu não tivesse realmente feito uma pergunta.
– Receio que não.
Seu tom não era nada pesaroso. Talvez ele não tivesse sido enviado, afinal. Talvez tivesse se oferecido pra me enfrentar.
Eu devia ter imaginado essa espécie de recepção. Eu realmente não esperava que o Ruivo fosse me receber de braços abertos e me perdoar. Claro que não. Deus meu, eu nem sabia até chegar ali se ele havia ou não voltado de Paris! Mas talvez uma parte minha, uma bem pequena, esperasse. Só um pouco...
– O que ele te disse? – Eu quis saber.
O sorriso outrora amável estava frio e nada amistoso. Ele não se parecia em nada com o rapaz falante que eu conhecera no restaurante indiano, ou com o cara que me dera o endereço do Camus em Paris
– Nada. – ele disse — Não teve que fazê-lo.
O que aquilo queria dizer?
– Ele está bem? – eu perguntei.
– Não, senhor Scorpion, não está, mas vai ficar. Não se preocupe com isso.
Eu assenti. Ele falava como se o que dissera fosse algo que eu não desejasse, mas estava errado. Eu queria que o Camus se recuperasse. E mais rápido do que eu.
– Não vou retê-lo por mais tempo então – eu falei, pegando meu casaco. – Diga-lhe apenas que nada mudou, que ele ainda é a minha escolha. E diga-lhe... diga-lhe que há sempre um pouco de razão na loucura.
Ele franziu o cenho.
– Está bem.
Eu esbocei um meio sorriso.
– Obrigado – disse, e virei-me para ir embora.
– Milo? – eu ouvi a voz dele de novo
– Sim – eu respondi, voltando-me outra vez para o loiro.
Sua expressão não mostrava nenhum calor quando disse:
– Não sei o que você fez a ele, mas, o que quer que seja, espero que viva o bastante para que alguém te faça a mesma coisa.
– Eu também – respondi simplesmente com outro sorriso antes de sair.
Eu me perguntava como podia estar falando assim, como se não tivesse nenhuma preocupação, quando intimamente estava chorando. Mas essa era a verdade. Só que não uma verdade que eu quisesse compartilhar com alguém no momento. Muito menos com aquele loiro.
Lá fora, a manhã estava cinza e fria, com aquela chuva torrencial que parecia não querer parar de cair. Eu desci a passos largos os degraus da entrada, escorregadios por toda água e gelo acumulados neles.
Antes de entrar no carro relanceei os olhos pela casa uma última vez. Meu coração disparou ao notar o homem em pé diante da janela do vestíbulo. Eu não conseguia vê-lo claramente com toda aquela àgua caindo entre a gente, e sobre mim, mas, pelo vermelho dos cabelos, a silhueta esguia e os ombros largos, sabia que era ele. Nossos olhos pareceram se cruzar por um momento... então ele se virou de costas para mim e se foi.
Era um gesto claro de rejeição.
Quando entrei no carro, estava desconfortávelmente encharcado e enregelado. Tanto por dentro quanto por fora.
Fechei a porta. Olhei pra minha vida que não significava nada e pensei: estou completamente só. E vai ser assim pra sempre.
Não era uma questão de autopiedade. Estava simplesmente encarando os fatos.
Assim foi somente pra concluir as coisas que eu encontrei a porta aberta quando cheguei ao meu apartamento, e o local todo revirado.
'Dohko', eu mal tive tempo de pensar antes de entrever o sutil movimento às minhas costas. Então senti a fria lâmina de aço contra a garganta.
– Onde ela está? – perguntou a voz atrás de mim, segurando a lâmina. Não era a voz do Dohko. Quem quer que fosse parecia ser mais jovem do que ele e tinha um sotaque que eu conhecia muito bem. Era grego, das ilhas. Alguma coisa ali na costa da Turquia, talvez Rhodes ou Chipre.
Eu fiquei imóvel.
– Onde está a tiara? – o homem perguntou outra vez, aumentando a pressão da lâmina contra o meu pescoço.
Então o Dohko mandara alguém em seu lugar dessa vez? Eu pensei. Isso era estranho, não parecia do seu feitio perder a chance de me aporrinhar pessoalmente.
– Não está comigo. – Eu disse.
O silêncio que se seguiu a essa afirmação foi tão denso que eu quase poderia tocá-lo.
– Simplemente isso. – eu repeti — Não está comigo.
A pressão contra a minha garganta aumentou mais um pouco. Eu permaneci parado. A lâmina já havia me cortado, e eu podia sentir o sangue escorrendo pelo pescoço.
– Você está mal informado, cara. – eu falei outra vez — Eu já disse pro Dohko que estou fora. Eu não peguei aquela maldita tiara, nem pretendo.
O som de um telefone seguido pela porta da frente sendo aberta no apartamento ao lado, fez com que ele me soltasse, empurrando-me de bruços contra uma das poltronas tombadas.
Com algum esforço eu consegui me voltar para olhá-lo, mas ele usava uma máscara de esqui de forma que tudo o que eu pude ver foram seus olhos. Eles eram verdes e gelados.
– Obrigado pela informação, Scorpion. – ele disse sarcástico — Melhor cuidar desse corte. – ele fixou o olhar no meu pescoço, de onde ainda saía sangue — Não vai querer cair de cama com uma febre, não é?
Então, com agilidade impressionante, se esgueirou pela saída dos fundos e simplesmente desaparareceu da mesma forma como havia chegado, ao mesmo tempo em que eu ouvia os passos apressados do meu novo vizinho, o Shiryu, ecoarem no corredor social, em direção às escadas.
Eu esperei até que ele tivesse ido para pegar um guardanapo limpo na cozinha e estancar o sangue que escorria do meu pescoço. Ao retirá-lo, olhei a perfuração no espelho do banheiro e vi a mancha vermelho-escura em volta dela. O corte era muito mais fundo do que eu imaginara. Graças a Deus pelos chachecóis e pelas golas altas, eu pensei. Senão teria que inventar uma boa história, pois ninguém iria acreditar que eu me cortara enquanto fazia a barba.
oOOoOOoOOo
Hyoga POV
– Quando eu vou poder voltar pra casa? – Eu perguntei outra vez. Aquela era provavelmente a décima segunda vez que eu fazia essa pergunta apenas naquele dia. Eu ainda estava falando um pouco alto. Minha audição não voltara completamente, embora o médico que me atendera tivesse me garantido que com o tempo ela voltaria ao normal.
Um dos detetives que eu acreditava ser o Saga — era difícil ter certeza – simplesmente suspirou cansado, levantando-se da cadeira em que estivera sentado, em frente a uma escrivaninha, e caminhando até a cozinha do moderno apartamento na 259 East Street com a Sétima avenida, onde eu permanecia gentilmente confinado.
Então era isso que chamavam 'programa de proteção a testemunhas'? Eu pensei. Meu celular havia sido confiscado, meu acesso a internet monitorado, eu havia decorado a programação da televisão, e achava que poderia enlouquecer se olhasse mais uma vez pra aquelas mesmas malditas paredes.
Eu mal podia acreditar no que a minha vida havia se transformado nesses cinco dias. Eu tivera que mentir para minha família, dizendo que passaria as festas no campo com alguns amigos. Tivera que mentir para os meus amigos, dizendo que o Camus me fizera cuidar de uma papelada na nossa matriz em Paris. E, pior, tivera que mentir para o Shun também. Eram tantas mentiras que eu estava começando a achar difícil rastreá-las.
Quando voltou à sala, o detetive trazia chá e alguns sanduíches que colocou sobre mesa de almoço, me convidando pra sentar.
Apesar de tudo, eu até gostava do Saga. Ele era agradável, inteligente, e às vezes parecia meu irmão falando. Nós costumávamos ter boas conversas. O tal Kanon, também era divertido. Ele sempre trazia jogos de video game ou filmes pra assistirmos. Certa vez comentou que o Milo Scorpion, vocês sabem, o ator, era irmão deles. Deve ser legal ter um irmão famoso. Mas, sei lá, se fosse o Johnny Depp seria mais legal, eu acho. Eu prefiro os filmes dele, sabe. Já o outro, que eu descobri chamar Shion, esse nunca aparecia.
Eu me sentei à mesa em frente aos lanches e observei enquanto o Saga acomodava-se ao meu lado, servindo-nos com um pouco do chá gelado antes de se pronunciar.
– O sujeito que você afirmou estar na companhia de Radamanthys na boate na noite do seu atentado em Boston, o homem conhecido como Zelos, foi detido na noite passada. – Ele disse.
Eu fiquei de queixo caído ante esse fragmento de informação.
– Infelizmente — continuou -, o outro rapaz que estava com ele conseguiu escapar. Mas acreditamos que com o interrogatório certo Zelos terá boas informações a nos acrescentar. De qualquer forma, você não precisa se preocupar, garoto, não vai ser chamado pra tesmunhar contra ele. Só os crimes que ele cometeu aqui em New York, no passado, provavelmente serão suficientes para mantê-lo atrás das grades por alguns anos.
– Não sabia – eu falei, tomando um gole do chá. – Não há nada sobre sua prisão nos jornais.
– Não, não há. — ele concordou — Nós preferimos abafar o caso pra que a organização acredite que ele ainda está em liberdade. Não queremos que eles saibam que estamos na cola deles. Isso poderia prejudicar o plano, e oferecer riscos desnecessários. Assim, você vai ter que ficar mais algum tempo por aqui. Sua vida ainda pode estar correndo perigo... Pelo menos enquanto eles continuarem pensando que você é a única testemunha que os liga a esse caso.
Eu fiz um muxoxo, enquanto colocava um sanduíche no meu prato.
– E sem mensagens para casa também. – ele advertiu — Sinto muito, mas de acordo com o nosso contato o... indivíduo que atirou em você se mostrou absolutamente intratável e não quis seguir nossas instruções
– Está falando do Seiya, não está? – eu perguntei. – Não, não balance a cabeça. Eu sei que foi ele. Soube no momento em que a arma detonou perto do meu ouvido. Ele tentou me matar – Por incrível que pudesse parecer, minha voz não tremeu nem um pouco dessa vez ao dizer isso. Talvez eu já estivesse me acostumando.
Ele balançou os ombros de leve como resposta.
– Não. – eu falei – Não precisa me tratar como criança. Fui um idiota. Vejo isso agora. Ele se sentiu mal na primeira vez, quando Radamanthys atirou em mim em Harvard. Porque de certa forma foi culpa dele, por ter me levado àquele lugar. Ele sabia o que eles estavam planejando. Sabia muito bem. E então se culpava.
– Acho que sim – foi tudo o que ele disse, e de modo suave.
Eu o ignorei.
– Mas então ficou claro que pra eles eu significava um risco, não é? Por causa do que eu sabia. Eu fui estúpido de ter comentado com o Seiya no jantar de Ação de Graças que estava consciente naquela hora. Que reconhecera Radamanthys. Eles perceberam que eu poderia falar. Não apenas sobre o envolvimento do Seiya, mas sobre como Radamanthys tentara me matar. Então, resolveram se livrar de mim.
– Se isso lhe servir de conforto – Saga falou, dando uma mordida no sanduíche em seu prato antes de beber um gole do chá -, não tenho a impressão de que seu amigo tenha gostado da incumbência. Quero dizer, matar você. Acredito que ele estava fazendo aquilo porque os próprios interesses, quem sabe a própria vida, estava em risco.
– Mesmo assim – eu retorqui indignado -, ele não tinha que ter levado aquilo adiante. Poderia ter fugido.
– Ah, sim – ele falou com um leve sorriso. – Mas então a irmã dele talvez não tivesse o privilégio de se casar com o seu imão.
Eu fechei a cara.
– Ah, como se eu fosse permitir isso agora. Quero dizer, casar com a irmã daquele salafrário. Ela obviamente também está envolvida nisso tudo. Foi uma armação! Quando eu não sabia, tudo bem, mas agora...
– Não se preocupe – ele exibia um sorriso enigmático –, eu duvido que o seu irmão ainda vá querer se casar com ela, de qualquer forma. Mas isso, é claro, é algo que você e ele terão que resolver depois.
– Vou contar a ele – eu falei, mais pra mim mesmo — Se pelo menos houvesse um jeito de deixar a coisa toda da bebida e da boate de fora...
– Você vai ter muito tempo pra pensar nisso – ele pôs o prato e a xícara vazios de lado – . De todo jeito você não vai falar com sua família até que saibamos que isso é seguro.
– Mas ele tem o direito de saber – eu insisti, mais alto dessa vez. – Ele tem o direito de saber com que tipo mulher está se casando. Não vê? Em primeiro lugar, a culpa é minha de ele ter se envolvido com ela. Ela e o irmão me fizeram de bobo, fizeram a nós todos de bobos. Com seu nome, suas ligações e seu charme. Achávamos que fossem respeitáveis.
Ele levantou uma sobrancelha.
– Bem... o nome Kido é bem respeitado. Eles são uma das famílias mais antigas do Japão. O nome Kido remonta...
– Mas por trás de tudo isso – eu falei nterrompendo-o –, eles não são nada melhores do que o Radamanthys e seus comparsas.
– Talvez seja assim – ele disse, sério. – Mas não quero que você deixe esse apartamento ou mande mensagens pro seu irmão, seu namorado, ou quem quer que seja. Mais tarde, se quiser...
E então parou de falar quando seu telefone começou a tocar.
– Oi, Kan. – eu o ouvi atender.
O que quer que o Kanon tivesse falado ele não pareceu gostar a considerar a súbita mudança de expressão em seu rosto.
– Certo... Eu entedi, Kan, você sabe o que fazer... — Ele relanceou rapidamente o olhar na minha direção, e o inglês imediatamente deu lugar ao grego em que eles sempre falavam quando não queriam que eu entendesse.
Meu cérebro só conseguiu distinguir as palavras 'Milo', e 'proteção', antes de se perder outra vez nos prórios dilemas.
Eu tinha que dar um jeito de sair dali, eu pensei. Eu precisava contar ao meu irmão sobre a Saori... Sobre tudo. Ele tinha o direito de saber.
oOOoOOoOOo
Milo POV
– Você trouxe o que eu pedi? – eu perguntei assim que percebi a figura alta do Kanon se aproximando da mesa onde eu estava sentado.
Nós estávamos na Red House cafeteria, cujo interior aquecido cheirava a café fresco e cigarro.
Ele sorriu estendendo a mochila que segurava pra mim.
– Foi o Oria que arrumou, mas acho que está tudo aqui. – Ele disse.
Na verdade eu esperava que fosse o próprio Aoria em vez do Kanon a me entregar a mochila com as minhas coisas, mas a verdade é que tanto fazia. Eu só não queria ter que pisar eu mesmo na casa em Hampton, mais especificamente naquele quarto onde eu passara a véspara de Natal e que tanto me fazia lembrar o ruivo. Como se não pisar ali fosse me impedir de pensar nele.
– Você tem certeza que não quer ficar com a gente? – Ele perguntou. Era o normal que todos fícassemos hopedados naquela casa durante as festas.
– Tenho – eu respondi, sem muita convicção. Na verdade a idéia de estar sozinho no meu apartamento depois de tudo também não era particularmente agradável.
– Mas você vai pra lá na passagem do ano, não? — ele quis saber
– Vou – eu garanti. 'Mas não vou subir até aquele quarto', pensei, e me senti imediatamente covarde.
Ele me olhou por um tempo, a testa franzida, e então perguntou:
– Você quer companhia? – ele apontou para as cadeiras vazias ao meu lado.
Só o fato de dizer sim já era um sinal de como eu me sentia: lá embaixo. Não queria ficar sozinho com meus pensamentos por mais tempo, e se o meu irmão era a única distração disponível, então a aceitaria.
Ele se sentou à minha frente na mesa e tirou um cigarro de um maço, antes de oferecê-lo a mim. Eu não costumava fumar, mas estava pra baixo demais pra me negar qualquer tipo de prazer, ainda que decorrente do simples efeito da nicotina. Peguei um e agradeci com um murmúrio.
– Isso deve ter lhe custado muito – ele sorriu debochado. – Agradecer-me por nada.
Eu simplesmente ignorei a provocação e acendi o cigarro no isqueiro que estava na mesa. Era fim de tarde, e a noite já ia descendo sobre a cidade.
Ele pediu dois copos de café com donuts pra garçonete e acendeu seu próprio cigarro. Quando o pedido chegou serviu um donut em cada prato e passou um café pra mim.
– Onde está o Saga? – eu quis saber estranhando o fato dele estar ali sozinho
Ele deu uma longa tragada antes de falar:
– Em trabalho de campo... por assim dizer.
Eu assenti.
Nós permanecemos em silêncio.
A fumaça saía dos nossos lábios e flutuava sobre a mesa.
– Você não pode simplesmente conversar com o cara e resolver as coisas? – ele soltou de repente.
Eu suspirei. Não precisava perguntar de quem ele estava falando. As notícias corriam rápido na minha família. O Aoria devia ter comentado alguma coisa, e o resto ele adivinhara.
– Tentei. – eu disse — Ele se recusou a me ver.
Ele se mexeu na cadeira.
– Então continue tentando.
– Para você é fácil falar.
Virando a mão com a palma para cima na mesa, ele deu de ombros, dizendo:
– Do mesmo modo que é fácil pra você fazer.
– E se ele continuar me rejeitando? – O Camus podia ser uma pessoa racional, e quem sabe até disposto a dar aos outros uma chance, mas eu o ferira muito, e seu orgulho poderia torná-lo muito, mas muito teimoso.
Meu irmão se inclinou pra frente, deixando apenas alguns centímetros entre a gente.
– Você quer acertar as coisas com ele, ou não?
Minha voz saiu em um murmúrio rouco.
– Quero.
Antes de perder o Camus, eu não tinha percebido como, a cada dia, ele significava mais e mais para mim. Mas agora a idéia de viver sem ele, de enfrentar o resto dos meus dias sem tê-lo ao meu lado outra vez, era como contemplar as profundezas do inferno.
– Então continue tentando, — ele falou, marcando as palavras com batidas de dedo na mesa — e ele acabará querendo ver você.
Oh, sim, essa era uma ótima idéia. Eu sorri com ironia.
– Vencê-lo pelo cansaço, é isso? É essa sua infalível tática de sedução?
Ele me olhou como se quisesse me dar umas bofetadas.
– Porque assim ele vai saber que você está sendo sincero, animal!
Será que iria? Se eu continuasse tentando e me recusasse a deixá-lo separar-se de mim facilmente, será que ele me daria finalmente uma segunda chance? Será que ouviria minha história? Acreditaria na verdade, depois de tudo?
Eu sorri complacente.
– Desculpe. Gosto de ser cruel com você.
Ele franziu a testa enquanto tragava mais uma vez seu cigarro.
– Não diga...
– Sim, — eu sorri inocente — não sei bem por quê.
Ele se recostou na cadeira, e seus olhos azuis bruxuleavam divertidos.
– Sempre comparei isso a uma criança que atormenta aqueles que ama.
Eu ri debochado.
– Você acha que amo você?
Ele exalou uma baforada de fumaça, com expressão impassível, antes de sorrir.
– Tanto quanto eu amo você.
Que resposta perfeita! Ele sempre tinha uma resposta perfeita pra tudo. Essa era uma das coisas que eu sempre invejara no meu irmão. Eu podia ser o que tinha o temperamento mais cáustico da família, mas ele era o único que podia fazer um insulto soar como elogio e vice-versa.
– Você me ama? – Eu falei divertido – Você, o único que batia em mim sempre que podia quando éramos crianças? Você era um cavalo quando éramos garotos, Kan. – eu lembrei — Você me deixou de olho roxo aquela vez que ganhei de você numa corrida, lembra?
Ele sorriu sarcasticamente.
– Você sempre foi um pirralho mimado.
– E você e o Saga tinham que ser sempre os melhores em tudo. – eu revidei — Deus proibiu que alguém fosse melhor do que vocês em qualquer coisa.
– O Saga tinha que ser sempre o melhor em tudo, — ele corrigiu, batendo a cinza do cigarro no cinzeiro de cristal que havia na mesa — eu era o gêmeo do mal que o levava pro lado negro da força, esqueçeu? E você era o queridinho da mamãe.
– Isso até eu fugir pra Améria pra me tornar ator.
Ambos rimos daquelas lembranças.
– Continuo não gostando de você. – Eu desdenhei, fazendo força pra ficar sério.
Ele apenas sorriu. Era uma expressão tão contagiante, que meus lábios logo estavam rindo também.
– Pirralho!
– Cavalão!
Nossa troca fraternal de elogios foi interrompida pelo sinal de sms do telefone do Kanon. Ele olhou rapidamente no visor antes de comentar, levantando-se.
– Bom, irmãozinho, a conversa está muito boa, mas o dever me chama.
– O Saga te chama, você quer dizer. – eu retruquei sorrindo com malícia.
Ele deu de ombros, retribuindo o sorriso. Então pareceu se lembrar de algo.
– Ah é, eu já ia me esquecendo. – ele disse — A criada encontrou isso caído debaixo do sofá no seu quarto. Nós presumimos que fosse seu.
Ele tirou um grande envelope pardo de dentro do casaco e o estendeu pra mim.
Eu o reconheci imediatamente. Tratava-se do envelope com o tal convite de casamento da Srta. Kido que o Dohko me entregara, naquela manhã de Natal.
Eu engoli em seco e o encarei de maxilares cerrados, para não ficar de boca aberta. Então forcei um sorriso.
– Obrigado – disse apanhando o envelope.
Ele sorriu também, piscando enigmático pra mim, e então partiu. Eu fiquei me perguntando se ele sabia de alguma coisa, mas o envelope ainda estava lacrado como quando eu o recebera.
Sozinho, eu admirei entristecido o papel cinzento, sem conseguir impedir que as memórias daquela noite que antecederam a visita do Dohko invadissem minha mente.
E foi apenas por não ter realmente mais nada o que fazer que eu deixei que meus dedos rasgassem preguiçasamente o envelope, e meus olhos passeassem displicentes sobre o papel-cartão macio e elegante, pra irem pousar nas letras rebuscadas dos nomes imprimidos no convite... e piscarem em choque.
E então mais uma vez.
E outra.
E de novo.
A vista ficando negra de repente, e o sabor amargo da bílis subindo pela garganta.
Então realmente precisei sair correndo dali, pois achava que poderia vomitar a qualquer instante.
Notas finais
Rapidinho dessa vez, não? Tudo graças ao incentivo de vcs ^^, e, ao meu tédio u.u. Quanto tempo alguém tem que ficar com gesso no pé, heim? *começando a penssar que vou ter que viver pra sempre com essa pata de elefante* *pensamentos destrutivos* XD
Mas, vamos a história o/.
Mais alguém acha que eu estava com fome quando escrevi esse ch? Eu só me toquei disso depois, aparece comida em toooodas as cenas XDD
E enquanto nosso casalsinho querido sofre, muuuitas coisas vão rolando. Por que o mundo nunca pára que que se possa curtir uma deprê em paz u.u... XD. E muitas pistas vão surgindo. POV do Hyoga, como sempre, cheio de revelações. E aí? Vcs acham que já deu pra sacar mais ou menos a trama toda? Deu pra responder algumas perguntas? Ou só pra criar outras tantas? XDD
E o Dite dando as caras outra vez pra quem estava com saudade do peixinho. Também tivemos uma participação mais efetiva dos gêmeos nesse ch, e uma palinha da relação fraternal Milo e Kanon, o que acharam?
E quanto ao final... no comments... mais uma vez parando o ch numa hora crítica, né? *foge pra não apanhar* E aí está um dos momentos que todos esperavam. A grande descoberta. Mas acalmem-se, não termina aí, não. Esse foi só o choque inicial, por assim dizer. Ch que vem teremos um detalhamento melhor das emoções e atitudes do Milo diante da descoberta ^^
Então é isso aí, gente, quero saber a opinião de vcs, quero saber as teorias da conspiração miraculosas que vcs estão elaborando por aí, pq daquei pra frente a trama só irá se revelando cada vez mais a cada ch, então, como dizem, a hora é agora =D
Enfim, muito obrigada mais uma vez a todos que acompanham e em especial àqueles que me mandaram reviews: Mel Dark, ddd, Kamy Jaganshi, Chacal_Maldito, Kassiminha, Moni-d, PapillonBleu, sayuri hatake, lunna-chan, sashinha e stoking, é de vcs o mérito pela repidez na postagem, pq a cada review que eu lia eu escrevia uma parte do ch, parece piada mas vcs me incentivam muito mesmo ^^
Bjos
PS: Créditos devidos: os mesmos do ch anterior.
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