Milo POV

-Vamos ver se eu entendi direito – ele disse, com aqueles olhos multi cor dele agora refletindo infinitas nuances de vinho. Como acontecia, eu já tinha reparado, sempre que ele ficava irritado. – Você acha que só porque estive... e uso o verbo estar no sentido bíblico, é claro... com uma única pessoa sou virgem?

- Olha, – Eu disse, tentando manter meus olhos na estrada. Estava bem difícil me focar em alguma coisa com ele sentado ali tão perto, e falando sobre.. bom, sexo. Ou quase isso — eu não estou fazendo nenhum tipo de julgamento. É que... você tem que admitir que isso é um pouco raro hoje em dia.

Bom, e era raro mesmo, não era? Porque que cara de 25 anos que vocês conhecem só teve uma amante a vida toda, por favor! E um cara como ele ainda por cima. Quer dizer, olha só pra ele, o cara era quase bom demais pra ser verdade, fala sério!

É, só que ele não parecia concordar muito com isso porque ele perguntou incrédulo:

- O que é raro? Você está falando sobre monogamia?

-Bem, — eu respondi encolhendo os ombros (o que mais eu podia fazer?) – sim. Eu achei que isso já tivesse acabado há muito tempo.

E como ele continuasse só olhando pra mim indignado, eu continuei:

- Já falei que eu não estou julgando. Não sei por que você está tão na defensiva.

- Você me chamou de virgem! — ele retorquiu.

- Praticamente, – eu relembrei – eu falei que você é praticamente virgem. Será que eu já posso virar na próxima rua? – Eu tentei desconversar. Porque, sério, eu estava realmente tendo alguma dificuldade pra continuar com aquele tópico, sabe. Quer dizer, quem não teria? Quando ele estava ali parado, me olhando e mais bonito do que... bem, do que ele tinha o direito de ser, certamente.

Ele devia estar usando um daqueles perfumes franceses caros, sabe, porque o cheiro que vinha dele era absolutamente indescritível. As pernas estavam cruzadas sobre o banco e os cabelos vermelhos caiam lisos pelos ombros, contrastando maravilhosamente com a pele pálida, impecáveis.

Bem diferentes dos meus, é claro, que estavam totalmente emplastrados e amassados na testa por causa do gorro de inverno que eu tinha usado. Isso pra não mencionar o fato de que eu havia passado quase toda a noite parecendo um marshmallow ambulante com aquele meu casaco de neve ridículo (do qual eu tratei de me livrar assim que entrei no carro, obviamente), enquanto ele desfilava maravilhosamente em um sobretudo de lã preto que ressaltava a largura dos seus ombros e delineava elegantemente os músculos que eu sabia existirem ali embaixo. Sério, eu devia considerar perguntar qual era marca daquele sobretudo, porque ele estava realmente fazendo os ombros dele parecerem enormes.

Então talvez fosse por tudo isso, sabe. Pelo fato de ele parecer tão irresistivelmente perfeito, eu digo. Ou vai ver eu só tivesse exagerado na temperatura do aquecedor do carro mesmo, sei lá. Mas o fato é que só a idéia de que eu pudesse simplesmente esticar o braço, abrir os botões da roupa dele, e ter tudo aquilo que eu já tinha tido o privilégio de sentir pressionado contra o meu corpo alguns dias atrás, só pra mim, me fazia sentir um pouco... bem, um pouco quente.

Principalmente quando ele falava a palavra virgem daquele jeito, sabe. Fazendo aquele biquinho, naquele sotaque francês absolutamente incrível dele, e que ficava ainda mais acentuado (eu também já tinha notado) quando ele estava nervoso. Realmente, estava ficando muito, mas muito complicado mesmo cumprir minha promessa de manter minhas mãos longe dele.

Sim, porque independente do que tinha acontecido na segunda feira, e daquela ter sido uma das experiências mais excitantes da minha vida, diga-se de passagem, eu definitivamente precisava manter meu corpo sob controle dessa vez. Quer dizer, se eu ainda quisesse ter qualquer chance de saber como era ter aquele ruivo na minha cama algum dia, é claro. Isso pra não mencionar o patrocínio, e todas as outras variáveis envolvidas.

Porque estava óbvio que ele estava totalmente puto comigo. E não era só porque eu tinha chamado ele de virgem. Não mesmo. Bom, pelo menos se a forma como ele ignorou completamente a minha presença no restaurante servisse de indicação. Quer dizer, o cara fingiu que nem me conhecia, fala sério!

Francamente, quem aquele ruivo pensava que era? Porque ele podia ser um pouco gostosinho e tudo... tá, tudo bem, ele podia ser incrivelmente gostoso, ter aquele cheiro delicioso e aquele cabelo vermelho lindo, mas isso não lhe dava o direito de ignorar as pessoas, dava? Principalmente pessoas por quem ele tinha sido beijado recentemente.

E tá certo que eu meio que mereci isso por... bom, por ter excedido um pouco os limites e... tá, por ter extrapolado completamente os limites e manipulado ele totalmente. Mas também não era pra tanto, era? Porque ele podia até estar moralmente ofendido e tudo, mas eu estava certo de que ele não tinha achado tão ruim assim. Ao contrário. Quer dizer, eu não sou cego, por favor! Vocês acham que eu não ia perceber a forma como ele encarou meus lábios? Não uma, nem duas, mas várias vezes durante a noite? Estava claro que ele tinha gostado. Tanto quanto eu, diga-se de passagem. Ou quase. Agora eu só precisava convencer ele disso, é claro.

Só que infelizmente não dava pra fazer isso quando tudo em que eu conseguia pensar era em desabotoar aquelas roupas elegantes e deslizar minha língua pelo corpo dele. Sinceramente, por que é que eu tive que ter a brilhante idéia de oferecer carona pra ele? Quer dizer, eu devia saber que isso dificultaria as coisas, não é? Por causa daquele negócio todo de 'ïd', 'ego' e 'superego' que o Aioros vive dizendo. Sobre como as pessoas controlam muito melhor seus instintos quando tem outras pessoas olhando, sabe? (1) E porque eu sabia perfeitamente como funcionavam esses meus tais instintos quando eu ficava a menos de 30 centímentros de distância dele, é claro.

Realmente, eu não sei o que me passou pela cabeça naquela hora. Juro.

Ou, pensando bem, sei sim. E estava intimamente relacionado presença daquele amiguinho platinado dele. O tal Afrodite (até o nome do sujeito soava afrescalhado). E ao fato dele aparentemente ficar andando de um lado a outro com o infeliz feito um casal de pombinhos. Fala sério, onde é que estava a tal noiva dele, afinal?

Oh, sim por que a 'loira' que eu vi entrando com ele no restaurante, e, antes disso, no teatro, estava bem longe de ser a 'noiva' dele como eu tinha pensado. Bom, a menos que tenham reconhecido o casamento gay no Estado de New York e esquecido de me comunicar , é claro.

Porque a tal 'loira' era definitivamente um cara. É, exatamente isso que vocês ouviram. 'Ela' era um homem. O melhor amigo dele, diga-se de passagem. Ou melhor, o melhor amigo gay dele com quem ele morava junto. E pior, o cara era lindo. De uma forma um tanto andrógena demais pro meu gosto, mas mesmo assim.

E então o Shaka me vinha com aquela história deles serem praticamente irmãos. 'Praticamente irmão', sei. Eu também tinha irmãos e eu não ficava tratando eles por diminutivos carinhosos melosos, nem escolhia o prato deles nos restaurantes. Na verdade nossa relação estava muito mais pra: 'Aoria, seu inútil, pára de viajar e escolhe logo a porra do prato que eu tô com fome, caramba!' Seguido de um pedala na cabeça.

E isso não significava que eu não os amasse, ao contrário. É só que, bom, isso é o normal entre irmãos, não é? Irmãos de verdade, eu digo (o Saga e o Kanon não contam, claro. Porque ele são gêmeos, então a ligação é completamente diferente. Além disso eu acho que o Saga meio que tomou como sua 'sagrada missão na Terra' se encarregar do Kanon, sabe. Já que ele parece ser o único ser humano no mundo capaz de aturá-lo).

E não me entendam mal, não é que eu estivesse com ciúme dele nem nada assim. Do ruivo, eu digo. De jeito nenhum. Mesmo porque eu nem costumo ter ciúme, sabe. Dos meus namorados, eu quero dizer. São eles que sentem ciúme de mim. Na verdade, as únicas pessoas de quem eu já senti ciúmes na vida foram da minha mãe e dos meus irmãos. Mas eu ainda era pequeno. E a sensação era bem diferente daquela, de qualquer forma.

Então é claro que não podia ser ciúme. Não mesmo. Era só que... bem, que direito aquele loiro afetado tinha de ficar chamando ele daquele jeito? 'Camie', 'Camie'. Apelido ridículo. Então eles eram amigos? Ótimo, eu também tinha amigos e eu não falava com eles daquela forma. Realmente, quem aquele cara pensava que era pra ficar ali todo meloso com o meu ruivo?

E tá, eu sei que técnicamente falando ele não era ainda 'meu ruivo'. Mas era só uma questão de tempo, não era?

Bom, pelo menos se eu conseguisse controlar meus hormônios por mais alguns minutos.

- Não tente fugir do assunto, Milo! – a voz dele me chamou de volta.

- Heim? – eu fiz, um tanto atordoado ao me deparar novamente com aqueles olhos rubros, hipnotizantes, lindos... mesmo quando cheios de aversão por mim.

- Você está fugindo do assunto. – ele repetiu.

- Não estou não, – eu menti – eu realmente preciso saber em que rua eu tenho que virar, oras!

Ele estreitou os olhos. E, nossa, os cílios dele eram imensos.

- Você pode virar na próxima quadra – ele disse – exatamente como mostra o seu GPS – completou, apontando pra tela acesa no painel.

Droga, eu tinha esquecido do GPS.

- Bem, — eu disse, encolhendo os ombros – eu nunca tenho muita certeza pra onde esse GPS está me levando, sabe? Ele já me enfiou em cada buraco.

É isso aí, não se pode dizer que eu não tinha tentado.

Ele revirou os olhos, suspirando impaciente e voltando a se recostar no banco, enquanto eu virava o carro na via de acesso principal da casa.

E que casa! Não era só o fato dela ser imensa, sabe, ou de ter uma daquelas entradas arborizadas com rotatória na frente e guarita de seguraça no portão. O que, afinal, já seria o esperado de uma casa de propriedade dos Chevalier em Long Island. Não, era a arquitetura dela que impressionava. Toda em estilo francês neoclássico, com aquelas colunas e degraus de mármore, e entalhes em gesso trabalhado. No gigantesco jardim cheio de neve que a circulava, destacava-se o brilho do que deveria ser uma estufa de flores iluminada. E, em frente à entrada, no centro da praça rotatória, uma mulher esculpida em mármore, em tamanho real, segurava um grande jarro do qual certamente deveria jorrar água se a fonte não estivesse desligada.

-Uau! – eu não pude deixar de exclamar. – Os caras lá do Louvre deixaram vocês trazerem essas coisas todas pra cá?

- Ora, cale a boca, sim? – ele respondeu, contrariado.

E eu não consegui não rir da forma adorável com que ele torcia o nariz.

Ele balançou a cabeça e suspirou fortemente, continuando:

- Você poderia dar a volta e entrar pela garagem, por favor? Eu não quero acordar o Hyoga.

- Realmente, — eu disse seguindo por um caminho lateral à casa e entrando em uma imensa garagem fechada – está ficando cada vez mais difícil entender essa história de só uma mulher a vida toda, sabe.

Porque, sério, o que é que estava acontecendo com as mulheres, afinal? Quer dizer, o cara era lindo, inteligente, culto e podre de rico. Como um cara desses podia só ter tido uma amante na vida?

- Bem, — ele disse irritado, descendo do carro e fazendo com que as luzes se acendessem a nossa volta. Provavelmente programadas por sensores de calor e movimento. – eu sei que pode ser difícil pra você entender, mas diferente de certas pessoas, alguns de nó se preocupam em manter um relacionamento estável com uma única pessoa que gostam, e pretendem dividir a vida, sabe.

- Ah, claro, — eu respondi, enquanto descia atrás dele, já começando a me irritar também. – Porque uma mulher que te corneia na primeira oportunidade que aparece é mesmo uma excelente escolha pra uma parceira de vida inteira.

Ele parou no meio do seu caminho para a porta da garagem e se voltou pra mim.

- Nossa, — ele colocou uma das mãos sobre o peito — você tem razão. Mon Dieu, você é tão melhor do que eu! – ele deixou que a mão caísse e me encarou, furioso — Pra sua informação, Milo Scorpion, eu amo a minha noiva e, e pelo menos eu tento ter uma relação madura e adulta, em vez de ficar colecionando vagabundas por aí.

- Vagabundas? – eu repeti, indignado. Até parece que ele conhecia todas as pessoas com quem eu já tinha ficado!

- Ah, pardon, — ele prosseguiu mordaz — é verdade, porque você é mesmo muito criterioso na escolha dos seus amantes, eu tinha esquecido.

- É. Talvez você tenha razão, Francês, — eu tentei exibir um ar de dignidade, enquanto cruzava os braços sobre o peito — mas se for pra gente começar a falar em vagabundas, a sua querida noiva também não fica tão distante assim da definição, não é?

E tá, tudo bem, eu sei que eu peguei pesado. E eu também sei que eu não devia ter dito isso. Não era absolutamente desse modo que eu pretendia que as coisas corressem. Não mesmo. Mas ele simplesmente parecia despertar o que havia de pior em mim. Defendendo aquela noivinha estúpida dele e me tratando daquele jeito, como... como um colegial idiota feito de bobo pela primeira vez.

Feito de bobo? Até parece. O que ele estava pensando? Interessado, era isso. Ele me interessava, só isso. Realmente me interessava muito.

- Não fale do que você non sabe, Milo. – ele disse então, encurtando perigosamente a distância, os olhos transformando-se em lanças de gelo.

- E eu também non preciso – continuou, glacial — te dar satisfações sobre o meu relacionamento com a minha noiva, que é um assunto totalmente particular e que não lhe diz respeito.

A fúria gelada dele me pegou de surpresa, mas eu já tinha ido longe demais pra recuar, e como ele havia avançado na minha direção eu também avancei na dele.

- Sabe do que é que você precisa, Ruivo? – eu sibilei ameaçadoramente, colocando-me de frente a ele. Os sapatos encostados nos dele. Quase nariz com nariz. E percebendo imediatamente, na medida em que eu me tornava extremamente consciente da proximidade dos lábios dele, que aquilo havia sido um erro. Um enorme erro.

Ele não se afastou. Ao invés disso retorquiu desafiador, com os olhos que eram estranhamente gélidos e quentes ao mesmo tempo cravados nos meus:

- Non, Milo. Do que você acha que eu preciso?

E então eu simplesmente não pude mais me controlar. Eu não tinha intenção de fazer aquilo. Eu não tinha planejado nada. Ou talvez tivesse, não sei. Tudo que eu sei é que quando eu dei por mim eu já tinha agarrado ele pelos braços, pressionando-o com força contra a parede ao lado da porta, e, de repente, minha boca fazia um excelente trabalho devorando a dele.

Ele emitiu um som, algo muito parecido com a golfada de um nadador que engolira água sem querer. E, em algum lugar por baixo daquele meu extravasamento de desejo, além do sangue que palpitava fortemente nas minhas têmporas prejudicando meu raciocínio, eu soube que ele provavelmente ia me matar assim que se recuperasse do choque.

E ainda assim eu não conseguia me importar. Que se dane. Eu ia aproveitar o momento por completo.

- Milo... – foi o que ele disse, no entanto, ofegante, quando conseguiu afastar um pouco os lábios em busca de ar – Isso... isso realmente não vai dar certo. Eu não tenho nenhuma intenção de me envolver com um ator egoísta como você.

- E você acha que eu quero me envolver com um francês metido que nem você? – eu retorqui, sem soltá-lo.

E uma vez que estava tudo devidamente esclarecido, eu voltei a pressionar minha boca contra a dele.

oOOoOoOOo

Camus POV

E, de repente, estava acontecendo tudo de novo. Exatamente como antes, só que agora de um modo um tanto pior porque eu realmente devia estar mais consciente dessa vez. Eu sabia como meu corpo reagiria no segundo em que entrasse em contato com o dele. Mas em vez de me desvencilhar dele, em vez empurrá-lo, de fazer qualquer coisa pra evitar que acontecesse de novo, eu só fiquei ali parado. Sabendo que tudo iria se repetir e que eu estava permitindo isso.

Mon Dieu, eu devia estar paralizado, era isso. Essa era a única explicação racional pro fato daquele sujeito continuar grudado na minha boca em vez de estar caído no chão com algum osso fraturado e sangrando. Eu estava sofrendo de algum tipo de colapso cerebral ou então... Nossa, por que é que ele tinha que beijar tão bem daquele jeito? Era como se todo o sangue tivesse simplesmente desaparecido da minha cabeça me deixando zonzo

E eu achava que a Saori estava errada? Por quê? Eu não era melhor do que ela.

Infelizmente o fato de saber disso não me impediu de sentir como se uma chama tivesse sido acesa dentro de mim no momento em que a boca dele tocou a minha. Nem evitou que o meu corpo se fundisse no dele, até parecer que era só o seu abraço que me mantinha em pé. Eu nem era capaz de deixar de gemer de leve, ou de entreabrir meus lábios. Só um pouco. Apenas o bastante para que a língua inquieta dele se lançasse por outra investigação pelo interior da minha boca.

E dessa vez fui eu mesmo que provoquei essa sensação com a minha própria língua. Apenas pra ver o que aconteceria...

O que aconteceu foi um pouco mais do que eu esperava. Ele deixou escapar um gemido. Um som que poderia ser confundido com um lamento de dor. Só que ele não se afastou. Em vez disso, me puxou ainda mais contra seu corpo, quase me trazendo pro colo dele.

Agora eu estava totalmente colado a ele. Eu podia sentir todos os botões da sua blusa, bem como seus músculos sob o pano. O calor dele me atravessava como o vapor de uma maquina de café, desde os dedos dos pés, lá embaixo, passando pelas pernas, e parando em todos os pontos mais eróticos.

E como da primeira vez eu senti aquele beijo descer pela minha coluna como uma montanha-russa, só que dessa vez era como se o meu corpo se movesse com vida própria, executando uma verdadeira luta contra o dele, enquanto suas mãos se esgueiravam por baixo das minhas roupas, abrindo os botões, e minhas unhas se enterravam instintivamente nas suas cotas.

Céus, era realmente difícil lembrar que ele era o sujeito egoísta e abusado com fobia a compromissos com quem eu não queria de jeito nenhum me envolver quando o beijo dele me fazia sentir daquela forma... como se eu fosse a criatura mais exótica e atraente da face da Terra. Sim, ele me queria. Eu não conseguia entender exatamente o porquê, mas estava claro que Milo Scorpion me desejava. Eu podia sentir o desejo dele naquele instante mesmo, firme e quente, pressionando insistentemente a minha coxa.

E eu estava feliz de poder dizer que sentia o mesmo. Quem se importava que ele fosse um homem? E daí que ele era o cara que tinha transado com aminha noiva? Olha como ele estava fazendo eu me sentir. Olha o que a língua dele estava fazendo. Travando uma verdadeira exploração pelo meu perscoço, enquanto as mãos dele encontravam seu caminho até o cós da minha calça, só para pousar ali, naquela parte do meu corpo que já comprimia fortemente a frente das minhas calças.

Eu arregalei os olhos, me sentindo queimar com o calor da mão dele naquele lugar tão sensível, e tentei me afastar, sabendo que aquilo estava indo muito longe e rápido demais.

Ele, no entanto, não parecia disposto a me soltar de jeito nenhum. Aqueles dedos atrevidos vencendo o zíper, penetrando por entre tecidos até colher a carne fresca, que se enrijecia ainda mais de encontro a sua palma.

- O que... – eu recuei assustado, e então passei a ofegar quando os dedos dele começaram a massagear aquela parte do meu corpo. Fazendo uma pressão suave, porém implacável, que me fez gemer como ele, quando eu começara a retribuir o beijo.

- Hum... Camus!

Só o meu nome. Isso foi tudo o que ele disse, apenas o meu nome, e de um modo mal perceptível, pronunciado num tom gutural, enquanto mordiscava meu pescoço. A língua deslizando até a minha orelha enquanto seu polegar se movia sobre a extremidade tão sensível daquele órgão, provocando uma nova onda de desejo que me fez estremecer.

Eu sentia o calor por todo o meu corpo, mas principalmente ali, onde os dedos dele se movimentavam implacáveis. E então, de repente, o mundo se tornou apenas um borrão de sensaçoes confusas. Alguém gemeu. Alguém praguejou. E eu já não conseguia fazer mais nada. Eu sequer era capaz de respirar. Eu só conseguia me agarrar ao corpo dele e gemer. Era como se eu estivesse derretendo.

Então fora assim? Fora assim que a Saori se sentira naquele dia? Bem, isso explicava muita coisa, eu acho.

- Camus?

Foi só ao ouvir meu nome sendo chamado de dentro da casa que a minha sanidade voltou. Era o Hyoga.

Só então eu percebi que eu estava encostado na parede ao lado do vídeo fone, e que o meu ombro devia ter esbarrado no botão, porque era dali que a voz do Hyoga estava vindo. Por sorte eu não havia ficado em frente à câmera.

Lutando pateticamante pra conseguir firmar as pernas e levei ambas as mãos ao peito do Milo, empurrando-o com força pra me desvencilhar. Pego de surpresa ele se desequilibrou e teria caído dentro de um vaso de hortências se não tivesse se endireitado no último instante.

- O que diabos... – Ele começou a perguntar, mas se interrompeu ao ouvir a voz do Hyoga saindo pelo aparelho.

- Camus... é você?

Eu me ajeitei da melhor forma que pude e me coloquei em frente à câmera esforçando-me pra manter uma voz estável:

- Oui petit, c'est moi. Pardon, eu acordei você?

- Ah, não... o Shun está aqui. — o Shun era o tal japonesinho da classe dele de economia — A gente... estava vendo um filme e... hum... você está sozinho? Eu ouvi uns barulhos. – ele explicou. E eu senti meu rosto esquentar imediatamente ao pensar naqueles tais 'barulhos' que ele poderia ter ouvido. Merd! Onde é que eu estava com a cabeça, afinal? E se ele tivesse visto alguma coisa? Algum criado podia ter aparecido e... bom Deus era melhor nem pensar nisso.

- Um amigo veio me trazer em casa, – eu respondi, finalmente – ele... acabou tropeçando no vaso de hortências e esbarrou sem querer no vídeo fone.

- Ah. – ele murmurou em assentimento — E o Dite?

- Teve que ir pro aeroporto buscar o Maledeto dele. Mas pode voltar pro seu filme, Oga, o Shun deve estar te esperando, non?

- Certo. Você está com a chave?

- Estou sim, petit, eu vou só... pegar minha pasta no carro e já estou entrando.

Eu vi ele concordar com a cabeça e então a tela se apagou. E eu finalmente pude soltar todo o ar que vinha prendendo até aquele momento.

- Você está louco! – eu me virei furiosamente para o Milo assim que consegui reencontrar meu fôlego – O que exatamente você pensou que estivesse fazendo? Isso... o quê... o quê foi aquilo?

Sinceramente, se eu não matava aquele cara agora era só porque eu não queria ir parar na cadeia. De verdade.

Bom, e talvez pelo fato de eu não estar completamente recuperado ainda, é claro. Fisicamente falando, eu digo.

- Bom... — ele começou, levando uma mão ao queixo, pensativo. Mas eu sabia que ele não estava pensando de verdade, porque ele estava com aquela mesma espressão que ele usou naquele filme que não pára de passar na TV, sabe. Aquele em que o personagem do Mel Gibson pergunta pra ele onde está o dinheiro e ele finge que está pensando quando na verdade sabe muito bem que ele está guardado na maleta embaixo da cama. – acho que você pode considerar isso como a sua segunda lição.

- Lição? – eu ecoei incrédulo — É assim que você chama isso?

Realmente, o que aquele cara estava pensando?

- Você já estava beijando muito bem, Camus, então eu pensei que nós podíamos partir pro passo seguinte.

Eu fiquei em silêncio por alguns minutos, perplexo. Não dava pra acreditar que ele tivesse falado aquilo. Sério.

- O passo seguinte? Foi isso? – eu retorqui, finalmente, indignado.

- Bem... — ele deu um sorrisinho. O mesmo sorrisinho sarcástico que dava toda vez que abria a boca. O mesmo que estava estampado em todos os posteres na Times Square. Por que ele não podia simplesmente ficar sério? Eu sabia que ele era capaz de ficar sério porque tinha visto a versão artísitca de Hamlet que ele estrelou... não que eu fosse admitir, algum dia, que eu realmente pagara pra ver alguma coisa protagonizada por Milo Scorpion, é claro. Mas ele fez um Hamlet bastante comovente, sabe, e este é um papel que eu considero bem difícil. E ele não deu aquele sorrisinho durante o filme todo.

- Nós tivemos que pular algumas coisas no meio. – ele continuou — Mas não por culpa sua, não se preocupe. Nós voltaremos a elas um dia desses.

Eu estava verdadeiramente furioso. Minha vontade era me atirar em cima daquele insolente e arrancar pelo menos um pouquinho de sangue daquele rosto idiota, egocêntrico, perfeito.

Mas como esse teria sido um gesto muito infantil de se fazer eu me limitei a dizer, em uma voz que eu esperava que soasse gelada:

- Se você realmente acha que nós vamos continuar com essas 'lições', Sr. Scorpion, eu só posso lhe informar que você está lamentavelmente enganado. Eu não preciso mais dos seus... serviços. Assim... – eu fiz um gesto amplo com o braço indicando-lhe a saída. Que ele sabia muito bem onde era, já que havia entrado por ela, é claro.

Infelizmente quando eu fiz isso ele segurou fortemente meu braço. Não com força o bastante a ponto de machucar, mas o suficiente pra que eu pudesse sentir a firme pressão que exercia. Eu conseguia sentir o calor da pele dele através da manga do meu casaco, subindo pelo meu braço e por todo meu corpo.

- Por quê? Você encontrou outra pessoa? – ele perguntou então, e em um tom tão ríspido que me deixou sem palavras.

Espera. Era ciúme o que eu estava vendo nos olhos dele? Não. Não podia ser. Claro que não. Afinal eu era só mais uma das conquistas estúpidas daquele cara, não era? Então por que ele teria ciúme de mim, fala sério!

- Isso não é da sua conta. – eu respondi, assim que recuperei o controle, puxando meu braço da mão dele – A verdade é que eu simplesmente resolvi seguir seu conselho, só isso.

- Meu conselho? – Ele perguntou surpreso.

- Exatamente. Não foi você que me advertiu de que é impossível forçar alguém a se apaixonar?

- Bem, — ele disse ainda me olhando, só que agora com ar desapontado – isso é verdade, mas...

- Mas agora não te convém atirar isso na minha cara, não é? – Ah, o doce sabor da vingança. Era delicioso poder devolver um pouco daquela humilhação de pra ele. Oh, sim, porque ele tinha sido bem claro naquele dia no escritório dele sobre como eu não era interessante o bastante pra conseguir que alguém se apaixonasse por mim, não importava quantas lições eu pudesse ter, não tinha?

– Bem sinto muito Sr. Scorpion, — eu continuei – mas minha noiva e eu temos muita afeição um pelo outro, e isso basta para um casamento bem sucedido. Agora, se não se importa, eu preciso entrar que o meu irmão está me esperando.

O Hyoga, eu sabia perfeitamente, a essa altura já nem lembrava mais que eu existia e estava enfiado com o Shun em algum quarto fechado (não que eu pudesse falar qualquer coisa já que oficilamente eles eram apenas amigos). Mas eu também sabia que se eu não ficasse fora da vista daquele cara, e logo, o desapontamento em seu rosto iria me levar a cometer alguma imprudência. Como concordar em me encontrar com ele na segunda feira, por exemplo.

Ele pareceu desconcertado por alguns instantes e então baixou levemente o rosto, hesitante.

- Sobre isso... – ele começou — sobre a sua noiva... me desculpe por ter dito que ela... bem, me desculpe por ter dito aquilo dela.

Aquilo me pegou completamente de surpresa. Eu podia esperar qualquer coisa dele, menos arrependimento sincero. E, no entanto, ali estava ele, com os polegares enfiados nos bolsos de trás do jeans, completamente sem jeito. E, céus, como ele ficava lindo fazendo aquilo. Absolutamente adorável, com os cachos louros brilhantes caindo sobre o rosto e a boca macia e vermelha meio que se projetando pra frente, em um biquinho delicioso.

Espera. Eu disse delicioso? Mon Dieu!

- Milo... – eu comecei finalmente, tentando verdadeiramente continuar zangado com ele... e falhando miseravelmente.

Mas, bom, a quem eu queria enganar, afinal? Porque ele não havia feito tudo aquilo sozinho, havia? Então eu só suspirei resignadamente e disse:

- Tudo bem, nós dois sabemos exatamente o que ela é. – 'E eu não sou nem um pouco diferente', eu devia ter acrescentado. Mas em vez disso eu simplesmente me virei de costas e caminhei em direção à porta, onde eu havia deixado cair o controle, para abrir o portão pra ele.

- Camus... – ele ainda tentou dizer, mas eu o interrompi.

– Só vai pra sua casa agora, ok? Eu agradeço a carona, mas eu estou realmente cansado.

Bom, pelo menos aquilo não era mentira. Eu estava verdadeiramente exausto. Não que eu achasse que eu fosse conseguir dormir tão cedo, de qualquer forma. Não depois de todas aquelas reações que ele havia despertado no meu corpo.

- Ruivo, — ele chamou então, já dentro do carro, descendo o vidro enquanto me lançava seu sorriso mais charmoso. Aquele que quando ele usou pela primeira vez no cinema angariou o maior número de correspondências de fãs da história de Hollywood – eu vejo você na Segunda.

Eu ainda tentei abrir a boca pra dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Que ele devia ter entendido algo errado. Que eu não planejava continuar com as lições. Mas antes que eu tivesse tempo, ou vontade, de proferir qualquer palavra, ele já havia arrancado com o carro.

A última coisa que eu pensei enquanto via as luzes do Porshe sumirem na escuridão foi que eu estava errado. Bom Deus, eu estava enganado. Ainda não havia acabado.

Nota:

(1) De acordo com a teoria estrutural da mente, proposto por Freud, esta se dividiria em id, ego e superego, cada uma funcionando em um diferente nível de consciência. O id é o reservatório inconsciente das pulsões, dos instintos, regido pelo princípio do prazer. Regido pelo princípio da realidade, o ego cuida dos impulsos do id, desejos inadequados não são satisfeitos, mas reprimidos. O superego, por sua vez, serve como um censor das funções do ego (contendo os ideais do indivíduo derivados dos valores familiares e sociais), sendo a fonte dos sentimentos de culpa e medo de punição.

Notas finais
Olá a todos,

Aqui estou eu de novo e, claro, com mais um ch pra vcs ^^.

E o que eu possso dizer desse ch? Gente, eu estou tão, mas tão, anciosa. Esse é o meu primeiro lemon! E eu sei que não foi um lemon completo (nem era a intenção que fosse, o completo ainda vai demorar um pouquinho XD), mas mesmo asssim! Então, por favor, façam uma autora insegura feliz, sejam bozinhos e me mandem reviews dizendo o que acharam, sim? ^^"

E aqui finalmente está o ponto de vista do Milo, que todos esperavam. E confesso que eu ri muito enquanto escrevia o que se passava naquela cabecinha loira. Ele enfim descobriu que o Dite não é a noiva do Camus, mas parece que isso não fez tanta diferença assim pra ele não é? Realmente, Milo, vc não está com ciúme, eu que estou. XD

E eu simplesmente adoro ver o Camus saindo do sério. Em todos os sentidos XD

Tivemos tb uma participaçãozinha pequena, mas especial de Hyoga e Shun, espero que os que curtem o casalzinho tenham gostado.

E, por falar em Hyoga, mais uma vez temos um irmão atrapalhando tudo, não é? Pois é, mais uma prova de que não importa que tipo de irmão é o seu, se irritante como o Aoria (tadinho do Oria XD) ou todo fofo que nem o Hyoga, ele inevitavelmente há de te atrapalhar nos momentos mais cruciais. Fazer o quê? É a função dos irmãos XD (Uma pequena homenagem a todos os nossos irmãos. Que provavelmente detestam Yaoi e nunca vão ler isso aqui XDD)

Enfim, espero que vcs tenham gostado do ch, que acreditem, essa louca que voz fala tinha programado que que fosse continuação do outro. Imaginem, tudo isso num ch só? É claro que não deu certo.

Bjos a todos (será que tem algum garoto lendo isso?) e todas que acompanham a história, e um todo especial àqueles que me deixaram lindas reviews: Kamy_Jaganshi, Minos_d_Griffon e ddd

PS: Créditos devidos: os mesmo do ch anterior =D