Aprendendo a Seduzir
27 Capítulo 26
Notas iniciais
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens, se você não gosta, não leia.
Saga POV
Ia dar tempo. Tinha que dar tempo, foi tudo o que eu me permiti pensar. Estava usando a vestimenta de choque: o colete à prova de balas e o capacete antiassalto com viseira reforçada. Tudo aquilo, no entanto, adiantaria tanto quanto a pele nua, se não houvesse tempo.
Mas tinha que dar tempo. Aquela era a única opção viável pra mim, para a equipe, para o esquadrão antibomba e para os civis que nós tentávamos freneticamente tirar do local.
Reunir e preparar as equipes e materiais tinha levado mais tempo do que supúnhamos. Era por volta das nove e meia da manhã quando nós finalmente chegamos às portas do teatro.
Áquela hora o palco principal do Richard Rodgers Theater atraíra uma platéia compacta para a matinê: turistas, moradores da cidade de New York, crianças em idade pré-escolar acompanhandas pelos pais e babás, alunos de cursos de férias com seus professores e monitores. O barulho era grande e o público não estava apenas inquieto, mas também revoltado.
– Cada ingresso custou entre cem e duzentos e cinquenta dólares. – O homem loiro de mais de um metro e noventa de altura, que se identificara como gerente do teatro corria ao nosso lado como um cavalo de guerra Viking. A indignação e a agonia lutavam em sua voz: — Os senhores fazem idéia do quanto vai ser complicado conseguir reembolsar essse público, encaixar as pessoas em novas datas ou marcar um espetáculo extra? Estamos com cotação esgotada até o fim da temporada!
– Escuta aqui, o seu show vai realmente arrebentar se nós não conseguirmos fazer nosso trabalho em paz, e você vai ver seu palco ir pelos ares em tantos pedaços que alguns deles vão cair lá em Hoboken, New Jersey – Kanon falou, dando uma cotovelada forte para colocar o homem de lado.
Um pouco mais a frente eu ouvia a voz de Shion sobresaindo-se as demais enquanto nos aproximávamos:
– Hilda? – ele dizia no Walkie Talkie – Quero o status da operação!
– Múltiplos dispositivos foram descobertos, Comandante – a voz de Hilda se fez ouvir entre estalos de estática no aparelho -. Já localizamos e neutralizamos dois. A varredura eletrônica indicou outros seis. As equipes já se dispersaram por todo local, fazendo buscas. O palco possui quatro elevadores, e cada um deles desce oito metros até o subsolo. Detectamos pontos com possíveis bombas instaladas em todos eles e estamos agitando o máximo possível por aqui.
– Pois agitem mais rápido – Shion enfiou o comunicador de volta no bolso antes de se virar para o homem que ainda circulava ao nosso lado. – Caia fora!
– Claro que não! Sou o gerente desse lugar.
– Olha aqui, é melhor você sair por bem enquanto a gente está pedindo com jeito. – Kanon ameaçou. E como o cara era uns vinte quilos mais pesado do que ele e parecia irritado o bastante para garantir uma boa briga, eu tinha certeza de que meu irmão adoraria arrastá-lo pra fora dali pessoalmente. Mas como estávamos com pouco tempo pra isso ele se limitou a soltar um suspiro frustrado enquanto Shion sinalizava pra dois policiais corpulentos, indicando o homem.
– Retirem isso daqui! – Foi tudo o que disse, enquanto forçávamos caminho por entre a multidão ruidosa e inconformada por estar sendo evacuada do local.
Adiante, era possível ver o palco gigantesco. Uma dúzia de policiais cobertos de equipamento de choque estava enfileirada na borda do palco. Todos estavam preparados pra impedir que alguém da platéia entrasse nos bastidores. As pesadas cortinas vermelhas permaneciam abertas e as brilhantes luzes do palco estavam todas acesas.
Bebês choravam, idosos se queixavam e algumas meninas choramingavam baixinho, agarradas a bonecas compradas como souvenir.
A desculpa de um grande vazamento de água impedira o pânico, mas não servira para aumentar a cooperação dos civis.
As equipes de evacuação faziam progresso, mas não era fácil tirar milhares de pagantes do teatro aquecido sem eles terem assistido ao show e levá-los para o frio lá de fora. O saguão da casa de espetáculos estava completamente lotado.
E ainda havia inúmeras outras salas menores, corredores, vestíbulos. Atrás da área aberta ao público havia camarins, setores de controle, escritórios. Cada um daqueles locais tinha de ser esvaziado, revistado e protegido.
Se o pânico se instalasse ali haveria centenas de vítimas antes da multidão conseguir alcançar as portas de saída. Pensando nisso, eu peguei um megafone, subi em uma imensa mesa em estilo art decó e olhei pra baixo, na direção da multidão que reclamava ao ser empurrada através do saguão grandioso, decorado em cristal estilizado e metal cromado.
– Somos do Departamento de Polícia da cidade de New York – anunciei, ouvindo minha própria voz ecoar grave pelas paredes. – Agradecemos a sua cooperação. Por favor, não bloqueiem as saídas. Continuem a caminhar em direção à rua . – Ignorando os gritos e perguntas lançados na minha direção, eu repeti as instruções mais duas vezes.- Agradecemos a sua compreensão. Desculpe-nos por alguma incoveniência.
A palavra inconveniência deixou a multidão colérica. Os gritos aumentaram, enquanto os policiais guiavam com firmeza as pessoas atravéz das portas.
Uma mulher com colar de pérolas apertou meus tornozelos e ameaçou:
– Eu conheço o prefeito. Vou contar a ele sobre o que está acontecendo aqui.
Kanon, ao lado dela, lançou-lhe um sorriso cínico.
– Mande lembranças para o prefeito – ele disse -, e, por favor, saia de forma ordenada.
A mulher bufou, batendo com os saltos no chão, enquanto meu irmão pulava com agilidade sobre a mesa onde eu estava e pegava o megafone, pedindo com um sorriso travesso:
– Posso...?
Então, com a voz calma e calculada, dirigiu-se à multidão agitada:
– Senhoras e senhores – ele começou -, gostaríamos de pedir a coooperação de vocês e informar que todos os ingressos e despesas extras com transporte serão totalmente reembolsados pelo Departemento de Polícia do Estado de New York. Eu repito: Todos os ingressos e despesas com transporte serão reembolsados pelo Departemento de Polícia de New York – Eu vi Shion, ao longe, paralizar o que estava fazendo e fulminá-lo com o olhar. Mas meu irmão apenas retribui-lhe com um sorriso satisfeito. — Mais uma vez agradecemos a sua compreensão.
O barulho continuou elevado, mas o tom de revolta diminuiu consideravelmente.
– Você é mesmo muito hábil, não? – eu resmunguei ao descer da mesa.
– O dinheiro sempre fala mais alto, maninho. E nós precisávamos que eles saíssem mais depressa, não é? – ele piscou pra mim.
Eu balancei a acabeça e esperei ele descer da mesa antes de entrar em contato com Hilda pelo Walkie Talkie.
– Já conseguimos evacuar cerca de cinquenta por cento das pessoas – eu informei assim que a voz dela se fez ouvir pelo aparelho. – Isso está indo muito devagar. Como vão as coisas por aí?
– Igual a vocês – ela disse -. Conseguimos achar metade das bombas. Acabamos de desativar uma que estava instalada no console do ógão e continuamos trabalhando em outra no fosso da orquestra agora. Estamos quase conseguindo desarmá-la, e todos os outros se espalharam pelo teatro. Mas não temos pessoal suficiente.
Com o canto dos olhos, eu notei quando Kanon tirou um rastreador de mão do bolso e se pôs a verificar alguma coisa no aparelho. Aquilo me provocou uma fisgada na barriga.
– Mantenha-me informado. Câmbio final. Quanto a você... – eu me virei pra ele — ...o que diabos você pensa que está fazendo?
– Uma das bombas está na passarela acima da platéia – ele informou com naturalidade -. Vou trabalhar nessa.
– O único trabalho que você vai ter aqui é o de ajudar na evacuação. Lidar com explosivo é trabalho do esquadrão anti bombas, Kanon.
– Essas coisinhas modernas que Pandora gosta são tecnologia de ponta, maninho — ele falou displicente -, tudo computadorizado, tenho certeza que consigo desarmá-las.
– Kanon, você vai ficar longe das bombas. — Eu sibilei.
– Meu amado irmão, nós dois sabemos que não temos tempo para discussões. Se Pandora estiver vigiando este prédio, já sabem que descobrimos o alvo e podem detonar as bombas a qualquer momento.
– É por isso mesmo que você... – eu comecei a falar, e parei quando ele me deu as costas e se misturou à multidão com rapidez.
– Droga, droga, droga! – Lutando contra o pânico que começava a surgir dentro de mim, eu forcei a passagem e me lancei atrás dele.
Alcancei-o no momento em que ele destrancava uma porta lateral e consegui passar por ela logo depois dele.
A porta bateu sozinha, trancando-se automaticamente, e nós dois nos olhamos de cara feia.
– Não quero você aqui! – acabamos dizendo ao mesmo tempo, e meu irmão quase riu com isso.
– Deixa pra lá. — ele disse por fim, movendo-se com rapidez por entre vãos e subindo estreitos degraus de metal pra continuar pelos corredores cheios de curvas — Só não quero que você me atrapalhe.
Eu poderia ter-lhe respondido a altura, mas achei melhor poupar saliva. Agora estávamos naquilo até o pescoço de qualquer forma. Para melhor ou pra pior.
Kanon subiu por outro lance de escadas, ainda mais estreitas que as anteriores, e saiu em um lugar que lembrava o deque de um navio.
O lugar parecia flutuar acima dos assentos confortáveis e proporcionava uma visão geral do palco abaixo. Dava pra ouvir o eco das vozes, vindo de baixo, como um zumbido que saía das paredes grossas. Ali o teatro era simples e funcional, como um ator sem trajes especiais nem maquiagem. Do outro lado, via-se uma quantidade maciça de complicados painéis de controle entre grossos rolos de cordas e equipamentos.
– Onde... – eu comecei, e quase engasguei perdendo a fala ao vê-lo dar um passo à frente, onde o piso acabava.
– Por Deus, Kan, espere!... – Eu me lancei atrás dele até a ponta da plataforma e vi que na verdade o piso não acabava ali. Pelo ângulo em que eu olhava, porém, era como se acabasse. A passagem não tinha mais de sessenta centímetros de largura, e atravessava o teatro de um lado a outro, como uma espécie de ponte, por entre refletores gigantescos, cordas, roldanas, e vigas de metal.
– Onde está a bomba? – Eu quis saber, pisando atrás dele na passarela.
– Aqui. – Com agilidade, ele girou o corpo, ajoelhou-se e se inclinou para fora de um jeito que fez meu estômago dar uma cambalhota. – Está bem debaixo dessa passarela.
Ele passou o rastreador pelo local.
Olhando pra baixo, dava pra ver que a multidão agora diminuía e alguns atrasadinhos corriam apressados pelos policiais. Os três especialistas do esquadrão antibombas trabalhavam no fosso da orquestra parecendo bonequinhos, e eu consegui ouvir os gritos de triunfo que eles soltaram.
– Conseguiram desarmar mais uma. – Eu comentei.
– Hum. – Foi a única coisa que Kanon disse.
Eu percebi que meu comunicador piscava com uma chamada, e atendi o aparelho.
– Saga falando...
– Desarmamos mais duas – Eu ouvi a voz de Hilda do outro lado -. Estamos quase lá. Estou enviando uma equipe para a passarela que fica sobre a platéia e outra...
– Eu estou na passarela — eu falei -. Estamos trabalhando pra desarmar aqui.
– Estão...? – Ela ecoou perplexa – Pensei que fosse o trabalho da minha equipe fazer isso.
– Vá cuidar do resto. – Eu disse simplesmente, olhando mais uma vez pra baixo para vê-la andando a passos largos sobre o palco, levantando a cabeça pra olhar pra cima. – Estamos com tudo sob controle aqui.
– Peço a Deus que estejam — ela disse -. Hilda desligando...
Eu olhei para o meu irmão ainda de joelhos na plataforma.
– Estamos mesmo com tudo sob controle, não é Kan?
– Hum... — ele respondeu, com ar distraído -. Trata-se de um dispositivosinho filha da puta que temos aqui! Cara, Pandora tem muita grana mesmo. – E então pegou uma minilanterna e entregou a mim.
– Aponte a luz nesta direção.
– Que direção? – Eu perguntei.
– Bem aqui – indicou ele – Deite-se de barriga.
Eu me deitei no chão e apontei o facho de luz da lanterna para o local que ele havia indicado.
– Ótimo, isso mesmo! – Ele também se esticou no chão, colocando-se de frente pra mim, nossos narizes quase se tocando, e começou a trabalhar com uma pequena ferramenta que cintilava sob as luzes que vinham lá de baixo. – Eles querem que eu corte essas pontas aqui – ele disse -, mas, se eu fizer isso, nós vamos ser reduzidos a pedaços pequenos e pouco atraentes. O que seria imperdoável, não? – Ele sorriu minimamente. — Os fios estão aqui só pra enganar – explicou ele com naturalidade, ao mesmo tempo em que removia, com todo o cuidado, uma tampa oculta. – Viu só? As pontas eram só um chamariz. Eles queriam que isso aqui parecesse uma bomba comum quando, na realidade... ah, veja só esta belezinha... É um dispositivo altamente sofisticado, com disparador por controle remoto.
– Puxa, que fascinante! – eu exclamei, irônico. – Agora desarme logo isso, maninho, ou nós dois vamos estar fazendo amor no céu hoje à noite.
Ele sorriu amplamente dessa vez.
– O céu não aceitaria nenhum de nós.
Eu dei de ombros.
– Para onde quer que fôssemos, então.
– É esse chip aqui que eu preciso soltar – ele disse -. Vire a luz mais um pouquinho. Isso, bem aí! Então, você acha que poderemos continuar transando depois de morrer, seja lá pra onde formos? — ele levantou a cabeça tempo o bastante pra me lançar outro sorriso.
Eu girei os olhos.
– Ah, claro, com toda certeza.
– Vou ter que usar as duas mãos – ele voltou a se concentrar no chip -, e vou precisar das suas também.
– Pra quê?!
– Pra pegar o chip no ar, quando ele pular. Se eles forem tão espertos quanto imagino, usaram um chip de impacto. Isso significa que se essa belezinha aqui cair lá embaixo vai destruir umas doze fileiras de poltrona e abrir uma cratera no chão do teatro. Além, é claro, de nos sacudir pra fora desse poleiro com o deslocamento de ar. Pronto?
Eu assenti com firmeza.
– Você vai ter que se inclinar um pouquinho para fora. Mantenha os olhos fixos no que eu estou fazendo. E se ligue quando o chip pular...
Eu esvaziei a mente e lancei o corpo um pouco pra fora da passarela, deixando a cabeça e os ombros sem apoio. Olhei fixamente para a pequena caixa preta e vi os fios coloridos e o verde escuro do fundo da placa.
– É este aqui! – Ele encostou a ponta da espátula com que estava trabalhando em um chip cinza, pouco maior que a ponta de um dedo mindinho de bebê.
– Estou vendo.
– Não o aperte depois de pegá-lo. Seja gentil.
Eu concordei mais uma vez
– No três, então: Um... Dois... – Ele deslizou a ponta da espátula em volta do chip, apertando-o com suavidade. – Três!
A pecinha pulou, depois de soltar um estalo que pareceu uma bomba aos meus ouvidos. Caiu em cima da minha palma aberta e deu um pulinho. Eu fechei os dedos, sem apertar.
– Peguei!
–Ótimo! – ele disse – Agora tente envolvê-lo com alguma coisa macia.
Eu tirei um lenço de seda do bolso, e, pinçando o chip com os dedos, coloquei-o no centro do pano, dobrando em seguida, com cuidado, para depois tornar a dobrá-lo, antes de guardá- lo no bolso de trás da calça.
– Provavelmente não está tão protegido como deveria – eu disse -, mas é melhor que nada. E a não ser que eu sente em cima dele está tudo bem.
– Vê lá, heim? – Ele sorriu sacana — Tome cuidado. Gosto muito dessa sua bundinha pra vê-la explodir em mil pedaços. Agora como é que gente desce daqui?
– Podemos ir andando de volta pelo mesmo caminho por onde viemos... – Eu comecei a dizer, enquanto me levantava outra vez sobre a passarela.
– Ou podemos descer de um jeito mais divertido. – Meu irmão interrompeu com um sorriso travesso. Um brilho surgira em seus olhos no instante em que ele se pusera de pé e olhara a parafernalha de cordas e roldanas a nossa volta.
– Não estou afim de me divertir. – Eu falei na defensiva.
– Pois eu estou. – Ele segurou uma das cordas que pendiam de uma roldana acima das nossas cabeças até o palco lá embaixo. – Sabe qual era a matinê de hoje, Sa?
– Não.
– A montagem da peça favorita de várias gerações, Peter Pan. Dizem que é fantástica a cena em que os piratas balançam até o palco, pendurados nessas cordas.
– Não inventa! – Eu avisei. Mas ele já me puxara mais pra perto empurrando-nos pra beirada da passarela. Em uma reação instintiva, minhas mãos se apertaram em torno da corda.
– Segure firme – ele sugeriu, antes de se largar no ar, dando uma risada.
Eu senti uma lufada de vento que arrancou meu estômago fora e o deixou lá atrás. Pelos meus olhos eu via cores e formas passarem em um borrão.
Então o maluco com quem eu, por algum motivo, dividia os genes cobriu minha boca com a dele, em um beijo ardente. Uma bola de desejo se acendeu dentro de mim, misturado com a adrenalina. A combinação dessas duas sensações fizeram-me ofegar e meus joelhos ameaçaram fraquejar sem firmeza quando minhas botas alcançaram o chão firme.
– Pode se considerar um homem morto. – Eu ameacei — Você já era.
Ele voltou a me beijar e deu uma risadinha rente aos meus lábios.
– Valeu a pena viver.
Nós ouvimos um som de aplausos atrás de nós.
– Sem dúvida, uma bela entrada em cena – Shion vinha em nossa direção com o rosto cansado –. Agora, crianças, quando acabarem de brincar de Tarzan e Jane, ainda temos duas bombas pra desarmar.
Sentindo que eu poderia me jogar no primeiro buraco que aparecesse — talvez o fosso da orquestra fosse uma boa opção — eu dei uma cotovelada em Kanon para afastá-lo de mim, e, respirei fundo, ajeitando as roupas pra recuperar a compostura.
– Os civis foram evacuados? – Eu perguntei, desviando o foco.
– Sim, — Shion respondeu — estão todos lá fora. Já estamos bem perto, mas...
Ele parou de falar quando um estrondo surdo explodiu abaixo de nós, fazendo o palco estremecer. Acima, as luzes e cabos balançaram loucamente.
– Caramba! Merda! – Kanon praguejou.
Shion pegou seu comunicador na mesma hora.
– Hilda? Quero um relatório completo. Hilda...? Está me ouvindo?
Chiados e zumbidos encheram o ar, e eu senti a mão de Kanon segurando a minha com força até ouvirmos um estalo em meio à estática.
– Hilda falando. Conseguimos conter os efeitos da bomba. Não há feridos nem baixas. O temporizador se armou sozinho e tivemos que cobrir o dispositivo e detoná-lo. Repito, não há feridos. A área sob o palco é que ficou arrasada.
– OK. Certo. – Shion esfregou a mão sobre o rosto, enquanto nós respirávamos aliviados. – Qual é o status da operação?
– Conseguimos desativar todas as outras, Comandante. O prédio está limpo.
– Vá direto para a sala de conferência da central depois de proteger o local para a perícia. Bom trabalho! – Desligou e voltou o olhar para Kanon e pra mim. – Vamos precisar de todos os dados sobre a segurança deste teatro, além de uma lista completa de todas as pessoas que trabalham aqui. Técnicos, artistas, o pessoal da manutenção e da administração. Todos.
– Solicitei uma lista pra June com os dados completos de todo mundo assim que soube que o alvo era este local – eu disse -. A relação já deve estar à sua espera na central.
– Ótimo. Agora vocês já podem voltar pra central. E entreguem tudo que encontraram para o pessoal da perícia antes de sair. – Ele disse, e então se afastou a passos largos quando ouviu um dos assistentes de Hilda chamá-lo nas coxias.
Eu afundei a mão no bolso de trás da calça, pra recolher o lenço com o chip que deveria ser entregue à perícia, mas meus dedos tatearam apenas o vazio. Não havia mais nada lá dentro.
Eu estreitei os lhos na direção do meu irmão.
– Devolva o chip, Kanon.
– Que chip? – perguntou ele, erguendo uma sobrancelha.
– Não seja metido a esperto! Eu senti sua mão se esgueirando pela minha bunda enquanto nos balançávamos naquela corda. Quero o chip de impacto que estava aqui. – eu apontei para o meu bolso.
– Ah, aquele chip... – ele fez uma expressão inocente. – Não está aí? Puxa, que chato, Saga, será que você o perdeu em algum lugar?
– Me entregue a porcaria desse chip, Kanon! – eu reagi — É uma prova!
Sorrindo suavemente, ele levantou as duas mãos abertas no ar e encolheu os ombros.
Eu me aproximei dele até nossos sapatos se tocarem.
– Me entregue esse chip, Kanon! – eu repeti, ameaçadoramente. – Se você não me entregar por bem, vou deixar você pelado e mandar te revistarem até ele aparecer.
– Você não pode me revistar sem um mandado – ele deu um sorriso enviezado -. A não ser, é claro, que você queira me revistar sem roupa pessoalmente, e, nesse caso, eu estaria disposto a abrir mão de alguns dos meus direitos.
Eu inspirei fundo pra manter o controle. As vezes, só as vezes, eu me perguntava o que diabos eu tinha feito pra ter que aturar o Kanon.
– Eu te dou vinte quatro horas, Kanon. Vinte quatro horas pra você brincar com essa porcaria, e depois disso é bom que o chip esteja na sala de provas, estamos entendidos?
Ele sorriu satisfeito.
– Você é adorável, maninho.
Eu bufei.
– Sei. Ainda não gosto disso.
– Sabia que não ia gostar. – Ele depositou um beijo no meu rosto. – Nos vemos na delegacia.
Eu nem me dei ao trabalho de fazer cara feia. Em vez disso, entrei em contato com June para avisá-la de que toda a equipe estava a caminho da central.
oOOoOOo
Milo POV
Tudo bem. Eu ia conseguir. Aquilo ia dar certo. Eu só tinha que manter a cabeça no lugar e permanecer calmo que ia dar tudo certo.
– Não vai dar certo – disse a voz do Aioria do outro lado do telefone.
– Cale a boca! – respondi irritado.
– Só estou avisando.
– Você não deveria estar me avisando. Deveria estar me apoiando! – eu baixei a voz – Enquanto todo mundo fizer o combinado, vai dar certo. Tem que dar
Eu estava parado em frente a umas das imensas janelas do Salão Barroco do Plaza, onde eram servidos os drinks e canapés antes da cerimônia, olhando para a Plaza Square logo abaixo.
Lá fora, fazia um dia cinzento e frio de final de inverno. As pessoas estavam espalhadas por ali, de gorros e sobretudos, fazendo coisas normais como contratar carruagens para passear pelo parque e jogar moedas na fonte.
E eu ali, prestes a me apossar da tiara de diamantes da noiva do meu namorado – só que eu acho que não posso mais chamá-lo assim -, e claro, sequestrá-lo no processo. Eu só não sabia muito bem ainda como ia fazer isso.
Não com relação a tiara, eu digo, porque os gêmeos realmente haviam pensado em tudo sobre isso. Mas quanto a segunda parte. Em outras palavras, eu não tinha idéia de como faria pra tirar o Camus dali depois de tudo. Nocauteá-lo sempre era uma opção, é claro. Mas pela experiência que eu tivera até agora ao lado dele, o ruivo parecia saber uns bons golpes então não ia ser tão fácil. E eu duvidava que conseguiria convencê-lo amigavelmente. Pelo menos se nossa última conversa no telefone servisse de indicação.
De onde ele tirara a ousadia de me dizer que não fizesse mais promessas? Eu nunca lhe prometera nada que não pudesse ou não quisesse cumprir. Tudo bem que ele estava zangado porque eu não quisera lhe dizer o que iria fazer e tudo, mas mesmo assim.
É claro que eu não tinha dito porque não podia. Se lhe tivesse dito que ia me arriscar pra ajudar a polícia a prender uma organização terrorista, ele ficaria horrorizado, ia me censurar, e até poderia fazer alguma idiotice pra tentar me ajudar.
O pior é que depois daquela conversa no telefone eu meio que passara o resto dos dias conferindo meu celular de meio em meio minuto, esperando que ele me ligasse de volta. Ele não me dera quaisquer sinais de que fosse fazer isso, é claro, então eu não devia alimentar essa expectativa. Até porque fora eu mesmo que lhe pedira que mantivesse distância. Mas no fundo tinha esperança de que ele pudesse me procurar.
Só que ele não o fez. Sem dúvida ainda estava zangado comigo. E magoado. Talvez aquele telefonema tenha servido apenas pra que ele se indispusesse ainda mais contra mim. Talvez agora estivesse me considerando a pior espécie de patife. Só Deus sabia o que ele estava pensando. Nós estamos falando do Camus, afinal.
– O que está fazendo agora? – eu escutei a voz do Oria outra vez no meu ouvido.
– Olhando pela janela.
– Por que está fazendo isso?
– Não sei. – observei uma mulher de cachecol amarelo lá embaixo sentada em um banco e abrindo uma lata de Coca-Cola sem fazer a miníma idéia de que estava sendo observada. – Tentando captar a normalidade, acho.
– Normalidade? – eu ouvi o riso dele do outro lado da linha. – Por favor, Milo! Se a normalidade fosse o planeta Terra, você sabe onde estaria agora?
– É... na Lua? – sugeri.
– Há cinquenta milhões de anos luz! Você estaria... em outra galáxia.
Eu soltei um resmungo e fechei o rosto sentindo-me injustiçado. Mas a verdade é que eu realmente me sentia um pouco como se estivesse em um mundo diferente. Principalmete quando me virava pra admirar o ambiente atrás de mim.
Para todo o lado que se olhasse havia entalhes ornamentados, antiguidades, tapeçarias nas paredes, candelabros gigantescos. Fachos dos canhões de luz circulavam pela sala, iluminando os candelabros, brincando nos rostos dos garçons de uniforme cinza que corriam de um lado para o outro equilibrando suas bandeijas de prata com taças de champagne.
O centro da sala ostentava um gigantesto bufê de caviar, ostras, rosácea de lagosta do maine, consomê de ave com quenelles de faisão e arroz selvagem com pignoli – seja lá o que isso for.
O 'Inverno' de Vivaldi era executado com perfeição por uma orquestra de cordas que eu jurava já ter escutado tocar na filarmônica de New York.
Cada mesa circular exibia um centro ornamentado, feito de uma cascata de flores brancas: rosas, tulipas, lírios, orquídeas. O teto fora transformado numa musselina, enfeitado de luzes minúsculas como fios de pérola. E em toda parte havia o cheiro de flores, velas e expectativa.
Olhando tudo aquilo, eu tinha que admitir, mesmo contra a vontade, que a festa estava bem bonita. Bom, acho que se eu fosse honesto, tinha que confessar que era impressionante.
– O que está fazendo agora? – veio a voz do Aioria de novo.
– Ainda olhando a janela.
– Bem, então pare de olhar a janela! – ele se exasperou — Você tem menos de uma hora!
– Oria, relaxe.
– Como é que eu posso relaxar?
– Está tudo bem – eu disse tentando parecer tranquilo -. Tudo sob controle.
– As coisas não são mais como eram antigamente, Milo – ele falou -. Você é Milo Scorpion agora, esqueceu? O ator. E você mesmo disse que está cheio de socialite aí que não pára de olhar pra você. Como vai conseguir pegar a tiara sem que ninguém perceba?
Eu me afastei casualmente para um canto onde ninguém podia me ouvir.
– Eu não vou ter que pegar a tiara, o Saga e o Kanon arranjaram alguém pra fazer o serviço, eu só preciso encontrar a pessoa que me entregará a peça.
– Que pessoa?
– Não sei. Um contato deles. Alguém da polícia provavelmente. O Shiryu deve me passar o número do quarto em que o cara vai estar. Então eu só tenho que passear um pouco aqui pelo salão pra que Pandora saiba que eu estou aqui, e depois me encotrar com o tal sujeito e pegar a jóia.
– Certo – meu irmão concordou, e fez uma pausa antes de continuar: — E você não contou nada a ninguém, não é?
Eu bufei.
– Claro que não! Não sou tão estúpido assim!
– E ninguém suspeita de nada?
– Nadinha. – disse, no momento em que um garçom se aproximava com uma bandeija cheia de taças de cristal e uma garrafa de Veuve Clicquot. – Oria, eu falo com você depois, certo...
Desliguei o telefone e deixei que o garçon sorridente me entregasse uma das taças cheias.
– Com os cumprimentos do cavalheiro – o rapaz falou lançando os olhos pra um canto perto da entrada do salão.
Eu acompanhei seu olhar e minha vista logo caiu na figura de Shiryu em um smoking preto, parado em frente a porta. Ele conversava com alguns outros rapazes que eu não conhecia e sorriu discretamente pra mim, baixando os olhos para o guardanapo de papel que envolvia a haste da taça que eu segurava, quando nossos olhares se cruzaram.
Eu assenti quase imperceptivelmente pra ele e esperei o garçom se afastar pra abrir o guardanapo e ler as palavas: 'Quarto 22', escritas em uma caligrafia rápida sobre o papel.
Voltei a dobrar o bilhete guardando-o no bolso do paletó do meu smoking.
Enquanto abria caminho por entre a multidão de pessoas bem vestidas até a porta dupla que se abria para o corredor ao fim do salão, estranhei não ver nenhum dos parentes do noivo por ali. Bom, nenhum que eu conhecia pelo menos. Eu não via aquele Afrodite, ou o Hyoga – que deveria estar com o Shiryu aliás -, nem o pai do ruivo em parte alguma. Na verdade, os únicos rostos conhecidos presentes, eram do próprio Shiryu, do tal Seyia — que eu reconhecera de uma foto que encontrara pesquisando na internet – e do italiano Carlo Di Angelis, mas mesmo esse entrava e saía do salão o tempo todo.
No corredor largo e opulento, todo entalhado e forrado de tapeçarias do Plaza, coquetéis eram servidos para os convidados que passavam por ali.
Havia uma fila de pessoas junto a porta do elevador grande e antiquado, e eu esperei educadamente atrás de um casal de idosos com casacos de pele combinando. Dali ainda dava pra ouvir o borburinho e o som da orquestra de cordas no salão.
Uma garçonete se aproximou equilibrando uma bandeija de prata com Martines e eu aceitei uma taça, resistindo a tentação de pedir um 'mexido e não batido', como James Bond.
– Ei, você não é Milo Scorpion? – A garçonete perguntou.
Eu pisquei confuso para a garota e então suspirei.
– Sim – disse, percebendo que não havia mais escapatória -, sou eu mesmo.
– Ai, meu Deus – ela exclamou com os olhos abertos. – Eu estava em dúvida, mas agora que ouvi você falar, percebi que é você mesmo!
Eu sorri com esforço. Era só o que me faltava.
– Meu nome é Jane – ela disse – Que prazer enorme. Eu ouvi dizer que teria muita gente famosa neste casamento, mas nunca imaginei que você estaria aqui também... E que eu o veria pessoalmente – Ela soltou gritinhos de entusiasmo -. Sabia que você é meu ator preferido? Mesmo.
A pequena pausa no fluxo de cumprimento me permitiu dizer:
– Muito obrigado, Jane. Eu...
Mas eu não conseguiu completar a frase porque, quando devolvi a taça de Martine vazia na bandeija e comecei a jogar fora o guardanapo de papel que envolvia a haste na lixeira dourada ao lado do elevador, a mulher berrou:
– Não!
Quando olhei pra ela surpreso, a garota explicou, com a face corada:
– Será que posso guardar isso? O guardanado que Milo Scorpion segurou enquanto bebia o Martine servido por mim. — ela suspirou.
Eu olhei para o guardanapo meio amassado. Aí estava uma coisa que eu odiava mais do que tudo. Mais do que os meses longe de casa, as mudanças repentinas nos roteiros, a perseguição da mídia. Nada, nada era pior do que as pessoas – os fãs – que guardavam seus copos e guardanapos, e, em uma ocasião, até um lenço usado. Francamente, não existe criatura no universo cujo lenço eu queira guardar, e eu não entendo essa compulsão das outras pessoas... especialmente quando é o meu lenço que está em questão.
– Que tal eu autografar alguma coisa pra você? – eu ofereci enquanto jogava o guardanapo no lixo. – Isso deve ser mais interessante pra mostrar aos outros do que um guardanapo usado, não é?
– Ah! – Jane me entregou um bloco de notas e uma caneta. – Será que... Você poderia dedicar a Jane?
– Claro – falei mais uma vez, depois escrevi "Para Jane" em cima da minha assinatura. – Aqui está – disse ao terminar, entregando o bloco de volta. – É todo seu.
Jane estava reluzente. E eu notei que ela havia pescado cuidadosamente o guardanapo usado de dentro do lixo.
Eu balancei a cabeça tentando suprimir uma careta de nojo. Esse era definitivamente um dos motivos porque eu às vezes odiava a profissão que havia escolhido.
Um sinal de alerta agudo e comprido se fez ouvir quando as portas do elevador se abriram.
Eu entrei pacientemente na caixa de metal logo atrás do casal de idosos, e, pela primeira vez senti uma agitação desconfortável no estômago ao pertar o botão do segundo andar. Então lembrei que Pandora devia estar de olho em mim e apertei cinco outros andares diferentes. Vocês sabem, só pra despitar.
Quando cerca de dez minutos depois encarei a porta de madeira dupla da suíte com o número 22 em metal dourado afixado na metade superior, estava levemente ofegante.
Empurrei com cuidado a porta, que estava aberta como os gêmeos disseram que estaria, e parei sem ar quando meu olhar desceu sobre o nicho em que se achava encostado um sofa. Os olhos tão arregalados que eu tinha certeza de que poderiam saltar do meu rosto a qualquer instante. Ali estava uma cabeça ruiva familiar. Uma boca familiar. E uma mão familiar, segurando o que parecia gim-tônica.
– V-você? – Foi tudo que consegui exclamar.
oOOoOOo
Kanon POV
"Somos Pandora.
Somos os deuses da justiça.
Somos os Senhores do Caos.
Apreciamos muito os acontecimentos desta manhã. Não estamos desapontados, em absoluto, por termos escolhido vocês como nossos adversários. Em menos tempo do que o exigido por nossa mensagem vocês conseguiram localizar o alvo descrito. Ficamos satisfeitos em reconhecer os seus talentos.
Talvez vocês imaginem que saíram vencedores desta batalha. Embora devamos congratulá-los pelo seu trabalho decisivo e ágil, devemos também informá-los de que o trabalho da manhã foi apenas um teste. Uma rodada preliminar.
A primeira leva de especialistas da polícia entrou no prédio alvo exatamente às nove horas e dezesseis minutos. A remoção dos espectadores começou oito minutos depois.
A qualquer momento, durante todo o processo, o alvo poderia ter sido destruído. Mas nós preferimos apenas observar.
Ao ativar o temporizador do último dispositivo, o nosso intuito foi oferecer-lhes tempo para que ele fosse detonado com o máximo de segurança. A Tenente Hilda do Esquadrão Antibombas poderá confirmar que sem esse tempo extra e sem as precauções de segurança que foram tomadas várias vidas seriam perdidas, bem como grandes prejuízos materiais seriam infligidos.
Não seremos tão benevolentes com o próximo alvo.
Somos Pandora, profetas da nova ordem."
Eu passei os olhos pela mensagem pelo que deveria ser a milésima vez, e como em todas elas praguejei:
– Merda! Eles acompanharam todos os nossos movimentos. Estavam nos observando desde o começo. Podiam ter mandado tudo pelos ares se quisessem.
A mensagem estava esperando por nós assim que chegamos na central por volta do meio dia. Shion imediatamente ordenou uma reunião de emergência que, mais uma vez, devido a quantidade indesejável de jornalistas e curiosos na porta da delegacia depois da entrevista coletiva que o Secretário de Segurança fez o favor de dar à mídia, acabou sendo transferida para a nossa casa.
Naquele momento a sala do apartamento de três quartos na 259, East Street com a Sétima avenida que eu dividia com Saga estava mais lotada do que um bar de hotel em época de torneio da NBA.
– O que seu pessoal e a perícia conseguiram no local? – Shion perguntou a Hilda que estava sentada com Julian na mesa de jantar com uma montanha de dipositivos e aparelhos espalhados sobre ela?
– Parte dos dispositivos ainda está sendo recolhida e levada para análise no laboratório, Comandante. – ela disse, desviando os olhos do que parecia um minúsculo microfone sem fio. – A essa altura, já ficou claro que lidamos com dispositivos intrincados, feitos à mão. PETN2 parece se o explosivo de escolha. A análise ainda está incompleta, bem como a localização dos controles remotos que detonariam esses explosivos, mas parece que são de longo alcance. Não são brinquedos nem artefatos domésticos, mas de uso militar com alto nível de complexidade. Concordo com a opinião do Kanon a respeito da ação deles no teatro. Se Pandora quisesse realmete explodi-lo, agora só restaria pó naquele local.
Ela tirou alguma coisa de um saco lacrado que jazia sobre a mesa.
– Esta é uma das câmeras de vigilância que a minha equipe recolheu no local. – Ela exibiu uma unidade redonda pouco maior que uma bola de golfe. – É espantosamente bem feita. Localizamos e recolhemos vinte e cinco destas, na cena do crime. Eles nos observaram o tempo todo, acompanharam cada passo que dávamos e poderiam ter nos mandado para o inferno com um estalar de dedos.
Ela recolocou a minicâmera no saco lacrado de onde a pegara, e virou o rosto quando Dohko emitiu um grunhido
– Você está bem, Dohko?
– Sim, claro. Estou até com vontade de dançar. – Ele falou irônico.
Dohko estava em pé, sem camisa, enquanto Sorento raspava com uma gilete os pelos do tórax dele e preparava a pele com adstringente e um outro líquido estranho, pra afixação dos micronones e mini rastradores que ele deveria usar no momento da entrega da tiara.
A van de monitoramento também já estava na garagem esperando, só faltava terminar a instalação dos equipamentos no Dohko e Milo chegar com a jóia pra inserirmos o rastreador na peça.
No final Saga se entendera com nosso cunhadinho ruivo e eles acabaram decidindo que o próprio Camus se incumbiria de pôr as mãos na réplica e a entregaria ao Milo. Eu só esperava que nosso adorável irmãozinho não nos matasse depois por meter o príncipe dele nisso.
– Eu posso chamar outra pessoa para terminar de prender isso em você, – Julian sugeriu ao Dohko. O grunhido havia sido devido a um corte na pele do chinês que Sorento havia provocado quando apertara demais a gilete.
– Só peça pra ele prender isso logo. – ele resmungou.
– Foi mal. – Sorento se desculpou.
– Esse rastrador não tem fio – Julian explicou -. Vai ficar preso bem em cima do seu coração. Eles devem revistá-lo em busca de grampos, mas vamos cobrir o equipamento com um material novo, que parece pele. Ele está começando a ser usado agora. Se acharem isso aqui, talvez pensem que é só uma espinha inflamada ou um caroço.
– Vão achar que tenho um furúnculo no peito. Que legal – ele zombou.
– Sabe, Dohko? – Eu falei sem conseguir resistir a provocação — O comandante poderia prender isso em você.
Shion, que analisava uma pilha de papéis com Saga estreitou os olhos na minha direção.
Ele e Dohko tinham um lance. Caso antigo, mas não declarado. Pelo menos não oficialmente declarado dentro do isntituto de polícia. Mas quando você trabalha a tanto tempo investigando pessoas você simplesmente sabe reconhecer os sinais. Era ingenuidade do Saga pensar que ele também não sabia sobre a gente. E a reação — ou a falta dela — do comandante hoje de manhã ao nos flagrar aos beijos no palco só confirmava minha afirmação.
Dohko apenas bufou. E mantendo os olhos treinados fixos em um ponto qualquer murmurou. – Prendam logo essa porcaria onde têm que prender.
– Vou acompanhar o som do microfone pessoalmente – Julian falou -. Vamos monitorar sua posição pelos batimentos do seu coração. Preparamos um relógio de pulso especial também, com outro microfone. O microfone do relógio é de baixa frequência, então não vai ser pego por um rastrador de mão, mas seu alcance é ridículo e você vai ter que falar bem perto dele para podermos ouvir. Ele vai funcionar como equipamento reserva.
– Vou colocá-lo logo. – Dohko retirou o próprio relógio e prendeu o novo. – Há mais alguma coisa que eu precise saber?
– Estamos espalhando homens em toda a estação Grand Central – Shion falou -. Você não vai estar sozinho em nenhum momento. Ninguém vai se aproximar sem você chamar, mas eles estarão lá. Nós estaremos lá.
– Bom eu saber disso – Dohko sorriu pra ele.
A estação Grand Central foi onde Dohko marcara o encontro.
– Já vou avisando que qualquer roupa extra vai impedir o sinal do rastrador – Julian explicou.
– Não vou poder usar um colete a prova de balas, então?
– A escolha é sua. Colete ou rastreador.
– Tudo bem – ele deu de ombros -, eles provavelmente vão mirar na cabeça mesmo.
– Droga! – Shion praguejou.
– Estou brincando. – Ele sorriu outra vez para o comandante, tentando passar tranquilidade. Depois passou a mão sobre a boca em um gesto claro de nervosismo.
– Certo. Então, o que temos até agora? – Shion mudou de assunto chamando a atenção de Saga.
Meu irmão levantou os olhos dos papéis ajeitando os óculos de leitura.
– Não muito, mas... — ele voltou a examinar a papelada — Pandora Jeweler, Pandora Unlimited, Hipnos Eletrônicos, Cronos Ltda., Grupo Meikai, e assim por diante. Todas essas empresas têm ligações umas com as outras. A manipulação dos bancos de dados feita por um especialista, a alta qualidade dos materiais utilizados nos explosivos, o emprego do trabalho avulso de um ex-militar desertor para fabricar o equipamento, tudo isso ecoa a postura e nos remete ao antigo grupo secreto, dissidente do exército, que Radamanthys foi acusado de participar.
Shion assentiu.
– O grupo também contava com nomes que se tornaram conhecidos para nós ao longo das investigações do caso Pandora – Saga continuou -. Nomes como Zelos, Valentine, Minos, Flégias, entre outros. E aparentemente o grupo era chefiado por um homem, um alto figurão militar, a quem os textos referem apenas por Hades.
– Enquanto investigávamos sobre Hades nos deparamos com um nome – Eu falei -. Coronel Alward Bassi. Ele desapareceu em campo e foi dado como morto em batalha. Os arquivos do FBI a respeito dele, no entanto, continuam em aberto.
– É impressionante, rapazes – Shion falou irônico -. Eu sempre fico me perguntando como vocês conseguem todas essas informações.
– E algo me diz que a divisão de seguraça interna do FBI também adoraria saber –Dohko completou.
Eu sorri divertido.
– Utilizamos todas as fontes que nos foram dispolibilizadas, senhor.
– Estou certo que sim. – Shion cruzou as mãos. – Como eu disse, fizeram um bom trabalho.
– Obrigado. – eu agradeci, e Saga pigarreou sem jeito antes de continuar:
– O grupo de Hades e Radamanthys foi basicamente desmantelado quando a casa em que ele vivia com a mulher e a filha foi pelos ares e alguns dos líderes do movimento foram mortos. Isso aconteceu há mais de doze anos, o público não teve acesso aos fatos e soube apenas de detalhes incompletos a respeito de sua organização. Sem uma ligação direta, quem iria se importar com isso? Tudo aconteceu há muitos anos. Hades nunca foi encontrado e o grupo não se tornou nem mesmo uma mancha nos livros de história, porque nada jamais ficou provado. Os arquivos que poderiam esclarecer esse ponto estão lacrados.
– Espera – Julian se manifestou -. Vocês estão insinuando que Pandora e este grupo são a mesma pessoa, com outra roupagem, é isso?
– Não exatamente – Saga falou -. Mas, obviamente, existe uma ligação. O grupo rebelde de Radamanthys era suspeito de possuir ligação com facções terrroristas. Pandora óbvimente tem sólida influência sobre a máfia e grupos terroristas de vários países, estando por trás de diversos atentados espalhados pelo mundo.
– Parece-me claro que Pandora se desenvolveu a partir deste grupo original. – Eu falei — Pandora é, obviamente, muito mais sólida e bem estruturada. Com alcance, influência, e potencial letal muito maiores. No entanto, o cerne ainda é o mesmo. E provavelmente o homem por trás de tudo é o mesmo também.
Nós ficamos em silêncio por alguns minutos até que Hilda falou:
– Eu sempre me questiono o porquê de tudo isso, sabe. O que os leva a isso? Vingança?
– Não acredito – Shion disse — .Talvez no começo fosse mesmo assim, mas não mais. 'Quando se olha muito tempo para o abismo... — ele citou.
– ... O abismo olha pra você (1).- Meu irmão completou.
– Sim – o Comandante afimou -. Penso que inicialmente, quando ainda eram um grupo dissidente do exército, existia realmente uma ideologia motriz. Uma insatisfação política, descontentamento com o governo e os dogmas da sociedade moderna, esse tipo de coisa. Depois, quando o grupo inicial foi desmantelado e Pandora nasceu, não duvido que houvesse mesmo um forte sentimento de vingança envolvido. Hoje, no entanto, todo o seu discurso reflete apenas uma mente insana, ávida pelo poder, e que se julga superior aos demais. Um Deus autoproclamado que se diverte jogando com vidas humanas. Eles não querem sessenta milhões de dólares em títulos ao portador, eles não querem a libertação de presos políticos. Eles querem apenas mostrar o poder que têm sobre nós. Quando aquele ex-militar Russo que eles apagaram disse que isso era 'um jogo disputado em nome dos mortos' ele não estava eganado. Pandora poderia ter matado dezenas de pessoas no Richard Rodgers Theater hoje se quisesse. E faria isso por pura diversão. Apenas pra mostrar que pode.
Todos nos calamos por um tempo, até que o computador conectado em rede com o da central emitiu um bip chamando nossa atenção. Shion abriu um programa de conversação e a imagem de June apareceu na tela.
– Comandante, — a tensão era visível em seus lábios comprimidos. – Chegou outra menssagem para o senhor.
– Pandora? — Ele perguntou.
Ela assentiu.
– Não abri o e-mail, mas o encaminhei ao departamento de inteligência e o examinamos com cuidado. Parece seguro.
– Ponha na tela — ele mandou.
Ela assentiu outra vez, e alguns segundos depois a rosto de June sumia, sendo substituído pelas conhecidas letras sobre o fundo escuro.
'Somos Pandora.
Somos os Deuses do Novo Mundo.
Somos os Senhores do Caos.
Estamos acompanhando os seus esforços. Eles nos divertem. Como estamos nos divertindo preparamos uma surpresa final para vocês.
Nós vimos a entrevista com o Secretário de segurança essa manhã. Apesar de nos divertirmos com a indignação que os leva a condenar a destruição de seus símbolos patéticos e emblemas da sociedade cega e oportunista que nesse momento mantém o país sob rígido controle, ficamos frustrados pela posição previsível e unidimensional da mídia a respeito desses assuntos.
Onde está a fé deles? Onde está sua compreensão?
Todos continuam sem enxergar nem compreender o que somos e o que queremos lhes transmitir.
Essa tarde atacaremos com a fúria dos deuses em nossa derradeira batalha. Esta tarde nós assistiremos a luta dos ratos para escapar do navio afundando. O último alvo irá cair precisamente as dezesseis horas e quinze minutos.
Nós admiramos vossa habilidade. Admiramos vossa força. Não ficaríamos satisfeitos com menos do que isso. Considaramo-os adversários valorosos e hábeis combatentes. Sentimos ter de adiar nossos planos agora. Mas um bom General sabe a hora de se retirar. Não perderemos a fé, nem diminuiremos o nosso compromisso com a causa. Terminaremos o que começamos. Um dia, muito em breve, outro precioso símbolo dessa nação corrupta e lamurienta cairá. E mais uma vez eles sentirão.
Esperamos que apreciem o espetáculo de despedida que orquestramos para vocês.
Somos Pandora.'
– O espetáculo que eles orquestraram pra nós? – Eu ecoeei. E então parei quando a imagem na tela piscou antes de sumir. De repente, um enorme crônometro em contagem regressiva de quarenta e cinco minutos enchia a tela. Atrás dele um programa de destruição de arquivos anuciava: 'inicializando operação'.
– Mas que porra é essa! – Eu praguejei, mal acreditando naquilo enquanto tentava a todo custo recuperar o controle do computador.
Julian e Sorento largaram o que faziam e vieram em meu auxilio, enquanto Saga e Shion tentavam falar com June no celular.
Nós trabalhamos cerca de quinze minutos no aparelho em vão.
Saga já havia desligado o celular.
– Todos os computadores do departamento estão do mesmo jeito. – Anunciou desanimado.
– Parece tratar-se de um vírus sofisticado – Julian comunicou o que eu tambem já havia percebido. – Aparentemente ele esteve incubado até agora, inativo, e disfarçado na cadeia de códigos da mensagem, de forma que nenhuma das nossas análises anteriores foi capaz de indetificá-lo.
– Tudo indica que alguma coisa nesse ultima mensagem completou a cadeia de código do programa intruso, ativando-o – Sorento falou -. E, uma vez ativo, não há mais o que fazer. Estamos de mãos atadas aqui.
– Isso quer dizer que nós vamos perder todos os dados? – Hilda falou
– Infelizmente – Julian concordou.
– Meu Deus – ela disse -, mas o que significa isso?
– Significa que Pandora esta saindo de cena, e destruindo todos os rastros da sua passagem – Shion estava voltado para a janela agora, e olhava a vista lá fora.
– Mais uma vez. – Dohko suspirou frustrado.
–Mais uma vez? – Eu repeti curioso.
– Pandora é mestra nisso – o Comandante explicou ainda olhando um ponto qualquer da paisagem. Ele parecia surpreendentemente calmo. Simplesmente derrotado. – No final de 1999, cartas assinadas por Pandora começaram a chegar a polícia secreta Inglesa, e tudo levava a crer que o alvo seria a Abadia de Westminster em Londres. Aparentemente alguma coisa deu errado nos planos de Pandora e eles desapareceram sem deixar pistas, pra reaparecer em 2001, no que culminou com os atentados de 11 de Setembro. Atingido seu alvo ela simplesmente desapareceu por anos dessa vez, conseguindo sumir com todos os seus rastros e fazendo parecer que Bin Laden agia sozinho. Em 2008 o grupo de inteligência secreta Inglês que atua na Índia recebeu as mesmas mensagens antes que um suposto comando de islamitas atacasse simultaneamente vários alvos em Mumbai, como a rede de transportes e hotéis, provocando a morte de 163 pessoas. Nenhuma referência a Pandora jamais sobreviveu em nenhum arquivo, e ninguém de fora da inteligência secreta nunca sequer sonhou com sua existência.(2)
– E então... como seu grupo precussor Pandora desaparece sem deixar nem uma mancha nos livros de história. – Saga falou como se narrasse o desfecho de uma grande história, e então estreitou os olhos, fixando-os em algum ponto da parede. Eu quase podia ouvir as engrenagens da cabeça dele funcionando.
– Eles querem nos mostrar o quanto são poderosos e cruéis – Eu falei -. Então vão fazer alguma coisa ir pelo ares, antes de desaparecer completamente... E não há nada que possamos fazer a respeito. — Eu fechei um punho e o desci com força, descontando toda minha frustração na mesa mais próxima.
O barulho do impacto na madeira fez meu irmão piscar e focar o olhar outra vez.
– Na verdade – ele disse lento, como se saísse de um transe -, eu acho que eu posso.
De repente, todas as atenções na sala entavam voltadas pra ele.
– Que dizer, eu acho que sei onde vai ser o próximo ataque – ele continuou -. Vejam — Ele tirou um documento da pilha de papéis que estivera examinando com Shion e o colocou sobre a mesinha da sala. Haviam algumas partes grifadas com marca texto. — Em 1995 – ele leu — o FBI suspeitava do envolvimento do grupo precursor de Pandora com um grupo rebelde que se auto denominava Sekhmet, e se dizia uma facção da Jihad Islâmica Egípcia. Orquestrado pelo grupo de Hades, Sekhmet assumiu a autoria de diversos atentados mesmo dentro do EUA. Abafados pelo governo, a mídia nunca noticiou nenhum dos ataques. O primeiro prédio que Sekhmet assumiu ter destruído era um depósito vazio próximo do Distrito de Colúmbia. A polícia local foi alertada e não houve vítimas. Em seguida foram fornecidas pistas de que havia explosivos instalados no Kennedy Center, um teatro. Todas as bombas com excessão de uma foram desativadas e o prédio foi evacuado a tempo, com sucesso. A bomba que explodiu provocou danos mínimos e deixou poucos feridos. – ele lançou um olhar significativo na nossa direção — Isso soa familiar pra vocês?
Eu abri a boca pra responder e voltei a fechá-la. Não dava pra acreditar. Como nós não percebemos isso antes? Como ninguém viu que Pandora esteve seguindo um padrão o tempo todo?
– Qual foi o ataque seguinte? – Shion perguntou.
– O saguão do Hotel Mayflower.
– Merda! – eu falei, subitamente percebendo tudo -, o Plaza!
oOOoOOo
Milo POV
Eu sentia como se meu mundo tivesse se desintegrado de repente, transformando-se, depois, outra vez em terra firme.
Ele estava parado na minha frente. Havia se levantado do sofá quando eu entrara e estava agora de pé diante de mim, tão lindo como eu o vira da última vez, ou mais.
– Ca... camus. – Eu gaguejei aparvalhado, passeando os olhos pela figura a minha frente.
Ele estava fantástico. Não, ele estava mais do que fantástico. Estava completamente estupendo, com um meio fraque escuro imaculado, camisa branca engomada, e gravata prateada. Seus cabelos vermelhos estavam brilhando sob as luzes, e eu podia sentir o cheiro familiar de seu perfume. E quando seus olhos se encontraram com os meus, senti uma coisa se soltar por dentro, como uma bobina se desenrolando.
– Olá, Milo – ele disse sério, com aquele sotaque francês que eu amava.
E eu descobri que estava perdido, sem saber o que falar, o que me deixou chocado. Muito raramente eu passara por isso.
'Tudo bem, esse é o casamento dele' — Eu ficava dizendo a mim mesmo -. 'É normal encontrá-lo aqui. E ele sem dúvida só está nessa suíte por acaso. Não tem nada a ver com você ou a tiara. Ele te odeia. E tem toda a razão pra isso, porque só um idiota completamente cego como você poderia não ter adivinhado que era Saori Kido a noiva dele todo o tempo...'.
– Por que non me contou? — Ele disse.
– Contar o quê? – perguntei, mal ouvindo o que ele falava. Minha concentração traidora desaparecera mais uma vez, deixando-me apenas capaz de ficar olhando para o pescoço dele, lembrando sua maciez quando o tocava com os lábios e a língua.
– Sobre Pandora.
Isso me trouxe de volta e, pestanejando, eu o encarei.
– Hyoga esteve em casa. – Ele continuou – Estava com seus irmãos... os policiais... Nós tivemos uma longa conversa e eles me contaram tudo, Milo.
– T-tudo? – Eu gaguejei. Estava surpreso demais pra disfarçar.
Ele respirou fundo, acomodando-se no sofá outra vez e fazendo um gesto pra que eu me sentasse também. Eu achava que deveria ter sentado ao lado dele, mas não sabia se, com tal proximidade, seria capaz de resistir e não tocá-lo, de forma que optei por uma poltrona um pouco mais afastada.
– Sobre Pandora – ele disse suavemente, mas eu não tinha idéia se ele estava sendo sincero ou não –, e a tiara. Sobre as cartas terroristas, a participação da Saori, o acidente do meu irmão, e o atentado esperado contra o Louvre. Sobre como você acabou envolvido nisso tudo. E... Bien – ele suspirou -, agora acredito que posso compreender melhor seus motivos. No entanto, gostaria que você mesmo tivesse compartilhado essa informação comigo antes. Teria evitado um bocado de sofrimento.
Será que ele estava se referindo ao Afrodite, eu pensei, ou a si mesmo? Será que me culpava pelos ferimentos do amigo? Ele devia saber que eu teria evitado isso se pudesse. Teria eu mesmo levado aquela surra para poupar-lhe mais dor.
– Então, Milo – ele voltou a perguntar, um pouco mais enfaticamente dessa vez -, por que non me contou?
À luz das arandelas nas paredes, eu via o rosto dele claramente. Havia ansiedade naqueles profundos olhos avermelhados.
Quantas vezes, eu me perguntava, eu me divertira com caras um milhão de vezes mais descolados e experiêntes do que ele, e fizera isso calmamente e com bastante autoconfiança? Por que é que dessa vez, quando realmente importava, eu me comportava como um desajeitado colegial, sem saber o que fazer?
Eu encolhi os ombros antes de dizer:
– Eu achei que não podia envolvê-lo nisso.
Ele olhou pra mim intrigado.
– Mas eu já estava envolvido, n'est-ce pas?
Eu entreabri os lábios, mas de novo não emiti nenhum som. O que havia de errado comigo?
Eu sabia. Sabia o que estava errado. O impulso de tomá-lo nos braços e cobrir aquela boca com a minha era tão forte, que meus braços estavam tremendo.
– Eu... eu prometi guardar segredo – eu disse então .
– E isso é tudo?
Eu franzi o cenho na defensiva.
– Eu sei que hoje em dia é comum alguém dar sua palavra e depois retirá-la quando não é mais conveniente mantê-la. Mas eu abomino traição. Não aceito deslealdade. Pra mim, Camus, quando alguém diz que vai guardar um segredo, ele o guarda. Mesmo diante do risco de morrer.
Ele me olhou por um tempo. Aqueles analíticos olhos vermelhos queimando minha pele. Então se levantou novamente, caminhando na minha direção.
Eu me ergui também sem saber o que ele pretendia.
– Mesmo – ele perguntou, com uma voz um tom mais baixo, enquanto fixava os olhos nos meus – diante do risco de me perder?
Ele estava tão perto agora que se eu estendesse o braço seria capaz de tocá-lo, para acariciar aquelas mechas de cabelo vermelho brilhante que lhe escorriam pelos ombros em contraste com o paletó escuro.
– Sim – eu falei. E embora cada palavra me dilacerasse a garganta eu deixei que saíssem.
Instantaneamente seus olhos se encheram de mágoa e sua expressão ficou rígida.
– Sinto muito tê-lo deixado no escuro desse jeito – eu ainda tentei me justificar -, mas, acima de qualquer coisa, eu fiz isso por você. Tudo o que fiz foi por você.
Tinha certeza de que estava com um olhar desesperado agora, que, na verdade, era como eu estava começando a me sentir. Desespero não era uma coisa que eu estivesse acostumado a experimentar quando se tratava de relacionamentos, mas Camus parecia ter a habilidade de despertar essa sensação em mim.
Ele colocou as mãos nos bolsos. Eu queria acreditar que fizera isso porque elas tremiam, mas não havia absolutamente nada em sua aparência ou em seu comportamento que denunciasse nervosismo.
– Pour moi? – Sua voz soou fria. — Pois a mim sempre pareceu que você estava mais interessado em salvar a própria pele, Milo. Ou talvez prefira que eu diga que foi pra salvar seus irmãos?
De repente a conversa já não estava mais tão tranquila.
A frustração me consumia. Que diabos eu tinha que fazer para agradar aquele cara? Eu cometera um erro terrível, é verdade, mas ele não podia me perdoar? Era como se ele acreditasse que eu tinha feito aquilo de propósito para ferí-lo, como se tivesse sido essa minha intenção desde o começo.
– Nada disso! – eu falei, trincando os dentes. – Fiz aquilo por você.
– Eu lhe dei a tiara — ele acusou -. E nem assim você confiou em mim. Dei-lhe o que queria para que non o ferissem de novo.
– E para proteger a si mesmo, ao seu irmão e ao Afrodite – eu lhe lembrei.
Por que estava agindo como um idiota? Com certeza não estava com ciúme de um pirralho e uma Diva afeminada, estava?
Ele se retraiu como se eu o tivesse agredido.
– Eu teria lhe dado aquela tiara estúpida há muito tempo se você tivesse sido sincero comigo. Se tivesse me contado o que estava acontecendo, eu a teria dado de boa vontade, mas você non confiou em mim.
– É claro que não! Ainda nem nos conhecíamos direito!
– Mas certamente ficamos conhecendo um ao outro, non? – Sua voz estava carregada de sarcasmo e ressentimento. – E mesmo assim você escondeu isso de mim.
É verdade, eu errara, mas por que ele continuava insistindo nisso? O que queria de mim?
– É por isso que está tão zangado? Por que eu não lhe disse nada? Por que feri o seu orgulho?
– É claro que você me feriu! — Seus olhos estavam faiscantes. Eu já tinha visto seu gênio explodir e soltar fagulhas antes. Normalmente preferia isso ao seu controle gélido. No entanto, daquela vez, era como se cada pedaço do seu ser tivesse explodido com as palavras. — Você me fez acreditar que se importava comigo. Fez-me acreditar que eu podia ter confiança em você, mas provou apenas que isso non era verdade, e que você non confiava em mim.
– Não podia confiar em você para que não tentasse me ajudar de alguma maneira. – Maldição! Já não tínhamos falado disso?
– É claro que eu ia tentar ajudar você, mas non de modo a pôr você nem ninguém mais em perigo. Teria lhe dado a tiara, e tudo isso podia ter sido evitado. Niguém teria sido ferido. Nem o Hyoga, nem o Dite, e nem você. – Havia tanta dureza em seu olhar que eu mal conseguia sustentá-lo.
Eu baixei os olhos.
– Agora é fácil pra você dizer isso. – Tão fácil quanto era para eu ver que ele estava certo, que eu devia ter sido honesto desde o começo.
Minha garganta estava tão apertada que as palavras não saíam, mesmo que eu soubesse como responder.
Um momento de silêncio se passou antes que ele disesse outra vez:
– Apesar de tudo, eu tento confiar nas pessoas que têm importância para mim, Milo. – agora parecia triste e resignado. – E mesmo que non o conhecesse tão bem, já havia começado a me importar com você. E, embora não venha ao caso, eu o teria ajudado.
– Isso é uma grande bobagem – eu retruquei, sacudindo os ombros.
– Não é mesmo. – Ele não arredava o pé – Você está com medo de confiar porque acha que vai se magoar, ou, pior ainda, que poderia magoar alguém. Eu sei bem como é isso, mas ultimamente percebi que o risco de que isso ocorra, quando você non têm confiança nas pessoas, é maior non só pra você mesmo mas também para os outros.
– Você não compreende. – E provavelmente nunca ia compreender. E isso me deixava zangado e triste. Como seria possível que tivéssemos um futuro juntos se um não entendia o que o outro estava dizendo?
– Compreendo que você tenha feito uma tolice quando era muito jovem – ele disse -. Você acha que é a única pessoa que já cometeu esse tipo de erro?
– Ótimo! – Eu estava tenso. – Você quer saber a razão por que eu não lhe contei tudo desde o começo?
– Adoraria saber. – Ele sempre fora irônico assim ou aprendera isso comigo?
– Você está certo. Eu estava com medo. Temia o que podia acontecer quando você descobrisse. Tinha medo de que você não entendesse. Tinha medo de perder você.
Ele me olhou com um ar triste.
– Eu teria tentado te entender se você tivesse me dado uma chance. E no que deu a mentira? Ainda acabou mal, não foi?
Acabou. Meu coração deu um salto. Era assim? Realmente havia acabado? Eu não tinha acabado de admitir que me apavorava a idéia de perdê-lo? Eu nunca dissera a uma pessoa que tinha medo de perdê-la. E ele nem mesmo se dera conta da importância daquela revelação.
Bem, o que eu esperava? Que ele me aceitasse de braços abertos depois de saber da verdade?
Certo, talvez fosse exatamente isso que eu esperasse.
– O que você quer de mim, Camus? – Estava sendo patético, eu sabia, mas não me importava. Eu faria qualquer coisa, desde que ele me aceitasse de volta.
Ele estava pálido, parecia resignado, e todo rubor de seu rosto desaparecera. Vê-lo assim me causava uma sensação vazia e estranha.
– Não quero nada – ele suspirou cansado – Só faça o que veio fazer e vá embora. Estou cheio de tudo isso.
Eu o encarei sem fala. O aperto na garganta crescendo tanto que eu pensei que poderia parar de respirar, enquanto ele me estendia o que parecia ser uma caixa. Uma caixa de jóias com uma tiara de brilhantes, absolutamente idêntica aquela que ele havia me entregado no dia do incidente com o Afrodite, dentro.
Eu não sabia por que ele estava com ela, ou como ele tinha conseguido pegá-la de volta da noiva, mas naquele momento, sinceramente, não me interessava saber. Eu estava frustrado demais, chocado demais. De modo que apenas peguei a peça, colocando-a no bolso e me voltei para a porta, espantado por não tropeçar no caminho, pelo modo como meu coração estava batendo e meus joelhos tremiam.
Lutei pra conseguir um pouco de ar ao esticar a mão para girar a maçaneta. E então parei, com a mão ainda no ar, xingando-me mentalmente de tolo. Que se danasse o orgulho, eu não ia perdê-lo daquele jeito.
Eu já estava abrindo a boca pra falar, quando ouvi a voz dele.
– Tudo bem, droga, tudo bem. Você venceu. Estou me sentindo péssimo. Era isso que queria? Non consigo dormir, non consigo comer. É como se alguma coisa dentro de mim tivesse se quebrado e eu mal consigo desempenhar meu trabalho. Está feliz agora?
Eu me virei a poucos centímetros da porta. A respiração suspensa e o estômago remexendo como uma lagoa cheia de sapos.
– Deveria estar? – Eu falei com cuidado.
– Eu estou aqui, não estou? – Ele disse — E estou fazendo isso porque non posso suportar a idéia de você estar em perigo. Porque não aceito a possibilidade de non fazer parte da sua vida de alguma forma. Porque eu me sinto estupidamente feliz só de poder fazer algo que ninguém mais pode fazer por você... E isso faz com que eu me sinta um idiota. Mas tudo bem, vou ser um idiota. Só não... – ele parou de falar de repente, cobrindo o rosto com a mão e apertando a as têmporas. – Eu non aguento mais isso.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Maldição, o que eu via nos olhos dele eram lágrimas?
– C- Camus... – Eu estiquei a mão, como se pudesse tocá-lo através da sala.
– Estou só cansado. – Ele deu um passo pra trás, afastando-se. – Apenas cansado, só isso.
Eu imaginava que sim. Ter de lidar com tudo o que ele teve em tão pouco tempo. Ter descoberto sobre mim, Pandora, a noiva dele. Sobre a verdade por trás do atentado que seu irmão sofrera. Realmente não devia estar sendo fácil pra ele. E, se eu conhecia o Camus, ele provavelmente esteve segurando tudo isso até agora.
– É o mesmo pra mim, Ruivo – Eu disse, cobrindo com três passos a distância que nos separava – Eu não sei mais ficar sem você. Eu sei que eu errei. Sei que eu devia ter confiado em você, que devia ter sido honesto desde o começo. Sei disso agora. Então me xingue se você quiser. Atire alguma coisa em mim. Dê um soco na minha cara. Eu mereço tudo isso.
– Não – ele disse, recuando quando eu tentei abraçá-lo –. Por favor... Preciso só de um minuto enquanto estou fazendo papel de bobo.
Ignorando isso, eu o puxei na minha direção. Ele tentou se afastar duas vezes, mas eu o trouxe de volta, com firmeza, para junto do meu corpo. Então, em um gesto desesperado, seus braços me envolveram, apertando-me com força.
– Non vá embora – ele pediu, abaixando o rosto sobre meu ombro. — Não vá embora.
– Não estou indo a lugar algum. – devagar, eu fiz um carinho nas costas dele e embalei sua cabeça. Será que havia algo mais surpreendente ou mais assustador do que um homem forte dasabando? – Eu estive aqui o tempo todo. Eu te amo, Ruivo, mais do que consigo suportar.
– Eu preciso de você. – Ele disse, com a voz abafada pelo meu paletó — Não consigo evitar. Non quero isso.
– Eu sei. – Eu me afastei um pouco e segurei-lhe o queixo, pra levar seu rosto na direção do meu. – Vamos ter de aprender a lidar com isso.
Eu contornei-lhe o rosto com os dedos, e mordi o lábio com a sensação do contato elétrico das nossas peles.
– Eu non consigo viver sem você – ele me o olhava de forma intensa agora.
– Você me mandou embora – Eu sorri.
– Mas me arrependi. – Seus lábios sorriram ligeiramente também.
– Se você tivesse esperado mais algumas horas – disse -, eu teria ido procurar você. Passei todos esses dias tentando me convencer a não fazer isso, sem sucesso. Eu estava perigosamente próximo de me colocar de joelhos.
– Pourquoi? – Ele deslizou os dedos suavemente pelos meus cabelos. – Você poderia ter qualquer pessoa. Provavelmente tem, à hora que quiser.
– Por quê? – eu joguei a cabeça para o lado. – essa é difícil de responder. Será que é pelo seu bom humor? Sua sociabilidade invejável? A forma adorável com que você sempre me tratou em todos os nossos encontros? Talvez seja pela sua atitude descomplicada diante do mundo e seu gênio fácil de lidar.
Fez bem ao meu coração ver o sorriso divertido que ele me lançou.
– Não, devo estar pensando em outra pessoa – Eu continuei -. Só pode ser então pelo seu caráter inabalável, sua lealdade, a absoluta dedicação que tem por aquilo em que acredita, a sua mente inquieta, e aquele doce recanto no coração que o leva a se importar verdadeiramente com as pessoas... Mesmo que essa pessoa seja um ex ladrão egoísta, um ator exibicionista e arrogante, viciado em sexo.
Ele riu outra vez.
– Esse não sou eu.
– Mas é claro que é você, meu ruivo lindo. – Eu toquei levemente seus lábios com os meus, e inspirei fundo pra manter o autocontrole. – Da mesma forma que esse sabor é o seu, o cheiro, o jeito, o som – eu delizei o nariz ao longo da lateral do seu rosto, inebriando-me naquelas sensações... o cheiro de perfume e loção pós barba, a textura inconfundível da pele dele. — Você me desmontou, Camus. Vamos conversar, vamos descobrir um modo de fazer com que isso funcione para nós dois.
Ele fechou os olhos, prendendo a respiração de modo entrecortado.
– Ah, Milo... Que Deus me ajude... Eu amo você. – E soltou o ar. – Merd.
Foi como se algo que estivesse preso há muito tempo tivesse desatado dentro de mim. A emoção que me varreu por dentro foi como uma tempestade de verão, rápida, violenta e depois pura. Pleno com essa sensação, eu uni minha testa com a dele.
– Viu? — Eu sorri — Você não engasgou quando disse isso.
– Não. – ele sorriu também. — Acho que eu posso me acostumar com isso. – E então aproximou o rosto, encontrando seus lábios com os meus...
E foi como se o sol aparecesse depois de meses de chuva.
Eu o puxei ainda mais contra mim aproveitando o prazer de sentir o corpo firme e esguio contra o meu. Sabia que ele se sentia da mesma forma, pois podia sentir os movimentos do seu tórax, subindo e descendo, e seu coração que batia rapidamente de encontro ao meu, fazendo estremecer nossas peles a cada pulsação.
Finalmente estávamos ali. Só eu e ele. Como sempre deveria ter sido. E teria sido, não fosse pelo orgulho, mal entendidos, e teimosia de ambas as partes. Pois bem, isso nunca mais aconteceria, não enquanto eu estivesse vivo. Afinal, Camus era meu...
Algumas pessoas sonham em ser famosas. Outras, em vencer guerras, em escrever livros. Outras, ainda sonham em curar a fome e as doenças, enquanto outras desejam apenas a riqueza. Eu compreendia esses sonhos, mas pra mim — eu havia descoberto — só havia um sonho que valia à pena. Um objetivo único que era tudo em que eu conseguia pensar nos últimos meses. E ele era, simplesmente, Camus Chavalier.
Eu já havia estado com inúmeros amantes no passado, mas sabia que jamais poderia ter abraçado algum que se encaixasse tão bem nos meus braços. Cujo corpo fosse um complemento tão perfeito do meu. Era óbvio que nós nos pertencíamos.
E se ele ainda não pensasse assim, eu cuidaria pra mudar isso imediatamente. Mas, felizmente pra mim, ele enfim parecia ter compreendido, e, em vez de tentar se esquivar da minha paixão desenfreada, ele me acompanhava sem receios em meus beijos ardentes.
E outra vez eu sentia o sangue rugir dentro da minha cabeça, tão alto e feroz que eu mal consegui ouvir quando ele repetiu as palavras que eu tanto ansiara escutar. Mas pude senti-las pelo jeito com que meu coração corcoveou e se avolumou.
De repente, as mãos que eu acreditava comandar agiam sem líder, percorrendo desejosas o corpo masculino e sensual. Deslizando, apertando, procurando uma brecha entre os tecidos pra correr a carne macia.
Ele gemeu quando meus dedos encontraram um dos mamilos intumescidos, e a expressão de deleite no rosto dele quase me fez perder o controle de vez.
Seus dedos se enterraram nos meus cabelos, contraindo-se entre os cachos, e os quadris, como que por iniciativa própria, começaram a se movimentar. Eu senti a rigidez da masculidade dele pulsar com força sob o tecido fino da calça social, enquanto ele a movimentava de encontro a minha, mal parecendo perceber o que fazia.
Mas eu estava bem ciente do que ele estava fazendo, e foi preciso muito esforço pra não me deixar explodir ali mesmo.
De repente, eu tive uma visão de mim mesmo arrancando-lhe toda aquela roupa elegante, deslizando a língua pela pele macia e dando fortes estocadas dentro dele até que seus gritos ecoassem pela sala e ele se desmanchasse em êxtase.
O pensamento me fez grunhir.
Com a boca contraída e sem conseguir respirar, eu o segurei pelas nádegas e o levantei ansiosamente até o sofá.
A finesse ia ter que esperar. A ternura também.
Eu estava prestes a empurrá-lo sobre o estofado, quando senti alguma coisa no bolso da minha calça vibrar e a música tema de 'Quanto mais idiota melhor', que eu usava para o Kanon começou a tocar.
– Milo? – eu ouvi a voz aflita do meu irmão do outro lado da linha quando consegui me obrigar a desvencilhar-me do ruivo para atender o celular com um palavrão.
– Você tem que sair daí – ele disse afoito sem me dar tempo pra responder. Eu ouvia vozes falando atrás dele -. Pandora tem planos para esse prédio. A coisa toda vai pelos ares.
Eu fiquei em silêncio. A respiração suspensa.
– Milo? – Ele chamou outra vez. Mas eu continuei mudo.
De repente, era como se um balde de água fria tivesse sido jogado em cima de mim. Como assim Pandora tinha planos pra aquele prédio? Eu olhei para o homem a minha frente, que ajeitava as roupas enquanto olhava inocentemente pra mim com expressão curiosa, e senti como se alguém estivesse me enfiando uma faca na espinha. O suor frio escorrendo-me da nuca. Meu Deus, eu tinha que tirar Camus dali imediatamente.
– Você entendeu? – eu ouvi a voz do Kanon no meu ouvido de novo — Pegue o seu ruivo e caia fora daí agora.
– Certo. – eu falei com uma voz tão séria que eu mal reconhecia como minha – Quanto tempo nós temos.
– Vinte minutos – ele falou.
Eu desliguei o telefone e voltei-me para Camus outra vez.
– Nós temos que sair daqui. – disse com pressa, enquanto segurava sua mão começando a arrásta-lo para a saída. Meu estômago ainda dava voltas, mas minha convicção estava firme.
– Milo, espera! O quê...? – ele começou a falar confuso, e então parou, de repente, estancando no lugar.
Eu vi quando a expressão em seu rosto mudou, os olhos confusos se arregalando subitamente, e pensei se ele havia adivinhado minha conversa com Kanon. Mas então percebi que ele não estava mais olhando pra mim. Estava de olhos fixos em algo atrás dos meus ombros. Alguma coisa que o fez empalidecer e entreabrir os lábios, horrorizado.
Eu me virei bem a tempo de ver Saori Kido — em seu suntuoso vestido de noiva de renda branca — parada de frente a porta aberta da suíte com um sorriso cruel no rosto, erguer a mão e apontar uma arma para a altura do meu coração.
Notas:
1 — Friedrich Nietzsche, "Genealogia da Moral"
2 – Como o 11 de Setembro, os atentados em Mumbai em 2008, realmente existiram. Acredita-se que um grupo de extremistas islâmicos baseados no Paquistão, ligados à rede terrorista Al Qaeda e ao movimento islâmico talibã teriam sido os responsáveis pelos atentados. Segundo a Sky News o grupo responsável pelos ataques em Mumbai estaria por trás de planos de ataques simultâneos em Londres, e grandes cidades da França e da Alemanha. O governo francês declarou que havia um risco iminente de atentados no país. Os planos foram descobertos após a troca de informações entre os serviços de inteligência americano, britânico, francês e alemão.
Notas finais
Antes de mais nada mil desculpas pela demora. Eu tive alguns problemas pessoais, minha cachorra ficou super doente e acabou morrendo, e eu fiquei sem ânimo pra nada mesmo. Depois, quando consegui me sentir melhor, eu simplesmente não me encontrava pra escrever o ch. Nunca ficava do jeito que eu queria. E eu me recuso a postar um ch que eu mesma não gostaria de ler... então, acabou que demorou um bocado u.u.
Mas, bom, quando a coisa desenrolou eu até que gostei bastante. Espero que vcs tenham gostado tb. Eu achei que os personagens cresceram taaanto. O Camus descobrindo, e até ensinando o Milo, a importância de confiar. E Milo assumindo seu erros. Tão fofo. Falando em Camus, pode não ser muito próprio dele, mas eu achei a situação pedia e que estava na hora dele ter um momento mais emocional, afinal, ng é de ferro, poxa. E meu coração de pisciana derretida achou liiiindo ele mostrando um lado mais frágil. XD.
E agora a história está mesmo acabando u.u. Ch que vem já será o penúltimo. E nesse ch, com Pandora dando Adeus aos meninos e preparando sua saída de cena, e com Camus e Milo se acertando enfim deu aquele arzinho de final e me bateu um tristeza. Mas, ok, ainda teremos muitas emoções no ch que vem, afinal Milo e Camus estão diante de uma noiva armada em um prédio prestes a explodir XD
E é isso aí gente, espero que tenham gostado desse super hiper mega grande ch depois da longa espera XD. Fica ele como um presentinho de Natal atrasado pra vcs XD. Feliz Natal atrasado pra todo mundo e um ótimo Ano Novo ^^. E já aproveitando pra avisar que vou estar fora do país em Janeiro, então o próximo ch pode demorar um pouco outra vez. Eu viajo Sexta feira, então estou postando o ch agora e vou respondendo as reviews de vcs aos poucos. As que eu não conseguir responder até Sexta, respondo quando eu voltar, sem falta. ^^
Por fim, meus sinceros agradecimentos a todos que acompanham, em especial aqueles que têm o carinho de me deixar lindas reviews: ddkcarolina, Kamy Jaganshi, Sarah, Persefone_san, Shall, Sra Isaacs, Hatake Sayuri, Rhe, Chidori, Mel Dark, PollyWeasley, Hitsujikai Atsuya, Deb, Stocking, LikaNightmare, e Shuichi Dith; obrigada mais uma vez meninas, adoro cada uma das reviews de vcs, obrigada por terem me apoiado até aqui ^^.
Bjos
PS1: Muito obrigada a Rhe e Sapphire pelas recomendações, quase pulei de alegira quando vi. Fico feliz que estajam gostando tanto da istória, brigadão de coração pelo carinnho ^^. Bjos
PS2: Créditos devidos à: Patricia Cabot, J. D. Robb, Kathryn Smith, e Sophie Kinsella
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