Aprendendo a Seduzir
25 Capítulo 24
Notas iniciais
Camus POV
A tarde estava fria, cinza, com um leve nevoeiro adensando o ar. Os sobretudos eram inúteis, o frio e a umidade pareciam penetrar em cada poro da pele. O nevoeiro era parecido com Milo, eu pensei, enquanto me acomodava no assento do carro. Apesar das precauções que havia tomado, apesar de me acreditar preparado, não conseguia impedir que ele invadisse todos os recônditos da minha alma.
Ele não voltara mais a me procurar depois da noite em que levara o Dite até em casa. Vinte dias se passaram sem nenhum sinal ou palavra por parte dele.
Eu não devia estar surpreso por isso, é claro, nem desapontado, já que havia dito a ele pra ficar longe de mim; assim ele estava apenas atendendo à minha vontade. Devia estar contente,na verdade, e de fato estava, em parte. Minha vida ficara mais simples e prevísivel sem ele. Tinha muito o que pensar naqueles dias, e a última coisa que precisava era de Milo Scorpion desviando minha atenção.
O Hyoga ainda não voltara e isso estava me preocupando. É verdade que aquele amigo dele, o tal Shiryu, ligara nos informando que demorariam mais alguns dias na viagem, mas isso não serviu pra me deixar mais trânquilo. Mandar recado não era do feitio do meu irmão.
Havia também a recuperação do Dite. Ele estava se recuperando bem. O rosto parecia ter voltado ao normal, a não ser por uns pequenos cortes que ainda não haviam cicatrizado direito e uns restos amarelado de alguns hematomas. Ele dissera às pessoas que levara um tombo no gelo na entrada de casa. Era mais um que mentia pra proteger Milo Scorpion e seus segredos.
E, claro, havia a questão da minha relação com a Saori. Ela voltara ao país no início da semana, e eu precisava resolver a situação do meu iminente casamento. E era esse o motivo que me levava a dirigir naquele tempo pelo trânsito caótico de Manhattan, rumo ao apartamento dela.
Eu me sentia cruel e egoísta pelo que iria fazer, mas tinha que ser honesto. E não me parecia muito honesto casar com alguém sabendo que amava outra pessoa. Mesmo que essa pessoa tivesse apenas me usado pra conseguir uma jóia.
De qualquer forma, seria um problema a menos. E eu certamente apreciaria ter nem que fosse um pouco do meu sossego de volta. Ainda que eu fosse passar boa parte desse sossego, sem dúvída, com o pensamento fixo em Milo Scorpion. Só poderia rezar pra que esses pensamentos torturantes um dia cessassem.
Ou talvez o homem responsável por eles pudesse voltar e me contar por que era um ladrão. Quem sabe pudesse confiar em mim e falar de seu passado. Ou percebesse que, mesmo tendo pronunciado cada palavra com a convicção de que estaria mais seguro longe dele, eu ainda o queria em minha vida.
Isso fazia de mim um idiota? Provavelmente, mas havia dentro da minha cabeça ou talvez em meu coração, uma voz que insistia em dizer que eu não me enganara sobre ele. Não era possível que ele tivesse fingido tudo aquilo. Havíamos compartilhado momentos maravilhosos. Tínhamos rido, brigado, conversado e feito amor. Certamente aquilo tudo não podia ser mentira. Eu não podia ter me enganado tanto. Alguma coisa daquilo que ele me mostrara tinha que ser verdade. E, nesse caso, existia pelo menos uma parte real do homem que eu um dia acreditara que ele fosse.
E esse homem não usava as pessoas e fingia se importar com elas. Ele não as roubava – não sem motivo.
E foi nesse momento que o meu telefone celular tocou.
Eu hesitei com a mão sobre o aparelho, pensando se devia ou não atendê-lo. Acabei atendendo... E quase provoquei um acidente com a voz que ouvi do outro lado.
— Camus? – ele falou naquela voz grave, profunda, que me causava arrepios na nuca.
Eu apertei os dedos no volante. Não tinha idéia do que dizer depois de tê-lo mandado embora daquele jeito. Mas precisava pensar em alguma coisa.
— Bom jour, Milo. – acabei falando. Nada original, eu sei, mas não soava mal.
— É... Bom dia... – ele respondeu de volta, um pouco surpreso. Talvez não esperasse realmente que eu fosse falar com ele.
— Foi bom você ter ligado – eu me adiantei, tomando coragem, enquanto me desviava de uma moto mais à frente e tomava uma buzinada de um AVI atrás. — Eu queria lhe pedir pardon por algumas coisas que disse da última vez que nos vimos.
— Não faça isso. – ele respondeu rápido — Você estava certo quando disse que sua vida estaria melhor sem mim.
Eu estremeci com as minhas próprias palavras sendo-me devolvidas daquela forma, e quase atropelei um ciclista antes de conseguir encostar o carro no meio fio.
— Nunca... eu nunca disse que seria melhor.
— Mais segura, então – ele falou displicente -. De qualquer modo, você estava certo. É melhor... – ele hesitou – é melhor que eu me mantenha afastado de você por um tempo.
Suas palavras poderiam ter me magoado mais se eu não tivesse percebido um tom de contrariedade em sua voz. Ele não estava me dizendo que queria ficar longe, mas que tinha que ficar, que precisava até.
— O que você está planejando? – Eu quis saber.
Ele hesitou outra vez.
— Não posso lhe dizer.
Eu senti um aperto no peito.
— Você ainda non confia em mim.
— Eu... Não posso – ele respondeu com voz fraca
— Entendo. – Minha voz soou fria, muito fria. Eu me sentia vazio. Na verdade, entorpecido. Não conseguia sequer sentir o telefone que tinha na mão.
— Não, não entende. – Sua voz soava como um murmúrio áspero – Não te conto nada porque não posso confiar que você não vá fazer alguma tolice como tentar me ajudar ou... – ele deixou que as palavras se perdessem em seus lábios.
Tentar ajudá-lo? O que diabos ele estava planejando fazer?
— Eu non... – eu tentei negar.
— Você faria isso, sim — ele me interrompeu -, porque é assim que você é. – ele soltou o ar com força. – Você é um cara legal, Camus. Só que a melhor coisa que pode fazer pra me ajudar nesse momento é ficar longe de mim.
Eu segurei o ar e a raiva. Quem disse que eu pretendia ir atrás dele de qualquer forma?
— Claro. – Eu engoli com dificuldade. Sabia que ele devia ter alguma razão assustadora para me dizer aquelas coisas, mas isso não mudava o fato de que ele ainda não me dissera a verdade. Só queria saber se um dia confiaria em mim... Então o risco de ficar ouvindo aquela conversa humilhante teria valido a pena. – E foi por isso que você ligou?
— Não. – Ele ficou em silêncio e eu ouvi quando tomou fôlego antes de dizer: — Camus, sei que não tenho direito de te pedir isso, mas preciso que confie em mim... Eu... Eu preciso que espere por mim. Prometo que quando isso terminar te contarei tudo.
Esperar por ele? Eu franzi a testa. E ele ia me contar tudo?
— Vai fazer mesmo isso? – perguntei incrédulo.
— Vou – ele disse com um tom sincero e firme.
Eu ponderei por alguns segundos. Certo, talvez ele não pudesse confiar em mim agora, mas confiaria mais tarde. Eu senti uma ponta de esperança começar a surgir. Então a esperança cessou. Ele não ia me contar nada senão quando aquilo já não importasse. Isso não era confiar em alguém, era?
Eu suspirei.
— Ficarei longe e esperarei que você venha me procurar. – Eu não consegui evitar um tom de amargura.
Ele pareceu sentir meu descontentamento, e sua voz saiu suplicante.
— Você não vai ter que esperar muito tempo, prometo.
Eu balancei a cabeça mesmo que ele não pudesse enxergar meu gesto.
— Non faça promessas, Milo.
— Por que não? – eu quase podia ver a confusão naqueles olhos tão azuis. Eu apertei os lábios.
— Porque eu poderia esperar que as cumprisse.
Ele ficou em silêncio. Eu não era mais capaz de escutar sequer sua respiração do outro lado.
— Isso não está terminado, você sabe. – Garantiu-me então, com sua voz mais grave e segura.
Eu o ignorei.
— Au revoir, Milo — foi tudo que disse antes de desligar o aparelho.
Só quando pousei as mãos no volante outra vez percebi que elas estavam tremendo.
oOOoOOo
Seiya POV
— Pelo amor de Deus, Sao – eu falei irritado. – Saia da janela. Alguém vai acabar vendo você aí.
Ela continuou onde estava, olhando os pedestres caminhando na rua lá embaixo.
— Qual o problema? – ela perguntou com aspereza. — Nós somos irmãos, e esse apartamento também é meu, esqueceu? Não tem nada demais que alguém me veja aqui.
— Não nesses trajes – Da chaise onde estava sentado com o pé enfaixado para cima, eu olhava aborrecido para ela. Saori, além das meias de seda bege que terminavam-lhe em uma faixa de renda na altura das cochas, usava apenas a combinação de organdi, tão fina e translúcida que não se podia deixar de ver nenhuma curva. – Você sabe que Madame Bennet fica o dia todo entrando e saindo. Vai ter outro daqueles ataques se olhar pra cima e vir você aí assim.
Ela suspirou e se afastou da janela, sentando-se em uma poltrona ao lado da chaise, aparentemente nem um pouco incomodada pelo fato de que o tecido diáfano deixasse sua nudez tão à mosta. Ao contrário, parecia satisfeita com isso.
— Isso simplesmente não faz sentido pra mim – falou. – Por que tentariam atirar em você se nem chegaram a vê-lo? Tudo o que tinha que fazer era ficar na espreita, esperar Pandora terminar o serviço, livrar-se do corpo da biba louca, plantar umas evidências no apartamento do Milo e telefonar pra polícia. Camus nunca ficaria com alguém que fosse suspeito de atacar seu melhor amigo.
— Eu já te disse, Sao – eu falei, ao que me parecia pela centésima vez. Eu contara essa mentira tantas vezes que já podia fazer isso automaticamente. — O cara simplesmente apontou na minha direção e começou a atirar. Deve ter ouvido alguma coisa, não sei. Tive que fugir correndo, acabei caindo e torcendo o pé no caminho. É uma sorte eu ainda estar vivo.
Eu desviei os olhos, remexendo-me desconfortável. Era óbvio que não podia lhe falar a verdade. Se lhe dissesse que havia perdido a coragem, que sentira o estômago embrulhar com a visão do sangue e tivera que sair correndo dali por conta própria pra vomitar mais adiante, ela me consideraria um fraco, um frouxo.
Eu havia seguido o Afrodite na passagem do ano, como ela mandara. Nós sabíamos dos planos de Pandora pra aquela noite, embora não conhecêssemos seus motivos. Eu tinha largado a moto no acostamento e me escondido quando os carros chegaram. Eu vira quando o loiro fora rendido e arrastado. Vira os golpes, os gritos, o sangue... e então não pude mais. Sentia meu estômago se revirar e ameaçar sair pela garganta. O enjôo, o medo, o horror e o pânico guiavam meus passos. Meu coração batia disparado, minha respiração estava rápida enquanto eu corria no escuro. Eu não vi o barranco. O chão coberto de gelo estava escorregadio. Patinei. Rolei, rolei... e então parei, estendido no chão frio e úmido, e me encolhi de joelhos pra colocar todo o jantar pra fora. Meu tornozelo doaí como o Diabo. Talvez estivesse quebrado... Eu não sabia.
Não sei precisar quanto tempo fiquei ali no escuro, com a neve entrando pela minha roupa e o sangue bombeando fortemente em meus ouvidos. Só sei que quando consegui me por de pé novamente e encontrei o caminho de volta não havia nada além da minha moto no acostamento e da Ferrari vermelha do Afrodite abandonada no lugar. Estava acabado. Eu não fora capaz de atender ao combinado com a Saori, tampouco havia feito algo pra ajudar o Sueco. Sim, eu era um covarde. Um fraco. Um frouxo... Mas pelo menos não era um assassino.
Voltando ao presente, eu me mexi mais um vez sobre a chaise. Meu tornozelo não havia quebrado, mas estava doendo muito ainda, por isso tinha que ficar imobilizado, como o médico havia recomendado.
— Você não está me contando toda a história – ela falou nun tom queixoso, sem notar meu desconforto – Está faltando alguma coisa em tudo isso. Falta lógica.
— Lógica? – eu disparei — E qual a lógica disso tudo? Por quê Pandora atacaria o Afrodite, pra começar?... E logo em seguida Camus quer marcar um encontro com você pra conversar... – eu suspirei. Não conseguia tirar aquilo da cabeça. — Estou te dizendo, Sao, ele sabe de alguma coisa.
— Impossível! – ela afirmou, porém já sem a mesma convicção. – É sobre Milo Scorpion, tenho certeza. Ele está apaixonado pelo grego. Juro que está. E é claro que o idiota também por ele. Não se fala de outra coisa. Mas não vou perder essa... Não vou! – ela fixou os belos olhos escuros ameaçadoramente no meu rosto e levantou o dedo indicador no meu nariz — E se você fizer qualquer coisa, qualquer coisa, para pôr em risco essa partida com meu príncipe, eu mesma vou atirar em você. Juro. E, que Deus me ajude, você pode estar certo de que não sairá dessa só com um tornozelo torcido.
Eu umedeci os lábios.
— Você pode ser muito cruel quando quer, Sao – disse olhando-a admirado.
Ela se inclinou pra frente e correu um dedo pela linha do meu queixo.
— Você não tem a mínima idéia... – murmurou.
O som estridente do interfone soou, vindo da cozinha.
Se alguém a tivesse cutucado com um bastão, ela não teria se levantado tão rápido.
— Bom Deus – gritou, lançando os olhos para ao relógio sobre o console da lareira e começando a apanhar suas roupas espalhadas pelo chão da sala — Cinco horas. – praguejou — Por que ele tem que ser tão pontual?
Então correu para cozinha enquanto se enfiava em suas roupas novamente. Eu a ouvi falando com o porteiro pelo aparelho:
— Sim. Faça-o subir. Faça-o subir imediatamente.
Quando voltou a sala estava impecável outra vez. Recolheu meu pijama do chão e o atirou em minha direção – Vista-se – ditou – E tente não estragar as coisas dessa vez, está bem? Ele é nossa única esperança.
E sem dizer mais nada deslizou até a porta social quando alguns minutos depois a campainha tocou.
Ainda preso em minha chaise, agora já devidamente vestido nos meus pijamas de seda de convelescente, eu suspirei. Saori nunca dissera nada mais verdadeiro.
Camus apareceu com a mesma aparência de sempre, sóbrio e elegante, em seu sobretudo preto, terno marinho e camisa social branca. Eu tive a satisfação de ver a pequena pausa que ele fez na soleira da porta, surpreso com a minha presença ali. Afinal ele havia combinado aquela conversa com a Saori e certamente não esperava expectadores.
Então seus olhos cairam sobre o meu pé enfaixado.
— O que aconteceu? – perguntou naquele jeito distante dele.
Eu forcei um sorriso.
— Um tombo, nada sério. Apenas uma torção. – falei displicente e fiz menção de pegar minhas muletas no chão pra me levantar e deixá-los a sós, mas ele me impediu com um gesto de mão dizendo:
— Não precisa se incomodar, a Saori é sua irmã então penso que o que eu tenho a lhe dizer diz respeito a você também.
Eu engoli em seco, o sorriso congelado no rosto: 'Eu sabia — eu pensei -, ele sabe'.
— O médico disse quanto tempo vai levar pra você voltar a andar? – ele falou então.
— Deve estar em condições de atravessar o salão e me conduzir ao altar no dia do nosso casamento – Saori enlaçou o pescoço do ruivo, deixando que seus olhos escuros pousassem calidamente sobre os dele. Era um olhar que deixaria qualquer cara fora de si de luxúria, e certamente devia funcionar do mesmo modo com os Camus Chevalier do mundo. – Não tenha receio, meu amor.
— Bien – ele falou, afastando-a gentilmente de si, e, pra minha surpresa, não parecia absolutamente impressionado com seu olhar sensual –, é sobre isso que vim aqui conversar. E infelizmente receio que o assunto seja um tanto desagrádavel.
— Desagradável? – Saori disse, como se não pudesse nem imaginar uma coisa assim. Mas seu riso tinha um toque de nervosismo.
— Receio, – ele começou, num tom de desculpa -, que nosso casamento tenha que ser cancelado.
O queixo da minha amada irmã caiu. Aquela certamente não era uma das ocasiões para a qual ela havia praticado uma expressão com entecedência.
— Mas... – Ela tentava se arrancar do esturpor paralítico em que as palavras dele a haviam afundado. – Mas os convites... já foram enviados.
— Oui, je sais – ele falou. – E isso é uma pena. Redigi uma carta que vamos mandar aos nossos convidados, é claro. Quanto aos presentes, acho que seria melhor que devolvêssemos...
— Não! – ela gritou de repente, a voz mudando de tom
Ele olhou pra ela com uma expressão surpresa.
— Pardon, mas o que disse?
— Você me ouviu. Você vai se casar comigo na próxima semana, e está acabado.
— Non –. Ele disse, com uma calma admirável – Não, Saori, receio que non.
— Seu... – ela falou ofegante — Você não pode cancelar o casamento... Não pode!
Eu estaria imaginando coisas ou havia naqueles olhos avermelhados um brilho de raiva, verdadeira raiva?
— Na verdade, posso. – ele afirmou.
— Vou processá-lo – disse ela, nervosa. – Na justiça. Por danos morais... por quebra de compromisso.
Ele fez um gesto displicente e disse:
— Esteja à vontade. Isso non importa mais.
— Não importa? – ela atravessou correndo a sala – Como pode dizer isso? É isso que quer? Ver seu nome nos jornais não por causa de alguma fusão brilhante, ou uma negociação bilionária, mas por estar sendo processado por sua ex-noiva?
Ele balançou a cabeça de modo que parecia estar sendo incomodado por um mosquito.
— Non me importo mais – disse ele. – Nada disso me importa. Veja, eu realmente non queria ter que chegar a esse ponto, mas a verdade é que você não pode me processar porque... bem – ele deu de ombros — eu vi vocês, Saori. Eu sei de tudo.
Do que ele estava falando? Ele tinha nos visto? E ele... ele sabia?
Foi como se um balde de água fria tivesse sido jogado em cima de mim. Eu estava atordodado, totalmente atordoado. Meu Deus, então ele realmente sabia! Hyoga ainda devia estar vivo. Vivo e escondido em algum lugar. Devia ter mandado uma mensagem pra ele. Ele deve ter visto a pistola. Estúpido. Estúpido ter falhado! Não, eu não quisera tentar matar o Hyoga. Deus sabia que eu não queria fazer aquilo. Mas tampouco queria ir parar na cadeia. Se ao menos aquele garoto idiota não tivesse tropeçado.
A situação da minha irmã não era melhor do que minha.
— Vo... você... sa... sabe? – ela conseguiu gaguejar.
— Oui – ele afirmou. – Não que eu esteja em condições de culpar você.
Isso era mais do que eu razoavelmente conseguia assimilar. Nós o havíamos enganado, planejamos roubá-lo, tínhamos compactuado com o cara que atirara no irmão dele, eu mesmo havia tentado matar o garoto — o rapaz ainda não tinha voltado pra casa, pelo que eu sabia, e poderia estar vagando pela cidade com um ferimento na cabeça – e ele não se achava em condições de culpá-la?
— O que... que... – ela gaguejou novamente.
Ele estava tirando a aliança do dedo.
— Sim – ele disse. – Sabe, Saori, eu também não tenho sido fiel a você. – Ele colocou o anel numa mesinha, ao lado do abajur. – Eu estou... apaixonado por outra pessoa – ele foi direto. – Sei que agora também non vai me querer mais.
Eu olhei fixamente para o anel. Apaixonado? Camus Chevalier estava paixonado? E o que isso tinha a ver com tudo aquilo?
Saori parecia ter perdido toda a cor.
— Quem... – as palavras eram pouco mais do que sussurros dissonantes passando por entre os lábios descorados dela – ...por quem?
— Bem – ele disse –, isso não importa. Mas é melhor assim, você non acha? Sei que as pessoas obviamente vão comentar, a sociedade ficará indignada, e isso provavelmente repercutirá negativamente nos negócios. Mas nunca achei mesmo que eu fosse me casar, sabe. E agora você está livre e pode ficar com quem quiser.
— Com quem eu quiser? – ela falou balançando a cabeça. – Ficar com quem eu quiser, você disse?
— Oui, bien sûr – Ele estava completamente calmo, simplesmente prático. — Quer dizer, eu sei que aquilo non passou de um transa, mas... bom... nem é isso que importa, e de qualquer forma eu realmente vi vocês juntos, sabe. Você e... – pela primeira vez ele pareceu hesitar — Milo Scorpion. Naquela festa que nós fomos pouco antes de você viajar, em um divã no andar de cima. Talvez eu devesse ter revelado minha presença, mas me pareceu melhor evitar uma cena naquele momento.
Então era isso. Era disso que ele estava falando quando dissera que sabia de tudo. O alívio tomou conta de mim. Eu quase poderia rir.
Não por muito tempo. Logo outro pensamento começou a se insinuar na minha mente. Ele havia dito que vira Saori com um cara, Milo Scorpion, em uma festa pouco tempo antes dela viajar. Mas não dissera nada. Durante todo esse tempo ele não dissera mais nada. Até agora... E ele havia dito que estava apaixonado... Apaixonado por outra pessoa.
A tiara. Era só nisso que eu conseguia pensar. A tiara que seria da Saori com o casamento. A tiara que nos livraria da máfia, de Pandora... e todo o dinheiro em que colocaríamos as mãos com ela.
Eu sentia as coisas começando a afundar lentamente.
Minha irmã parecia paralizada.
Ele se virou pra sair.
— Espero que non haja nenhum mal entendido sobre isso, Sao. Eu realmente fui por algum tempo muito afeiçoado a você. E, apesar de tudo, gosto de pensar que você também sentia o mesmo por mim.
Parecendo finalmente perceber o que estava acontecendo, Saori lançou-se sobre ele, segurando-o pela manga do casaco, e gritou:
— Você não pode fazer isso! Pense no que está fazendo, querido. Eu... salvei a vida do Hyoga. Se não fosse por mim, seu irmão teria morrido.
Por um instante, eu podia jurar que alguma coisa passou por aqueles olhos estrahos dele. Culpa. Eu tinha certeza. E mais uma vez a sensação de alívio me invadiu. Nós tínhamos ganho. Nós ganháramos. Mas então a culpa desapareceu e foi subtituída por aquela curiosa máscara desprovida de emoção.
— Sim, você salvou a vida do Hyoga – ele disse calmamente, — E sempre lhe fui grato por isso. E é por essa mesma razão que non posso me casar com você. Porque acho que você merece muito mais do que... bem, do que um homem que non ama você.
Ela piscou um tanto surpresa por notar que algumas lágrimas brotavam em seus olhos. Realmente. Lágrimas! Saori não chorava desde que nossos pais morreram, e mesmo assim só porque percebera que não havia mais ninguém a quem ela pudesse pedir dinheiro toda semana.
Provavelmente sentindo que essas lágrimas eram boas demais pra ser verdade, ela deixou escapar um soluço alto e começou a chorar.
— Eu não me importo – falou, em pânico, ainda segurando firmemente na manga de seu casaco -. Não importa que você não me ame, nem o que você fez... ou com quem. Eu te quero de volta. Ainda quero você.
— Ah... – ele fez, levantando as sobrancelhas, como se ela tivesse simplemente dito algo interessante.
Saori achou que isso era demais. Esqueceu as lágrimas e se endireitou, soltando o casaco dele.
— É isso mesmo, querido... – nesse momento suas pálpebras cerraram sugestivamente, e sua voz se transformou num múmúrio – afinal, você me pertence. E a verdade é que... bem, sem querer parecer grosseira, mas você nunca vai conseguir ninguém melhor do que eu, você sabe. Você será humilhado, se tornará motivo de riso quando essa sua paixonite vier à tona. Ninguém vai querer você. Mas eu quero, sempre vou querer.
Os olhos dele – aqueles malditos olhos reprovadores – estavam frios.
— Mas eu non quero você – ele disse decididamente.
E sem outra palavra, deixou a sala.
Saori ficou estática encarando a porta fechada. Ela estava, de fato, chocada. Aquilo sem dúvida era um golpe em seu orgulho feminino. Então voltou-se pra mim com o rosto em fúria.
— A culpa é sua! – gritou. – Seu idiota! Seu completo idiota!
Eu fiz um esforço pra me levantar, movendo a perna ferida com cuidado, e fui coxeando até a janela. Sentia que precisava de um pouco de ar.
— Ele viu você, Sao... – eu falei — com outro cara. Com... Meu Deus, com Milo Scorpion!
— Eu ouvi. Não sou surda. – ela despejou — Deus, como você pode ser tão imbecil? Se você tivesse feito o que eu lhe disse pra fazer, nada disso estaria acontecendo. Mas não. Você tinha que fugir, arrebentar o pé, e acabar com a nossa única chance de por um fim nessa paixonite estúpida do meu ex noivo!
— O que quer dizer? – Eu a interrompi rispidamente.
— Você é tão inocente, amado – ela balançou a cabeça. – Apaixonado! E por quem você acha que ele está apaixonado? Milo Scorpion, é claro. Eu te disse, não foi? – ela falou com irritação. – E aí está. E tudo por que você não fez o que devia.
— Um homem — murmurou então – Meu Deus, ele me trocou por um homem. Mas se aquele cara pensa que vai tirá-lo de mim, está muito enganado. – nesse momento seus olhos se estreitaram — O Camus é meu. Ele não vai tê-lo. Só eu. Sou a única que vai tê-lo.
Eu apenas olhava pra ela inquisitivamente. Eu não me considerava um cara de muitas cismas e nem era dado a pensamentos profundos, mas naquele momento, enquanto fixava os olhos nela, alguma coisa aconteceu na minha cabeça, um lampejo, e eu soltei, como se estivesse saindo de um transe:
— Meu Deus! Você está apaixonada por ele!
Ela ficou vermelha e disse:
— Não estou. Que bobagem!
Mas eu sabia que estava. Dava pra ver que estava.
E eu, que nunca sentira absolutamente nada por Camus Chevalier, fui tomado por um desgosto tão devastador, talvez até aversão por ele, que me deixou chocado.
— Não, não. Você está. – eu insisti atônito — Posso dizer que está. Está ficando vermelha. E isso nunca acontece com você. Meu Deus, Sao! Como pôde?
Ela atravessou a sala tão rápido que eu nem tive tempo de desviar quando vi a mão esticada voando na direção de meu rosto.
O tapa veio ligerio. Ela me encarava. E eu jamais vira seus olhos tão escuros e brilhantes.
— Haverá mais do mesmo – falou bem alto -, se você disser mais alguma coisa dessas de novo. Não estou apaixonada por ele. Não estou!
Com a mão sobre o rosto dolorido, eu olhava pra ela incrédulo.
Não dava pra acreditar naquilo. A Saori realmente... Não, não a Saori. Não a minha Saori. Nós éramos amigos, irmãos, amantes, cúmplices... nós tinhámos um pacto, um acordo. Eu suportava que ela dormisse com outros caras. Eu não me importava. Desde que seus sentimentos... seus sentimentos tinham que ser só meus.
— Você está! – eu me ouvi explodir, com uma voz quase histérica. – Apaixonou-se por ele! Aquele ruivo insípido. Aquele nerd frígido e empoadinho. Meu Deus, Saori! Meu Deus!
Mas ela só gritou de volta:
— Cale a boca! Pare de dizer isso! – E quando eu parei, ofegante, ela foi a até o aparador, levantou uma das estatuetas de perto do cinzeiro e a arremessou contra mim com toda a força.
Dessa vez eu consegui me desviar. A peça despedaçou ao se chocar contra a parede atrás de minha cabeça.
— Quer saber, é isso – eu falei bufando, quando me reequilibrei. – É isso, Saori. Pra mim chega.
Com o rosto ainda tomado pela raiva, ela gritou:
— Como assim chega? O que você quer dizer com isso?
Mas eu não respondi, apenas apanhei minhas muletas e me virei pra sair.
— Aonde você está indo? – ela gritava indignada. – Como se atreve a me dar as costas enquanto estou falando? Seiya! Seiya!
Eu bati a porta com tanta força que pude ouvir o barulho quando a outra estatueta do aparador caiu pelo impacto depedaçando-se no piso de pedra. De lá de dentro, Saori soltou outro grito frustrado.
oOOoOOo
Kanon POV
'Somos Pandora.
Somos os arautos do novo mundo.
Somos os senhores do caos.
Esperamos que a demonstração da madrugada do dia 31 tenha sido suficiente para convencê-los do nossso poder e da seriedade de nossas intenções.
Nossas exigências deverão ser atendidas ou não seremos tão belevolentes com o próximo alvo. Além das demandas iniciais, exigimos agora o pagamento de sessenta milhões de dólares em títulos ao portador, em papéis no valor de cinquenta mil dólares cada. Os capitalistas, verdadeiros donos do poder ao forrar os bolsos e torturar as massas, devem pagar agora na moeda que eles adoram.
Assim que a confirmação da libertação de nossos companheiros for ratificada, daremos instruções mais detalhadas sobre como a penalidade monetária deverá ser cumprida.
Se nossas exigências não forem atendidas até o sétimo dia do mês subsequente, seremos obrigados a sacrificar um dos marcos da cidade de Now York. Um símbolo do excesso de futilidade dentro do qual mortais olham boquiabertos para outros mortais.
Somos Pandora, utilizaremos suas próprias armas contra eles. E triunfaremos.
—O sétimo dia do mês subsequente? – eu repeti com os olhos novamente fixos na mensagem que chegara a algumas horas – esse não é o dia marcado para a troca da tiara?
June assentiu.
— E o do casamento do ruivão.
Nós nos entreolhamos em silêncio.
Estávamos outra vez na sala de estar do meu apartamento, dessa vez com Shion, June, Hilda – do esquadrão anti bombas -, e Julian – da divisão de Iteligência Eletrônica -, acomodados nos sofás. Desde que a mídia resolvera praticamente acampar na frente da delegacia que nosso adorável lar havia praticamente se transformado em um 'QG' do caso Pandora.
— Que lugar de New York simboliza o excesso e a futilidade? – Eu perguntei então, correndo pela enésima vez os olhos pelo texto na tela do lap top sobre a mesinha.
— Que lugar daqui não representa isso? – Saga respondeu.
— Certo. – Shion franziu o cenho e começou a andar de um lado para outro na sala. — Precisamos saber qual é o alvo deles.
— Sim, sei que precisamos. – Saga, falou, fechando os olhos por um instante. – Um símbolo. Mais uma vez, deve ser algo de valor. Um local de excesso, eles dizem, e de futilidade. Onde os mortais olham boquiabertos para outros mortais. Talvez um teatro.
— Ou uma boate, salão de festas, estádio – eu disse — . Pode ser qualquer coisa, do Madison Square Garden a uma espelunca sexual na avenida C.
— Mais provavelmente o primeiro do que a segunda. – Hilda colocou o café de lado. – Trata-se de um símbolo, rapazes, um marco da cidade. Algo que iria provocar impacto.
— O último alvo foi um prédio de depósito vazio – June falou -. Não provocou um grande impacto.
— Mas atraiu nossa atenção – Shion assinalou. – Eles querem nos manter focados nisso. Temos que nos concentrar em prédios importantes, algo que transpire tradição.
— Muito bem — Saga disse estreitando os olhos, pensativo -, estamos pensando em boates ou teatros... Mortais olhando boaquiabertos para outros mortais... Mas não só isso. Eles querem gente lá dentro. Vidas perdidas. Não apenas um grupo de turistas, nem alguns empregados. Eles querem a casa cheia. Pretendem causar impacto. Qual teatro nós temos que estará apresentando peças ou musicais na primeira semana de Feveriro?
— Eu posso conseguir uma lista de alvos em potencial – Julian logo falou -. Levantamos todos os complexos voltados para o entretenimento, lugares famosos ou que estão em locais que seriam cosiderados marcos importantes da cidade. Então podemos rodar um programa e fazer uma pesquisa cruzada pra descobrir quais aqueles que terão alguma programação para o dia sete.
— Esse é um bom ângulo. – Hilda se levantou, enfiando as mãos nos bolsos de trás da calça enquanto se punha a andar pela sala também. – E eu posso enviar equipes para fazer busca e varredura eletrônica nesses locais. Se nós estivermos certos, ainda temos tempo pra impedi-los.
— Ou podemos também evacuar o lugar errado enquanto um bar no meio da cidade vai pelos ares – eu lembrei.
— De quanto tempo vocês irão precisar? – Shion perguntou olhando firme de Hilda pra Julian.
— Cada segundo – Julian respondeu, pegando o celular.
Shion assentiu.
— Nada de homens uniformizados, Hilda, quero todos à paisana, e os veículos também devem parecer civis – disse. – Talvez eles estejam vigiando esses locais, não podemos entregar o jogo.
Concordando com a cabeça, Hilda também começou a ladrar ordens no telefone.
— E quanto a Hades? – meu irmão perguntou, olhando pra June — Como estamos com as pesquisas?
— Certo. – A garota falou, pegando alguns papéis de dentro de uma pasta e passando os olhos por eles — Nós seguimos na linha de que ele seria um figurão militar – June falou -, levantamos vários perfis, e por fim um nome nos chamou atenção: Coronel Alward Bassi.
— Conseguimos passar pelos bloqueios de segurança do exército – Julian desligou o celular pra informar a respeito dos progressos da sua divisão. -Vou transmitir os dados para os computadores pessoais de vocês, mas o resumo da ópera é o seguinte: Coronel Alward Bassi, reformado pelo exército. Alistou-se em 1978 e fez o curso de instrução para oficiais. Foi o melhor da turma. Como primeiro tenente, trabalhou para a Força Tática Especial em 1984, chegando a General em 1993.
— Espera, esse não foi o ano em que Radamanthys cumpriu serviço militar nessa mesma divisão? – Shion lembrou.
Ele assentiu, antes de continuar:
— Como Genral, ele era parte da elite da tropa, grupo ultra secreto. Estamos trabalhando nesses dados, mas até agora só encontramos louvores e medalhas. Ele devia ter uma caixa delas. Vimos também muitos elogios a respeito de sua perícia com eletrônicos e explosivos. Foi subindo de posto até ser promovido a Coronel em 1996. Desapareceu em serviço em 1999, e foi dado como morto desde então.
— Morto? – Saga falou.
— Isso – ele confirmou -. Mas o melhor vem agora. O Coronel Alward teve uma mulher, uma alemã chamada Frida Heinstein com quem nunca chegou a se casar, e com quem também teve uma filha.
— Em 1981 — June falou -, quando a menina estava com cinco anos Frida morreu, e a garota mudou-se de Berlin para os EUA pra morar com o pai, naturalizando-se americana com o nome de Jéssica Alward.
— Jessica Alward? – Eu perguntei — Mas esse não era o nome da mulher de Radamanthys que o FBI mandou pelos ares junto com a filha.
Julian assentiu, e June continuou com um sorriso satisfeito no rosto:
— E adivinhem qual era o nome de nascimento da garota? – ela falou, e logo completou:
— Pandora Heinstein.
Nós ficamos boquibertos.
— Puta que o pariu! – eu não consegui me segurar, e ganhei o olhar repreensor do Saga – E nós podemos fazer alguma coisa com isso? Digo, algo de concreto?
— Infelizmente, não – Shion falou – Ter tido uma filha de nome Pandora, ou ter integrado a Força Tática Especial no mesmo período que Radhamantys, ou mesmo ter se tornado sogro deste posteriormente, não liga ninguém a Organização. Até porque não existe qualquer evidência de que o próprio Radamanthys tenha ligação com os atentados, apesar dos vários crimes pelos quais é procurado. Além do que o Coronel Alward em tese está morto.
— Em outras palavras – Saga disse -, nós temos que seguir com o plano e botar as mãos neles, pra conseguir uma confissão, ou alguma evidência qualquer que viabilize entrar com um processo crime.
— E quanto ao Zelos? – Julian perguntou.
— Continua mudo como uma porta – eu falei -. Nós pensamos em tentar botar mais pressão nos interrogatórios, mas eu desconfio que ele não sabe de muita coisa mesmo. Pra piorar aquele filho da mãe do advogado dele entrou com um Hábeas Corpus e nós não temos mais nada pra segurá-lo. Se não conseguirmos alguma coisa logo, o desgraçado volta às ruas na próxima semana. E o escritório da promotoria ainda diz que não recebeu nossas alegações porque houve uma queda no sistema. Aqui ó...! – eu fiz um gesto com o braço. – Queda do sistema é a substituição classica para 'não estávamos a fim de trabalhar'.
Ouvindo uma risadinha disfarçada, eu virei a cabeça pra fulminar minha assistente com o olhar.
— Você está rindo de que?!
— Do seu jeito com as palavras, chefe — ela disse -. Eu admiro o jeito que o senhor tem pra lidar com as palavars.
Eu me recostei na poltrona e cruzei os braços sobre o peito, estreitando os olhos.
— Nós já trabalhamos juntos por tempo suficiente pra eu sacar quando você está me zoando, Oficial.
— Ah – ela fez -. E esse tempo também é grande o suficiente pra você apreciar o clima de compreensão e confiança que rola entre nós?
— Não – eu falei.
— Muito bem – Shion interveio -, de volta as prioridades. Hilda como estão as coisas?
— As equipes já estão em espera – ela disse – . Na verdade, preciso ir andando, vou entrar em campo agora. Aviso assim que descobrir alguma coisa. – ela se encaminhou pra porta pegando a bolsa.
— Eu vou com você. – Julian falou, seguindo atrás dela. — Sorento já está trabalhando na lista dos alvos prováveis. Vou quebrar mais um pouco a cabeça nos códigos das mensagens até aparecer alguma outra coisa pra fazermos.
Shion olhou no relógio em seu pulso e assentiu.
— Certo, vamos encerrar por aqui então.
Dito isso, chamou June, e ambos acompanharam os demais até a porta.
Quando nos vimos a sós outra vez, Saga se abaixou pra apanhar a papelada do caso na mesinha e esfregou os olhos. As três escassas horas que conseguira dormir naquela noite na certa estavam cobrando seu preço.
Eu tirei os papéis da mão dele, e me posicionei às suas costas, massageando seus ombros. Ele estava tenso.
— Você precisa dormir um pouco – disse.
Ele jogou a cabeça sobre o encosto do sofá e fechou os olhos, gemendo de leve pela massagem.
— Agora não.
Eu deslizei meus lábios pelos seus cabelos.
— Isso tudo te afeta muito, não é? Pandora, as explosões, as mortes... Você sofre por todos eles. Sempre foi assim.
— Eu fui treinado pra lidar com assassinatos, Kan, não com destruição em massa – ele abriu os olhos que mantinha fechados e seus azuis se fixaram nos meus – E se todos esses números não representassem pessoas pra mim, de que adiantaria?
— Nada – eu disse-. Não pra você. E eu amo quem você é. – Eu me inclinei pra frente e beijei seu rosto. – Mesmo assim, isso me preocupa. Quanto você ainda pode dar sem se abater?
— O que for necessário. – Ele se levantou, pegando a papelada novamente e seguindo pra o escritório.
— Saga...? – Eu me certifiquei de que o coldre e a arma dele estavam fora de alcance. Quando ele virou a cabeça, eu o agarrei pelo queixo e esmaguei minha boca de encontro à dele, ao mesmo tempo em que minhas mãos desciam com rapidez pra apertar o seu traseiro.
— Isso foi golpe baixo. – Ele me o empurrou um pouco, sorrindo de leve. – Um ato desprezível.
— Mas funcionou. – Eu sorri também, acariciando-lhe o rosto e o empurrei de leve pra trás em direção ao quarto, até que suas pernas batessem contra a cama.
— Nós ainda temos que trabalhar, Kan – ele reclamou em voz fraca quando eu pressionei mais forte meu corpo de encontro ao dele e prendi o lóbulo de sua orelha com os dentes.
— Depois – eu falei -, agora eu estou com outra missão aqui. – Minha boca desceu sobre a dele, de forma quente, possessiva. Minhas mãos já estavam por dentro de suas calças e apertavam as nádegas macias.
O desejo aumentou depressa e era tão forte que doía. O corpo dele era um tesouro pra mim, com suas linhas esbeltas, a firmeza dos músculos, a inesperada suavidade da pele. Ninguém nunca me provocara aquele desesjo desesperado de posse e entrega. Eu queria dar tudo que eu possuía. Qualquer coisa que ele aceitasse. Por trás dos horrores, de todo o sofrimento de nosso trabalho, aquilo – as coisas que nós proporcionávamos um ao outro, sem cansaço e sem parar – era nosso milagre pessoal.
— Eu quero você! – eu murmurei contra sua pele – uma pele firme, quente -, enquanto descia em uma trilha de beijos molhados ao longo de sua garganta. – Eu sempre quero você!
Ele ofegou e ainda fez menção de protestar, mas desistiu quando uma das minhas mãos se fechou sobre seu membro por cima da calça.
— Tudo bem – ele disse em um gemido, enquanto suas mãos ávidas puxavam minha camisa pra fora da calça –. Seja um animal, então!
Eu sorri lascivo.
— Vai ser um prazer.
Em seguida, fiz minha boca se encontrar novamente com a dele, de forma brutal, faminta. E gemi baixinho.
No momento, em que eu me preparava pra jogá-lo na cama o telefone tocou.
— Merda! – eu praguejei frustrado quando o senti se desvencilhar do meu corpo pra atender o maldito aparelho.
Eu tirei o telefone da mão dele ao ver o nome do identificador.
— Quem morreu agora, June? – eu falei irritado.
— O garoto... – ela parecia aflita – Hyoga... Ele... Ele desapareceu.
oOOoOOo
Camus POV
A noite havia chegado tão fria quanto a tarde, porém o nevoeiro cedera, e por entre as nuvens podia-se avistar nesgas de céu estrelado, e até um fiozinho de lua que refletia sobre a neve no jardim escuro, envolvendo tudo em uma estranha tonalidade azulada.
Eu caminhava pelo jardim deserto, por entre estátuas de pedra, imprimindo na neve as marcas das minhas pegadas.
Era ridículo, eu sabia. Ridículo não poder contar com a privacidade da minha própria casa e ter que me refugiar no jardim. Mas Brigitta sentira-se mal durante a tarde e meu pai e o Dite mobilizaram praticamente todo o sistema de saúde da cidade. Agora, clínico, obstetra, enfermeiras, e criados circulavam em polvorosa pelo lugar. Eles entravam e saiam tão ocupados com seus remédios, palpitações e diagnósticos, que eu finalmente me dera conta de que não ia ter paz ali dentro.
Se eu tivesse passado pelo clínico, ele provavelmente me diria que eu estava exausto. As enfermeiras com certeza iam tentar me administrar algum relaxante. E eu não fazia idéia do que o obstetra diria já que não havia como ele curar o meu problema, mas achava que ele se sentiria na obrigação de tentar.
A estufa de rosas do Dite era como um imenso borrão no escuro, quando eu passei por ela. Mais adiante o gazebo trabalhado, com as cadeiras de ferro fundido sob ele. Eu me larguei sobre uma delas e deixei pender a cabeça sobre seu encosto, deixando fluir meus pensamentos.
Eu tinha agido mal? Estava errado em romper um noivado desse jeito? Eu dissera a verdade a Saori. Afinal, que chances de ser feliz eu teria, casado com alguém que eu não amava, e por quem não conseguia sentir nada, exceto gratidão. Que espécie de felicidade seria essa?
Sim, por que estava bem claro pra mim que aquela empolgação passageira que eu sentira pela Saori fora apenas isso: um pálido e patético cochilo de um sentimento. Tão fácil de se quebrar como aqueles gravetos sob meus pés. Já o que eu sentia pelo Milo, era tão forte e sólido como um carvalho. Nunca ia se partir.
Eu era um grande idiota. Sabia disso. Por ter me apaixonado por Milo Scorpion.
Mas como eu podia evitar isso? Ele era como poucos que eu conhecia. Não era como a Saori e suas amigas cabeças vazias que só pensavam em qual roupa vestir. Milo realmente me ouvia, acompanhanva meus raciocínios e parecia considerar minhas opiniões com seriedade – pelo menos quando não estava tentando tirar minhas roupas. Como alguém poderia deixar de gostar de um cara assim? Ele era... bem, era extraordinário.
Então por que era tão difícil pra mim perdoá-lo? Seria porque eu tinha ido pra cama com ele? Ou porque meus sentimentos por ele eram mais profundos do que eu ousara esperar? Ou quem sabe o Afrodite tivesse razão e tudo aquilo era apenas porque ele havia ferido o meu orgulho? Eu não sabia dizer. Tudo o que sabia era que me sentia usado e descartado, e issso era difícil de suportar.
Eu só queria que ele confiasse em mim. Isso era pedir demais? Eu lhe dera a tiara. E mesmo assim ele ainda não me dissera a verdade. Eu queria que ele fosse sincero, que dissesse que sentia muito e prometesse não fazer isso de novo. Queria que ele fosse o homem que eu sabia que ele poderia ser, e não aquele que se empenhava em representar para os demais. Esse Milo não era um homem, era apenas uma carapaça, e certamente não era o cara que eu chegara a amar.
Sim, eu ainda estava ferido e zangado, e se ele não confiasse em mim como eu necessitava que o fizesse, eu sentia que o ressentimento me corroeria a ponto de destruir qualquer espécie de relacionamento que pudéssemos ter construído. Não, se ele realmente me quisesse teria que dizer toda a verdade – ou eu não cederia de jeito nenhum.
Eu balancei a cabeça. Deus, aonde isso ia parar? Se continuasse assim, ia ficar louco! Nunca mais iria me arriscar a me apaixonar de novo, se era nisso que o amor implicava.
Então, enquanto estava ali, pensando que realmente enlouqueceria e que seria melhor começar a procurar ajuda especializada, ou pelo menos de algum remédio, passos rápidos e suaves soaram vindos das sombras da estufa atrás de mim.
Eu virei a cabeça e olhei na direção da estufa, desconfiado a ponto de prender a respiração.
— Quem está aí? – eu sussurrei.
Os passos ficaram mais próximos. Um vulto passou rápido por entre as estátuas, e eu vi uma sombra se destacar das demais junto do muro.
— Quem está aí? – eu perguntei outra vez.
— Shhhh! – Uma voz familiar soou, pedindo silêncio, e então uma figura loira atravessou a passos lentos a neve que cobria o gramado, e abaixou-se ao meu lado com um dedo nos lábios.
— Não diga nada, ninguém pode saber que estou aqui.
— Hyoga! – Eu exclamei assustado.
Em outras circunstâncias, eu o teria abraçado. No entanto, agora, eu só olhava para ele sem reação. E vendo que ele parecia estar bem, eu suspirei.
— Onde exatamente você esteve? – perguntei então, cruzando os braços sobre o peito zangado. – Você disse que voltaria em uma semana e desapareceu por quase um mês inteiro. O que aconteceu? Papai estava preocupado.
— Procure conter sua alegria por me ver de novo, Cami – ele falou com um sorriso sem graça. – Isso é embaraçoso.
Eu bufei, franzindo ainda mais o cenho.
— Bem, é melhor você entrar, para que ele veja que está tudo bem com você, ou non verá sua próxima mesada, posso lhe garantir.
Hyoga, agora sentado com as pernas cruzadas sobre o assento da cadeira ao meu lado, apenas arregalous os olhos e disse:
— Não. Não posso fazer isso. Ninguem deve saber que eu estou aqui, Cami. E você também não pode contar a ninguém que me viu.
Embora estivesse escuro, eu pensei ter visto um ar de preocupação no rosto dele, e como ele raramente parecesse tão sério, eu me esqueci dos meus próprios problemas por um instante e o examinei mais atentamente.
Sob a luz do luar eu pude ver os círculos escuros sob seus olhos e algumas manchas de fuligem no seu rosto. Havia um rasgão em seu casaco e seus jeans estavam sujos nos joelhos.
Mas não foi isso que me fez tomar a mão dele entre as minha. Fiz isso porque ele exibia a expressão mais assustada que eu já vira em seu rosto.
— Oga – falei, abrandando a voz. – Você está com problemas, não está?
Ele suspirou.
— Com um bocado deles – respondeu. – E foi por isso que vim procurar você, mesmo tendo prometido que não faria isso. Porque eu acho que você tem o direito de saber – ele abaixou a cabeça e mordeu o lábio iferior antes de voltar os olhos pra mim outra vez — Veja, Cami – ele falou com cuidado, inclinando-se para frente e apertando mais minha mão. – É sobre a Saori.
— A Saori? – eu perguntei com a terrível sensação de que de alguma forma meu irmão soubera da nossa... digamos... 'situação' com o Milo.
Eu prendi o ar.
— Non precisa continuar. – eu abaxei os olhos — Eu já sei o que vai dizer.
— Você sabe? – ele falou, perplexo, soltando minha mão.
— Sim, claro. – eu fixei o olhar nele outra vez – Veja, Oga, muita coisa aconteceu nesse tempo em que você esteve fora, e... bem, eu ia te contar. Na verdade eu já devia ter contado. O Dite queria que eu contasse.
— O Dite sabe? – ele perguntou boquiaberto.
— Oui, bien sûr – eu confirmei. Ele me olhava com curiosidade. – Você sabe que é impossível esconder as coisas dele – eu dei de ombros -. Só que eu tinha um pouco de receio da sua reação e da do papai quando soubessem, quer dizer, ela salvou sua vida e tudo.
— O Papai? – ele me interrompeu. O rosto contorcido de horror. – Você contou a ele?
— Bem, sim... em parte. – eu respondi – ele me disse pra ir em frente.
— Camus – ele me chamou piscando os olhos, e cuidadosamente continuou -, do que você está falando?
— O que quer dizer com 'do que estou falando'? Estou falando da minha situação com a Saori – eu respondi, olhando pra ele, intrigado. – Do que você está falando?
— Estou falando da Saori também.
— Oui – eu falei. – Achei que sim. Bem, então, espero que possa entender. Sei que ela salvou sua vida, mas eu non consegui evitar o que aconteceu. Eu não planejei isso, petit. Foi estranho pra mim também lidar com o que eu sentia por ele, mesmo porque eu já os havia visto juntos, você sabe.
— Visto quem? – ele perguntou, balançando a cabeça confuso. Aparentemente só havia assimilado a última frase do discurso.
— Saori, é claro – eu falei com certa impaciência -, e o Milo. Eu os vi juntos aquela noite no andar de cima da festa em que estivemos algumas semanas antes do Natal.
Por um momento meu irmão ficou olhando fixo pra mim. Então abriu a boca e soltou um palavrão alto.
— Hyoga! – eu falei num tom de reprimenda.
— Que vadia! – ele disse. – Está me dizendo que a Saori estava... estava... se encontrando com outros caras nas suas costas?
Só que não foi bem 'encontrando' que ele disse.
— Bem, — eu falei. — se você tem que ser vulgar sobre isso, acho que a resposta é sim. – Então olhei pra ele com ar curioso. – Não é o que você...
— Deus, não! – ele explodiu. – Eu estava tentando lhe contar porque atiraram em mim na faculdade, porque precisei me afastar, e porque você tem que cancelar o casamento!
Eu olhei pra ele sem entender. Ele parecia nervoso. Seus olhos, que já eram naturalmente grandes demais para seu rosto, pareciam dois pires azuis.
— Eu non sei o que exatamente quer dizer com isso, Hyoga – eu falei com cuidado, e então continuei –, mas se te tranquiliza saber, rompi o noivado esta tarde. Devia ter feito isso havia muito tempo, na verdade.
— Sobre isso... – eu ouvi uma voz mais grave soar a alguma distância atrás de mim – creio que nós vamos ter que pedir a você que reconsidere.
Eu me virei pra encarar os dois homens que atravessavam o jardim em passos largos. Brian vinha aflito logo atrás deles.
— Sinto muito, Senhor. – Brian se adiantou a frente dos visitantes logo que se aproximaram – eu tentei impedi-los, mas eles disseram que são da polícia. – ele me estendeu duas identificações oficiais.
Eu olhei das identificações para os homens a minha frente. Eu conhecia aqueles caras. Milo os havia apresentado como seus irmãos no restaurante dos pais do Shaka aquela noite.
— Vocês não são... – eu comecei a dizer, franzindo o cenho, mas fui interrompido.
— ...Irmãos do Milo. – Um deles assentiu – Prazer em revê-lo, cunhadinho. – ele estendeu a mão em cumprimento.
Eu estava perplexo demais pra reagir a forma como fora tratado, e apenas apertei automaticamente a mão dele.
Hyoga estava paralizado.
— Como... como vocês me descobriram aqui? – ele conseguiu perguntar.
— Convenhamos que você não tinha tantos lugares assim pra ir, não é garoto? Então nós logo imaginamos – o que tinha me chamado de 'cunhadinho' respondeu.
— Além disso, um dos nossos homens encarregados da proteção da casa, também nos informou ter visto você pulando o muro – o outro, que parecia mais centrado que o primeiro, completou.
Eu apenas olhava incrédulo do meu irmão para os policiais. 'Homens encarregados da proteção da casa'? 'Pulando o muro'?
— Hyoga, você estava com esses homens? – eu quis saber, entre zangado e confuso.
Ele desviou os olhos sem me responder.
— Seu irmão está sob proteção policial, Camus – o mais sério deles explicou – por motivos que nós teremos prazer em lhe esclarecer oportunamente.
Proteção policial? Meu Deus, mas o quê...? E então a compreensão se fez.
— Isso... – eu estreitei os olhos — isso tem a ver com o Milo, não tem? E essa história da tiara.
Eles concordaram.
Eu assenti.
— Brian, — eu chamei então o mordomo que mantinha-se à postos, a uma distância discreta. – Queira acompanhar esses senhores até o escritório, e garanta que nós não sejamos incomodados, s'il vous plaît.
— Pois não, Senhor – ele disse conduzindo os gêmeos pra dentro da casa.
Eu os segui, com Hyoga ao meu lado.
Quando, alguns minutos depois, estavamos devidamente acomodados em torno da escrivaninha – eu na cadeira giratória atrás da mesa, tendo meu irmão na ponta e os policiais do outro lado – eu encarei decididamente os homens a minha frente.
— Eu quero saber de tudo – falei enfaticamente – Contem-me. E, por favor, não me escondam nada.
Eles se entreolharam.
— Você vai ficar zangado comigo. – Hyoga mordeu os lábios.
Eu lhe acariciei os cabelos claros.
— Non vou, petit – afirmei. – Prometo que non vou.
Ele assentiu.
E então eles contaram.
Fale com o autor