Aprendendo a Seduzir
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens, se você não gosta, não leia
Camus POV
Eu estava sentado junto a janela com a chuva batendo contra a vidraça. Fazia dois dias que eu chegara ali. O apartamento antigo em um prédio vitoriano reformado, herança da minha mãe, sempre fora o meu favorito. O relógio sobre o aparador marcava 17:45. Anoitecia, embora as nuvens espessas que recobriam o céu há muito já tornassem o dia cinzento. Eu havia abandonado meu livro e, letárgico, olhava agora as gotas esplodirem no vidro me perguntando se não tinha ficado louco.
Porque, o que poderia ter me levado a agir daquela forma com Milo Scorpion senão a loucura?
O que eu havia feito fora terrível. Muito pior do que chocante. Em que eu estava pensando?
E o pior fora ter todas as fichas caindo na minha cabeça, de repente. Lições de sedução. Tenha dó!
Finalmente eu estava sozinho. Eu precisava de paz e quietude. Ficar isolado pra pensar em meu dilema sem nenhuma distração, particularmente sob a forma de Milo Scorpion.
Em algum lugar lá fora alguém começou a tocar 'La Vie En Rose'. As notas do acordeon chegavam agora baixas e melancólias até mim através da chuva. Era algo que eles sempre tocavam pra os turistas, mas cuja melodia nunca deixou de me emocionar. New York podia ser a minha casa, mas Paris sempre seria meu lar.
Era pra lá que voltava quando queria ficar sozinho, quando precisava pensar, quando as coisas se tornavam de repente difíceis de mais de suportar. E era lá que eu estava agora. Naquele apartamento onde tinha nascido, com os móveis ainda recobertos pelos lençóis de linho que eu não me dera ao trabalho de tirar, olhando a chuva, e com todo o tempo que queria pra pensar no meu horrível equívoco, e em como iria voltar a fazer as coisas certas novamente.
Só que eu não achava que pudesse.
Via isso agora. Eu não amava a Saori. Agora eu sabia que não a amava. O que sentira por ela não ia além da gratidão, em primeiro lugar, por ela ter salvo a vida do Hyoga, e depois porque, dentre todos os homens possíveis, ela escolhera a mim pra se casar.
Eu ficara lisongeado com a sua atenção, empolgado com seus beijos – mesmo sem paixão, eu percebia agora -, e gratificado por achar que dentre todos os belos homens que conhecera, ela havia me escolhido.
E foi por isso, eu me dava conta de repente, que eu não havia sentido nada quando a encontrara nos braços do Milo naquela festa. Foi por isso que eu não irrompera porta adentro em uma tempestade de ciúme e raiva.
Eu não a amava.
Mas essa era, naturalmente, a menor das minhas preocupações no momento. O que me pesava muito mais na consciência do que o fato de que eu não a amava – e provavelmente nunca amara – era o conhecimento de que aquilo de que o Afrodite me acusara na madrugada de Sábado era verdade.
Eu estava apaixonado por Milo Scorpion.
E não queria estar. Era horrível saber que estava.
Eu o amava apesar da sua péssima reputação e de que eu desaprovava quase tudo sobre ele, inclusive seus hábitos e estilo de vida. Eu o amava a despeito de ele ser um homem, e de todas as coisas que eu já ouvira ao seu respeito. Eu o amava. Só isso poderia explicar o que havia acontecido aquela noite, quando nós fizemos amor. Porque nossos corpos pareciam se encaixar tão bem um ao outro, e como ele me fizera sentir êxtases de prazer que eu nem sabia que existissem.
Eu o amava, eu percebia agora, por ser tudo o que ele era. O ator sedutor e arrogante, que tinha força e perseverança pra ir atrás do que queria e chegar ao topo na sua profissão. O homem orgulhoso e leal que não se esquecera dos amigos e da família em sua ascenção meteórica, e que não se envergonhava de ser visto em publico com a mãe e os irmãos. O amante gentil e habilidoso capaz de abrir as portas do paraíso, e que tinha, como eu tivera a chance de notar, uma certa propensão à carinhos durante o sono. O garoto incosequente, de sorriso travesso, que nunca sabia a hora de parar.
Eu o amava.
Começara amá-lo naquele momento, no corredor daquela festa, quando o surpreendera com a Saori e não conseguira mais tirar os olhos dele. Quando sentira aquela coisa estranha no peito, e não soubera identificar o que era.
Era chocante, mas era a realidade.
Eu estava apaixonado por Milo Scorpion.
O que mais eu poderia fazer então, senão fugir?
Porque aquilo não era possível. Nós não poderíamos ficar juntos. Eu tinha prometido que me casaria com a Saori, não podia voltar atrás na minha palavra. Não podia fazer isso com ela, com a família dela. E, principalmente, não podia destruir tudo por um sentimento que eu sabia que não era correspondido. Que nunca seria.
As chances de Milo Scorpion realmente ficar com um parceiro fixo eram praticamente nulas. Ele até já havia dito em uma entrevista pra Playboy que achava o casamento uma instituição falida, e que os homens não foram feitos pra monogamia.
Eu não entendia exatamente o porquê ele havia se interessado por mim, mas sabia que ele não me amava. Ele não estava paixonado. Não podia estar. Era só sexo. Nós eramos homens. Eu conhecia as regras.
Aquela proposta inexplicável dele sobre ficarmos juntos, na última noite, só podia ser o resultado do excesso de endorfina no cérebro do cara. Era óbvio que ele tinha falado aquilo só por falar. O que aconteceria depois de uma semana, ou duas, quando ele quisesse que eu sumisse?
Não. De jeito nenhum. Eu não ia esperar que ele me mandasse embora. Eu preferia sair sozinho enquanto ainda me sobrava algum resquício de dignidade.
Então, enquanto eu estava ali sentado refletindo sobre a minha sanidade, ou a falta dela, soou uma batida na porta, tão alta e inesperda que eu quase saltei do sofá.
'Quem poderia ser?' Eu me perguntei enquanto me levantava e ajeitava o roupão em volta do corpo.
Eu só esperava que não fosse a vizinha outra vez, pedindo alguma coisa emprestada. Eu já havia lhe dito que chegara do exterior a pouco tempo e não havia nada em casa, não entendia porque ela continuava insistindo em bater na minha porta. Mon Dieu, será que niguém podia me deixar em paz?
Só que quando eu abri a porta, meio impaciente pelo incômodo, eu descobri que não era vizinha. Não era absolutamente a vizinha.
A figura parada diante de mim era muito mais alta do que a vizinha. Tinha as roupas encharcadas, olhos azuis penetrantes, e longos cachos loiros dos quais agora escorriam filetes de água, formando pequenas poças no meu tapete.
Eu estava paralizado.
- M... – eu tentei dizer, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. De repente era como se eu tivesse perdido toda minha capacidade de fala.
Ele sorriu. Mais um daqueles sorrisos matadores que o colocaram por anos consecutivos no topo da lista das celebridades mais sexys do mundo da revista People. E eu amaldiçoei a mim mesmo por estar tão louco, de fato, que dera pra alucinar com imagens daquele grego.
Então o sorriso sumiu e os olhos azuis se arregalaram, surpresos.
– Meu Deus, Camus, o que é isso? – ele apontou para o roupão que eu vestia.
Eu permanecia imóvel, como se tivesse sido congelado. Uma das mãos ainda segurando a porta aberta sem saber se estava ou não diante de uma criatura desse mundo
- Um... um roupão de banho. — eu me ouvi responder vagamente, sem conseguir desviar os olhos dele.
- Francamente, — ele cotinuou, passando por mim enquanto entrava no apartamento deixando rastros de água atrás de si — eu não acho que um roupão de banho seja uma roupa apropriada pra se atender a porta. E se fosse outra pessoa?
Eu pisquei os olhos pra me livrar do esturpor.
- Milo... — eu disse – você... você está molhando o meu tapete.
E isso foi tudo o que eu fui capaz de falar.
Ele olhou pra baixo, pros próprios sapatos encharcados.
- Ah, desculpa – ele disse, dando um passo pro lado. Pra fora do tapete.
- Como você me encontrou? – eu perguntei então tentando soar autoritário, enquanto pegava uma toalha seca no banheiro e a jogava na direção dele. — O que está fazendo aqui?
Ele passou a toalha pelo rosto molhado, e depois pelos cabelos.
- Eu ia fazer a mesma pergunta a você. – ele olhou em volta, para os móveis cobertos e os enfeites embrulhados em sacos plásticos e declarou: — Este lugar parece uma tumba. Você realmente achou que poderia pensar em alguma coisa séria aqui, Ruivo? É um verdadeiro sarcófago.
- Non é um sarcófago – eu falei – Só está fechado há algum tempo. E é um lugar perfeitamente razoável onde se pode vir para pensar. Especialmente porque eu vim aqui pra ficar sozinho.
Se ele entendeu a indireta, não deixou transparecer. Em vez disso, entrou na sala a passos rápidos, e, com a toalha ainda nos ombros, ajoelhou-se ao lado do aquecedor.
- Meu Deus – ele disse, esfregando as mãos enquanto abria mais o gás pra aumentar a temperatura – está gelado aqui dentro. Não sei como você consegue ficar trancado aqui com tão pouca roupa. Você deve estar congelando.
Eu abri a boca pra responder que cosiderava aquela uma temperatura bastante agradável, na verdade, mas antes que eu tivesse a chance de falar qualquer coisa ele se levantou outra vez perguntando:
- Nietzsche? – ele apontou para ao livro que eu estivera lendo e que deixara sobre a mesinha no centro da sala
Eu assenti.
Ele pegou o volume e passeou rapidamente pelas páginas.
- Está em francês – reclamou.
Eu girei os olhos.
- Vous êtes en France, ne se pas? (1)
- O quê? — ele perguntou sem entender.
Eu fiz um gesto de descaso com a mão.
- Nada.
Ele voltou a fechar o livro e franziu o cenho pensativo
- Como era mesmo aquela frase dele sobre o amor?...
- 'O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.' – eu respondi prontamente.
Era uma frase muito boa. E bastante verdadeira como eu estava tendo a oportunidade de constatar.
- Não. Não essa. – ele disse distraído. – A outra.
E então pareceu se lembrar: — 'Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.'
Ele sorriu satisfeito. Eu fechei o rosto.
- Você leu isso em alguma embalagem de cigarro? – eu ironizei, contrariado.
- Não, — ele sorriu outra vez, devolvendo o livro à mesinha – em uma revista em quadrinhos. Eu estou em uma fase de aprimoramento, sabe.
Eu balancei a cabeça. Realmente, como eu podia ter me apaixonado por essa criatura?
- Como me encontrou, afinal? – eu perguntei mais uma vez, voltando no assunto – Não contei a ninguém que vinha pra cá, a não ser...
- Foi exatamente como eu descobri.
- O Afrodite te disse? – Eu perguntei incrédulo. O Afrodite já podia se considerar um homem morto.
- Disse. – ele confirmou – ele é muito razoável, sabia? Muito mais razoável do que você.
Ouvir que eu era menos razoável do que o Afrodite era uma ofensa enorme, é claro. Mas ele não conhecia o Dite, então eu não o podia culpar.
- Tenho sido perfeitamente razoável – eu me defendi.
- Tem? – ele me encarou — Então por que fugiu?
- Eu non fugi, — eu desviei o rosto — só me dei algum tempo pra pensar. E você está acharcado, é melhor tirar essas roupas.
Ele sorriu malicioso.
- Isso é uma proposta?
Pra minha ira, eu senti meu rosto esquentar.
De repente eu me dava conta de que nós estávamos sozinhos naquele apartamento e que a chuva se intensificara de tal modo lá fora que as nuvens haviam deixado o céu escuro como a noite, e a água batia nas vidraças selvagemente. Mesmo que quisesse, não poderia botá-lo pra fora com aquele tempo.
- Non. – eu falei, dando as costas a ele e caminhando até o quarto pra separar algumas roupas secas — Eu só quero evitar me ver incapaz de te mandar embora por conta de uma gripe.
Ele veio atrás de mim
- A sua hospitalidade me encanta, Ruivo. – ele apanhou a camiseta e a calça de moleton que eu joguei pra ele. – A propósito... – ele fixou um olhar lascivo em mim enquanto retirava a blusa molhada — O que você está usando por baixo desse roupão?
Eu engoli em seco. E não apenas pela pergunta. A visão do abdómem firme e definido de Milo Scorpion, com aquelas gotículas de água escorrendo pela pele bronzeada, e aquela faixa de pelos dourados que descia até...
Eu me virei de costas.
- Nada. – eu disse, tentando acalmar minha pulsação enquanto sentia o rosto arder outra vez. – E não é pelo motivo que você está pensando. Eu estava no banho algum tempo antes de você chegar. Non tinha como saber que você apareceria aqui. Aliás, o que você veio fazer aqui mesmo?
- Eu tinha que vir. – eu ouvi a voz dele dizer, enquanto caminhava outra vez até a sala, torcendo pra que ele vestisse logo uma roupa. Eu provavelmente era a única pessoa no mundo que tendo Milo Scorpion sem roupa em seu quarto, preferia que ele estivesse vestido.
- Todo cuidado é pouco em se tratando de um homem como você. – ele continuou — Eu dou um cochilo e quando acordo você fugiu de país e está desfilando em trajes indecorosos pela nova vizinhança.
Eu balancei a cabeça, ainda sem olhar pra ele.
- Você é um homem muito, muito doente.
- Eu sei. – ele disse, e eu me surpreendi com a proximidade da voz dele, e com os braços, que subitamente enlaçavam a minha cintura.
Eu tentei me afastar, mas ele estava me segurando bem forte e não parecia querer soltar.
– Agora venha aqui. – ele me puxou mais de encontro a si. — Acho que preciso dar uma olhada no que tem debaixo desse roupão.
Eu prendi a respiração com a sensação do corpo rígido pressionado firmemente às minhas costas
- Eu acho que me lembro de ter falado que essa coisa que está acontecendo entre agente nunca vai dar certo. – eu tentei me manter o mais íntegro possível, enquanto sua cabeça se curvava pra tocar meu pescoço com os lábios.
- Não. – ele disse, mantendo a boca ali e fazendo com que meu pulso acelerasse loucamente. — Você não disse nada disso. O que você disse foi que queria dormir e pensar sobre isso depois. Bom, já chegou a hora de pensar. E, se você concordar, eu adoraria continuar de onde paramos na última noite.
- Eu estou falando sério, Milo, — eu falei, enquanto sentia os lábios dele deslizarem pelo meu rosto. Alguma coisa dentro de mim estremecia com o toque dele... maldito. — isso não vai dar certo.
- Se você não tirar isso – suas mãos deslizaram até a faixa que segurava meu roupão, os lábios na minha orelha — não vai mesmo.
Eu segurei os braços dele sem saber ao certo se queria afastá-lo ou puxá-lo ainda mais pra mim. Um suspiro involuntário escapando dos meus lábios quando senti sua língua invadindo minha orelha.
- Mon Dieu, — eu disse sem forças, mas recusando-me a entregar às tentações da carne outra vez — será que você non consegue falar sério nem por um minuto?
- Mas eu estou falando seríssimo. – Uma de suas mãos ainda trabalhava no nó da faixa na minha cintura, enquanto a outra já encontrava seu caminho por baixo do meu roupão.
Eu ofeguei com o primeiro toque daqueles dedos em um dos meus mamilos sensíveis e aumentei a pressão nos braços que eu segurava. Então, com um puxão firme, eu o empurrei, me afastando.
- Por Deus, — eu falei, enquanto ajeitava o roupão em torno do corpo e tentava estabilizar a respiração outra vez – quantos braços você tem?
Ele sorriu, mordendo o lábio provocativamente.
- Você não reclamou disso da última vez.
Eu suspirei.
- Olha – eu disse – aquilo que aconteceu aquela noite... foi apenas empolgação, está bem? Non era eu. Eu não faço esse tipo de coisa. Non sou desse jeito.
- Mas engana bem. – ele disse com uma risada sugestiva.
- Eu sei – eu falei, me sentido corar outra vez pela lembrança do que exatamente eu havia feito pra provocar aquela risada. 'Seja forte', eu pensei.
– É sério, — eu disse — me desculpa se eu enganei você, ok? Mas isso, seja lá o que for, tem que parar. Tem que parar agora.
- Espera. – ele parecia chocado — Você está me dispensando, é isso?
Era normal que ele estivesse chocado. Provavelmente eu era a único ser humano na face da Terra que recusaria uma chance de ter Milo Scorpion como amante por uma semana ou duas. Que era mais ou menos o quanto os casos dele costumavam durar.
Mas isso provavelmente se devia ao fato de eu também ser o único que não gostava da idéia de ter meu coração partido por ele.
- Não, – eu falei – eu não estou te dispensando. Porque pra eu poder te dispensar nós teríamos que ter começado algum relacionamento, em primeiro lugar. O que non aconteceu.
- Não? – ele parecia mais incrédulo ainda. – Poxa, você quase me enganou mesmo.
Eu permaneci em silêncio. Não sabia o que mais podia dizer. Eu nunca pensei que ele fosse insistir tanto. Achei até que ele fosse ficar aliviado, sabe. Quer dizer, todos os caras que entram em caso após caso não estão sempre procurando um motivo pra terminar? Pra poder partir pra outra? E eu estava dando isso a ele. Ele devia era se ajoelhar aos meus pés e agradecer.
Em vez disso, ele parecia estar confuso.
- E quem vai contar isso pro Max? – ele perguntou.
Eu o encarei.
- O quê?
- Você não pode terminar comigo agora – ele disse – nós nem decidimos quem vai ficar com a guarda do Maxie. E você já pensou no impacto terrível que esta separação vai ter na mente dele? Ele vai precisar de terapia por causa disso.
Certo. Ele estava brincando.
Levou algum tempo pra que eu percebesse, mas finalmente eu entendi que ele estava brincando. A resistência dele era de mentira. Era tudo de mentira. Ele nem ligava. Nem ligava mesmo.
Mas aquilo era até bom. Agora seria mais fácil sair daquela história.
Só que uma parte de mim – aquela parte irracional de mim que ainda insitia em acreditar que aquilo podia ter um final feliz – estava meio ferida. Estava machucada por causa da rapidez com que ele começou a fazer piada sobre uma coisa que, ainda que breve, siginificara muito pra mim. Mais do que eu quisera admitir.
Mas era mesmo melhor assim, eu pensei. Bem melhor. Agora as coisas finalmente poderiam voltar a ser como antes. Tudo voltaria ao normal.
Era melhor que eu saísse daquilo o quanto antes. Enquanto o estrago não fosse irreparável. Enquanto eu ainda achava que seria capaz de me levantar outra vez.
Eu entrei no jogo dele pra tentar disfarçar o quanto aquilo me afetava.
- Eu achei que Max – eu falei, em um tom que esperava que soasse indiferente – fosse nosso Husk Siberiano.
- Mudei de idéia. – ele respondeu – O nome do cachorro é Ben. Max é nosso primeiro filho. Nós vamos adotar três. Dois meninos e uma menina, como Brad e Angelina.
Eu suspirei. Ele estava apenas provocando, eu sabia. Era isso que ele fazia. Ele provocava.
Só que esse tipo de provocação doía.
- Você non devia ter vindo aqui, Milo – eu falei afinal.
- Eu precisava vir. – ele sorriu de lado — Você ficou com a minha camisa, lembra? Ela era a minha favorita.
Ele estava se referindo a camisa que eu pegara emprestada em seu armário na outra noite, ou melhor, na manhã da outra noite. Bom, ele havia inutilizado a minha, e eu precisava sair dali vestindo alguma coisa, não é?
Mas é claro que ele não estava ali pela camisa.
- Eu falo sério, Milo. – eu disse.
- Ei, — de repente ele parecia irritado – nós tivemos uma noite ótima. Pelo menos eu achei ótima. E você também parecia estar gostando bastante. Então eu acordo e você simplesmente evaporou do país. Não deixa recado, não atende as minhas chamadas. E, quando eu finalmente consigo descobrir onde você se meteu, enfrento sete horas e quarenta e cinco minutos em um avião comercial lotado e venho até aqui só pra conseguir uma explicação razoável, você me diz que não quer mais nada comigo? O que mudou, afinal? Você se arrependeu? É porque eu sou homem, é isso?
- Non. – eu balancei a cabeça – não é nada disso.
Eu não me importava com o fato dele ser um homem. Era um pouco estranho sim descobrir aquela altura que eu podia sentir atração por homens, mas eu não tinha problema com isso.
- É o quê, então? – ele perguntou
- Eu... Eu só... – eu umedeci os lábios, pensando em alguma coisa pra dizer a ele. Qualquer coisa, menos a verdade. Eu não podia dizer a verdade. Era vergonhoso demais.
- Eu só não consigo. – eu disse, por fim — Não consigo mesmo.
Ele deu alguns passos pela sala, e então se sentou no sofá.
- Isso está ficando muito estranho. – ele apoiou o cotovelo no descanço de braço e o queixo na mão, me encarando – Você não consegue o quê?
- Fazer isso. – eu falei – Ser desse jeito. Eu não consigo ir pra cama assim casualmente. Nunca entendi o propósito disso direito, sabe. E, ainda por cima, fazer isso com você, o 'Rei do Sexo Casual'. Não dá. Eu simplesmente não sou assim.
- Certo. – ele disse, e pra minha surpresa o tom de brincadeira havia desaparecido. Agora ele parecia estar... magoado?
- Foi isso que eu fui pra você, então? Uma coisa casual?
Se eu não estivesse ali, vendo a expressão no rosto dele, eu juraria que ele estava brincando. Mas não havia nem um pouco de humor nos seus olhos agora.
- Milo, – eu falei – por favor. Non venha me dizer que você queria que fosse mais do isso. Mais do que um caso. Certo? Quer dizer... queria?
Eu tentei esconder a ansiedade. Não havia a menor posibilidade de Milo Scorpion estar interessado em mais do que um caso passageiro. Eu sabia que não. Era pura ilusão pensar o contrário
Então quando ele respondeu que agora realmente não teríamos como saber e me lançou aquele sorriso triste e frio, eu não consegui evitar encará-lo. Era como se ele tivesse se transformando. De repente, não havia mais nada de engraçado, nem bobo ou casual nele.
Como era possível?
Eu não tinha sido apenas mais um entre tantos outros com quem ele já tinha se envolvido?
Ele não falava sobre cachorros e adotar crianças com todos eles?
Eu dei um suspiro fundo, e ao soltar o ar disse:
- Milo, eu já tinha te falado. Você sabe que eu estou pra me casar em dois meses. Não posso entrar em outro relacionamento agora.
Aquilo podia não ser toda a verdade, mas era parte dela.
- Cancele a porra do casamento, então! – ele se exaltou
Eu balancei a cabeça.
- Não posso.
- Por que não?
Eu suspirei cansado.
Como se ele não soubesse. Como se aquilo não fosse tudo sobre o que nós háviamos conversado desde aprimeira vez em que eu fui procurá-lo, aquele dia no seu apartamento. Será que eu tinha mesmo que dizer a ele? Tinha que falar as palavras?
- Vous savez pourquoi.(2) — eu disse.
- Por causa do que ela fez pelo seu irmão.
Eu assenti.
Ele passou a mão pelo cabelo impaciente.
- Pelo amor de Deus, Camus, se você quer agradecer a garota, faça um cheque pra ela.
Eu balancei outra vez a cabeça, agora com incredulidade.
- Estou falando sério.
- Eu também.
Era o que parecia mesmo. Eu nunca tinha visto ele daquele jeito.
- Non. – Minha voz falhou. Eu tentei me controlar. Aquele não era um bom momento pra vacilar. – É sério mesmo, Milo, eu não posso. Não posso me deixar levar desse jeito.
'Não sobraria nada de mim', eu completei em pensamento.
Silêncio.
Ele me encarava. Os olhos firmemente presos aos meus.
Um minuto se passou. Dois.
Ele se levantou. Calçou os sapatos molhados e foi em direção à saída. Eu presumi que fosse embora e segurei a cabeça, pressionando as têmporas. De olhos fechado eu sentia as primeiras pontadas da enxaqueca chegando.
Eu ouvi a porta da frente bater.
'Era melhor assim', eu pensei outra vez, me permitindo enfim desabar. Finalmente eu podia deixar que minhas mãos tremessem sobre o encosto do sofá onde eu me apoiara. Sim, era melhor desse jeito. Eu havia dito a verdade a ele. Eu não podia continuar com aquilo. Principamente com alguém como ele, que era tão rápido, tão devastador. Ele era realmente o tipo de cara por quem se destruiria um quarto de hotel.
E o que eu estava sentindo por ele – o que percebi que havia começado a sentir – era profundo demais... perigoso demais. Se eu não pusesse logo um fim naquilo, sabia que me perderia totalmente. Eu estaria acabado.
Então, enquanto eu estava ali, a cabeça caída pra frente pelo peso que parecia se concentrar dentro dela, um aperto esquisito no peito, eu ouvi o barulho firme de passos.
Antes que eu tivesse tempo de me virar pra olhar, eu me senti ser puxado com força pelo braço, e, de repente, eu encarava o rosto furioso de Milo Scorpion.
Ele estivera lá o tempo todo, eu percebi. Provavelmente abrira a porta pra sair, e então, desistindo do que ia fazer a batera de volta. E eu, pensando que ele tivesse ido, me deixara fraquejar daquele jeito. Era tão constrangedor.
Uma de suas mãos ainda apertava o meu braço enquanto a outra se dirigia a minha nuca, os dedos prendendo-se aos meus cabelos. Os olhos brilhando perigosamente, à centímetros dos meus.
Eu levei uma mão ao peito dele para afastá-lo, mas tudo que pude fazer foi deixá-la ali, sentindo os contornos firmes dos músculos sob a camiseta emprestada, e seu coração, que batia tão rápido quanto o meu.
Era incrível que mesmo em uma situação daquelas, eu ainda conseguisse ficar tão consciente do corpo dele. Das coxas torneadas. A barriga firme e bem definida. O contorno dos músculos dos braços. Os lábios mornos e macios. As veias latejando ao lado do pescoço onde os cachos dourados desciam contrastando com a gola da camiseta escura. O desenho bonito do queixo, cujos músculos pareciam tremer tão violentamente agora.
Ele me encarava. Um turbilhão de raiva e desejo enovelando-se nas íris azuladas
- Seu Ruivo estúpido! – ele sibilou rente aos meus labios. E antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, sua boca já estava sobre a minha, devorando-a.
Eu enrigeci. E o teria afastado se não fossem dois fatos. O primeiro era que ele me segurava com força e não me deixaria escapar. E o segundo era que...
Eu não queria me desvencilhar.
Eu sabia que dada a força dos meus sentimentos não conseguiria me controlar, mas era incapaz de me obrigar a afastá-lo.
Com a mão ainda espalmada em seu peito eu sentia cada tendão, cada músculo. Não podia ver, mas podia sentir... e como sentia! Sentia seu peso me pressionando contra a parede, a respiração pesada, o calor de seu corpo, o cheiro intoxicante da sua pele, o gosto enlouquecedor dos lábios. Entorpecido pelas sensações eu me colei ainda mais a ele, segurando sua nuca, e deixando que meus dedos se perdessem na cascata dourada que eram seus cabelos.
Uma parte minha me culpava por ser tão fraco. A outra, no entanto, revelava o puro desejo que sentia de ter o corpo dele contra o meu mais uma vez... A carícia furiosa das línguas... a sensação tentadora de seus dedos passeando pela minha pele. Meu corpo batia de encontro ao dele, vibrando, enquanto o beijo foi ficando mais intenso, e a seguir quase brutal.
Sua boca era quente, faminta, beirando o cruel. Eu sufoquei um gemido quando seus dedos encontraram um mamilo intumescido, depois o outro, provocando-os. O choque de calor enviando chamas internas de reação direto dentro de mim. Eu me sentia arder, e já começava a perceber aquele volume conhecido se formando abaixo da minha cintura...
E então tudo parou.
Ainda me segurando contra a parede, ele cessou com as carícias e afastou o rosto, tentando controlar a própria respiração.
- Por que você fugiu? – ele perguntou. Os olhos incrivelmente azuis de pupilas dilatadas, fixos nos meus
Trêmulo e ofegante demorou pra que eu entendesse do quê exatamente ele estava falando.
- Je... je l'ai dit (3) — eu gaguejei — ...Eu precisava de um tempo e...
- A verdade, Ruivo. – ele me interrompeu. – Eu quero a verdade. Viajei quase oito horas pra ouvir a verdade, e não vou sair daqui sem ela. Por que fugiu de mim?
Eu estava zonzo, como se tivesse acabado de virar uma gafarra inteira de Vodka.
Eu não podia dizer a verdade a ele. Não podia lhe contar sobre o que eu estava sentindo. Sobre o que percebera que sentia por ele. Era tão humilhante! Principalmente ali, prensado contra uma parede, desgrenhado, e excitado. Mon Dieu, a que estado eu fui chegar! Eu não tinha mais dignidade alguma. Fora a isso que ele me reduzira.
De repente eu senti raiva. Raiva dele por me deixar daquele jeito. Raiva por saber que ele podia, simplesmente por existir, ser a causa da minha fraqueza. Firmando as mãos em seus ombros eu o empurrei com força, me desvencilhando do seu abraço
- Porque não pode ser. – eu falei friamente, enquanto me afastava, ajeitando o roupão pra me recompor e tomava o cuidado de não olhar em seu rosto. – Você sabe que não pode ser.
Ele permaneceu parado, os ombros tensos. Em seguida, em três passos largos, estava diante de mim outra vez.
- Eu não aceito essa resposta. – ele disse. Sua mão segurando o meu queixo, me obrigando a olhar pra ele novamente. O desejo declarado em seus olhos me fazendo perder o fôlego outra vez.
Eu respirei fundo
- Está errado – eu falei, percebendo derrotado que nenhuma das razões que eu havia apresentado a ele até agora, ou das que poderia vir a apresentar, iriam satisfazê-lo. – Você não vê que está errado? Está tudo errado. Eu estou errado não importa o que você diga.
- E foi por isso – ele disse, contornando meu rosto com os dedos – que você fugiu de mim?
- Oui – eu concordei, sentindo outra vez as pontadas doloridas na cabeça somadas aquele aperto insuportável no peito. Eu olhei pra baixo. – Eu não poderia... não poderia suportar.
- Não poderia suportar deixar sua noiva pra estar comigo. Um libertino depravado. – Não era uma pergunta.
Eu olhei pra ele. Parecia haver certa tristeza em seus olhos agora, embora ele sorrisse enquanto delineava lentamente meus lábios com o polegar .
- Non, il n'est pas (4) – eu neguei, surpeendendo a mim mesmo — É só que... – eu tentava encontrar uma explicação, mas as pontadas na cabeça e o toque das mãos dele, sem mencionar a tristeza em seus olhos, estavam dificultando o meu raciocínio — eu estou noivo e vou me casar, e... e é horrível saber que se está noivo pra se casar com alguém e achar que poderia estar... apaixonado por outra pessoa.
Mal as palavras haviam saído da minha boca, e eu queria colocá-las pra dentro outra vez. Não dava pra acreditar que eu havia dito mesmo aquilo. Mas a expressão surpresa no rosto dele me alertava pra realidade de que eu dissera sim.
Eu havia falado. Admitira em voz alta, pela primeira vez, o que vinha pesando tanto em meus ombros. E a consiência disso era ao mesmo tempo chocante e libertadora. Era um medo selvagem e estranhamente agradável. Um tipo de expectativa dolorida por algo que eu não podia explicar.
E então deixou de ser agradável.
Porque Milo Scorpion sorriu, e uma mão gelada pareceu se fechar em volta do meu estômago. 'Ele estava rindo de mim', eu pensei. De repente eu me sentia patético. Muito mais do que quando me chamavam de 'Cenourinha Quatro Olhos' no colégio, ou quando eu era sempre o último a ser escolhido pros times nas aulas de ginástica. Muito mais do que quando tinha que me esconder no banheiro e almoçar sozinho no intervalo. Muito mais.
Eu tinha sido ingênuo. O que eu estava pensando? Que um cara como Milo Scorpion poderia mesmo estar interessado em mim? O nerd esquisito? Todos os que riram de mim ao longo dos anos estavam certos. Eu era mesmo digno de piada.
Só que ele não começou a rir. Pra minha surpresa seu sorriso não parecia de deboche. Em vez disso ele parecia estar... feliz? E o que era aquele calor em seus olhos? Como se tivessem sido agitados por alguma emoção que eu não sabia definir.
Ele limpou a garganta, se obrigando a ficar sério outra vez.
- Isso é mesmo muito estranho – ele falou então. Era impressão minha, ou ele parecia estar desconfortável? – porque eu também acho horrível você saber que uma pessoa irá se casar com outra, e achar que poderia estar... Não – ele se corrigiu – ...e eu sei que estou apaixonado por ela.
Meu queixo caiu.
De repente minha garganta tinha ficado seca, e eu me sentia incapaz de mover um único músculo.
Ali, parado, olhando pra ele — a respiração subitamente curta, os lábios entreabertos, o coração disparado -, eu tinha certeza de que devia ter entendido alguma coisa errada. Tinha que ter entendido. Eu não devia ter escutado direito, era isso. Só isso poderia explicar o sorriso nos lábios dele e a súbita comoção em seus olhos.
Dessa vez, quando a mão dele se moveu na minha direção, eu não pensei em recuar. Ou protestear. Nem conseguiria. Em vez disso fiquei completamente imóvel enquanto ele segurava meu queixo e sua boca se aproximava do meu ouvido.
- Eu amo você, seu Francês dissimulado – ele sussurrou antes de capturar meus lábios outra vez. E eu já não era mais capaz de pensar em nada.
Notas:
1 — Você está na França, não é?
2 — Você sabe porque.
3 — Eu... eu já disse
4 — Não, não é isso.
Notas finais
E antes de começar a comentar o ch eu queria me desculpar pela demora na resposta das reviews. É que como meu tempo anda meio curto eu optei por dividir o pouco tempo livre que tenho entre a criação dos chs e as respostas das review. Assim consigo que os chs saiam numa velocidade um pouco melhor pra vcs. Infelizmente às vezes (quase sempre) acontece de no meio do processo eu empolgar com o ch que estou escrevendo e não conseguir fazer outra coisa u.u. É sério, às vezes estou tomando banho e vem uma idéia e eu tenho vontade de parar o banho pra ir escrever de medo que ela se perca depois u.u . Enfim, espero que me perdoem, e que o tempo ganho na publicação de cada ch sirva como compensação pela demora nas respostas ^^.
Então, vamos aos comentários.
Antes de mais nada: Camus voltouuuu! o/ *grita* É, eu tb estava com saudade ^^. Mas acho que esses dias de solidão foram bons pra ele, não? Ele finalmente se deu conta da realidade. Até que enfim, né ruivo.
Aliás, alguém reparou que ele está patinando um pouco mais no francês? Misturando mais as linguas, eu digo. Eu achei que seria o normal depois de alguns dias na França ^^"
E Milo safado. Fazendo uso do poder que tem sobre o corpo do Francês pra arrancar a verdade dele. Eu tb quero uma sessão de interrogatório dessa com o Milo! hauhauhua.
E o que acharam do final? Vou admitir que foi uma parte bem difícil de ser escrita. Eu queria que soasse natural, mas ainda assim romântica. Que ficasse fofo, mas sem deturpar a personalidade deles. Que mostrasse os sentimentos envolvidos na cena, sem parecer novela mexicana. Resumindo: um desafio e tanto. Por isso queria muito mesmo saber o que acharam do resultado.^^ De qualquer forma, pra bem ou pra mal, finalmente eles esses dois cabeças duras se declararam, né? *feliz por isso* E o lemon esperado só no próximo ch =D
E é isso, gente, espero que tenham gostado de mais esse ch, muito, muito, muito obrigada a todos que acompanham e um agradecimento super especial as fofas que me mandaram reviews: Sashinha, stoking, ddd, Tomb_Raider, Kassiminha, PapillonBleu, Kamy Jaganshi, lihchan, Moni-d, e hinan, brigadão mais uma vez, meninas, de verdade, vcs sabem como a opinião de vcs é importante pra mim, né? ^^
Bjos
PS: Créditos devidos: à Meg Cabot
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