Aprendendo a Amar
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Aprendendo a Amar
Capítulo 18
Quatro dias com Vanessa.
Mississippi, novembro de 2015
Edward.
— Mas me diz aí, como é brincar de casinha?— A voz de Jasper vinha do alto falante do carro.
Ele me ligara querendo saber o que havia acontecido com essa história da Vanessa.
— É sério, Jasper. Não é uma brincadeira. – O repreendi, concentrado na estrada.
— Desculpe. Só que estou surpreso com tudo isso. Você e a Bella... e uma filha, cara!
— Ela caiu em nosso colo, ok? Não é como se tivéssemos a planejado ou algo do tipo. Confiaram em nós para sermos os guardiões dela. O que podíamos fazer? – Avistei o carro de Marcus Carone na entrada de uma bela casa. Uma dentre muitas desse bairro chique.
— Estou orgulhoso de você e Bella, Edward. De verdade. Desculpe minha falta de jeito, cara. – Falou num tom arrependido.
Quando Jasper e eu deixamos de ser melhores amigos?
— Você não fez nada errado. Eu só estou meio desesperado para ser bom para elas, entende? – Estacionei pegando o celular.
—Elas? Como assim? Você e a Bella estão... – Não o deixei completar seus pensamentos.
— Cem por cento amigos. – Bufei.
— Não sabia que você queria ser algo mais. – Sua voz soou debochada. Ah sim. Por isso Jasper e eu não éramos mais tão amigos.
Ele implicava com as garotas que eu saia e jogava na minha cara que eu ainda tinha sentimentos por sua irmã.
Não que eu negasse tais sentimentos, embora.
— E minha sobrinha? – Mudei de assunto.
— Quase chegando a hora de conhecê-la!— Seu tom orgulhoso me deixava feliz. Jasper era um homem diferente daquele que corria para o México atrás de uma filha de traficante. – Vocês virão para o natal, certo?
—Com toda a certeza. – Confirmei. Bella não teria planos diferentes. – Mande lembranças à Alice. – Falei me despedindo, quando vi Marcus caminhando em minha direção.
—Se cuida. E não faça nada de idiota.
Desliguei revirando os olhos.
— Senhor Cullen. – Marcus me estendeu a mão, sucinto como sempre.
— Apenas Edward, por favor.
— É difícil deixar as formalidades de lado. – Ele se desculpou. – E Vanessa, como está?
— Ela está apenas quatro dias conosco, mas parece tudo bem. Ela não fala dos pais. – Suspirei cansadamente.
— Isabella falou que ela disse para vender a casa e tudo. Nem mesmo suas roupas e brinquedos ela quer. – Falou.
—Isso. – Comentei olhando a grande casa.
—Vamos? – Me convidou a entrar.
Tive medo, confesso. Eu não sabia o que esperar. Teriam eles colocado lençóis brancos para tampar os móveis?
Não. Não havia completado nem um mês desde a morte deles.
A casa continuava intacta.
Você apenas diria que seus moradores haviam saído para trabalhar. Casacos num suporte atrás da porta, um par de sandálias de menina nos pés da escada. Na parede havia uma profusão de fotos de Vanessa bebê, sorrindo com o rosto cheio de comida, no colo de Eleazar na praia, junto de Carmen num zoológico.
Aquelas fotos me trouxeram um nó na garganta.
— Você e Isabella irão vender a casa? – Marcus perguntou enquanto adentrávamos.
—Não. A casa é de Vanessa, herança dela, e até que tenha idade para saber com certeza sobre o que quer... Não faremos nada. Pensamos em alugar a casa e guardar todos os bens num deposito. O que você acha?
—Uma ótima ideia. Assim a casa não fica entregue as ações do tempo, e caso um dia Vanessa queria algo que pertenceu aos pais... – Ele não concluiu. Percebi que falar dos amigos mortos o afetava mais do que deixava transparecer.
Me dirigi a sala de estar, Bella havia dito que a foto que Vanessa queria estava ali, e como fiquei surpreso ao ver que a foto em questão era a que tiramos com Carmen e Eleazar em nossa formatura. Ali sua barriga de grávida já dava pequenos sinais.
Peguei a foto, apreciando-a com a nostalgia do momento.
Marcus ficou me esperando na entrada e me indicou o quarto de Vanessa no segundo andar. Tudo ali gritava ‘’quarto de menina’’ pôsteres do Justin Bieber, One Direction e Ariana Grande. Bonecas da barbie, Monster High e ursinhos de pelúcia estavam por todos os lugares.
Fiquei surpreso ao ver as paredes pintadas de um lilás e não rosa. Havia um pôster do System Of A Down também. A garota tem gosto bem eclético.
Sorri com esse pensamento.
Na cabeceira da sua cama, achei a outra foto. Ela parecia um pouquinho mais nova, o rosto um pouco mais redondo. Poderia ser do ano passado. Era uma selfie tirada de perto, ela e os pais sorriam para a câmera.
Senti-me enjoado de repente. Aquela Vanessa sorridente que estava na foto eu não conhecia. Por mais que ela sorrisse agora... não tinha a mesma nota de alegria daquela fotografia.
Sentei em sua cama, pegando o celular para mandar uma mensagem para Esme.
‘’Oi, mãe. Desculpe não ter te ligado, ok? As coisas por aqui ainda estão se resolvendo. Só quero que saiba que eu te amo. E não fique preocupada, eu estou bem. Beijos.’’
— Pegou tudo de que precisa? – Marcus perguntou olhando a mochila que trouxe. Vi suas coisas da escola na cadeira do quarto e achei melhor pegar. Talvez uma hora ela quisesse voltar à escola.
— Sim. – Respondi me levantando.
— Quando ela voltará à escola?
— Ainda não falamos sobre isso. É muito cedo. Há muita coisa acontecendo na cabecinha dela.
— Mesmo que vocês decidam sair da cidade com ela, saiba que a herança dela pode arcar com todas as despesas de estudo.
— Não precisa disso. Trabalho e posso pagar pela educação dela. – Respondi taciturno.
—Não será preciso... – O cortei.
— Eu insisto. Quando ela for maior e bem instruída, irá decidir o que fazer com os próprios bens. Até lá, Bella e eu cuidaremos de tudo. E você estará por perto para garantir isso.
Não discutimos mais o assunto. Bella e eu já havíamos conversado sobre isso. Iremos cuidar de Vanessa com o nosso dinheiro e quando ela crescesse, decidiria o que fazer com o que seus pais haviam deixado.
(***)
Logo que deixei Marcus, liguei para Dra. Senna a comunicando que estava indo em seu consultório no centro. Ela não ficou surpresa com a minha ligação.
— Imaginei que viria logo. – Me recebeu impassível.
— Faz quatro dias desde a última vez em que nos vimos.
— Vi o senhor há dois dias.
— Mas eu não desci do carro. – Falei sentando no lugar em que ela me indicou.
— O que precisa, Sr. Cullen?
— Você deve saber. O que aquele garoto fez com Vanessa? – Questionei sem rodeios.
Ela retirou os óculos de leitura e cruzou as mãos em cima da mesa.
— Sr. Cullen, eu realmente não sei se ele fez algo.
— Onde ele está?
—Receio que o garoto tenha sumido. – Falou tensa.
—Como?! — Praticamente gritei.
—Não acho que James tenha infringido violência sexual contra alguém. Entenda, ele é um menino... difícil. Passou por muitas coisas ruins na vida. Às vezes ele some por um tempo, depois volta. Ou a policia o acha por furto. Ele é apenas... confuso.
— Eu vou acabar com a confusão dele. — Falei me levantando.
—Se Vanessa sofreu alguma violência vinda dele, ela irá me dizer.
—Quando? Quando esse cretino estiver longe do meu alcance? Obrigado doutora, mas faça seu trabalho que eu faço o meu. – Sai em disparada.
—Sr. Cullen! – Deixei a mulher me chamando. Eu iria encontrar esse pirralho e lidar com ele do meu jeito. Peguei o telefone discando um número que há muito não entrava em contado.
— Raoul? – Perguntei assim que ele atendeu.
— Edward Cullen! Eu estava mesmo precisando falar com você.
— Que coincidência.
— Sim. Cara, minha irmã foi presa. Menina boa, mas eu estava guardando umas coisas na casa dela. – Exclamou chateado.
— Ela tem a ficha limpa? – Questionei.
—Sim! Ela acaba de entrar na faculdade, cara. Eu não quero que ela se ferre por minha causa.
—Vou acionar uns contatos e no Natal ela estará em casa. Não se preocupe, cara.
—Você é ótimo! E Jasper? Ainda no FBI? – Raoul era um primo de Maria.
—Sim. Evite contato com ele. – O lembrei.
—Pode ter certeza. O que posso fazer por você?
—Preciso que encontre alguém.
(***)
Fim de semana atual.
— Achei que você e Bella fossem namorados. – Vanessa disse antes de ir para cama naquela noite. Eu estava no banheiro com ela escovando os dentes. Bella estava na sala com o Black.
— Nós fomos, há muitos anos. – Respondi suavemente.
— Quando tiraram as fotos com os meus pais? – Perguntou perspicaz.
— Terminamos naquele dia. – Sorri tristemente.
— Por quê?
Passei a mão nos seus cabelos compridos que me lembravam de mais os Bella do que os de sua própria mãe.
— Coisas de gente grande. Era o melhor naquele momento.
— E agora? – Perguntou novamente, me olhando curiosa.
— Agora tem aquele cara lá. – Fiz uma careta ao responder.
— Ela gosta de você. – Ela disse com certeza.
— Acha isso?
— Sim. Ela te olha com cara de boba. – Riu.
— De boba? – Questionei rindo também.
— E você também fica com cara de bobo!
—Ah, então eu sou bobo? Vou te mostrar que é bobo aqui! – A peguei pela cintura fazendo-lhe cocegas e ela riu. Joguei-a nos ombros e ela gargalhou.
Eu amava isso. Sua risada e alegria deixavam-me alegre também.
— Nossa! Estão se divertindo e não me chamaram! – Bella chegou reclamando.
—Você estava namorando. –Vanessa queixou-se fazendo careta.
—Ah... eu não estava namorando! – Bella fingiu estar chateada. Boa Bella, mas eu vi você beijar o cara.
—Estava sim. – Toddy latiu dando confirmação a declaração de Vanessa. Rimos.
—Vai dormir com Jacob? – Perguntei sentando-me na cama e Vanessa se aconchegou em meus braços.
—Não! Quer dizer... Disse que ele podia dormir no quarto. – Respondeu embaraçada.
—E eu vou dormir aonde?! – Levantei uma sobrancelha em sua direção, sem deixar de fazer cafuné nos cabelos de Vanessa.
—Aqui? – Ela disse incerta depois percebeu o que havia sugerido. – Eu vou dormir com ele. – Concluiu – Vão ficar bem?
—Sim. – Nessie e eu dissemos juntos.
—Nada de ficar com a TV ligada até tarde. – Avisou.
—Sim mamãe. Até amanhã. – A expulsei de lá antes que tivesse tempo de ficar imaginando a noite dela com o Black.
Naquela noite Vanessa apenas resmungou em seu sono, e eu estava ali passando segurança para ela.
(***)
Na manhã de domingo encontrei o casal, desnecessário, na cozinha. Black dava pedacinhos de maçã na boca dela. Eu quis vomitar.
—Bom dia, Edward. Eu fiz o café da manhã para todos. – Jacob disse.
—Bom dia. –Ignorei a mesa bonita e peguei a caixa de leite na geladeira e um copo no bancada.
— Não estou com fome. – Resmunguei. Bella me olhou feio. – Mas Vanessa estará. – Completei tentando ser mais cordial.
—Estou acordado desde as cinco da manhã – Black parecia imune a climas tensos. Continuou a falar como se Bella não estivesse me olhando feio e eu retribuindo seu olhar. – Já corri oito quilômetros, fiz alguns exercícios, e tive tempo de fazer o café para vocês.
—Tudo isso num domingo? Você é demais, Jacob. – Debochei. Era ineviável.
— Edward. – Bella sublinhou.
A olhei inocente.
—É o costume. E Bella não me deu sossego ontem. – Continuou falando.
— Jacob! – Ela ficou vermelha.
Vou vomitar.
— Eu vou correr. – Anunciei querendo sair dali o mais rápido possível.
— Há essa hora? – Black parecia surpreso.
— Pessoas normais fazem atividades durante todo o domingo.
— Tudo bem. – Jacob bebeu seu shake.
Sai da cozinha em direção a saída.
— Perguntei a Vanessa se ela quer voltar á escola. Ela não me deu uma resposta direta, mas acho que seria bom. O que você acha? – Bella me interceptou na porta. Usava uma camisola preta de seda. Ela não havia usado nada assim durante todos esses dias. Desviei os olhos das suas pernas e me foquei em seu rosto.
—Seria bom. Ela quer ir? – Perguntei tentando parecer distraído.
—Ela tem que voltar, Edward. Precisa fazer as provas antes dos feriados. Ela não é exatamente contra. – Pontuou cruzando os braços sobre os seios.
—Então tudo bem. – Respondi virando-me para abrir a porta, mas Bella segurou meu braço.
— Edward... – Parecia lutar com alguma questão interna. Eu não iria ajudá-la dessa vez.
—Preciso ir. – Falei livrando-me do seu aperto.
—Está bravo comigo? – Sussurrou infeliz.
Não, Swan... não faça essa cara. Você é mais forte que isso.
— Não tenho porquê estar, Bella. Ele é seu namorado. – Minha resposta fora mais grossa do que pretendia.
Ela pareceu endurecer com o que eu disse. Recolheu a mão cruzando novamente sobre os seios, os fazendo ficaram mais fartos. Engoli em seco, mas não consegui desviar o olhar.
— Noivo.— Falou a palavra firme.
Esse jogo é mesmo para dois, não é?
—Noivo. – Repeti sorrindo. –Raoul encontrou James. – Mudei de assunto.
—Raoul? Foi dele que você falou quando disse que estava cuidando de James?
—Sim. Dei as características e Raoul o encontrou. É esse? – Mostrei para ela a foto no meu celular.
— Sim. – Sussurrou.
— Então eu tenho que ir. – Sai fechando a porta.
— Edward! – Ela me alcançou na porta do elevador.
— Bella, volte para seu noivo. – Bufei, apertando inúmeras vezes a porcaria do botão, mas o elevador não chegava nunca.
—O que vai fazer com ele? – Perguntou amedrontada.
— Descobrir o que ele fez com ela. – Respondi sem olhá-la.
— E depois? Ligar para polícia?
— Bella, Raoul não gosta da polícia.
— Você é advogado! Nem sabemos o que ele fez! – Disse alterada.
— Eu sei que alguma coisa nada boa ele fez! – Falei entre dentes, virando-me para ela, fazendo nossos rostos ficarem apenas centímetros um do outro. – Pergunte para ela.
—Bella? – Jacob apareceu à porta, fazendo que nós dois nos virasse em direção a sua voz.
Virei meu rosto em sua direção mais uma vez.
—Volta para ele. – Falei me virando, decidindo ir pelas as escadas.
(***)
— Que bom que chegou, Edward. Esse garoto comeu todos os pacotes de batatinhas da casa. – Raoul reclamou.
— Não deveria ter deixado. – Respondi dando de ombros.
— Eu achei que era para trata-lo bem. – Falou confuso.
— O que o fez pensar isso? – Perguntei parando em sua frente.
— Você... é um cara legal. Ele estava com fome e... esquece. Ele é todo seu. – Raoul saiu do quarto fazendo sinal para seus amigos o acompanhar.
— O que quer comigo, cara? – O garoto, James, tinha cabelos castanho-claro, olhos cor de mel.
Puxei uma cadeira sentando a sua frente.
— Nós vamos ter uma longa conversa, cara.
(***)
— Se quiser ir pra casa é só ligar que Edward e eu viremos te buscar. – Bella disse de novo na frente da escola.
—OK. – Vanessa disse. Estava meio cabisbaixa hoje, creio que por voltar à escola.
Odiava vê-la desta forma.
— Será legal ver seus amigos, né? – Jacob riu.
Oh, por favor Bella, cale a boca dele.
Vanessa deu de ombros. A entreguei uma bolsinha menor com seu lanche, abaixando-me para ficar do seu tamanho.
—Boa sorte. – Sussurrei dando um beijo em seus cabelos, e ela sorriu de verdade. Bella deu um beijo e sua bochecha e ela se foi.
Logo algumas garotinhas a cercou e elas entraram.
Bella suspirou pesado.
— O que acham de ficarmos aqui até ela sair? – Apesar do tom de brincadeira, eu sabia que ela falava sério.
Black riu passando um braço por seu ombro.
—Você será uma mamãe urso, hein! – Riu novamente. Esse cara tinha algum problema na boca? – Imagino quando finalmente tivermos filhos.
Bella pareceu incomodada com o comentário. Lá estava a ruguinha entre as sobrancelhas.
— Você sabe, Jacob, agora Vanessa é filha de Bella. – Comentei casualmente.
Ele deu de ombro despreocupado.
— Não de verdade. – Constatou como se fosse óbvio.
Ela se afastou dele.
— Vanessa é minha responsabilidade. E nunca diga que ela não é minha filha, eu sei bem disso. – Falou irritada, saindo na nossa frente.
— Nossa, será que ela está de TPM? – Ele me perguntou parecendo confuso.
— Não é preciso estar de TPM para responder agressivamente um comentário idiota. – Bufei seguindo Bella pela calçada.
A Swan insistiu para dirigir até o aeroporto.
Jacob olhou bem para sua fisionomia e entrou na parte de trás do carro. Fiquei surpreso com sua atitude, mas me calei adentrando no banco do carona.
Fomos todo o caminho num silencio pétreo, Bella mantendo toda atenção na estrada.
Era isso que ela fazia quando estava chateada. Ignorava-te na sua cara.
Jacob parecia triste e fiquei um pouco compadecido com ele, afinal ele havia viajado milhares de quilômetros só para estar com ela.
Quando chegamos ao aeroporto ela não deu sinais de que desceria do carro, e ele igualmente permaneceu parado.
— Vou pegar sua mochila no porta malas. – Falei saindo do carro. Fiquei parado do lado de fora com a mochila dele em mãos dando tempo a eles.
Quando finalmente saíram, se abraçaram rapidamente e Bella seguiu com ele para dentro do aeroporto.
Eu não poderia julgar o tipo de relacionamento deles, poderia? Até alguns dias atrás eu evitava pensar em Bella!
Ela tinha um cara legal agora, um que gostava dela – não mais do que eu, obviamente –, e eu deveria aceitar e superar isso, afinal tínhamos Vanessa em comum e sermos bons para ela era nossa prioridade.
Quando ela voltou parecia mais triste, se possível. Entrou no banco do passageiro e não colocou o cinto.
— Para casa? – Perguntei indeciso.
— Ainda não. – Foi tudo o que respondeu. Fiquei parado lá, esperando que ela dissesse como agir.
— Por que você nunca voltou?
— Como?
— Nunca foi a Washington me ver. Nunca me convidou para ir à nova York. Por quê? – Ela olhava para as mãos enquanto falava.
— Achei que tivéssemos concordado que deveríamos viver sem esperar um ao outro. – Falei evitando olhar seu rosto.
— Éramos amigos, porra! – Se enfureceu, olhando-me com raiva – Nos falávamos todos os dias naqueles primeiros meses, e depois ainda nos falamos durante os anos que se seguiram...
— O que mudou? – Eu perguntei em tom acusador. A culpa não apenas era minha! Ela não me contou que tinha começado um namoro.
— Você! Você mudou! Evitou ir à casa dos seus pais por cinco anos! Só por que EU estaria lá! E depois parou de responder minhas mensagens. Por que, Edward? Com quem você passou o ano novo de 2009?
— Não seria 2010? – Sussurrei.
— Era 31 de dezembro de 2009. – Ela falou entre dentes olhando pela janela. Suas bochechas endurecidas pela raiva.
— Seria no dia seguinte, dia 1 de janeiro de 2010. – Lembrei.
— Vamos continuar discutindo semânticas ou você irá me responder? – Bufou.
Ela virou o rosto para mim. Os olhos marejados. Eu tinha visto Bella chorar mais nesses últimos dias do que em toda nossa vida.
Era hora.
— Eu fui te encontrar em Washington. – Soltei de uma vez.
— Não entendo... – A ruga entre suas sobrancelhas demonstrava sua confusão.
— Eu cheguei cedo, queria te fazer uma surpresa. E... – Não completei.
— Jacob estava lá. – Ela entendeu. Eu apenas assenti – por que não me chamou?!
— O cara estava lá, todo sem camisa! Disse que era seu namorado! O que você queria que eu fizesse?
— Que tivesse entrando e esperasse eu acordar? Você não tinha o direito de agir assim! Como um namorado traído!
—Eu me senti traído! Você não disse que estava namorando!
—Por que eu não estava! – Ela gritou. Notei duas mulheres passando na frente do nosso carro nos encarando. Deviam se perguntar se Bella corria algum perigo ali dentro.
—Jacob disse que era seu namorado. – Tentei acalmar meu tom.
—Você deveria ter entrado e me esperado. Ele não era meu namorado, só estávamos saindo, assim como você e suas inúmeras amigas. – Ela bufou.
Eu me senti meio tolo. Óbvio que ele não era namorado dela. Ela teria me dito isso, mas Bella não podia me condenar por minhas ações. Naquele momento eu não estava pensando nada, além do fato de tê-la perdido.
Mais um silêncio caiu sobre nós, até que eu desisti e resolvi seguir para casa.
Bella não namorava Jacob naquela época, ele que se precipitou em usar o termo. E eu simplesmente sumi do mapa, achando que ela havia seguido em frente.
E o que Isabella havia feito?
Ela não queria estar comigo logo depois da formatura. Todo o assunto sobre o aborto de Tanya foi só um estopim para que ela fizesse o que queria: seguir sem mim.
Ela não me quis primeiro.
Lembranças do dia da formatura tomaram minha mente.
—Eu procurei Tanya. – Comecei.
—Eu sei, Jane me contou tudo. Acho que... eu a estava usando como desculpa.
—Por que você acha que nosso namoro não daria certo a distancia. Eu sei. Eu percebi. E quer saber? Você tem razão.
—Edward...
—Não, Bella. Eu sempre fui dependente de um relacionamento; namorei garotas e mais garotas, até que encontrei você. A que eu realmente estive procurando todo esse tempo. E agora eu vejo... Preciso passar um tempo sozinho. Vamos estar focados demais nas nossas carreiras para focarmos em relacionamento. Então, apesar de ter feito de maneira errada, você me fez um favor em terminar. Mas isso aqui... – Eu tirei o anel do bolso, por de baixo da beca.
—Edward...
—Ele é seu. Eu ganhei para você.
—Não posso aceitar. – Ela sussurrou, os olhos ficando marejados.
—Pode e deve. – Puxei sua mão e o coloquei em seu dedo anelar direito.
—Fica mesmo bonito aqui. – Ela sussurrou. Eu ri e beijei sua testa com carinho. Se assim tivesse que ser... Um dia seríamos um do outro.
Ela quis assim. Se queria reatar poderia ter me dito, tínhamos espaço para isso, certo? Mas ela preferiu se ressentir de mim.
Não... eu não iria levar a culpa nisso sozinho.
Quando adentramos no apartamento, fomos recebidos por um Toddy feliz, contrariando o nosso humor sombrio.
Bella seguiu para cozinha, eu apostava que para fazer o almoço, já que ela havia desenvolvido a habilidade – segundo Jane – de cozinhar quando estava chateada.
Eu fui para o quarto seguido por Toddy, para trabalhar num caso. Fiquei o resto da manhã ali, saindo apenas quando já era hora de pegar Vanessa na escola.
— Posso ir sozinha. – Bella disse já com as chaves do carro na mão.
— Quero ir, se não se importar. – Falei decidido. Ela deu de ombros. Se eu permitisse esse gelo se seguiria por dias. Ou meses.
— Bella...
— Não vamos mais discutir sobre isso. Você viu algo que não gostou, se precipitou e anos se passaram. Eu só precisava saber Edward... O porquê de você ter desistido de nós.
— Eu não... – Ela levantou um dedo me impedindo de continuar a falar. Respirou fundo e prosseguiu.
— Você estava equivocado na época, porém agora faz sentido o “seguir em frente’’. Eu segui em frente. O que tivemos foi lindo, e eu sempre terei a lembrança em meu coração, mas se foi. Acabou. Agora o que nos uni é Vanessa, e eu realmente te amo como amigo. E só. Não tocarei mais nesse assunto do passado.
Eu só fiquei lá, olhando para ela. Meu coração batia rápido e qualquer palavra que passasse pela minha cabeça para faze-la parar, eu não podia organizar e pronunciar.
Agora eu estava me ressentindo dela, pelo seu sentimento egoísta.
Aquilo borbulhou dentro de mim. Não, não era hora de brigar com Bella por coisas do passado. Ela que “seguisse em frente’’ como achasse melhor.
— E você fique sabendo que... James não será mais um problema. – Foi o que consegui dizer. Ela me olhou alarmada.
— James?! O que...
— Ele está morto. – Declarei.
— O que você...
— Eu nada. Dei uma dura nele, ele disse que apenas gosta de observar meninas. E se masturbar. Jurou que não encostou em Vanessa, só a ameaçou para que não contasse nada a ninguém. – Confessei com raiva.
— O que ele fez?!
— Segundo o que me relatou... – Senti minha mandíbula trincar com a lembrança do garoto. Todo meu drama com Bella estavam esquecidos por hora. – Ele sempre ficava no banheiro observando as meninas mais novas. Mas Vanessa o notou e o flagrou a observando e... Se masturbando enquanto estava no banho.
— Aquele... nojento! – Bella pôs a mão na boca com horror. Controlei minha vontade de abraçá-la.
Ela não te pertence, Edward.
— Ele jurou que não era nada demais, e apenas a ameaçou para que não contasse a ninguém, pois isso o colocaria em problemas. Eu o soquei algumas vezes, depois pedi que Raoul se livrasse dele.
— Raoul o matou?! – Perguntou chocada.
— Não. O cretino fez isso sozinho. Raoul apenas o deixou em uma rua deserta depois da surra que ele levou, mas o menino não era coisa boa mesmo. Viciado em heroína.
— Overdose? – Sussurrou.
— Sim. – Confirmei balançando a cabeça.
Ela respirou fundo.
— Bom, não podemos fazer mais nada sobre ele.
— Vai ser direta com Vanessa?
— Ela tem que se abrir, Edward. E acho que sei como trazer o assunto a tona.
—Bom. – Bom. Foi tudo o que disse.
Era bom que o garoto tenha dado fim a própria vida, pois se não eu mesmo acabaria o fazendo.
Era bom que Jacob estivesse num voo para Washington ou eu iria confortá-lo por mentir para mim e destruir minha felicidade.
Era bom que estivesse em cima da hora de Vanessa sair da escola, ou eu começaria a falar besteiras para Bella.
Era bom que tivéssemos alguns dias ainda antes do juiz nos dar a guarda de Vanessa.
Bom.
Essa pequena palavra nunca teve tanto significado.
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