Aprendemos a viver sem vocês
9 Tenho Que Superar - Lucy Heartfilia - Especial Parte 1
Notas iniciais
Lucy despertou de seu sono ao ouvir a porta de sua casa ser aberta com brutalidade, porém fingiu não ligar e voltou a fechar os olhos, tentando se refugiar em seus sonhos para não ter de encarar a realidade, mas seu “marido” tinha outros planos para ela naquele dia.
– Lucy – Gajeel chamou da cozinha do apartamento, esperando ouvir uma resposta da mulher, porém, como já vinha acontecendo há meses, ele recebeu apenas o silencio em resposta. Andou em direção ao quarto e não tardou a encontrar a esposa lá, encolhida dentro das cobertas, tentando esconder as olheiras nos olhos e fingindo dormir.
Mas o homem a conhecia bem o suficiente para saber que ela não dormia direito há dois meses, e que o tempo em que ficava acordada passava se martirizando por coisas que não eram sua culpa. Por uns instantes Gajeel ignorou a mulher e foi em direção ao novo cômodo do apartamento, onde se encontravam dois berços, um era adornado por enfeites vermelhos, enquanto o outro tinha cores mais neutras.
O moreno andou em direção ao berço de cores neutras e lá pegou seu filho adormecido no colo, balançou os braços para mantê-lo em seu sono, enquanto admirava o pequeno menino. Os cabelos finalmente começavam a crescer, e Gajeel viu que o garotinho teria cabelos tão negros quanto os seus. Depois de muito paparicar o filho o colocou no berço e se encaminhou para o outro.
Ficou apenas escorado no bercinho enquanto mirava o bebe de pouco mais de três meses com um olhar sério – O que vai ser de você em garotinho? – perguntou baixo para ninguém em particular, afinal de contas, o bebe não entenderia o que estava se passando – Seu pai está morto e sua mãe está ficando louca, você tem sorte de ainda me ter por perto – falou Gajeel para ele enquanto passava a mão em sua cabeça.
Ele voltou para o quarto anterior e caminhou decidido em direção à cama, puxou com força a coberta arrancando a mesma das mãos fracas da mulher, que não ousou protestar. Gajeel não se espantou ao ver o corpo da mulher escondido apenas por uma camisa sua. Lucy estava muito mais magra que outrora, porém não era algo bom no caso da mesma, já que qualquer um podia ver suas costelas e também a quão fraca a maga se encontrava.
Ele respirou fundo e fechou os olhos, sabia que ela não estava comendo as refeições que ele trazia, mas aquilo já era demais, não podia deixar que a colega de guilda se encontrasse em tais circunstancias, matando a si mesma dolorosamente. Ele passou a mão nos longos cabelos enquanto pensava no que fazer, pode perceber que ela ainda fingia dormir, o que o irritou mais ainda, nunca tivera muita paciência para isso.
Caminhou em direção ao banheiro e ligou a torneira, deixou que a banheira enchesse um pouco e então seguiu mais uma vez em direção do quarto. Gajeel pegou a loira com ambos os braços, sentindo o quanto ela ficara mais leva nos últimos tempos, e percebeu que se Happy estivesse ali, ele choraria rios de lágrimas por ver a amiga em tal estado. Caminhou apressado em direção ao banheiro e quando chegou lá jogou a mulher com tudo dentro da banheira, venda a mesma se assustar com a agua gelada.
O grito da mesma ecoou pelo apartamento, e o mais velho não duvidava que tivesse acordado os filhos, porém no momento não se importou – Tire as roupas – mandou o homem, e viu que ela não demorou a obedecer. Já não se importava em ver a mulher completamente despida, há dois meses há via de tal forma todas as noites, quando chegava de uma missão e tinha de lhe dar banho, pois seu estado era tão lastimável que nem mesmo isso ela conseguia fazer.
Logo ensaboou a buchinha e começou a passar pelo corpo magro, sentindo o quanto aqueles meses fez mal para sua colega. Sim, colega. Eles nunca tiveram uma conversa decente em suas vidas, e mesmo que fossem da mesma guilda jamais haviam saído em missões juntos. Passaram vários momentos juntos, mas sempre com todos por perto, e ele sabia que aquilo não era o suficiente para se disser de amizade. E infelizmente para a loira, de todas as pessoas que ainda se mantinham na guilda apenas uma era realmente sua amiga.
Ele balançou a cabeça e voltou a limpar os braços da loira, tentando ser o mais delicado possível, mas isso jamais fora de seu feitio. Depois de o corpo estar completamente limpo, incluindo as partes que ele não tinha prazer algum em limpar, ele passou para os cabelos louros, que já não possuíam tanto brilho quanto antes, digamos que Gajeel nunca fora bom com cabelos, e o seu era a prova viva disso.
Antes que terminasse ouviu a mulher sussurrar o nome de Natsu, e logo a ouviu soluçar em seu choro silencioso. Isso já era tão normal para Gajeel que ele nem se importou, claro que lhe doía o coração ver a melhor amiga da mulher que amava em um estado tão terrível. Pegou ela no colo sem se importar com as roupas sendo molhadas e depois a segurou abaixo do chuveiro, ligou o mesmo e tirou todo o sabão da mulher, que mal aguentava ficar parada sozinha.
E quando, finalmente, ele acabou o processo e a levou até o quarto, sentou a na cama e a secou, e depois foi procurar uma roupa para ela, porém desta vez não escolheu uma camiseta sua por ser mais fácil de colocar, mas sim uma roupa própria dela. Saia e uma camiseta leve, e por ultimo andou em direção a sua mochila e tirou algo de lá, enrolou no pescoço da mulher o deixando levemente solto.
– Parece que Happy esqueceu-se de te entregar – falou o homem enquanto mirava o cachecol do velho companheiro – Natsu deixou para que você cuidasse dele enquanto o mesmo ficar fora – ele notou que o cachecol fez uma tremenda mudança no comportamento da garota. Ela segurou firme no mesmo e o puxou até seu nariz, onde pode sentir o doce cheiro do homem que amava e sorriu.
– Natsu – Lucy disse em resposta e apertou o cachecol com força contra seu peito, o que arrancou uma leve risada do homem a sua frente. Gajeel se levantou e também foi tomar um banho, e depois do mesmo voltou para a loira e a pega no colo mais uma vez, loira esta que ainda apreciava o cachecol. Levou Lucy até a mesa e a colocou sentada enquanto preparava algo para comer.
Gajeel nunca fora bom na cozinha, e por isso sempre que podia comia na guilda ou comprava algo, porém agora tinha que criar dois bebês e uma mulher com as mesmas ações que um, ele não podia se dar ao luxo de simplesmente comprar porcarias, e isso o fazia ter de aprender o máximo que podia.
Serviu o prato da mulher e se sentou ao seu lado. Pegou o garfo da mulher logo levou um pouco de comida para a boca da loira, fazendo ele se sentir um completo idiota, pelo amor de deus, nem isso a jovem conseguia fazer sozinha, aquilo era a mesma coisa que cuidar de um bebê que aprende a viver. Mas era necessário, caso contrário ela jogaria tudo fora e não comeria nada.
Depois de finalmente se sentir satisfeito com a quantidade de comida que a amiga tinha ingerido foi para outro lugar e começou a comer a sua parte da janta, que era duas vezes maior que a da mulher, e, enquanto comia, ele começou a falar – Eu conversei com Laxus e o Mestre, eles decidiram fazer uma missão em grupo – disse o homem com a boca cheia – Vamos eu, você, Lisanna, Wendy e Laxus – disse ele enquanto via a surpresa no rosto da outra. Bom, pelo menos ela ainda conseguia ter sentimentos – Os exceeds também vão, será bom para todos.
O silêncio se apoderou do lugar, sendo apenas quebrado pelo barulho dos talheres sendo largados na mesa – Eu não vou – disse a loira tentando ser convincente, porém seu estado era tão deplorável que nem isso conseguia, parecia apenas um sussurro de uma criança manhosa, o que fez Gajeel rir.
– Lucy, você não tem direito a escolha – falou Gajeel severamente, parecia mais o pai da mulher do que seu marido – Nós vamos sair em alguns minutos, então é melhor você dar um jeito de andar sozinha, comer sozinha e, pelo amor de deus, tomar banho sozinha – disse Gajeel enquanto suspirava – Os bebês vão ficar com o Gildarts, não precisa se preocupar.
– Eu não pedi que fizesse todas essas coisas por mim – Lucy falou enquanto tentava se levantar e ir em direção do seu quarto – Você está fazendo isso por vontade própria.
– Você pediu – o homem falou enquanto ria da cena que se desenrolava e ia para o quarto na frente da mulher, que a muito custo andava pelo apartamento – Com os olhos você me pediu socorro, e eu acatei – falou Gajeel enquanto se sentava na cama e via a mulher fazer o mesmo depois de algum tempo, o qual ela passou com dificuldade tentando chegar ao local – Olha Lucy, vamos ser realistas, você tem que seguir em frente, o Natsu morreu – palavras duras em relação à mulher, porém não mudou sua expressão fria ao ver os olhos marejados da companheira – Você tem um filho para criar.
Lucy engoliu as lágrimas na hora, essa era a primeira vez que alguém jogava isso em sua cara, e só talvez fosse disso que ela estava precisando. Assentiu com a cabeça e olhou para o homem com cuidado. Percebeu que Gajeel tinha olheiras e uma expressão dura no rosto, parecia não aguentar o que estava acontecendo.
Então a loira começou a sentir tudo que o colega vinha passando durante os últimos dois meses. Os olhos vermelhos do homem revelavam seu estado terrível, e mesmo que ele tentasse esconder de todos e até de si mesmo, não pode esconder tudo enquanto mirava os olhos castanhos da loirinha a sua frente.
Medo, desespero, angústia, raiva e remorso. Sentimentos tão bem escondidos dentro do coração de ferro daquele homem, que mal conseguia aguentar a dor em sua alma. Ele havia perdido o rumo de sua vida ao descobrir que já não possui a companhia de sua pequena baixinha, porém se mantinha o mais forte possível para ajudar aqueles que não eram tão fortes quanto ele, aqueles que não viam um futuro pelo qual lutar.
– Gomen’nasai – a voz de Lucy ecoou pelo quarto e fez com que o homem arregala se os olhos – Gomen’nasai – ela sussurrou mais uma vez em direção do homem enquanto forçava suas lagrimas a não caírem – Só peço que aguente mais um pouco – ela disse enquanto fechava os olhos e procurava encontrar forças – Eu prometo pra você – ela disse enquanto voltava a abrir os olhos e tocava o rosto do homem a sua frente com sua mão direita – Eu vou voltar ao normal, só preciso de mais um pouco de tempo.
– Está bem – falou ele com a voz baixa, enquanto mirava os olhos castanhos completamente arrependidos. Ele forçou duas tosses que bastaram para separar a troca de olhares de ambos, juntos se levantaram com uma mão atrás da cabeça, como se nada tivesse acontecido.
Lucy respirou fundo mais uma vez e tentou forçar seus pés á andarem, porém estava acostumada a não sair de sua cama por meses, as primeiras horas seriam complicadas para a mulher. Um de seus pés bateu no outro a fazendo tropeçar e cair em direção ao chão, porém seu corpo foi amparado por dois braços fortes que a seguraram firmemente para que não caísse.
– Vá com calma – advertiu Gajeel – Ainda não está acostumada a andar, é melhor que por enquanto ande o mais devagar possível, quando se sentir mais segura poderá andar normalmente – garantiu o homem de cabelos negros, enquanto a puxava para cima e logo em seguida a soltava.
– Obrigado – Lucy falou corada enquanto virava o rosto na direção contraria ao do homem. Viu que ele também ficara sem jeito com a forma que se tratavam, mas nenhum dos dois ousou comentar nada.
– Imagina – falou ele um pouco encabulado enquanto passava a mão pelos cabelos – Isso não foi nada – ele disse enquanto procurava um ponto qualquer para fixar os olhos, qualquer ponto, menos à loira que se encontrava ao seu lado. Porém foi surpreendido pelos braços finos da mulher enlaçando seu corpo por trás enquanto lhe dava um abraço fraco. O homem sentiu seu coração gelar ao sentir as quentes lágrimas da colega cair em sua camiseta.
– Não Gajeel, você não entendeu – ela disse com a voz embargada em seu choro mudo – Obrigado – ela disse mais uma vez, deixando o homem paralisado – Por tudo, por cuidar de mim, por me ajudar – ela falou enquanto sentia pela primeira vez o homem apertar suas mãos contra as delas – Mas à cima de tudo, obrigado por me salvar – Gajeel pareceu respirar mais levemente ao perceber que tudo que fizera valera a pena.
Depois de alguns minutos eles se soltaram e cada um foi para um lado. Lucy caminhou calmamente em direção ao quarto de seu filho e afilhado, os quais deviam estar dormindo serenamente no final daquela tarde gostosa de verão. Gajeel foi para o roupeiro preparar sua mala e a de Lucy.
Lucy se sentou ao lado do berço do filho e escorou se sobre a madeira vermelha do mesmo, admirando o filho ainda pequeno. Os cabelos rosados já estavam nascendo. O bebe mexia-se constantemente no berço, assustando a mulher, mas ela logo tratou daquilo como algo normal. Depois de longos minutos assim a loira ouviu o homem chamar ela para que fossem embora, não tinham tempo a perder, e já estavam atrasados para a missão.
Ambos pegaram os bebes nos colos e saíram com eles do pequeno apartamento. Lucy lembrava-se vagamente, que a ultima vez em que sairá de lá fora alguns meses atrás, antes mesmo do homem que amava ter morrido. A garota mal conseguia acompanhar o colega, por isso deixou que ele andasse na frente, em um ritmo muito mais acelerado que o seu, e assim tentou admirar o pequeno garotinho em seu colo.
Ele era tão parecido com o pai, no sorriso, nos cabelos e até no pequeno jeitinho de segurar os cabelos da loira, com aquelas mãozinhas tão minúsculas. Ele parecia gostar dos cabelos de Lucy, até mais do que Natsu um dia tinha gostado.
Ela sorriu um pouco e com a mão que não segura seu filho encostou seus dedos no macio cachecol do amigo, uma das poucas coisas que lhe sobraram daquele que mais amou em sua vida. A mulher teve de segurar as lágrimas e os soluços, doía o coração só de imaginar a dor pela qual ele passara, doía imaginar que ele nunca conheceria o filho, que nunca poderia lhe ensinar sua magia ou o ver crescer.
– É melhor não ficar pensando nesse tipo de coisa – falou a voz do colega um pouco a frente. Lucy levantou o rosto na direção do homem – Por experiência própria, aconselho você a não pensar no que eles não vão poder fazer – as palavras vinham acompanhadas de sentimentos dolorosos. A moça se perguntou como o homem sabia o que ela pensava, mas logo esqueceu tais pensamentos. Naquele momento não existia ninguém que pudesse entendê-la melhor que ele.
Depois de alguns minutos chegaram a guilda, que em nada mudara durante a ausência da loira, e mesmo que não pudessem ouvir barulhos pelo lado de fora, sabiam que havia muitas pessoas ali. Entraram sem fazer cerimonia, indo direto até a sala do mestre, e ignorando aqueles que por seus nomes chamavam.
Quando finalmente chegaram ao destino se depararam com a pequena sala do mestre Makarov, que no momento se encontrava sentado em sua cadeira. Vários outros magos também estavam lá, aqueles que por Gajeel foram citados. Lucy não ligou para a conversa dos outros colegas, e ficou apenas admirando seu bebe, até o momento em que teve de deixa-lo com o velho senhor e ir à missão que lhe fora imposta.
Quando Lucy passou pelas portas da guilda, teve certeza que muitas coisas lhe aguardavam nessa missão, e de certa forma, ela teve medo do que poderia vir á acontecer.
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