Aprecie o Silêncio

3 III - Promessas são feitas para serem quebradas


Promessas são feitas para serem quebradas

Sentimentos são intensos, palavras são triviais

Prazeres ficam, então nos causam desgostos

Palavras são sem sentido e são esquecíveis

Audrey foi sentada numa cadeira em um depósito escuro e empoeirado. Havia uma única lâmpada no amplo recinto.

Suas mãos estavam amarradas para trás.

O homem que lhe falara fumava agora um charuto e andava em torno da cadeira da moça.

_ Hum... Um dos melhores... O cubano! – deliciava-se.

_ Quem são vocês? O que querem de mim?

Dando outra tragada, o homem parou em frente a moça e disse:

_ Pode me chamar de Vin. Esses são César, Victor e Rômulo. – e apontou para três homens parados adiante.

_ O quê são vocês?

_ Fazemos o mesmo serviço que vocês, minha adorável. Só que nosso preço é muito mais baixo por não precisarmos pagar a comissão da polícia.

Audrey continuou inexpressiva, apesar de lhe assustar o fato daquele homem saber sobre o Projeto Araucária. Pensando um pouco mais, despreocupou-se. Não fazia mais parte do Projeto. Era um alvo dele...

_ Porém, apesar de termos os preços mais em conta, é arriscado. Temos que fazer um serviço bem feito, caso contrário, ninguém vai livrar a nossa cara...

_ Aonde quer chegar?

_ Já que está com tanta pressa, vamos lá... Pensei que talvez preferisse se juntar a nós a morrer pelas mãos de seus próprios companheiros. Acertei?

Era o que já havia pensado. Porém... Seria proveitoso? Aquele grupo parecia não ter estrutura nenhuma... Não tinham proteção policial, eram baratos, modestos.

E ela era caçada. Não tinha para onde ir. Não havia como fugir de Fausto e do Projeto.

_ E então Cavalcanti? – o homem tornou a perguntar, parando em frente a moça.

_ Eu aceito.

Vin continuou parado, encarando-a como se ainda esperasse uma resposta.

_ Eu estou dentro, estou com vocês, o que mais espera?

_ Espero acreditar em você, adorável.

Audrey pensou no que dizer. Não estava mentindo. Pretendia ficar naquele grupo.

_ Eu não sei fazer outra coisa da vida. Sou boa no que faço. Quero continuar fazendo. Já estou sendo caçada. Não preciso de mais ninguém no meu encalço. E vocês precisam de alguém como eu.

Vin voltou a caminhar na sua frente.

_ Poderia te achar pretensiosa e arrogante.– Foi até as costas da moça e a soltou – Mas sei que tem razão.

Audrey continuou sentada. Massageou os pulsos doloridos.

_ Bem vinda, minha adorável.

_ Bem vinda a onde, Vin? – encarou-o.

O homem gargalhou e disse:

_ Não temos um nome. Assim é mais difícil sermos encontrados por quem não merece.

Vin a puxou pelo braço para mostrar o local.

Chegando ao fundo do galpão, abriu um portão de correr. Subiu uma escada apertada e empoeirada. Chegaram a uma sala vazia, exceto por uma TV e algumas poltronas.

_ César é o único de nós que não mora aqui. Seu quarto é o último.

Audrey tirou seu cotovelo da mão de Vin. E este percebeu que não gostara da informação.

_ Espero que entenda. Gostaria de tê-la bem embaixo de minhas vista. Não me leve a mal. Tudo para protegê-la.

A moça sabia que não era assim. Mas preferiu não discutir. Era melhor mesmo se esconder por um tempo.

Vin se dirigiu para o corredor e fez sinal para que Audrey o acompanhasse. Os outros três permaneceram na sala.

Passaram por cinco ou seis portas que Audrey preferiu nem perguntar o que eram, ou a quem pertenciam os quartos.

Na última porta, Vin parou e a abriu.

_ Sinta-se em sua casa.

Audrey observou o local com desprezo. Parecia um alojamento militar. Tinha uma cama que só de olhar parecia desconfortável. Um armário velho. Uma TV antiga. Uma minúscula janela basculante que parecia estar emperrada.

Mas já não fazia diferença o lugar onde viveria. Não precisava mais se preocupar com isso.

_ Está ótimo.

Adentrou o local, e parou de costas para Vin, cruzando os braços.

O homem ficou esperando por suas reclamações. E como não vieram, perguntou:

_ Precisa de algo?

_ Sim.

_ Em que eu seria útil?

_ Preciso de roupas, artigos de higiene pessoal. Não posso usar meus cartões.

_ Certo, certo... Mulheres...

Audrey virou-se e o encarou séria.

“É, vai ser difícil ganhá-la...” Pensou Vin.

_ Pode usar um dos meus. Descontarei de seu pagamento. — sorriu simpático.

Sem emoção, Audrey voltou a se virar e abriu uma portinhola ao lado do armário. Era um banheiro. Uma latrina e um chuveiro brigavam por cerca de quatro metros quadrados. Ao menos estava limpo.

“A que nível chegamos...” Pensava desolada. Saiu do banheiro e disse:

_ Se é só isso, poderia me dar licença?

_ Claro. Não hesite em me chamar para o que precisar.

Não respondeu nada.

Quando Vin saiu, Audrey sentou-se na cama. Não era tão dura como esperava. Em seguida deitou-se. Ainda de sapatos.

Cruzou os braços atrás da cabeça.

“Desgraçados.” Pensou sobre os integrantes do projeto Araucária, e também de seu novo grupo.

***

No dia seguinte, não conseguiram impedi-la de acompanhar Vin ao sair para comprar seus pertences.

Chegou com algumas sacolas na mão. E sentou-se em seu quarto, esperando Vin com o resto.

Sabia que não precisava de tudo que comprara, mas queria provocar a todos. Nem teria espaço naquele cubículo para tudo que comprara. Mas o importante era que conseguira ultrapassar o limite do cartão de Vin.

***

Nos primeiros dias, foi obrigada a ficar interna. Apenas atendendo aos chamados dos que estavam em campo. Conhecendo suas táticas, seus costumes... Suas vítimas.

Conheceu a sala de controle, que ficava mais um nível acima, pela boa receptividade de sinal.

Era a primeira vez que ficava sozinha ali.

Estava sentada numa das poltronas com as pernas cruzadas em cima de um dos painéis. Observando a paisagem através da janela.

Um imenso mar se estendia infinito à sua frente.

O forte ficava situado em uma praia deserta.

Como já se preparava para escurecer, as aves voavam de volta a seus ninhos, e eram os únicos seres vivos da região, além de Audrey.

_ Finalizado. Estamos voltando.– informou César no rádio.

_ Ok. – Respondeu Audrey desligando o aparelho em seguida.

Voltou a fitar o céu alaranjado. Perdeu-se em pensamentos. Quando se deu por conta, brincava com a aliança ainda presa em sua corrente dourada.

_ O que estou fazendo... – ralhou consigo mesma – Já devia ter me livrado de você...

Agarrou a jóia com força e pensou em arrancá-la do pescoço. Parou por um instante. Voltou a guardá-la por baixo da blusa.

_ Não. Assim eu me lembro de nunca mais me envolver com canalhas covardes.

Levantou-se e desceu para seu quarto antes dos outros chegarem.

Havia pouco tempo estava na casa, mas os olhares masculinos para seu corpo já a incomodavam. Temia acabar matando um de seus colegas num acesso de raiva.

***

Audrey despejou um gole de café na xícara e experimentou.

_ Já fiz melhores... – reclamou.

Mesmo assim, sentou-se em uma das poltronas da sala com a xícara fumegante e começou a tomar. Tinha apanhado um jornal em cima da TV, que Vin trouxera quando chegou logo cedo, e iniciou a ler.

A casa estava silenciosa. Os rapazes haviam chegado havia poucas horas, e estavam todos descansando.

Audrey também não conseguira dormir direito. Não conseguia desde que chegara ao local. Então estava acostumada.

Já estava começando a se cansar da modéstia do local. Dividir um espaço tão pequeno com tanta gente. Seu quarto diminuto que cheirava a mofo...

Meneou a cabeça tentando afastar os pensamentos de revolta. Uma notícia chamou sua atenção. O presidente de uma grande empresa de fretamento do estado apertava a mão do dono de uma outra empresa do mesmo seguimento, anunciando a intenção de fusão das duas empresas.

Audrey apurou a visão. Moacir Bertoncelo. Vin falara dele. Tinham planejado algo para aquela alma infeliz... Era uma encomenda que estava tramitando.

Levantou-se e levou a xícara até a pia. Jogou o jornal por cima do forno elétrico e abriu a torneira. Aproveitou para lavar alguns talheres que estavam jogados pelo balcão.

Ouviu passos que se cessaram às suas costas. Quem quer que fosse a estava observando. Não estava com roupas curtas, nem justas ou transparentes. “São todos tão ridículos”.

Terminou o que fazia e se virou. Cruzou os braços e encarou Rômulo duramente. Este percorreu seu corpo de cima a baixo e voltou para seus seios onde permaneceu. Mordeu o lábio inferior, deixando transparecer seus pensamentos lascivos.

_ Terminou Rômulo? – perguntou serenamente.

_ Nem comecei...

Rômulo se aproximou da moça e a encurralou.

_ E então, “adorável do Vin”... Não quer ser minha adorável também?

Audrey sorriu quase simpática quando agarrou sua traquéia com força e agilidade.

_ Eu não tenho escrúpulos Rômulo. Pra mim seria um alívio te matar agora, mas sei que tem seu valor para Vin. Seja lá qual for...

Rômulo ficou imóvel com medo de se mexer e causar sua própria morte. Audrey completou antes de soltá-lo:

_ Antes de sacar sua arma, eu já te desovei, seu verme... Nunca mais se aproxime de mim. E ah, seu olhar também me incomoda.

Abriu a torneira e lavou as mãos. Enxugou-as no pano de prato, enquanto o rapaz massageava a garganta tentando se recompor.

Voltou para seu quarto, onde poderia se ver livre de todos. Para sua sorte, alguns dos itens com os quais arrasara o cartão de Vin foram livros. Coleções, séries, enciclopédias e até livros de culinária.

Antes de ser vencida pelo sono, alguém bateu à sua porta.

_ Quem?

_ Victor.

_ Pois não, Victor. – perguntou sem se levantar do chão onde lia.

_ Vin pediu para ativar a central de localização, mas não sei como você bloqueou o sistema.

_ Certo.

Victor esperou, mas não ouviu movimento nenhum.

_ E então?

_ Então o quê, Victor?

_ Você não disse se irá ativá-la.

_ Você não pediu para ativá-la.

Victor sabia que Audrey gostava de provocar. Às vezes chegava até a pensar que a garota buscava por um conflito para finalmente matar alguém.

_ Você pode ativá-la, por favor?

_ Posso.

_ Quando?

Impaciente, Audrey abriu a porta ainda com seu livro na mão e disse enquanto passava pelo jovem programador:

_ Agora está bom para o senhor?

E não esperou resposta.

***

Enquanto esperava o sistema carregar depois de desbloqueá-lo, Audrey voltou a ler seu livro. De pé encostada na bancada perguntou ao ouvir Victor entrando:

_ Veio olhar para os meus peitos ou para a minha bunda?

_ Para o meu computador.

De fato, Victor a ignorou e sentou-se na poltrona ao seu lado. Perguntou sem nem encará-la:

_ Como fez isso?

_ Um comando simples do DOS que você aprende no colégio.

_ Significa que não vai me dizer.

_ Significa que você não é um programador tão competente.

Victor bufou, mas ainda sem encará-la, concentrando-se no monitor, disse:

_ Pode continuar me desafiando garota. Não estou preocupado.

“Garota?” Audrey riu enquanto cruzava os braços. Como Victor não se dirigiu mais a ela, disse:

_ Você ainda tem espinhas na cara, moleque.

_ E sou mais alto que você.

_ Pelo menos não cheiro fralda suja.

Victor encarou pela primeira vez. Perguntou inocentemente:

_ Quantos anos você tem, Audrey?

Ninguém ainda se referira a ela como Audrey naquele lugar. Ninguém se referira a ela como uma pessoa digna de ser respeitada.

Baixando a guarda, respondeu:

_ Já não sou tão garota para sua informação. Tenho vinte e quatro anos.

Sonhador, Victor fitou o mar e disse:

_ Queria ter vinte e quatro... Estou com dezessete ainda. – e voltou a realidade, concentrando-se no seu sistema.

Audrey não estranhou a pouca idade do rapaz. Começara seu treinamento aos quinze.

_ Espero que ao menos tenha terminado a escola, Victor.

_ Não esquenta. – respondeu vidrado no que fazia.

Audrey ficou feliz por poder conversar com alguém que não olhava para seus seios.

_ Minha adorável! – exclamou Vin surgindo na sala de controle.

A garota continuou imóvel onde estava, sem nem descruzar os braços, visivelmente insatisfeita.

Rômulo surgiu imediatamente após ele, apreensivo. Audrey quis rir, mas se conteve.

_ E então, se divertiu bastante cuidando de nós?

_ Ficaria surpreso em saber o quanto.

Vin riu prazeirosamente. Pigarreou e disse circulando graciosamente pelo recinto, como sempre fazia:

_ Bom, não sei se notou, mas estava apenas ocupando temporariamente o lugar que é de Victor por direito. Afinal... Seus ex-amiguinhos haviam ferido um dos nossos, o Alan.

Audrey continuou inexpressiva.

_ Eu precisava do Victor em campo, senão ficaríamos desfalcados. E você ainda não estava habituada ao nosso estilo... Mas agora, Alan está perfeito. César foi buscá-lo.

Audrey quis perguntar de onde César fora buscá-lo, mas não queria parecer interessada, então continuou calada.

_ E precisamos dos seus serviços. É um desperdício mantê-la trancada aqui.

Somente então Audrey consentiu.

_ Que bom que concorda. Está preparada para brilhar minha adorável?

_ Sempre estive.

_ Perfeito! Então, por gentileza... – Vin indicou uma mesa com quatro cadeiras, no fundo da sala de controles.

Audrey seguiu para lá, não sem antes lançar um olhar firme para Rômulo, que a encarava ferozmente.

Continua