Aprecie o Silêncio

1 I - Palavras como violência, quebram o silêncio


Palavras como violência, quebram o silêncio

E vem se chocar com o meu pequeno mundo

É doloroso para mim, elas penetram em mim

Você não compreende, oh, minha garotinha?

Lá estava Audrey Cavalcanti, sentada entre seus cinco companheiros, ouvindo as instruções de Fausto, o mentor do Projeto Araucária.

Audrey não concordava com o nome “Projeto”, afinal, para ela, essa palavra dava a idéia de algo passageiro. Algo que depois de realizado, acabava e ninguém se lembrava mais.

E o Projeto Araucária já existia havia trinta anos. Começou com um braço da polícia que investigou o assassinato da filha de um delegado, que ao encontrar o responsável, em vez de prendê-lo, assassinou-o. O nome do projeto foi revelado ao público que sempre se referia à tragédia como “Projeto Araucária”. Aconteceu que nem todos os integrantes do grupo foram capturados. Os dois que sobraram continuaram secretamente com o projeto. Faziam roubos de documentos, investigação, assassinato, tudo por encomenda. Tinham um preço alto e muitos clientes por conta de terem a proteção de uma certa fatia da polícia.

Fausto continuava falando e gesticulando, passando as coordenadas do assassinato de uma mulher, que havia sido encomendado pelo próprio marido por causa de seu seguro de vida.

_ ... Ou seja, tem que parecer um assalto, estão entendendo? Levem o que puderem, depois a gente resolve o que faz.

Audrey bocejou. Não gostava das reuniões. Era a melhor e sabia disso. Não precisava de instruções para saber o que fazer, nem como fazer.

Quando não estava trabalhando, era uma jovem pacífica. Tinha a aparência de uma garotinha a considerar sua pouca estatura. Às vezes pensava se não seria essa o motivo de seu sucesso. Ninguém desconfiaria de uma garotinha. Mas tinha vinte e quatro anos.

O rosto era calmo, os cabelos, negros e compridos,desproporcional ao corpo pequeno e delicado.

Ao seu lado direito estava Taila Marques. Era cinco anos mais velha que a colega, o que significava que estava quase na casa dos trinta. E talvez essa fosse sua maior amargura.

Apesar de ser também bonita, Taila sempre ficava em segundo plano quando se tratava de Audrey. Amava secretamente Felipe, mas sabia que este tinha olhos para a colega.

Soltou um muxoxo de reprovação ao desinteresse da colega, mas Audrey se limitou a lhe lançar um olhar debochado.

Ao lado esquerdo de Audrey, estava Felipe Albuquerque, era um jovem de vinte e seis anos. Tinha os cabelos desgrenhados e profundos olhos verdes.

Roçou sua perna na de Audrey, que interrompeu o contato com um chute violento por baixo da mesa que todos perceberam, mas não deram maior atenção.

Depois de Felipe estava Ivete Ferbes, uma senhora de quarenta anos que já não tinha idéias próprias.

E depois de Ivete estava Fausto Dias, o único da formação original do Projeto Araucária, explicando o plano.

Sentado ao lado de Fausto estava Jorge Cardoso, seu fiel assistente, gênio da computação, porém não muito brilhante em campo.

Ao seu lado, Cemira Neves, tinha trinta e dois anos e gostava quando tinha de se disfarçar de namorada de Jorge.

Taila ganhara a confiança desta última, por isso Audrey não tinha amigas em seu grupo de trabalho. Nem em qualquer outro lugar. Não podia ter relações fora de serviço, era perigoso.

Contentava-se em fazer comentários vazios com Ivete quando estavam sozinhas, e fazia confidências com Felipe, com quem namorava às escondidas.

O grupo estava na Sala Principal, ou como preferiam, no Quartel General, ou simplesmente QG.

Era uma sala na cobertura de um centro empresarial, no 25º andar. Todas as pessoas externas conheciam aquele escritório como uma filial da “Pereira e Silva Máquinas Operatrizes”, por isso, na parede havia até mesmo calendários forjados da empresa fantasma.

A sala era arejada e iluminada, por isso era onde Audrey gostava que se realizassem as reuniões, pois quando não era possível, se reuniam até mesmo em encanamentos para discutirem planos.

_ Tudo bem pra você, Cavalcanti? – perguntou Fausto à caçula do grupo.

_ Tá. Tá bom.

_ Entendeu, Marques? Se a Cavalcanti perde-la, é a vez de Albuquerque, e se isso acontecer a ele também, então você entra. Só então você entra.

_ Claro que entendi. – respondeu Taila infeliz em ser deixada para trás.

_ Cardoso e Neves podem ficar aqui. Se precisarem de algo, eles estarão aqui. É isso. Vou na frente. Quando ela chegar no shopping, ligo pra cá e quero que estejam todos preparados.

Fausto escondeu sua arma no coldre e o silenciador na pasta e a trancou. Saiu da sala deixando os cinco funcionários.

_ Fiquei sabendo que anda recebendo propostas, Audrey. Verdade? – perguntou Taila.

Audrey não gostou do comentário. Não era bom receber propostas, muito menos que alguém soubesse a respeito delas. Significava estar em evidência. O que era muito ruim para o serviço secreto que faziam.

_ Isso sempre acontece com os melhores, Taila.

_ Acho que Fausto não vai gostar muito disso.

_ Ele sabe. Só que ele não quer que eu saia do Projeto, por isso, não vai chiar.

_ Ou é você quem não quer sair?

_ Também. Mas eu sei demais. É pior para ele.

Dizendo isso, levantou-se e adaptou o silenciador em sua pistola. Guardou-a no cós da calça e colocou um blazer comprido.

_ Eu estou pronta. E vocês? Não querem estar preparados para quando ele chamar?

***

Audrey entrou no shopping. Andou por algumas lojas fingindo olhar as vitrines, mas na realidade, sua atenção estava em uma senhora que carregava muitas sacolas logo à frente.

Localizou Felipe fazendo o mesmo numa loja de lingeries.

Ao emparelhar com o rapaz fingindo admirar os conjuntos, disse baixinho sem olhar para o parceiro:

_ Você devia disfarçar melhor... Quem vai acreditar que está interessado em sutiãs?

_ Vou comprar para a minha namorada. Se sou eu quem vai admira-lo, sou eu quem deve escolhe-lo, não? – respondeu no mesmo tom sem encara-la.

Audrey deixou a vitrine para não rir.

Apertou o passo, pois o alvo já estava bem distante. Estava indo para o estacionamento. Tinha que acertá-la antes de chegar ao carro, caso contrário, Taila tomaria sua vítima.

Mas diminuiu o passo ao ver uma movimentação estranha.

Um homem de casaco longo observava a vitrine de uma loja de sapatos, mas Audrey conhecia aquele olhar vidrado. Sua atenção também estava no alvo.

Mas ele não era do Projeto Araucária...

Um disparo assustou os transeuntes que se abaixaram tentando se proteger.

_ Homem alto de casaco longo e chapéu! Me entenderam? Ele também está atrás do nosso alvo! Pode ser que existam outros! – disse Audrey no microfone minúsculo que cada um tinha nas vestes – Albuquerque, cuide dele! Marques, não a deixe escapar!

Entre a correria e gritaria, Audrey procurou pelo alvo. Estava se levantando e começou a correr.

O homem de casaco apontou para as costas da mulher. Audrey apontou para ele, tinha de acerta-lo antes que roubasse seu serviço, mas outro o fez na sua frente.

_ Acerte o alvo, Cavalcanti! Deixe os ladrões comigo! – ouviu Felipe dizer pelo ponto em seu ouvido.

Audrey correu no encalço da mulher. Seria difícil mata-la no meio de tanta gente correndo...

_ Você vem comigo! – Audrey a agarrou pelo braço e puxou até uma viga do estacionamento.

Jogou a mulher no chão com violência.

_ Devia escolher melhor o marido... Agora vou matá-la para que ele receba todo o dinheiro do seu seguro de vida!

Sem entender nada, a mulher tentou se levantar, mas logo caiu novamente. Fora atingida nas costas.

_ Droga! Essa não! – esbravejou Audrey achando que haviam conseguido roubar seu alvo.

_ Calminha, Cavalcanti... Fui eu... – ouviu Taila dizer no ponto.

_ Você?! Mas... O que pensa que está fazendo?!

_ O que você pensa que está fazendo? Estava conversando com ela!

_ E você a matou pelas costas! Você é uma idiota!

_ O que estava dizendo a ela?

A essa altura já não conversavam pelo sistema de comunicação, estavam frente a frente.

_ Acho que o mínimo que podemos fazer pelas nossas vítimas é revelar o motivo de seu assassinato!

_ Você é louca? E se ela não morresse?!

_ Você acha que resisitiria a um tiro na testa?! Louca é você que atirou nas costas! Ela podia ficar agonizando! Que covardia!

_ Agora deu pra ter crise de consciência?

_ Você é uma idiota. Só pode ser isso.

_ Ei! O que está acontecendo! Entrem logo nos carros e vamos dar o fora daqui! – ralhou Felipe ao chegar no estacionamento.

Cada um entrou em seu respectivo carro e partiu.

_ Acontece que ela é louca! Mas o Fausto vai ficar sabendo... – contava Taila para Felipe pelo intercomunicador.

_ Antes eu vou dizer a ele como você a matou covardemente pelas costas! – interferiu Audrey que acelerou e tentou ultrapassar Taila.

Taila por sua vez, jogou o carro para cima da colega, fazendo com que desviasse e diminuísse a velocidade.

_ Sua... – Audrey voltou a acelerar.

Vendo que a cena não terminaria bem, Felipe se colocou entre os dois carros e disse:

_ Parem já com isso! Taila, vá embora! Audrey, pare!

_ O quê?! – perguntou Audrey indignada.

_ Vai logo, Taila! E você! Pare o carro! Estacione!

Taila continuou o trajeto, enquanto Audrey parou no acostamento e desceu, a fim de pedir satisfações.

Continua