Apocalyptica

4 Capítulo 03 - Dia Um


Notas iniciais
Agora sim vai começar a parte boa da coisa hehehehe espero que vocês curtam ^^
Quero dedicar este conto para Claray, na verdade quando imaginei escrever um conto ficcional nesse angulo, eu estava pensando nela que se interessou por Shadows, minha primeira ficção científica.

Eu não queria acordar... Os sonhos que eu estava tendo com o Gui eram melhor que qualquer realidade que eu pudesse viver. Abrindo os olhos vi que já passava das dez horas, droga! Era exatamente dia 21 de dezembro de 2012, o tão temido e falado, a verdade é que para mim era só mais um detalhe idiota se o mundo fosse acabar pela boca do povo teria acontecido muito antes! Ao que parecia seria um dia normal, o céu estava claro, e a minha mãe estressada, ou seja dia completamente comum.

- Kate, isso é você mesmo?

- Não, é um holograma.

- Eu pensei que você tinha morrido enquanto dormia.

- O mundo acaba hoje se não te avisaram, não acha que eu morreria sem prestigiar esse evento acha?

- Isso é leseira do povo!

- Concordo plenamente! — Falei enquanto me sentava pegando um pão.- Até porque ele também ia acabar em 1999, 2000 e 2001! Incrível como as pessoas gostam de morrer não é?

Ela apenas assentiu. Tomei meu café calmamente, estava mais para almoço pela hora, mas depois de ir dormir quase três da manhã era meio impossível acordar de oito e meia. Quando terminei fui para o meu quarto, sim, eu deveria ter ficado na cozinha ajudando minha mãe a cozinhar e enxugar pratos, mas eu não consigo fazer isso, principalmente quando meu cérebro está trabalhando a toda potência em algum livro. Todo o dia era assim desde que eu entrei de férias, não chamo de ociosidade, eu estou trabalhando afinal e em algo que me faz muito feliz.

Estava ouvindo o cd do One Republic, mais especificamente o álbum waking up que foi o álbum que o Gui me indicou, admito os caras mandam muito bem, fazem uma linha de pop rock bem calmo o que até me ajuda muito quando estou trabalhando, embora eu tenha mais costume de ouvir música barroca enquanto escrevo. As palavras simplesmente fluíam enquanto eu digitava no meu querido notebook que eu ainda não continha o orgulho de chamar de meu depois de desejar desde os doze anos de idade... Mas não era ali que a minha mente se encontrava, nem mesmo na história que a minha cabeça formava em cada palavra... Ela estava presa a cada nota das músicas que corriam no cd salvo no meu computador, elas me levavam a ele.

Cada sensação de estar perto do Gui vinha a minha mente como a cena de um filme passando em um gif, repetindo-se infinitas vezes. A sensação de ter a voz dele tão perto, de ouvir o som suave de cada palavra proferida pela boca desenhada... A sensação de olhar nos olhos dele, de sentir o abraço leve que me envolveu. Quando dei por mim estava viajando acordada no mundo dos meus próprios pensamentos. Eu precisava parar com isso. Voltei a escrever tentando manter minha cabeça na história, as vezes eu me condenava por não escrever em algum papel antes de digitar, mas era costume meu de criança escrever assim de hora, achava mais divertido não ter controle total sobre o destino dos personagens, era diferente apenas escrever de acordo como eu me sentia e só respeitar minhas expectativas. As coisas iam bem, o dia estava calmo, meu avô assistia televisão na sala, meu pai como sempre enfurnado cuidado da lan house, minha mãe havia saído para trabalhar, minha irmã também e como eu era a única desempregada por ali dividia meu tempo entre ler, escrever e fazer as coisas de casa.

Me convencia cada vez mais que preguiça era a palavra que regia as pessoas do signo de leão, eu admitia com todas as letras que odiava me dedicar a coisas que eu não gostava de fazer, como lavar pratos que nem mesmo ouvindo música conseguia ser algo divertido, isso sem falar na parte de arrumar a casa, que eu odiava o dobro! Enquanto a música soava e eu tentava limpar uma maldita panela de peixe meu pensamento voava longe dali, observando o céu eu percebi que, ao longe, lentamente ele escurecia. Virei a cabeça em direção ao relógio e vi que ainda eram três horas da tarde, larguei a panela na pia e corri até a frente da casa para me certificar que meus óculos não estavam vencidos e não sei se para minha alegria ou tristeza, não estavam. O céu enegrecia rapidamente como se fosse tomado por nuvens carregadas naqueles desenhos animados em um momento que de repente vai chover. Minha espinha gelou. Em menos de um minuto um carro parou na frente da minha casa e dele saíram minha mãe e irmã entrando em casa correndo.

- Mãe? Kary? O que tá havendo?

- Não sei... — Kary respondeu tensa. — Só fomos orientados a não sair de casa.

- Como assim?

Minha mãe começou a fechar todas as janelas e cortinas. Meu pai subiu em seguida fechando as portas. Só então eu percebi que a televisão estava desligada e o rádio havia se calado na cozinha. Havia algo errado ali, mas eu não conseguia entender o que. Caminhei até a cozinha e vi que o relógio digital sobre o balcão estava apagado, olhando pela janela novamente eu vi a cortina negra cobrindo o céu bem acima da minha casa, em uma tentativa inútil eu tentei acender a luz, mas nada funcionava. Corri para o meu quarto pegando o celular, sem sinal.

- Faltou energia? — Perguntei me voltando para Kary.

- Não Kate... Acho que é a profecia Maia.

- Ah qual é! Não me vem você também com essa história absurda! O mundo NÃO vai acabar que droga!

- Então como você explica isso? — Ela falou apontando para o céu.

- Eu não sei... Mas deixa de besteira, não vai acabar nada agora.

Pelo menos era disso que eu queria me convencer. A escuridão começou a tomar conta de tudo, a rua estaria tenebrosamente silenciosa não fosse o choro agoniado dos três filhos da vizinha do lado. Tomei cuidado para não esbarrar em nada enquanto caminhava para fora do quarto, era a sensação de ter faltado energia quando você não tem uma única vela por perto. Não que eu tivesse medo do escuro, mas eu sabia que não tinha faltado energia e aquilo se tornava assustador.

- Felipe as portas estão fechadas? — Era a voz da minha mãe.

- Sim.

- A da cozinha também?

- Fechei.

Espera ai, eu não vou ficar nesse cemitério sem música de jeito nenhum! Tateei a cama em busca do celular e dos fones de ouvido, eu precisava manter a calma, recapitular os últimos dias e ligar com o que estava acontecendo, tinha de haver uma explicação lógica para o que estava acontecendo... Ou não. E essa última alternativa me deixava ainda pior. Nada me ocorria, além daquelas histórias absurdas que as pessoas inventavam de portais. Ridículo. Certamente estavam vendo muito sobrenatural. Foi nesse instante que eu comecei a sentir o frio... O ar gélido tomando conta do meu corpo fazendo como que eu me encolhesse. O único som que eu ouvia eram dos meus pais e da minha irmã movendo coisas de um lado para outro e eu estava ali alheia, querendo qualquer sentido para o que estava havendo.

Tentei iluminar com meu celular o armário no meu quarto em busca de um agasalho, o frio aumentava cada vez mais, eu não conseguia conceber a ideia de que era o fim, era ridículo, contrariava todas as regras. Meneei a cabeça me livrando daquele pensamento. Olhando pela janela do meu quarto eu fitei as ruas desertas, por um instante eu jurei que tinha visto um vulto no meio da escuridão... Não, era a minha imaginação. Nesse instante um forte estrondo em algum lugar ao norte do bairro onde estávamos fez minha espinha gelar.

- O que foi isso?! — Era a voz de Kary.

- Desde quando está aqui fantasma?

- Cheguei agora... Você também ouviu?

- Ouvi....

- O que acha que foi?

- Certamente nada bom.

- Eu to com medo Kate...

- Eu detesto admitir isso... Mas eu também.

Ela levantou caminhando até a minha cama e me abraçou. Eu beijei a sua cabecinha, eu não podia chorar, não naquele momento alguma parte de mim sabia que aquilo ia passar. Dei um suspiro pesado sentindo um nó na minha garganta e meus olhos ardendo, apertei um pouco o abraço falando calmamente:

- A gente vai sair dessa você vai ver... E mesmo se não sair, eu vou passar a eternidade irritando você... Eu te amo muito minha pequenina... Você foi a melhor coisa que mamãe e papai poderiam ter dado pra mim.

Senti as lágrimas dela molhando a minha camisa e apenas beijei sua cabeça novamente mantendo-a sempre juntinha. O silencio ocupava cada pedaço de cada lugar, ajudei minha irmã a ir para cama, orientando-a que descansasse embora eu soubesse que ela não o faria e sai do quarto ao ouvir meus pais conversando baixinho no quarto, me aproximei para ouvir o que falavam:

- Fomos orientados a não sair de casa, parece que... Há alguma coisa lá fora que eles ainda não sabem bem o que é... Isso sem falar nos riscos de assalto que há nesse escuro.

- Quanto tempo isso vai durar?

- Eles não foram específicos... Ao que parece três dias.

- Até lá o que nós vamos fazer?

- Rezar para sobreviver.

As últimas palavras não foram muito animadoras. Nesse instante eu caminhei até a janela da sala observando a rua, não havia uma única luz acesa, tudo estava completamente escuro, nem mesmo a lua podia ser vista em qualquer lugar do céu. Eu repensei toda a minha vida nesse momento, as coisas que eu não consegui viver, as coisas que eu queria ter feito e as coisas que eu desisti sem ao menos tentar. Como a vida é frágil... A gente perde tanto tempo com futilidades e acaba esquecendo o que realmente importa. Nesse instante Guilherme me veio a cabeça, quer dizer que ia simplesmente acabar assim? Eu não ia aceitar isso, já que estava tudo ferrado mesmo eu ia arriscar. Voltei para o quarto onde Kary estava deitada, fechei a porta devagar e pedi ajuda:

- Eu vou pra casa do Guilherme.

- O que?! Perdeu a noção Kate?!

- Ao contrário Kary, pela primeira vez no que resta da minha vida eu quero arriscar!

- Katheryne é basicamente suicídio! Você não sabe o que tem lá fora!

- Eu sei que se é mesmo pra morrer eu quero morrer com ele! Sabe quanto tempo eu passei para sentir isso? Vale a pena.

- E se você não conseguir?

- pelo menos eu tentei! Vamos lá mana, me da uma força nessa...

- Ta, e o que eu digo pra mamãe?

- Que eu estou bem e que assim que tudo acabar eu volto pra casa.

Eu sabia que ela estava relutante em aceitar, mesmo sem ver o rosto dela direito porque a vela mal iluminava o quarto, eu conseguia sentir o medo e a apreensão em cada pulsar do seu coração. Eu também estava com medo, mas era algo que eu queria fazer. Rapidamente ela me ajudou a colocar algumas roupas e pertences básicos na mochila, aproveitei que meus pais estavam com a porta fechada já que as vozes deles estavam abafadas, Kary me ajudou a sair pela sala eu a abracei forte dizendo novamente que a amava e, como se eu abrisse o portão ia fazer muito barulho decidi escalar por entre as frestas dos ferros. Acenei para ela, mas possivelmente ela não estava me vendo, acendi a luz do celular e acenei, ela respondeu do mesmo modo, senti um aperto no peito, poderia ser uma despedida, eu poderia não voltar mais... Mas pelo menos tinha a certeza que ela estava segura.

Tudo estava completamente escuro e deserto, não havia sequer um ruído na rua, desci a ladeira com passos largos, por mais que eu não quisesse anunciar minha presença os passos do all star pareciam ecoar devido ao silencio tenebroso. Estava muito escuro, me condenei por não ter nenhuma lanterna em casa, mas talvez fosse melhor mesmo me misturar com a escuridão. Até agora tudo bem, não havia topado com ninguém, parece que as pessoas haviam mesmo obedecido a regra de não sair de casa e nesse instante eu me senti uma louca declarada. As palavras da minha mãe ecoavam na minha cabeça “rezar para sobreviver”, nesse momento eu comecei a pensar em todas as orações que conhecia mas no fundo talvez meu medo fosse maior. Ou não uma vez que eu estava na rua. Alcancei a pista que levaria a ponte pela qual tinha de passar para poder chegar ao centro da cidade, estavam construindo alguma geringonça faraônica aqui no meu bairro e havia um túnel de vinte metros de altura cavado e o que nos ligava ao “mundo comercial” era uma ponte de ferro e madeira improvisada, sem segurança que balançava quando vinha mais de três pessoas sobre ela. Como não havia carro nas ruas eu não demorei a chegar na ponte assim como não demorei pra atravessar. Levaria mais ou menos de vinte a trinta minutos até a casa do Guilherme, isso se eu continuasse com aquele passo de agente secreto.

Parecia que cada passo que eu dava era mais incerto, quando cheguei à rua do hospital senti como se estivesse sendo seguida, parei. Eu não conseguia enxergar quase nada mesmo nem adiantaria olhar para trás, apenas virei a esquina chegando a ladeira que levaria ao comércio, mas aquela sensação persistia e meu coração batia com tal força que parecia ser audivel em toda rua. Apertei a alça da mochila e apressei os passos. Caminhei por entre as ruas desertas e completamente escuras, nenhum único ruído, o único som audível era o do meu coração acelerado e da minha respiração inconstante. Eu precisava encontrá-lo, se acabasse era o rosto dele a última coisa que eu queria ver..

Alcancei a rua que passava em frente a igreja, quase não conseguia ver nada à minha frente, e nem imaginava o quão perigoso poderia ser andar por ali sozinha, constantemente meus olhos fitavam o céu, como se eu esperasse algo aparecer, maldita mania de temer o apocalipse.. Agora era tarde, estava escuro demais para ler.

Inutilmente voltei a olhar o celular, nada. Não pegava. A tensão no meu corpo era constante, e se ele não estivesse lá? A orientação era não sair de casa, mas e se ele não estivesse em casa? Droga! Pensei. Eu não queria ter vivido para ver isso! Tarde demais. Nesse momento em minha mente eu orava com toda fé que me restava, não era muita, mas era tudo que eu tinha.

Ainda faltavam pelo menos vinte minutos até a casa dele. Eu devia estar louca para cometer tal ato! E imaginava que mais louca estaria a minha mãe por não poder se comunicar comigo. Eu me vi ali, presa naquele cenário de filme de terror muito sem graça como se estivesse na fase sombria de algum jogo como rule of the rose ou the clock tower. Mas era real, infelizmente. Parei um momento encolhendo-me em um canto da rua ao lado da igreja, ofegante apenas olhava para todos os lados, como se esperava que algo acontecesse a qualquer instante. As lágrimas rolaram livres, dei vazão aos meus sentimentos, era inútil tentar ser forte, eu estava com medo e precisava admitir de uma vez. O nó na minha garganta pareceu aumentar, e minha respiração passou de inconstante para sufocada.

Me forcei a levantar após alguns segundos, não podia ficar ali, precisava continuar se eu queria sair viva daquele história. Uma onda de determinação tomou conta de mim, eu precisava vê-lo, na verdade eu não ia conseguir vê-lo, mas precisava ouvir o som da sua voz, sentir o calor da sua presença. Pensando nisso eu percebi o quão estava frio, me encolhi dentro do casaco e continuei andando agora um pouco mais rápido.

Quando estava subindo a rua que levava ao colégio ouvi um barulho e imediatamente por puro instinto me escorei na parede de um bar olhando para todos os lados, o ruído abafado de passos parecia vir da rua de baixo, como se corressem ao meu encontro. Nesse instante eu temi pela minha vida, apenas segurei a mochila com força, incapaz de me mover, incapaz de qualquer reação. Os segundos se passaram lentamente, logo eu vi um vulto se movendo em meio a escuridão, sua forma era difícil de descrever ele parecia tão sombra quanto o escuro que me rodeava, mas se havia algo que eu nunca esqueceria eram os olhos brancos que pareciam brilhar e olhavam diretamente para mim como se eu irradiasse uma luz que dedurasse a minha presença, não era hora pra gritar, e sim para correr e foi o que eu fiz, saí correndo ladeira acima sentindo que aquela coisa estava atrás de mim, era como se eu conseguisse ouvir os seus passos estranhos e abafados virei a esquina da casa de Guilherme e peguei o celular as pressas tentando iluminar o número das casas.

- 30... 120... 96... Achei! 127!

Um misto de alívio e medo me acometeram... E se ele não estivesse em casa? Eu estaria perdida. Olhei para trás e vi novamente os olhos brancos me perseguindo...

- Raul!!! — Gritei.

Senti algo passar no meu braço e uma dor aguda me acometeu. As lágrimas escorreram dos meus olhos imediatamente, me virei de costas para casa dele e fitei os olhos brancos absurdamente próximos, o hálito esfumaçado pelo frio chegava ao meu rosto e um rosnar baixo saía da boca daquela criatura, eu não conseguia distinguir o que era aquilo, mas naquele instante eu vi a morte perto de mim, quando fechei os olhos temendo o pior senti algo me puxar e perdi os sentidos.