Apocalyptica
2 Capítulo 01 - contagem regressiva
Notas iniciais
Uma semana atrás
Será que as pessoas não tem mais o que fazer? É sempre a mesma coisa, todos ficam falando sobre o fim do mundo como um agouro sem graça em um filme sobre bruxaria. Aquilo já estava me cansando. As redes sociais estavam bombardeadas com essas idiotices, mas infelizmente eu não conseguia me livrar de entrar no maldito facebook, a esperança até patética de encontrá-lo lá me fazia ficar constantemente conectada. Mas ele não estava. Um leve suspiro escapou dos meus lábios enquanto eu tentava me concentrar no meu trabalho, o livro estava quase concluído, mas não seria terminado nunca enquanto eu estivesse com a cabeça em outro universo. Eu me recusava a terminar o livro no qual eu vinha me dedicando nos últimos meses em vinte capítulos com uma conclusão qualquer apenas porque eu não conseguia me concentrar em nada que não fosse o guilherme.
O ano passou mais rápido do que eu gostaria, e me levou muito mais do que eu tinha. Ainda doía relembrar tudo que aconteceu, tudo tão rápido e ao mesmo tempo. Eu percebi que não importa essas superstições ridículas de usar a calcinha de tal cor ou vestir branco no fim do ano, isso não muda nada, o destino é inconstante e ele trabalha muito além das nossas expectativas e desejos, é algo sobre o qual não temos controle, infelizmente. Olhei para o céu em um segundo e fitei o azul anil que cobria a imensidão, me lembrei de David e não consegui conter as lágrimas... Foi tão rápido, tão estúpido, tão injusto.
Ainda é difícil encarar o fato que você nunca mais vai ter aquela pessoa irritante que te fazia tão bem, com quem você implicava noventa por cento das vezes, tudo porque uma bala idiota atravessou a cabeça dela e em menos de um segundo a sua vida acabou. E eu ainda não tenho certeza se é mais difícil encarar o ódio da bala ou do pai dele que atirou. Menos de um mês depois descobrir que o seu até então “noivo” na internet viaja finalmente pra te ver pessoalmente sofre um acidente, passa por uma cirurgia, amputa as duas pernas e desaparece da sua vida como em um passe de mágica é meio que um pouco demais de informação para o seu cérebro processar ao mesmo tempo.
Mas dizem que o que não te mata te deixa mais forte, não que isso funcione comigo exatamente, mas eu continuo de pé sobrevivendo com as sequelas do que aconteceu.. Mesmo com tudo isso, 2012 não foi um completo fracasso, eu consegui entrar na faculdade, mesmo fazendo o vestibular só por experiência, conheci pessoas incríveis, e aprendi muita coisa. E quando finalmente estava desacreditada em qualquer possibilidade para o meu coração, ele apareceu... Talvez não aconteça, mas isso que eu sinto pelo gui é incrível, e me faz muito bem.
E aqui estou eu de novo, com os fones de ouvido olhando para a praça da cidade completamente parada e quase sem movimento não fossem os carros transitando de um lado para o outro, ou o vento soprando algumas horas com mais força que o normal. Eu sei, eu deveria estar em casa estudando ao invés de estar na rua tentando buscar inspiração nessa cidade sem graça para escrever um livro que nem se passa no Brasil! Mas eu sempre fico muito tensa em semana de provas, preciso de algo que me relaxe.
- Kate?
- Oi amanda... O que faz por aqui a essa hora? — Falei direcionando meu olhar para o relógio me certificando que não estava tarde. Uma hora.
- Fui colocar crédito no celular, e você?
- Tentando pensar.
- Já estudou pra prova?
- Desde ontem... Mas tenho me concentrado mal.
- Vem aqui pra casa, vamos estudar juntas, estou com algumas dúvidas e talvez você me ajude.
- tudo bem então... Não to conseguindo nada aqui mesmo.
Talvez amanda tenha salvo a minha pele, além de me ajudar talvez a me concentrar na matéria da prova de latim, ela conseguisse fazer minha mente se desligar daqueles pensamentos. Amanda morava em uma casa na praça mesmo, era uma casa modesta, mas muito bem decorada, eu me sentia a vontade lá como demorava a me sentir em muitos outros lugares, entrando pelo pequeno portãozinho branco eu me dirigi à cozinha para tomar água.
- E o menino lá? — Ela perguntou se referindo ao Gui.
- Ah... Na mesma, a gente se fala uma vez a cada década quando tenho a sorte de encontrar ele online.
- Mas não desanime não...
- Se convencer a minha cabeça disso te dou um dólar!
Ela simplesmente riu. Coloquei o celular sobre a mesa e tentei me concentrar na matéria da prova, segunda declinação da língua latina, naquele momento eu não conseguia prestar atenção nem no meu vídeo favorito do fireflight! As linhas da apostila pareciam dançar diante dos meus olhos, formando imagens com as palavras, nada fazia sentido.
- Eu to frita nessa prova...
- Não tá entendendo o assunto?
- meu cérebro que não tá entendendo que eu tenho que estudar e tá tirando uma com a minha cara!
- Quer comer alguma coisa? A gente pode conversar um pouco, talvez ajude.
- a essa altura do campeonato, acho pouco provavel.
Amanda tinha sempre em casa um biscoito de leite que eu adorava, parecia que ela sempre estava me esperando aparecer. Ela preparou um suco de maracujá, que era o que eu mais gostava e nos sentamos à mesa da cozinha. Eu não queria falar, embora soubesse que era necessário, preciso. Enquanto eu não aprendesse a lidar com o que eu sentia as dores me perseguiriam para sempre.
- Quer me contar o que está havendo?
- Eu não sei se consigo... A verdade amanda é que eu acho que o guilherme apareceu cedo demais... não sei, talvez também eu só esteja com medo.
- ainda estou mais tentada a acreditar nessa última opção. Com tudo que aconteceu com o seu melhor amigo e o seu noivo...
- Se é que da pra chamar assim... — eu a cortei.
- Kate, olha, pra alguém como você isso é muito novo porque é muito real. Quer dizer, ele está aqui... E você está com medo que ele não esteja mais no segundo seguinte, eu sei que é um desafio controlar suas emoções, mas você precisa tentar...
- eu sei... Por mais que em certo modo eu considerasse o julio um relacionamento real, eu sabia que era um absurdo, não existe a possibilidade de se manter uma relação pela internet... Não com ele em um canto do brasil e eu em outro. É absurdo...
- Deixe as coisas acontecerem...
- Eis a questão, ainda não achei um posto sequer para abastecer minha paciência!
Amanda riu, por mais que eu não conseguisse, eu sabia que ela estava certa, só não sabia como ia fazer aquilo. Por algum motivo ridículo a história do fim do mundo estava mexendo comigo... Só faltava uma semana, nada mais que isso. O que você faria se imaginasse que em uma semana tudo que você considerava real estava prestes a acabar? Que talvez você só tivesse uma semana para fazer toda a sua vida valer a pena? Bom, no meu caso eu morreria virgem, sem ter beijado ninguém, sem descobrir como é ser mãe e sem ter um cachorro, coisa que muito me desapontava. Mas o que fazer? A vida quis assim, e eu não sou o tipo que entrega o coração pra qualquer um que tem um sorrisinho bonito e um par de braços musculosos. Eu busco mais que isso, e o que eu busco talvez não seja pra mim, como parece ser o caso do gui.
Quando eu já tinha devorado basicamente todo o pote de biscoitos, amanda e eu voltamos a estudar, confesso que eu estava me sentindo mais leve depois de ter conversado com ela. Pelo menos as letras pararam de sacanear com a minha cara e eu consegui voltar a ver aquelas orações em latim que pareciam, a primeira vista, escritas em russo ou algo parecido. Perto das quatro e meia eu voltei para casa, havia sido uma tarde de estudo proveitosa, eu estava pelo menos um pouco mais segura para realizar a prova.
Normalmente eu chegava na faculdade perto das seis e meia, mas nesse dia em especial eu decidi ir com amanda, ela ia de carro e quase me intimou a ir com ela. Eu preferia ir de ônibus, não achava legal ficar na casa dela todo dia. Quando cheguei lá ela estava pronta, entrei e esperei um pouco.
- Os meninos me ligaram.
- hum...
- tudo bem ir com eles também?
- por mim tudo bem... desde que eles me deixem um pouco invisível hoje...
Eles eram marcos e cesar, normalmente amanda os leva para faculdade, e trás todos nós até o centro, isso quando eu não resolvo voltar a pé. Mesmo sendo longe eu não me importo muito, me ajuda a pensar na vida, até mesmo a chorar como eu já fiz muitas vezes desde que me descobri apaixonada pelo gui... A cidade onde moramos é um buraco no meio do zero, acho que é questão de uma hora para você percorrer de carro da entrada à saída dela. Típica cidade de interior. Isso sem falar no calor insuportável do nordeste, todos os dias eu me convenço que não posso ser brasileira, porque eu prezo o frio, preferia morar mil vezes no alaska ou no canadá! Mas essa noite em especial até que não está tão absurdamente quente. Entramos no carro e nos dirigimos até o ponto de encontro onde ela apanhava marcos e cesar. Eles ainda não haviam chegado, amanda estacionou o carro.
- Vamos esperar um pouco né?
- é...
- está preparada pra prova?
- até que depois que a gente estudou deu uma ajudada legal.
- eu também, mas vou estudar mais na sala.
Logo a porta do carro abriu e os dois entraram, cesar era absurdamente magro, poderia compará-lo com um esqueleto desses usados para dar aula de biologia, sem problema. Ao contrário dele, marcos era mais “robusto” um pouco mais que eu.. eles tomaram seus lugares nos cumprimentando:
- boa noite. — marcos falou.
- bona nox! — cesar tentou o latim.
- boa noite. — amanda e eu respondemos em coro.
- e então meninas, preparadas para o fim do mundo semana que vem? — cesar perguntou.
- fala sério? Eu to mais preocupada em passar no período do que com uma teoria de índios retrógrados que não tinham o que fazer e pensavam que era Deus.
- caramba... — cesar exclamou. — fechou.
- já estou farta dessa história.
- a nasa confirmou que vai ter um fenômeno estranho no dia 21 e que vamos ficar três dias na escuridão completa.
- a nasa é provavelmente formada por meio bando de cientistas ateus que tenta controlar e explicar cada alfinete que cai no chão.
- é verdade. — amanda concordou.
- estudasse pra prova de latim amanda? — marcos perguntou quebrando a discussão.
- eu estudei. Estudasse?
- não. Entendi nada. E tu kate?
- eu estudei com ela.
- por favor passem fila.
Já esperava por isso! Pensei. Toda aquela conversa sobre fim de mundo me deixou irritada, caminhei até a sala com passadas rápidas e descompassadas. Olhando no relógio eu vi que eram dez para sete, Guilherme chegava sempre às sete em ponto. Tomei meu lugar e fiquei com o olhar fixo na porta, não fazia muito tempo que havíamos nos falado pessoalmente pela primeira vez, depois que eu declarei publicamente para meio mundo que estava apaixonada por ele. Dito e feito, às sete ele passou pela sala:
- oi.
- oi... — falei enquanto fitava os olhos castanhos perfeitos que se escondiam atrás dos óculos, parecia que eu conseguia enxergar a luz da sua alma através deles.
- estudando pras provas?
- muito... e você?
- também. Estava mesmo era quebrando a cabeça com esse artigo científico...
- eu notei pela sua rede social... pelo menos você conseguiu terminar.
- é... deixa eu ir lá.
- tá bom... boa prova.
- pra você também.
Sabe a arte de parecer idiota na frente da pessoa que você gosta? Sou profissional nisso! Parece que a minha boca desliga do cérebro e eu não consigo falar nada ou falo algo nada a ver. Nesse momento eu fiquei ali, parada no meio da sala fazendo a contagem para o que faltava de tempo para vê-lo. Não sei ainda porque motivo, mas nesse momento eu imaginei que poderia ser a última semana, a última vez.
- com licença professor, posso falar com a Kate rapidinho?
- claro.
Era bel, ela era a responsável pelo meu curso e um dos motivos que eu tinha para não desistir por mais que tudo parecesse contra mim, ela me inspirava. Levantei da cadeira e saí ao seu encontro, os olhinhos dela me fitavam com a meiguice de sempre, ela tinha um brilho especial sempre constante no olhar, os cabelinhos castanhos com algumas mechas coloridas aparecendo, apenas sorri. Era impossível ser diferente perto dela.
- oi.
- Eu queria te convidar pra ir na minha casa no sábado... Vai ter uma festinha pra comemorar o meu aniversário... Você vai?
- claro.
- pronto, sábado de sete horas.
- certo! Estarei lá!
Poderia ser a minha última chance de me divertir.
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