Apocalypse
5 Megan
Notas iniciais
Acordei com o barulho de uma porta se fechando. Tentei me levantar do lugar em que estava, porém senti um peso me puxando para baixo; olhei para o lado, e percebi que havia uma criança dormindo ao meu lado. Bem, ela estava praticamente em cima de mim. Sammy. Não pude deixar de sorrir ao ver o cabelo colorido da garota, lembrando da noite passada.
Realmente, tudo aquilo não tinha sido só um sonho. O que, de certa forma, é ótimo. E horrível, ao mesmo tempo. Só de me lembrar do semblante de desgosto de Dean na noite passada deixava um gosto azedo em minha boca. Ouvi passos se aproximando, e olhei para o lado. Matthew estava em pé na minha frente, sorrindo levemente, de braços cruzados; só agora havia parado para olhar seus braços. Definitivamente, eles eram... definidos, para dizer o mínimo, porém não me atraíam, de certa forma. E, sinceramente, tudo isso estava ficando estranho demais para meu gosto.
— Ahm... Megan? — Chacoalhei a cabeça ao ouvir meu nome, olhando para cima apenas para ver Matthew dando uma gargalhada. — Ei, não franza tanto a testa, vai ficar com rugas. E bom dia.
Sorri de volta, deitando a cabeça no braço do sofá, fitando o teto. — Bom dia pra você também. E eu não vou ficar com rugas, não se preocupe. Não sou humana o suficiente para ficar com rugas. — Arqueei a sobrancelha, rindo.
— Então você é tipo um deus agora? — Observei-o sentar na poltrona próxima ao sofá, revirando meus olhos.
— Sou, Matt. Sou um deus. — Tentei segurar a risada para não acordar Sam, mordendo o interior da bochecha. — Sabe o que eu sou? A deusa das cores. — Ergui a cabeça levemente, fitando o chão enquanto franzia a testa. — Não tinha um nome pra isso?
— Nome de uma deusa das cores? — Ele também franziu a testa, elevando a mesma sobrancelha que eu costumo erguer, porém ainda mantinha o mesmo sorriso de sempre. — Ahm... Eu não lembro. Eu acho.
— Bem, — Voltei a olhar para Sam, passando levemente a mão em suas madeixas roxas. Já havia me acostumado com seu peso sobre meu corpo. — Não é como se nós dois brincássemos de deuses quando éramos crianças, mesmo. Na maior parte do tempo era-
— Dragon Ball ou Pokémon. — Seu sorriso havia desaparecido. Olhei para cima, fitando-o nos olhos, porém ele não me olhava diretamente; seu olhar estava distante, como se ele não estivesse mais na sala. Tentei falar algo, porém tudo o que conseguia pronunciar eram barulhos inteligíveis. Eu queria, eu precisava falar algo.
— Dean? Que horas são? — Era a voz de Sam, que se movia lentamente em meu colo. Seus olhos estavam inchados de tanto dormir, seu cabelo estava bagunçado e havia um semblante confuso estampado em seu rosto. — O que aconteceu? Matt?
— Hum? — Ele olhou para cima, sério. Finalmente, ele assentiu com a cabeça e levantou da poltrona, e eu pude perceber que ela estava tonto. — Ahm... Ah, sim. Ontem eu trouxe a Megan aqui, você se lembra? — Ele acenou com a cabeça em minha direção, e senti Sam saltando para fora do sofá, finalmente podendo erguer meu corpo e sentar, sentindo uma pontada de dor no ombro direito, mordendo o lábio.
— Duh, claro que eu lembro. Ela pintou meu cabelo com a cor do meu lápis de cor roxo ontem, quando você e o Dean foram lá pra cima e demoraram uma eternidade para descer. — Ela cruzou os braços, olhando para o segundo andar da cabana. — Cadê o Dean?
Matthew parecia tenso toda vez que Sam falava dele. — Ele... Deve estar dormindo. — Ele limpou a garganta rapidamente, olhando para qualquer lugar, menos para Sam ou para mim.
— Ele não dorme até essa hora, bobão. Ele sempre está acordado quando o sol nasce. — Ela revirou novamente os olhos, quando ouvi passos vindos da escada. Olhei para trás e percebi que uma garota loira vinha descendo as escadas, saltitando a cada degrau. Ela vestia uma blusa caída dos Arctic Monkeys, um shorts jeans e um all star preto. Só depois que ela havia parado de saltitar pude perceber que ela era bem mais baixa que eu ou Matt.
— Nossa, vocês acordaram ced... — Ela fixou o olhar em mim, e eu senti como se ela estivesse me metralhando apenas com o poder da mente. Franzi a testa e fiz o mesmo, forçando a sensação a parar. Não sei como havia feito aquilo.
Matt bateu uma mão contra a outra, gerando um som alto o suficiente para parar Tammy de fazer sei-lá-o-que que ela estava tentando fazer comigo. — Ahm... Tammy, essa é a Megan. Eu achei ela ontem de madrugada enquanto fazia minha ronda, e...
— Ela fez isso com o meu cabelo! — Sam ergueu suas madeixas roxas, sorrindo. — E você viu o Dean? Eu quero ver como ele está.
— É... Não, a porta dele tá fechada, Sam. Mas você pode subir lá e... — E tudo o que vi foi um vulto roxo correndo pelos degraus da escada, gritando “Dean”. Voltei a fitar Tammy, que ainda não tinha saído do pé da escada.
— O Dean deixou ela entrar? — Seu tom era frio demais para a voz fina, e percebi que ela continuava a tentar me fuzilar com o olhar; por alguma razão, aquilo não funcionou novamente. — Por que ele deixaria ela entrar?
Matt suspirou, se aproximando da garota. — Olha, o que o Dean pensa agora...
— O que o Dean pensa agora o quê? — Todos olharam para cima, e percebi que Dean me olhava com o mesmo olhar capaz de arrancar sua alma num piscar de olhos. Me pergunto qual seria seu poder.
— O que o Dean pensa agora, — Matthew continuou, e eu sabia que ele estaria morto pela tarde se não calculasse o que ia falar. — é crucial para a decisão de continuarmos com a Megan ou simplesmente deixarmos ela em algum lugar, sabendo de nossa existência e da nossa localização. Até porque estamos há tanto tempo nessa cabana que mudar de lugar tem sido uma decisão difícil, não tem, Dean?
Observei os ombros de Matt ficarem tensos, e realmente achei que ele fosse explodir a qualquer minuto. Dean limpou a garganta, abaixando o olhar para Sam e bagunçando seu cabelo roxo. — Podemos fazer um acordo. — Ele ergueu o olhar e pude perceber que ele estava tentando não rir. — Se ela derrotar Matthew, Sammy e Tammy numa luta, ela fica. Poderes são aceitos, sejam eles psíquicos como os da Tammy ou físicos como os da Sam. Celestiais também contam, Matthew.
Senti um nó formar em minha garganta, e meu corpo inteiro ficou tenso. Meu estômago embrulhou, e não podia deixar de pensar que teria de enfrentar pessoas com poderes psíquicos. Enfrentar aqueles monstros horríveis já era demais, mas agora enfrentar alguém desse tipo?
— Nos encontramos nos fundos em cinco minutos. Os quatro estejam prontos até lá. — Ele desceu as escadas, passando por Tammy, que revirou os olhos. Mesmo assim, podia perceber que ela tinha um sorriso malicioso estampado nos lábios. Suspirei ao ouvir a porta dos fundos bater, e troquei olhares entre Matthew e Tammy.
— Então, — cruzei os braços, tentando parecer o mais confiante possível. — quem vai primeiro?
*
Dean estava nos esperando nos fundos da cabana. Era uma área grande, e a floresta não estava muito perto de nós. A grama era seca e amarelada, com alguns buracos de terra batida. Elevei o olhar assim que ele bateu as mãos, se aproximando dos quatro.
— Como eu disse, vocês todos vão lutar contra a rainha arco-íris aqui. Se ela ganhar de todos, ela fica. Se ela perder, eu mesmo cuido dela. — Senti meu corpo amolecer. O que ele quis dizer com “cuido dela”? Sabendo sobre o Dean, ele provavelmente dividiria meu corpo em várias partes e usar como distração para os monstros. Afastei o pensamento ao sentir um calafrio tomar conta de meu corpo. Lembrar da morte me fazia lembrar de... Zack.
E agora não era a hora certa para lembrar dele. Ou de qualquer outra coisa.
— Serei piedoso com você, Megan, — Ele pronunciou meu nome com desgosto, e estendeu os braços para os lados — pode escolher com quem vai batalhar, e na ordem em que vai batalhar.
Eu podia perceber que ele estava fazendo o possível para não rir. Isso só fez minha raiva aumentar. — Não sabia que você era tão cavalheiro assim. Quanta gentileza a sua, Dean. — Cruzei os braços e avancei para o centro, ficando na frente de Dean. Sabia que não parecia muito confiante, porém não podia abaixar a guarda. — Tammy, Sam e Matthew. Nessa ordem. — Olhei para trás, fitando-o. — Está bom assim, senhor?
— Vamos só começar com isso. — Sam murmurou, e Tammy revirou os olhos. — Pode ter monstros por aqui.
— Eu chequei antes, Sammy, não tem monstros. O que vocês duas estão esperando? — Ele trocou olhares entre Tammy e eu, arqueando a sobrancelha. — Mostrem-me do que são capazes.
Assim que Dean tomou distância, me posicionei afrente de Tammy, cerrando os punhos. Já sabia que seu poder era psíquico, então tudo o que precisava fazer era bloquear minha mente. A ideia não parecia tão difícil assim.
Em um piscar de olhos, Tammy deu um salto para trás, indo parar a uns bons metros de distância.
"Vamos, Megan, pense! Pense, caramba!" tentei acalmar a mente o máximo possível enquanto estudava a garota, dando alguns passos pequenos para os lados, fingindo me aquecer.
Coloco as mão para trás, escondendo-as nas minhas costas. Vejo que Tammy tentava me fuzilar com o olhar novamente e eu podia sentir isso, como se ondas tentassem penetrar minha cabeça à força. Simplesmente encarei ela de volta, fazendo a sensação parar. À essa altura, eu já sabia que ela não poderia me atingir, não dessa maneira.
Comprimi o lábio ao tentar dividir o pensamento enquanto retirava a cor verde-amarelada da grama, que ia ficando branca a partir do momento que as moléculas de cor iam se juntando em uma esfera que flutuava a centímetros das minhas mãos.
Sorri ao ver a frustação de Tammy estampada em sua face quando ela finalmente percebe que não é capaz de fazer sabe-se lá o que ela tentou fazer na minha cabeça antes de começar a pensar, concentrando-se num ponto entre a gente. Como se saíssem de um buraco do chão, duas cobras começam a rastejar dali, as duas completamente em tom turquesa translúcido, tal qual feitos de vidro colorido.
Respiro fundo, tentando não demonstrar o medo que senti ao ver os animais vindo em minha direção. Pensei em recuar alguns passos, porém tinha de me manter firme enquanto a esfera tomava um tamanho considerável, fazendo-a flutuar acima da minha cabeça, dividindo-a em duas esferas de uma dimensão pouco maior do que duas bolas de tênis.
Ao mesmo tempo, reparo que Tammy se ajoelha no chão, ofegando enquanto fecha os olhos, se concentrando. De algum modo eu sabia que ela podia ver tudo o que os animais viam. Bom, pelo menos tinha um palpite. Enquanto eu pensava, percebo que as cobras estão rastejando em minha direção, cada uma focada em um dos meus flancos. Não poderia perder o controle mental; pelo menos não agora.
Por fim, lanço duas das esferas nela, atirando-as tal como projeteis, furando suas cabeças e estourando-as. Avistei Tammy ao longe, e percebi que a garota estava ofegante, mas sua expressão estava mais séria e focada que o normal. Abri a mão novamente, repetindo o ato anterior e “sugando” a cor da grama, formando uma esfera um pouco maior do que as anteriores. Se eu precisava ganhar, faria isso direito.
A menos que ela acabasse conjurando um lobo, da mesma cor que as cobras. Isso não estava no plano.
Com a última esfera, lanço-a em direção a Tammy, acertando-a no ombro ao mesmo tempo que o lobo pula em cima de mim, derrubando-me no chão, mordendo meu tórax no lado direito antes de desaparecer ao tempo em que sua criadora caia de costas no chão, inconsciente. O ferimento era mais psicológico do que físico; a mordida era somente uma vermelhidão sem furos, mas a dor era escruciante. Sentia como se algo estivesse rasgando meu corpo, por mais que nada estivesse realmente acontecendo.
“Vamos, Megan, tudo está na sua cabeça. Nada disso é real.”. Respirei fundo, levantando do chão, cambaleando para os lados até trincar o tênis na terra e adquirir equilíbrio. Precisava fazer com que a dor acabasse, porém a sensação era forte demais para eu conseguir me concentrar o suficiente e acabar totalmente com a dor.
— Meu Deus, Megan, você está bem!? — Ouvi o tom desesperado de Matthew, e apenas concordei com a cabeça. Obviamente, eu queria estar morta ao envés de sentir esse tipo de dor, mas sabia que tinha de continuar. E precisava fazer a dor sumir, antes que Dean mandasse Sam entrar na luta.
Olhei para frente e percebi que Matthew já tinha corrido para o lado de Tammy, pegando-a no colo com pouca dificuldade. Arqueei a sobrancelha; sabia que havia feito uma esfera um pouco grande, mas não grande o suficiente para nocauteá-la. Abaixei a cabeça e fechei os olhos, tentando me concentrar no foco da dor, e em como fazê-la parar. Aos poucos, a dor foi diminuindo, deixando apenas uma sensação de “puxão” quando me movimentava bruscamente.
— Olha só, parece que a mulher arco-íris não é tão inútil assim. — Olhei de soslaio para Dean, que esboçava um sorriso debochado nos lábios. — Sam, maninha, sua vez. Mostra pra Megan do que você é capaz.
— Pode deixar, Dean! — Ela exclamou, animada. Assim que ergui a cabeça, ela já estava posicionada em minha frente. Chacoalhei negativamente a cabeça, franzindo a testa.
— Dean, eu não vou lutar com ela. Eu não posso lutar com uma criança, eu vou machucar ela! — Troquei olhares entre Dean e Sam, que já estava em posição de luta.
— Deixe de ser fraca, Megan. Ela sabe lutar, não é feita de vidro.
— Eu não consigo, ok? — Suspirei, balançando negativamente a cabeça.
— Você não consegue, mas ela sim. Sammy, pode começar. — Ele acenou a cabeça na direção da garota, que rasgou um sorrisinho. Observei ela esfregar as mãos uma contra a outra, fazendo pequenas faíscas saírem de suas mãos, enquanto ela se aproximava rapidamente de mim. Tentei recuar alguns passos, movimentando os dedos para que a mesma cor verde-amarelado da grama saísse do chão, formando duas esferas pequenas. Tomei cuidado para deixá-las numa consistência líquida, e lancei-as contra Sam.
Aparentemente, ela era mais rápida do que eu achei que seria e conseguiu desviar das duas com um salto, parando em minha frente. Senti seus dedos tocarem meu quadril, ao mesmo tempo que a descarga elétrica era mandada para minha coxa; naquele momento, parecia que minha perna inteira cairia. Mesmo assim, consegui apoiar minha mão em seu pulso, e assim que toquei-o uma aura azul começou a emanar de minha mão, fazendo com que uma camada grossa de gelo se espalhasse pelo braço de Sam, percorrendo até a altura de seu ombro, fazendo-a derrubar o braço no chão com o peso e, consequentemente, cair junto. Franzi a testa ao perceber o que havia acabado de fazer, cambaleando por causa da dor. Como eu havia criado gelo, eu não sabia explicar.
Aproveitei a oportunidade e repeti o movimento com seu outro braço, congelando-o em pouco tempo. Cambaleei para trás ao perceber que havia a imobilizado, e que agora ela não poderia mais me atacar.
O que quer dizer que eu havia ganhado a luta.
— Ora, ora, ora. Além de controlar o arco-íris agora também virou um boneco de neve? — Olhei para o lado e fitei Dean, mordendo o interior da bochecha.
— Parece que eu tenho muitas cartas na manga, não? — Sorri maliciosamente para ele, tentando manter o equilíbrio enquanto a dor ainda tomava conta de minha perna.
— Olha, odeio cortar a conversa, mas eu estou com meus braços congelados já que alguém se recusa a lutar. — Ouvi Sam grunhir, revirando os olhos. Dean seguiu até a garota, pegando-a no colo sem dificuldade.
— Voltarei em alguns minutos, vou tentar quebrar essa bagunça que você fez. — Ele olhou-me com desgosto, seguindo para a porta dos fundos. Antes de entrar, Dean virou-se e olhou para mim e para Matthew, sorrindo novamente.
— É melhor vocês dois se prepararem. São os próximos.
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