Apocalypse
1 Apocalypse
Notas iniciais
"O mundo está em ruínas, e só tem uma coisa que posso afirmar; o ser humano só sente o medo realmente em duas ocasiões, quando se esta prestes a morrer e quando o desespero do enlouquecedor desconhecido se apodera do corpo, mente e alma do ser."
A pequena garota estava caída no meio da rua, não entendia nada do que estava acontecendo. Gritos de desespero ecoavam pela cidade medonhamente tomada pelos cidadãos, fogo, muito fogo infestava a antes pacata cidade, o som de vidro quebrados a pedradas, as pessoas correndo em sua volta, enlouquecidas.
Que situação desesperadora pra uma menininha.
Mas a pequena estava calma, muito calma por sinal.
Ela tinha se perdido doa pais, não fazia a mínima ideia de como foi parar aonde esta agora, nem sabia o por quê dos revoltados.
Lembrava vagamente de alguns pequenos discursos que ouvia dos vizinhos manifestantes.
" — Eles estão nos manipulando, temos que reagir."
" — O povo precisa unificar suas forças se quiserem vencer do governo."
" — Eles dizem que nos protegem, mas no final, vamos ser excomungados de suas vidas."
" — É a nossa água, não deixaremos que a roubem. Vamos lutar."
Eram os gritos incessantes de força e poder de liberdade, era um líder comunistas batendo no peito e dizendo que ia os guiar ao topo. E as pobres pessoas ingênuas batiam palmas e acreditam nesses farsantes.
A pequena sentia a pena dessas tolas pessoas.
Naquele momento, a água tinha acabado quase por completo, todos enlouqueceram de medo, afinal, era o primeiro medo de verdade, estavam contemplando o plano da morte.
Suas mentes nublavam e eles agiam por instinto de sobrevivência, passando um por cima do outro, mantando, roubando, enganando. As falsas palavras dos comunistas não existia mais, por ela sabia. Ela sabia muito bem que era cada um por si, e não haveria lei alguma dessa vez que fosse mostrar a tênue linha do certo e errado, tudo que importava era; Como vou sobreviver?! O que devo fazer?! Posso matar pra viver?! Posso roubar para comer?! Posso enganar para sorrir?!
Provavelmente não havia mais ninguém que estivesse tão calmo quanto aquela criança naquele motim, nem mesmo o mais calmo monge da montanha mais afastado ou a pessoas mais fria do governo.
Mas por que, logo uma criança, estava tão sublimemente relaxada?!
Simples, porque ela sabia que era inevitável, não entendia por que das pessoas ficarem tão desesperadas, todas iam morrer um dia, cedo ou tarde, o corpo humanoide deixava de se mexer e o olhos perdiam o brilho. Era inevitável. Todavia, isso custa ao fato que a morte ainda não tinha chegado perto de si, pois todo e qualquer ser humano, tem o verdadeiro medo da morte.
A menininha se levantou e a passos cambaleantes, sentou-se no meio-fio, observando o desespero alheio.
Até mesmo os animais corriam pelas ruas, provavelmente não pela falta de água, mas pelas labaredas vermelhas e laranjas estarem se espalhando avidamente pelos becos escuros.
No meio da manada de ratos, cachorros e gatos correndo a sua frente, um em especial chamou sua atenção, um enorme cachorro negro que vinha em sua exclusiva direção.
O intrigante, era que o cachorro agia calmo e sereno como si, talvez os dois sejam parecidos.
O cão sentou-se em seu lado esquerdo e se pôs a observar a multidão igual a menina.
Ela mantinha-se estática, sem perceber, uma figura alta sentou-se ao seu lado também.
Quando ela olhou para o lado, um homem estava com ela, seu cabelo castanho, a barba mal-feita, um pouco machucado e os olhos negros, as íris negras e fundas, sem emoções, sem reações.
"— O ser humano é tolo, não? —" perguntou, a voz estava embargada e meio baixa, ele estava cansado, havia corrido muito talvez.
A pequena olhou.
"— Um pouco, talvez só não entendem —" a menina respondeu sem o minimo de ânimo, o homem dirigiu o olhar fundo pra ela e a encarou como se quisesse respostas.
"— Isso mesmo, eles não compreendem que eles que causaram isso —" sorriu pra garota que assentiu.
A menina olhou ao redor, as coisas estavam piorando, o fogo já tomava quase toda a cidade, havia pessoas caídas por toda parte, umas pisoteando as outras, ouvia-se som de tiros agora, os guardas e policiais controlados pelo governo estavam impedindo a passagem das pessoas, e qualquer um que tentasse confronta-los, era imediatamente abatido.
"— Senhor —" chamou o homem e que a olhou de canto de olho "— Como pode estar tão calmo? —" perguntou com indiferença.
O homem tombou a cabeça pra trás observando o céu cinzento.
"— Do mesmo jeito que você —" disse sem olha-la "— Alicia, querida, do mesmo jeito que você sabe que a morte não esta perto de você ainda, eu também sei —" murmurou baixinho.
A garota franziu o cenho, confusa.
"— Como sabe o meu nome?"
O homem se virou pra ela e passou a mãos em seu cabelo negro, bagunçando-o em um afago.
"— Querida, eu sei tudo sobre você, eu estava te procurando —" sorriu "— Eu vim te avisar que você não tem muito tempo."
Quando ela ia falar, o cão ao lado de si latiu para o alto, ambos olharam pra cima, aviões de guerra sobrevoava pela cidade, ninguém sabia o que ia acontecer.
Exceto o homem de olhar fundo.
"— O que será que vai acontecer agora? —" peguntou ela pro homem.
"— Sera igual a uma guerra, criança, jogaram bombas em vocês."
A garota arregalou minimamente os olhos.
"— Senhor, quem é você? —" indagou curiosa.
"— Ora, Alicia, eu não posso dizer, sou apenas alguém que pode salvar pessoas, ou mata-las —" apontou pras pessoas que corriam na direção contraria agora "— Aproposito, criança, não esta com medo agora?"
Alicia, nome que o homem se referia, esticou as mãos pra frente e fitou os próprios dedos, não tremiam, e ela não se sentia assustada.
Ela negou com a cabeça, não estava com medo.
"— Sabe porque não esta com medo? —" perguntou e a pequena negou de novo "— É simples, você inconscientemente já se conformou com a situação."
"— Como sabe isso, senhor?"
O homem suspirou e se levantou indo até o meio da rua.
"— Eu só sei, criança, por que eu sou... —" sua voz foi abafada pelo som ensurdecedor de uma bomba que havia caído, mas a menina viu os lábios dele se moverem e se surpreendeu com o que ele disse.
Mais uma bomba, agora mais perto dela, os aviões zumbiam com a velocidade e bomba por bomba jogava nas pessoas.
Alicia estancou quando uma bomba caiu tão perto que lascas e pequenos pedregulhos voaram em sua direção.
O cachorro que estava quieto, se levantou no susto e saiu correndo, como o resto dos animais. Afinal, eles não eram tão parecidos assim.
O homem havia sumido, a pequena nem o viu ir embora, a menina se levantou e começou a caminhar a passos leves e calmos pela rua, as bombas caiam cada vez mais rápido, cada vez em mais quantidade, mas ela não se importou, estava mais intrigada com o que o homem disse.
Sem perceber, enquanto pensava naquela palavra, um clarão esbranquiçado veio de encontro aos seus olhos, e quando os abriu novamente, um guarda estava na sua frente com uma arma apontada para si, ele atiraria numa criança.
Era como o homem disse, ela não tinha muito tempo, ele sabia de tudo sobre ela.
O dedo do guarda pressionou o gatilho e o som do tiro foi mais doloroso do que sentir sua carne sendo perfurada.
Sem aguentar o próprio peso, suas pernas cederam e ela caiu no chão, o guarda a largou la, sangrando no meio da rua, Alicia observava o céu que de cinzento se tornava escuro, mesmo morrendo, ela ainda não sentia medo.
"— Ele estava certo, ele era..." pensou mas antes de completar seu pensamento, ela não sentia mais nada e seus olhos se fecharam contra sua vontade.
O mesmo homem de olhar fundo parou ao seu lado e tocou a cabeça da pequena, suspirando em seguida, ele causou aquela perda, por ser quem era, era o causador de tudo ali.
Ele era a Morte.
Notas finais
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