Apocalipse Z
1 Sobrevivendo
Notas iniciais
– ..fica quieta, fica quieta... — murmurei baixinho para minha irmãzinha. Não que ela estivesse me ouvindo, pois as pequenas mãos estavam sobre os ouvidos e seus olhos cerrados, mas continuei murmurando, como que pra mim mesmo . A "horda" passou por nós lentamente e fazendo muito barulho, depois de alguns segundos de tensão exprimidos embaixo de uma caminhonete velha, finalmente eles se afastaram. Sai do lugar com cuidado para não me cortar em nenhuma das pontas enferrujadas da lataria, na situação que estou, não tenho certeza se poderia aguentar um ferimento se ele resolver infeccionar. Não posso me dar ao luxo de ficar doente, não agora, tenho que me manter forte, afinal não é só a minha vida, se algo acontecer comigo ela morre, Sara é muito pequena para se cuidar, pouco mais que um bebê. E eu sou fraco demais para mante-la a salvo, mas ainda assim estou fazendo o possível... Não! Farei o impossível para mante-la a salvo. Se pelo menos meu irmão estivesse aqui... Se,se,se pare de imaginar oque poderia ser, e comece a se preocupar com oque é! Tento sempre evitar hordas grandes de zumbis, sei que minhas chances contra vários de uma só vez são pequenas, por isso me escondo, evito combate sempre que possível, contorno lugares aonde há grandes concentrações de zumbis,etc. Não é uma boa maneira de se viver, mas oque importa é sobreviver, e isto pelo menos está funcionando pra mim e pra Sara.
Levantei-me e sacudi a poeira do meu jeans e da camiseta, como se isso os deixasse mais limpos, já fazia algum tempo que não trocava de roupa, e minha aparência provavelmente é a de um morador de rua, e não era isso mesmo que eu era? Muitas vezes fui obrigado a dormir dentro de carros, mas antes eu podia dormir algumas horas seguidas, afinal eu e meu irmão fazíamos turnos, mas agora não ouso dormir muito. Eles são mais perigosos a noite. Não tinha mais um lugar seguro para ficar desde que...
– Will?
Olhei pra baixo e fiz sinal para que ela saísse.
– Podemos sair agora Sara — falei. Ela abriu os olhos e me olhou com uma ponta de dúvida:
– As coisas já folam? — perguntou ela, concordei levemente com a cabeça. Ela pareceu satisfeita com a resposta e se arrastou para fora.
O sol começava a desaparecer por trás dos prédios e em pouco menos de uma hora, a cidade ficaria as escuras. Dica rápida: Escuro = Perigo. Ainda havia pequenos focos de incêndio por toda a cidade, uma fumaça aqui outra lá, o cenário era de completa destruição. Muito lixo espalhado pelo chão, vidro estilhaçado na calçada, mais da metade das lojas foram saqueadas, e nos supermercados não havia quase mais nenhum mantimento, ir até um era perigoso e não valeria o esforço. Carros batidos na estrada, postes derrubados,etc. Tudo parece escuro e morto, e os sons de grunhidos selvagens e perturbadores, ecoam pelas ruas desertas, um desses parecendo estar mais perto que os outros, me dá um arrepio na espinha e pego a mão de Sara, apressando o passo.
Caminhamos silenciosamente, por algumas ruelas, Sara reclamou de fome algumas vezes, e disse a ela que comeríamos quando encontrássemos um lugar para passar a noite.(Mas não disse que provavelmente só teríamos algumas bolachas e uma garrafa de água pela metade) Mais minutos se passaram e nenhum lugar seguro, havia zumbis demais estavam em todo lugar, eu traçava o caminho mais seguro. evitando-os, sabia que perdia um tempo precioso, mas estava com Sara, e zumbis tendem a se acumular, se tivesse que lutar com algum, outros viriam, e minhas únicas armas eram uma faca de churrasco e uma tesoura que não cortava direito.
Caro leitor, antes de prosseguirmos com a história, preciso explicar um pouco sobre o comportamento dos zumbis. Como foi dito anteriormente zumbis tendem a se acumular, e este é o verdadeiro problema. Qualquer um consegue lidar com um ou dois zumbis de uma vez, claro que nas primeiras vezes matar algo que antes tinha sido uma pessoa, até mesmo uma próxima é extremamente difícil, mas com o passar do tempo infelizmente vamos nos acostumando com isso, somos obrigados a fazer coisas que não faríamos antes, e essa coisas nos mudam. Outra coisa importante, é que zumbis são cegos, não totalmente cegos, só sendo um para saber ao certo, mas os olhos são a primeira parte a se decompor, e em zumbis mais "velhos" a cegueira pode ser total. Eles se orientam principalmente pelo cheiro e pelos sons, mas o que os move mesmo é a fome. Estão sempre com fome, e também nunca se cansam, por isso é difícil fugir deles, mais cedo ou mais tarde eles nos matam. Mas as vezes imagino... será que são eles os mortos-vivos?
Dobrei a esquina e olhei oque poderia ser um lugar bom para ficar: uma casa marrom, grande, com um quintal na frente e muros altos, mas não tão altos que eu não conseguisse pular, anos e anos pulando os muros da escola pra comprar coca no recreio não foram totalmente inúteis. Pensar nos tempos de escola me deixou um pouco triste, quantos colegas ainda estarão vivos? E quando verei algum novamente? Provavelmente nunca mais. E ela... foi minha culpa, se eu não tivesse demorado tanto talvez eu... Deixei meus pensamentos de lado e me abaixei pra falar baixinho com Sara:
– Ei, você tem que fazer oque eu mandar Ok? — ela fez que sim. — Ótimo. Agora eu quero que você pegue o Fofo ( ursinho dela) e se agarre bem no meu pescoço, beleza?
– Uhum — disse ela. Ajeitei ela no meu colo, pelo menos ela não era muito pesada, e respirei fundo.
Teria que ser rápido, a casa estava a mais ou menos 25 metros do local em que eu estava, deixei a faca pronta para uso, num lugar em que eu possa pegar facilmente. Peguei uma pedra grande e joguei em uma vidraça, que se estilhaçou toda. Uma dúzia de zumbis, foram atraídos e se moviam na direção do ruido. Tinha conseguido atrai-los para um local, talvez ganho uns cinco segundos de vantagem. Disparei rumo a casa o mais rápido que consegui, sentia meu coração bater forte e suava frio. A rua era uma subida, e a casa ficava no final da rua, oque dificultava bastante. Muitos zumbis já vinham atrás de mim, sorte que eram lentos e desengonçados, desviei dos primeiros e um outro agarrou meu braço. Desesperado, empurrei ele pra longe, que tropeçou em outro e caiu no chão de uma forma que, se não estivesse em perigo de vida, teria sido engraçada. Continuei correndo, mas havia zumbis demais se aproximando, eles estavam me cercando. Talvez haja algum padrão no comportamento deles, mas não sou cientista e não há tempo para divagar. Enterrei a faca no crânio de um que vinha diretamente em minha direção, a lâmina penetrou facilmente na carne em decomposição e partiu o osso com um crak nauseante, sangue coagulado escorreu pelo meu braço, mas o sangue não era quente como o de uma pessoa, e sim gelado. Usei tanta força que pensei que a faca poderia se partir ou não sair mais, mas puxei ela e o cadáver caiu morto, desta vez para sempre. Agora estava perto dos muros, mas os zumbis não paravam mais de vir, apareciam de todos os cantos, de todos os lados.
Forcei uma passagem empurrando zumbis contra os outros, estavam perto, conseguia sentir o cheiro podre da carne em decomposição, e juro que senti uma mordida bem perto do meu pescoço. Desferi mais um golpe com a faca em outro zumbi, mas desta vez não pegou em cheio e ele levou minha arma junto.
– Maldito filho da puta! — gritei. Não havia tempo para pegar a faca de volta, tinha que sair dali.
Corri desesperado e finalmente alcancei os muros, tudo aconteceu em questão de segundos, coloquei Sara em cima primeiro e disse para ficar no alto. E eles chegavam mais perto... Joguei minha mochila para o outro lado, e agarrei numa saliência do muro. ( e eles chegavam mais perto) 1,2,3 e sobe! No momento que pulei senti algo prender o meu pé, e quando olhei para baixo um dos zumbis estava agarrado a ele, quase cai, e comecei a desferir chutes no rosto da criatura, os olhos totalmente brancos dele me fitavam e ele não largava.
– Me solta! Me larga, seu merda! — exclamei, me desesperando. A horda estava a menos de dois metros dele, e se chegassem seria meu fim, com toda a certeza. Mas não só o meu fim, como o fim de Sara, este pensamento me deixou com raiva, raiva desse zumbi estúpido, raiva de morrer de uma forma estúpida como essa, raiva de ser tão fraco, raiva do meu irmão, raiva desse mundo fodido. Usei essa raiva como combustível e desferi um chute bem no queixo do zumbi, enquanto puxava com toda a força a outra perna. O zumbi vacilou e meu sapato se soltou bem na hora em que vários zumbis chegavam e mordiscavam o ar em busca de minha perna.
Com o impulso que fiz para me libertar, acabei caindo do lado de dentro do quintal, e senti uma dor excruciante na minha mão direita. Talvez tenha torcido ou feito coisa pior, mas não quis olhar para ver como ela estava. Levantei com dificuldade, suspirando aliviado, ignorando minha mão que pulsava, e estendi os braços para Sara, que se agarrou a mim, seu rosto estava pálido e os olhos vidrados, parecia mesmo muito assustada. Ela tremia, assim como eu. Estava todo sujo de terra, minhas roupas em farrapos, rasgada em vários lugares e havia bastante sangue na minha camisa. Poderia ser confundido com uma daquelas coisas.
– Agora está tudo bem. Viu só? Deu tudo certo. — consolei ela. — Vamos ficar bem...
Fui interrompido por uma voz masculina e bem rouca, como a de uma pessoa doente, ou que tivesse gritado muito em um jogo de futebol:
– Não se mexa, senão você vai sentir o poder do .38 aqui! — avisou a voz — E lhe garanto que a essa distância não dá pra errar.
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