Apocalipse - A Era dos Mortos 2
22 Capitulo 22
Notas iniciais
Pov – Carl
─Vem viver comigo Ally. Eu não quero viver longe de você, nem temos mais idade para viver como dois namorados. – Toco o rosto de Ally, ela está linda. Os cabelos soltos e despenteados, a pele rosada, uma xicara de chá quem na mão, nua sobre a cama. – Quero que seja minha mulher Ally.
Com um sorriso suave ela encosta o queixo nos joelhos, está leve e feliz como acho que nunca a vi.
─Não vou me mudar para a casa que viveu com ela. Não posso Carl. – A ideia é mesmo um tanto ruim, mas é o que tenho para oferecer.
─Eu amo você Ally, você me ama, isso é o que importa, já falamos tanto sobre o passado, vamos só colocar uma pedra em todo passado. Não sou mais o mesmo. Você não é mais a mesma.
─Judy é uma garota incrível. – Fecho meus olhos, passo a mão pelo cabelo um tanto cansado dessa luta sem fim que travamos.
─Onde minha irmã entra nessa conversa Ally? Achei que estávamos falando de nós dois. Do nosso futuro.
─Um pouco de quem ela se tornou é sua responsabilidade. – Ela continua me ignorando. – Enquanto seu pai tentava desesperadamente mantê-los vivos, lutando com todo tipo de inimigos, você Carl, dava a Judy um pouco de amor, de lar. A ideia de família que ela tem vem do convívio com você.
─Me arrependi das coisas que disse a eles, do modo como me comportei Ally, se te deixa tranquila vou me desculpar quando voltarem.
─Sei um jeito de fazer isso em grande estilo. – Ela fica de pé, deixa a xicara sob o móvel e anda nua a minha volta. É tão perfeita que não posso tirar os olhos. Vejo quando remexe as roupas.
─O que está fazendo? – Ela coloca a calça jeans velha. Para um momento para sorrir e depois é a vez da blusa cobrir seu corpo e acabar com minha diversão.
─É bom, mas não dá para passar o resto da vida nessa cama.
─Acho que dá. – Ally me beija e depois se senta com seu par de botas na mão.
─Vai Carl, termina de se vestir.
─Por que vai começando os assuntos e largando no meio? O que estava falando antes de acabar com a minha alegria?
─Não larguei o assunto, estou me vestindo para ir terminar com ele.
Calço os sapatos, pego a camisa jogada no chão, depois fico de pé assistindo enquanto Ally prende os cabelos. Seus olhos sorriem para mim.
─Pronto. – Ela diz quando termina. Depois caminha em minha direção. Eu a abraço. – Carl, eu te amo, quero ficar com você. Quero ser a sua mulher se puder ser meu companheiro, não vou deixar de ser quem sou, de fazer as coisas que faço. Pode conviver com isso?
─Estou aqui. Aprendi com esse tempo que ficamos longe. – Desvio meus olhos um momento. – Com a morte da Kim. Agora eu realmente estou feliz que seja capaz de se defender. Foi inocência minha achar que podia manter alguém vivo.
─Que bom. Então é aqui que vamos viver. Na minha pequena casa. Arrumamos tudo. Sem lembranças, sem nada nem ninguém entre nós.
Isso é um alivio, o espaço físico que vamos dividir não me importa, desde que fiquemos juntos isso é o que basta.
─Está ótimo para mim. – Colo meu corpo ao seu, beijo seu pescoço e minha mão tenta investir, mas Ally me empurra rindo. – Já resolvemos, vamos tirar tudo e comemorar. – Brinco fazendo Ally rir ainda mais.
─Você não mudou essa parte. Continua cheio de fome! – Ela brinca me beijando. – Ainda não acabamos. Agora vamos procurar seu pai e o Daryl.
─Para? – Franzo a testa sem entender onde estamos indo com essa conversa.
─Fazer uma surpresa para Scott e Judy. Arrumar a sua antiga casa para eles.
─Ally quer casar minha irmã enquanto ela está fora?
─Sim. – Ela ri me puxando pela mão em direção a porta. – Eles não precisam se mudar se não quiserem. Basta saberem que tem um lugar, que você deu isso a eles e quando estiverem prontos, que pelos meus cálculos será no segundo seguinte, eles se mudam.
─Tudo bem. Eles devem voltar logo, talvez amanhã, então vamos fazer isso de uma vez. Buscar minhas coisas, arrumar uma cama de casal para nós dois. O que acha?
─Perfeito. – Ela diz quando ganhamos o pátio de Terminus em direção ao meu pai. Daryl está com ele e isso ajuda, assim já falo logo com os dois.
─Carl. Bom te ver. – Meu pai sorri olhando de mim para Ally. – Você também Ally. Melhor ainda vê-los juntos. É para valer?
─Sim pai e quero falar com vocês dois sobre isso. – Daryl toca meu ombro.
─Tem minha benção! – Ele brinca comigo. Sempre foi um bom amigo desde os primeiros dias do apocalipse.
─Não sei não. O que quero é a permissão dos dois para deixar minha casa pronta como um tipo de presente para Judy e Scott, vou me mudar para a casa da Ally e preparar minha casa para eles. O que acham. É um jeito de me desculpar pelas tolices que fiz.
─Isso é com seu pai. – Daryl avisa. – Pode parecer machista da minha parte. – Ele olha para Ally que sempre defende suas opiniões. – Mas eu acho que quem tem que aprovar ou não é o pai da moça.
─Bando de velhos antiquados! – Ally os provoca. Os dois não se importam.
─Pode aprontar tudo se acha que isso ajeita as coisas entre vocês, mas acho que quem decide isso não é o pai da moça, mas a moça. – meu pai com sua modernidade exagerada avisa. – Feliz Ally?
─Muito Rick. Como sempre esperei que agisse. – Ela me olha. – Diferente do senhor Grimes aqui.
─Ela vai me jogar na cara o resto dos meus dias. – Eu digo abatido. – Obrigado de qualquer modo, posso cuidar disso então?
─Pode.
─Aconselho a procurar minha Mary, ela vai querer ajudar nas coisas que o filhinho gosta.
Afirmo a Daryl e então é o que faço o resto do dia. Carrego coisas de um lado para outro. Arrumo meu novo lar com Ally. Levo roupas e pertences. Desfazer minha antiga casa não é fácil. Tem toda uma história, uma vida com Kim que de algum jeito eu amei. Separo suas coisas em caixas e dessa vez faço isso com ajuda de Beth e Mary. Ally fica longe e eu entendo.
As duas levam as coisas de Kim e sua mãe, nada se perde mais. Tudo é reciclado, transformado. O dia termina e quando anoitece e me instalo estamos cansados. Não o bastante para ficarmos longe um do outro.
Eu a amo, é um novo começo para nós dois. Foi preciso tudo que deu errado, não tinha como ser diferente. Éramos dois cabeças duras e a distância nos ensinou sobre o que importa. Agora vai ser diferente.
Pela manhã está quase tudo pronto. Vou a minha antiga casa fazer alguns retoques, tem tudo que um casal precisa. Consegui tinta e com a ajuda de um grupo pintamos as paredes para apagar um pouco a história do lugar.
─Está tudo lindo. – Ally diz entrelaçando seus dedos aos meus quando olhamos a casa do lado de fora. Só uma cozinha pequena e dois quartos ainda menores. Descobrimos ao longo do apocalipse que basta um teto seguro sob nossas cabeças, se a mensagem era essa então aprendemos a lição. Ao menos boa parte de nós.
─Obrigado Ally. Eu estava mergulhando na escuridão mais uma vez e me deu a a mão.
─E o coração também. – Ela me lembra.
O portão se abre, o grupo está de volta e sinto um leve frio na boca do estômago, é sempre assustador quando os portões se abrem e você nunca sabe bem quem vai estar de volta e quem acabou pelo meio do caminho. Lá está ela. Minha irmã, a que carreguei no colo mil vezes, que protegi com meu próprio corpo. Ela vem de mãos dadas com Scott e me dou conta de como sempre se amaram. Sempre se completaram.
Se eu e Ally precisamos nos separar para aprender a lição eles sempre souberam. Estranho como vê-lo abraçando a família e sorrindo um para o outro deixa claro que eles se pertencem. Por que sempre demoro mais para entender as coisas?
Depois dos cumprimentos que assisto parado em frente a minha antiga casa de mãos dadas com Ally os dois se põe a caminhar.
─Scott! Judy! – Ally grita por eles. Os dois a veem e lógico caminham em nossa direção. Scott abraça Ally. Judy assiste sorrindo e evitando meu olhar. Isso é dolorido. Antes de eu ser um idiota ela teria me abraçado saudosa. Ally ganha seu carinho em meu lugar, assim que se afasta de Scott. Depois os três sorriem como se eu não existisse. Mereço isso.
─Foi tudo muito bem. Nova Albany está se erguendo. Ashley ficou por lá e não é mais bem-vinda aqui. – Scott conta a Ally. – Depois entro em detalhes. É bom te ver assim tão bem.
─Estou ótima! – Ally me olha. Exige uma atitude e faz parte da mudança aprender a me desculpar como se deve. Usando todas as palavras, quero mostrar a ela que eu consigo.
─A gente já vai. – Judy diz dando um toque no ombro de Scott.
─Esperem. – Eu peço. Relutantes eles me olham. Não é nem de longe um olhar amigável.
─Mais tarde passo o relatório para o Arthur. – Scott me diz decidido a manter distância.
─Faça como quiser Scott. Não é sobre isso. Quero me desculpar com os dois. – Olho para Judy. – Com você Judy. Eu não podia ter dito o que disse, nem sei direito se acreditava mesmo nas coisas que estava dizendo, agi mal com os dois e sinto muito.
─Carl... – Ela se cala, acho que não sabe o que dizer.
─Scott, eu entendi que se completam, que sempre foram um par, casal, ou qualquer coisa assim. Admiro a sabedoria de vocês, eu tive que errar muito para aprender. Me desculpe Scott. Vivemos muitas coisas juntos, não quero passar por cima disso. – Estendo a mão, é com ele agora. Com sua capacidade de perdão.
─Amo a Judy, desde sempre Carl. De muitos modos. Não queria estar no meio de uma briga de irmãos. – Ele aperta minha mão. Um aperto firme que não deixa dúvida.
─Eu me mudei para casa da Ally e nós. Eu, ela, meu pai...todo mundo. Arrumamos para vocês. – Aponto minha casa agora pintada e com cortinas balançando pela janela. Os dois trocam um olhar incrédulo. – Quero que seja feliz Judy.
Judy me abraça, é bom ter de volta seu carinho. Sentir seu amor que sempre foi incondicional mesmo com todas as tolices que fiz.
─Te amo irmão. Obrigada! – Quando ela se afasta de mim tem lágrimas nos olhos.
─Amo você Bravinha. Muito. Me perdoa?
─Sim! – Ela sorri. Olha para Scott buscando sua aprovação, ganha um sorriso e um balançar de cabeça. – O papai sabe disso? – Ela aponta a casa.
─Sabe. Ele até ajudou a pintar. O Daryl também. – Olho para Scott. – Mary chorou um pouco quando trocou as cortinas e arrumou a louça.
─É tipo saímos namorando e voltamos casados? – Judy brinca rindo.
─Parece que sim. Se quiserem é claro.
─Estou com a sensação que estão querendo se livrar de nós sorvetinho.
─Acho que tenho que concordar. – Ele diz tocando meu ombro. – É bom ter você de volta Carl. E ver vocês dois juntos. Sair com Ally é bem irritante as vezes. Você é seu assunto preferido quando estamos lá fora.
─Cala a boca traidor! – Ela brinca empurrando Scott. – Vai lá ver a casa que montamos. A primeira ideia foi minha que fique registrado.
Os dois dão as mãos e entram, pretendia segui-los, mas Ally me segura.
─Vamos...
─Deixa eles Carl. É agora que o Scott faz o pedido.
─Ah! Tem razão. Melhor deixa-los sozinhos. – Abraço Ally. – Obrigado. Me sinto leve como acho que nunca me senti. Amar você me faz bem.
─Amar você também me faz bem.
─Quer dizer que sou seu assunto preferido? – Ela faz careta.
─Não se anima, eu falava mal de você o tempo todo! – Rio, beijo seus lábios, depois voltamos para nossa casa.
Pov – Caleb
Helen me olha tão aliviada quando cruzo os portões que meu coração salta. Ela caminha em minha direção. Pela primeira vez alguém vem me receber. Eu a abraço, é um abraço meio desajeitado. Depois nos afastamos.
─Me sinto tão aliviada! – Ela diz com um sorriso tímido. – Foi tudo bem?
─Tudo bem. Nada de diferente do que sempre encontramos lá fora. – Vamos caminhando juntos para o alojamento.
─Cadê a Ashley? Algo aconteceu com ela?
─Sim. Aconteceu, as pessoas finalmente se deram conta do seu real perigo, ela ficou em Nova Albany.
─Para sempre? – Helen pergunta quando entramos no alojamento. De algum modo é como chegar em casa e faz muito tempo que não sinto isso.
─Ela e Judy se desentenderam. Ashley perdeu a noção, empurrou Judy para os zumbis.
─Que horror! – Ela se espanta. Senta na cama me olhando tirar o casaco e a mochila.
─Deu sorte de estar com essas pessoas. Outras teria matado ela, mas eles apenas a baniram.
─Nem sei o que dizer, no fundo eu até me sinto aliviada. Acho que tinha um pouco de medo dela.
─Ela tinha esse dom. Tem, afinal não morreu. Intimida as pessoas. E aqui? Tudo bem? O que fez esses dias?
Helen dá de ombros. Olha para os sapatos.
─Nada demais. Achei um trabalho, Mary e Beth me arrumaram. Vou ajudar no controle da dispensa, meio período. Tem muita gente aqui. Todo mundo faz algo. Uma vez na semana vou ajudar nos consertos de roupas, lavagem, distribuição. Essas coisas.
─Está feliz? – Pergunto me sentando diante dela na outra cama.
─Sim. É bom, parece quase como uma vida.
─Sei como se sente. Quando cheguei achava o tempo todo que esse lugar era uma mentira. Ficava caçando um jeito de achar algo errado. Colocando defeito em tudo para não me sentir seguro demais.
─É, mas acho que posso me tranquilizar, todos parecem muito bons. Estou aliviada que está de volta.
─Eu também. – Ela me olha. Sorri.
─Tem pão e café. Quer? Se tivesse uma cozinha teria preparado algo para te receber.
─Estou bem. Aceito o café. – Ela caminha até a mesa no canto, serve duas xicaras e volta a se sentar diante de mim.
─Ally foi morar com o Carl, a casa dele ficou para a Judy e o Scott. – Ela me conta e acho que o novo casal vai gostar das mudanças. – No meio de tudo isso, Mary me disse que tem uma casinha livre. Que eu podia me mudar.
─Entendo. Esse lugar não chega a ser um lar. – Fico triste. Estava gostando de dividir esse lugar com ela. Criando algumas expectativas. Deve ser meu dom gostar de quem não gosta de mim.
─Eu... eu não aceitei. – Ela não me olha, o rosto cora e acho que fica tão linda, meu estômago revira.
─Não? Acaba de dizer que queria uma cozinha e quando tem a chance... Não entendo.
─É que sinto segurança de estar perto de você. E disse que talvez quando voltasse a gente podia tentar dividir uma casa. Então eu não aceitei.
─Ainda quero isso. Podia ser essa aí que falou. Podemos procurar a Mary e dizer que vamos dividir uma casa os dois. Gosto de ter você por perto.
─Tudo bem, eu... – tem algo mais que ela quer dizer, mas está envergonhada e então muda de assunto. – Quer dormir um pouco, ficar sozinho?
─Não. Só preciso mesmo de um banho e tirar todo esse pó da estrada. Fica aí, te conto como foi lá fora. Depois vamos procurar a Mary.
Pego roupas limpas e entro no pequeno banheiro. Acho que o que sinto por Helen pode ser maior do que achei. Vê-la me encheu de esperança, saber que quer um lugar comigo que mesmo como amigos ela prefere ficar perto me da ânimo para tentar.
Quando saio do banho ela observava a vida pela pequena janela. Me aproximo, tem uns poucos moradores andando de um lado para outro. Gosto de como tudo aqui funciona e parece uma pequena cidade.
─Agora me sinto muito melhor. – Ela se vira, os olhos brilham. – Quer ir ver a Mary? – Helen morde o lábio inferior. Eu podia beija-la, eu adoraria fazer isso.
─Caleb. É que... A Mary me disse que a casinha é muito pequena sabe. A menor. Eles têm casinhas com dois quartos e outras com um só, essa só tem um quarto.
─Entendi, está com medo de dividir um quarto comigo.
─Não. Eu confio em você, não acho que vai me atacar, sei lá, essas coisas. – Ela se atrapalha toda. Fica vermelha, torce os dedos, fala rápido e só consigo acha-la ainda mais bonita. Nem sabia que gostava de garotas assim. – Eu até quero que a gente... Eu não quis dizer isso, eu quis dizer que se fosse acontecer alguma coisa, que você e eu. Na verdade eu até pensei, mas acho que você não pensa em mim assim e não quero ser uma garota que fica no seu caminho e te atrapalha e só porque eu gosto de você, não posso ficar... Eu nem sei o que eu estou dizendo. Eu vou sair e você pode... – Agora ela está mesmo linda e muito confusa, tanto que o rosto arde, ela sabe que falou de mais, ou tentou, não completou nenhuma frase, mas adorei tudo que ela não disse.
Helen tenta sair, seguro seu braço.
─Espera. – Peço quando ela me olha assustada. Solto Helen, ela continua a me olhar. – Pensei em você o tempo todo lá fora. Pensei em nós, nas coisas que podíamos fazer juntos. Gosto de você Helen, estou aprendendo a gostar e se alguém nesse lugar pode ser especial para mim é você. Podemos dividir a casa como amigos e vai sempre estar segura comigo, mas podemos tentar, é isso que quero.
─Quer namorar comigo? – Ela me pergunta surpresa. Sorrio, guardo todos os comentários ácidos que poderia fazer, ela não merece nenhum.
─É um modo de começar as coisas. – Brinco com ela. – Ninguém nunca me pediu em namoro antes. – Ela cobre o rosto com vergonha.
─Não pedi você em namoro. Que vergonha! – Afasto suas mãos, faço com que me olha e nunca senti tanta vontade de beijar alguém.
─Estou brincando. – Eu a trago para meus braços, ela vem sem reclamar. – Quem sabe começamos com um beijo. – Dessa vez não espero autorização. Beijo Helen, um longo beijo. Sinto como se sempre tivéssemos estado juntos. É uma certeza que me invade difícil de explicar.
─Caleb... – Ela diz meu nome enquanto vai abrindo os olhos lentamente. – Eu...
─Acho que agora já pode me pedir em namoro. Depois desse beijo pode ser que eu aceite. – Helen sorri. – Não vai pedir? Mudou de ideia? O beijo não foi bom? Posso tentar melhorar. – Antes de sua resposta eu volto a beija-la.
Ela corresponde mais uma vez. Quando nos afastamos me olha mais tranquila.
─Esse foi ainda melhor. Sua última chance. Vai pedir ou não? – Ela volta a corar e me fazer sorrir.
─Caleb! – Helen fica brava, ou finge ficar.
─Tudo bem. Nesse caso eu peço. E então Helen, quer ser minha garota?
─Eu... quero. – Agora ela realmente sorri. Volto a beija-la, parece que não vou mais conseguir me afastar. Começa aqui minha história. Finalmente a vida me devolve alguma esperança.
Pov – Scott
Não sei o que me deixou mais surpreso. O pedido de desculpas de Carl ou essa novidade de ter uma casa para mim e Judy a nossa espera. Entrelaçamos os dedos mais uma vez quando entramos.
─Scott isso é... – Judy perde a fala quando olhamos para as mudanças. A cozinha pintada, tudo arrumadinho e diferente. Um pequeno quarto onde a mãe de Kim vivia agora está limpo, sem nada que lembre sua passagem. Apenas uma cama e uma cômoda.
─Vamos ver o outro. – Abro a porta ao lado. O quarto de casal é uns metros maior. Uma cama de casal, cortinas, uma poltrona. A cômoda. – Eí, meu travesseiro! – Encaro o objeto sobre a cama. – Fui oficialmente expulso!
Judy ri de mim. Se senta na beira da cama, olha em volta, depois se ergue e vai até a cômoda.
─Meu perfume! – Ela balança em minha direção. – Fomos expulsos! – Ela brinca. – Estou até com medo de abrir as gavetas e dar de cara com minhas roupas.
Coragem não me falta e abro eu a gaveta. Está vazia. Todas estão.
─Parece que eles nos deram opção.
─Eu não me incomodaria se as roupas já estivessem aqui.
─Mas eu sim. – Ela me olha surpresa.
─Scott. – Seus olhos parecem entristecer um pouco. – Não quer? Achei que... Eu... claro não tem que ser assim, se não tem certeza, é que depois do que aconteceu entre nós eu pesei que tinha certeza. Disse que me ama, mas entendo se achar que é cedo.
─Quanta bobagem ainda consegue dizer? Estou esperando terminar. – Ela me faz careta. – Amo você. Sonho que esse dia. Com nós dois vivendo essa vida que sempre sonhei.
─Mas então... Não entendo. – Acaricio a pele macia de seu rosto.
─Sonhei com um pedido formal, uma cerimônia, e então uma casa nossa e uma vida juntos.
─Scott. Está falando sério?
─Sim. Achei que iria querer isso. Não tem nada demais querer. É por nós, pelos nossos pais, pelas pessoas a nossa volta. Amigos, não pensa em como isso traria mais felicidade para todos? Uma festa. Quero festejar. Marcar esse dia. Não pegar uma mochila e me mudar com você.
─Eu quero! – Seus olhos brilham com a ideia. – Beth morreria de emoção. A Mary também. Amo você Sorvetinho! – Ela me abraça, sorri, toda linda como de costume. – Agora pede.
─Pedir?
─Começou com isso, então agora faça direito. Pede!
─Eu não tenho um anel. Espera aqui. – Beijo seus lábios rápido e saio apressado. Procuro Rick. Ele carregava caixas de verduras em direção a despensa. – Rick.
─Oi Scott. Gostaram da casa? Depois vou lá ver do que precisam.
─Rick você é tão estranho! – Ele nunca vai me mandar cuidar da filha dele, me dizer para ser bom e sei lá, o caminhão de recomendações e ameaças que pais fazem?
─Sou? Talvez eu seja mesmo.
─Quero pedir a mão da Judy em casamento.
─Puxa. Achei que isso já estava meio decidido. Eu permito. Assim fica melhor?
─Muito. Eu esperava que me exigisse... não sei bem, mas deve ter qualquer recomendação.
─Não tenho. Se não puder fazê-la feliz ninguém pode, se não cuidar dela como se fosse sua própria vida. Então quem mais poderia? Confio em você.
─Obrigado. Agora... Bom, eu quero pedir e pensei que você podia ter quem sabe um anel, uma aliança. Na verdade a sua aliança.
─Ainda se lembra dela? Eu usava. Mas vai ficar grande para Judy.
─Eu sei, coloco numa correntinha e ela usa no pescoço. Pode me dar?
─Claro. Na minha cômoda, do lado da cama. Pega lá, a porta está aberta.
─Obrigado Rick. Vou fazer a Judy feliz e vamos ter um casamento.
Corro para sua casa sem esperar resposta, pego a aliança e sigo para minha casa. Meus pais estão junto a Seth. Conversam algo divertido, riem quando chego.
─Veio buscar suas roupas? – Minha mãe pergunta. Beijo sua testa.
─Não. Vim buscar aquela correntinha que guardo tem um tempo. Eu vou pedir Judy em casamento.
Todo mundo se olha, ninguém parece achar grande coisa, mas minha mãe sorri um tantinho emocionada.
─Já não casaram? Achei que iam morar lá na outra casa. Perdi meu quarto então? – Seth pergunta.
─Não Seth. Eu vou, apenas vou casar antes. Com todo mundo assistindo, uns dias só. Dois ou três para organizar. Consegue mamãe?
─Eu? – Ela sorri mais uma vez. – Claro. Beth vai morrer de orgulho. – Acho a correntinha e prendo a aliança de Rick. –Vai dar isso a ela?
─Sim. Pai. Acha...
─Que vai ser muito feliz com a Bravinha. Acho que são perfeitos um para o outro. Estou feliz e orgulhoso que vai fazer a coisa certa. Sempre esperei isso de você.
─Obrigado pai. Bom eu vou indo. Ela está esperando. – Beijo meu pai e depois minha mãe. Seth me abraça. – Essa noite o quarto é seu garoto. – Aviso e ele ri malicioso.
─Então vocês dois já...
─Sem indiscrição Seth.
─Eu bem que queria ir morar com a Nina!
─Vai sonhando! – Meu pai avisa e ele suspira.
─Tenho que ir. Amo vocês, mãe já pode começar a organizar tudo. Amanhã a Judy te ajuda.
Volto correndo. Quando chego Judy anda pelo quarto. Sorri quando me vê. Me aproximo, paro diante da garota mais bonita que o universo já produziu. Perfeita. Inteligente e especial.
Penso em tudo que vivemos juntos, as coisas que lembro e as que o tempo apagou.
Pego o colar com a aliança de Rick. Entrego a ela, os olhos brilham, ela se emociona quando o recebe.
─Judith Grimes. Quer casar comigo?
─Quero. Scott Dixon! – Ela me responde, depois me devolve o colar. Coloco em seu pescoço.
─Amo você Bravinha.
─Também te amo Sorvetinho.
Ela fica linda com o colar no pescoço. Beija a aliança e me sorri. Estamos em casa, vamos nos casar, temos a benção de todos que importam. Nada mais importa.
Nos entregamos ao nosso amor, ao desejo que sentimos um pelo outro. O tempo todo eu a quero. O tempo todo meu corpo arde pelo dela. Ficamos ali, vivendo nosso amor esquecidos de tudo a nossa volta.
Pela manhã fico assistindo minha futura esposa dormir o colar em seu pescoço brilha. Todo com cuidado, ela sorri antes mesmo de abrir os olhos.
─Bom dia.
─Te amo. – Ela me puxa para um beijo. – Jeito bom de começar o dia.
─Vai ser sempre assim. – Judy comunica.
─Nunca duvidei disso.
─Mas agora tenho um casamento para organizar. Vai para sua casa, só voltamos aqui casados.
─Depois dessa noite andei repensando meus planos. – Brinco com ela. – Podemos só continuar daqui. O que acha?
─Nem pensar. Me prometeu casamento. Olha que conto para o meu pai. Não, melhor eu conto para o meu irmão. Meu pai é muito despreocupado e liberal.
─Já começa a vida nova me ameaçando. Vamos indo muito bem.
─Prometeu casamento a uma garota. Devia saber onde estava se metendo.
Ela me deixa na cama. Logo está vestida e apressada. Me beija e corre para fora da casa. Fico com um sorriso idiota no rosto e simplesmente me sinto bem com isso.
Os dias correm, mal temos tempo para namorar. A toda hora que nos encontramos Judy tem planos. Vai ter um vestido. Vamos ter uma festa. O doutor Chan vai realizar algo perto de uma cerimônia.
Caleb e eu trocamos algumas boas conversas, ele está feliz com a namorada. A casa que vão dividir está pronta. Carl parece outra pessoa. Não tem mais aquela sombra no olhar. Está feliz como nunca o vi, mesmo nos tempos em que vivia seu amor com Ally.
Seth e Nina desfilam juntos todo tempo, esse vai se juntar com Nina muito antes do que todos pensam. Meu pai fica sorrindo orgulhoso quando o vê passar. Minha mãe e Beth estão flutuando de tão felizes. Tudo parece bem e finalmente o dia da cerimônia chega.
Me apronto com minha melhor roupa, sigo para o pátio central onde temos flores e um pequeno altar. Meu pai toca meu ombro quando todos se juntam.
─Sorvetinho. Sinto tanta saudade de quando era um garotinho que passava o dia me perseguindo, agarrado as minhas calças.
─Você me ensinou tudo pai.
─Agora que vai casar tem algo que precisa saber filho. – Seu tom é sério. Olho para minha mãe abraçada a ele com os olhos marejados.
─O que pai? – Fico tenso.
─Bom filho, nem sei como dizer, mas os bebês, eles não vêm do frízer. – Ele ri quando relaxo, acabo rindo também. Ele passou a vida brincando com isso.
Abraço meu pai. Depois minha mãe. Ela está chorando. Seco suas lágrimas.
─Meu bebê vai casar. Fico tão orgulhosa. O mundo me deu você quando eu não tinha mais esperança de ser mãe, foi o maior de todos os presentes filho. Amo você.
─Também te amo mamãe.
Beijo seu rosto, os dois se sentam, Doutor Chan se posiciona olho para o caminho de flores que Beth providenciou. Rick surge de braços dados com ela. Minha Bravinha. Usa um vestido branco, nem me lembro de quando foi a última vez que a vi num vestido. Meu coração dispara.
Meus olhos encontram os dela. O colar brilha mais uma vez me lembrando que pertenço a ela. Que ela pertence a mim e eu a ela.
Rick aperta minha mão quando me entrega Judy. Beija a testa da filha.
─No mundo de antes. Aquele que nem conheceram, era assim que os pais faziam. Boa sorte. Sejam felizes.
Rick nos deixa e se junta aos outros. Seguro a mão de Judy, ela está sorridente como eu.
Escutamos um discurso curto do doutor Chan sobre amor e apocalipse. Não importa o fim do mundo. Não acho mais que vivemos nas sombras, na escuridão. Esse é o meu mundo. O mundo que conheço e sempre vivi. O mundo que me trouxe Judy e a chance de ser feliz. Se querem chamar de apocalipse eu não me importo. Para mim é vida. Apenas isso.
─Aceito. – Digo quando sou perguntado. Ela me sorri emocionada.
─Aceito! – Judy também responde. Ele encerra a cerimônia. Beth e minha mãe chorando. Rick e meu pai trocam um sorriso. Sempre fomos uma família.
Meus olhos encontram os dela. Emocionada assim como eu.
─Bravinha. – Digo quando dou um passo em sua direção e envolvo sua cintura.
─Sorvetinho. – Ela responde um segundo antes de nos beijarmos, o primeiro beijo dos muitos que vamos dividir agora que somos uma nova família. Sobre bebês e frízeres acho que a vida vai nos mostrar algum dia.
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