Notas iniciais
Oiiieeee espero que gostem.

Pov – Ally

─Vai embora enquanto é tempo Ally. – David pede enquanto arrasto uma estante de aço para a porta.

─Cala a boca David. – Não é tão pesada como esperava, mas prende bem o trinco e as janelas tem grades, deve servir se fizermos silencio. Alguns zumbis se aproximam e começam a arranhar a madeira da porta. Me afasto respirando com dificuldade.

─Uma hora eles conseguem passar. – David geme e me aproximo dele.

─Não vão, a estante está prendendo bem o trinco e vai segura-los, daqui a pouco algo chama atenção deles e vão embora.

─Eles não vão, não tem nada vivo a nossa volta para chama-los, sabe disso. – David respira com dificuldade. A mão sobre o ferro preso a coxa.

Que asar maldito. Estávamos indo bem, até ele tropeçar e cair sobre escombros terminando com um pedaço de aço enfincado na perna.

─Vamos ver isso. – Ele tira a mão, o sangue escorre grosso pela perna, mais do que podemos lidar.

─Se tirar o ferro vou perder muito sangue.

─Eu sei David, o grupo vem nos resgatar, só precisa aguentar.

─Ally é estupidez esperar, sabe que eles não vêm. – David diz começando a suar, se ajeita na parede, vasculho a mochila e estendo uma garrafa de água.

─Scott vem me buscar David, assim que for possível se não chegar é por que está morto. Tome uns goles, precisa se hidratar está perdendo sangue.

Ele nega me empurrando a garrafa de volta.

─Vou morrer Ally, beba você que tem mais chances. Saia pelo telhado, sei que consegue.

─Eu não vou a lugar nenhum sem você David, não insiste.

A estante balança um pouco, mais zumbis devem ter se aglomerado na porta. Olho a minha volta. É uma porcaria de loja de presentes, não tem nada de útil.

─Mesmo que Scott venha é inútil, não consigo chegar em casa. Não posso andar.

─Carregamos você. Não vai ficar para trás, agora poupe suas forças, faz pressão no ferimento, vou ver o que encontro.

Deixo David encostado na parede e caminho pela loja, atrás do balcão encontro apenas pó e algumas notas de dólares. Tem uma pequena escada que termina num alçapão, deve dar acesso ao telhado. Olho para David, sua respiração cansada, os olhos fechados, quem sabe encontro um modo de sair. Subo as escadas com minha faca na mão.

Encaro David mais uma vez antes de juntar força para segurar a faca firme com uma mão e erguer a tampa do alçapão com a outra. Olho por uma fresta, não vejo nada além de algumas caixas e uma luz fraca.

─O que tiver que ser será. – Digo em voz baixa erguendo a portinha de ferro de uma vez. Olho em volta e são caixas e caixas, subo e fico de pé um tanto curvada, tem uma pequena janela por onde a luz entra, só uma vidraça do chão as telhas.

Caminho lentamente por entre as caixas, paraliso apertando a faca quando vejo um corpo encolhido num canto, cabelos longos escondem o rosto. A cabeça encostada nos joelhos dobrados, tremendo demais para estar morto.

─Ei. – Digo baixo.

─Não tenho nada. Me deixa em paz. – A voz feminina chega até mim num sussurro de pavor.

─Não quero te machucar. Está sozinha aqui? – Pergunto olhando em volta. Em volta dela um pedaço de papel alumínio e uma garrafa de água vazia. Ela ergue os olhos. Acho que ouvir outra voz feminina a incentiva. É jovem, os olhos estão inchados, a boca machucada, os braços têm manchas roxas que começam a clarear.

─Não tenho mais nada, não sobrou ninguém.

─Tudo bem. Vou me aproximar. – Aviso chegando mais perto. – Meu nome é Ally, meu amigo está ferido lá em baixo, não quero te machucar, só entramos para nos esconder um tempo. A cidade está movimentada como nunca tinha visto.

─Nós... nós trouxemos eles, nos seguiram.

─Nós? – Pergunto me abaixando diante dela, seus olhos vão para minha faca. Com gestos lentos guardo junto a pistola. – Vê? Mãos limpas, não quero te ferir.

─Minha comunidade... um ataque, éramos trinta, quarenta pessoas, vindas de muitos lugares, fechados e seguros, sem mordedores, sem criminosos, até que os bandidos chegaram, destruíram tudo, mataram, roubaram, fugimos, seis... não, sete, chegamos a essa cidade.

─Eu sei que uma comunidade foi atacada, não foi a única.

─Nós ficamos num galpão, tentando juntar suprimentos, coisas úteis para fugir. A porta cedeu, muita gente, muito barulho, indo e vindo, morreram, cheguei aqui, me tranquei, ontem acabou tudo. – Ela não chora, está tão fora de órbita que fala com os olhos arregalados, como se fosse uma alucinação.

─Tenho um lugar bom, posso te levar comigo. Como se chama?

─Helen.

─Quantos anos tem Helen?

─Vinte e três. Não pode me levar, não pode nem mesmo sair. Não vê? Acabou, é o fim da linha, eles estão lá fora.

─Eu sei que estão. Meus amigos, minha família, eles virão me resgatar assim que perceberem que estou com problemas, vão me encontrar.

─Como vão saber onde está? É uma cidade, cheia de casas, lojas. Ninguém vem.

─Helen, os zumbis arranhando a porta, eles vão denunciar que estou aqui, meus amigos vão afasta-los e me resgatar.

─Quem seria tão estúpido? – Rio da ideia. Penso em todos eles sendo estúpidos e brigando para decidir quem vem, Scott com certeza, Kevin, Spencer, Paul e talvez Carl, só para poder jogar na minha cara que eu devia ficar em casa como uma boa garota enquanto os homens fazem o trabalho de homem.

─Tenho amigos estúpidos. Não se preocupe. Vamos descer? – Toco seu braço. Ela se encolhe assustada. – Tudo bem. Estou lá em baixo com David, ele está ferido, mantenha a calma, se sentir confiança desça.

Dou as costas a ela. Abro umas caixas, só caixinhas de música, bonecas, brincos, nada que possa ajudar.

─Ally. – Helen me chama, balança um saquinho na mão. – Primeiros socorros, nada demais.

─Obrigada. – Pego e desço correndo.

David está de olhos fechados, pálido, a mão já não segura firme o ferimento, quando toco seu joelho ele abre os olhos.

─Vou enfaixar, mesmo com o ferro aí, para estancar um pouco o sangue. Aguenta.

Quando passo a faixa ele prende a boca reprimindo um grito, suor escorre por sua testa e seguro a vontade de chorar, ele não vai resistir. Seco sua testa, ofereço água e ele toma um longo gole, sinto a garganta seca, não posso me dar ao luxo de beber ou vai faltar para ele.

─Aguenta David. – Ele apenas volta a fechar os olhos e me sento a seu lado.

O som do lado de fora é intenso, vez por outra a estante bambeia, não tem muito que possa fazer, só me resta esperar confiante e rezar para que dê tempo.

O dia vai acabando, David adormece, o sangue mancha a calça e forma uma pequena poça sob seu corpo, a luz enfraquece até que não reste nada para ver além da completa escuridão. Os gemidos tão constantes quanto sempre, mesmo em silencio eles sabem que estamos aqui, não desistem.

Toco a mão de David ao meu lado, ainda está quente. Puxo minha faca e a aperto em minha mão, saio do lado de David e me sento a sua frente.

─Devia fazer agora. – Ele diz num fio de voz. Puxo o ar com força e solto lentamente para evitar as lagrimas.

─Vai voltar para Nova Albany David.

Ele não responde. Podia fechar meus olhos, não tem nada para ver mesmo, é só a mais profunda escuridão. Assustadora e fria. Esfrego os braços tentando me aquecer.

Tento calcular quanto tempo vai demorar para um possível resgate. Chegaram sem mim. Calcularam que tinha algo errado, que me atrasei. Primeiro vão pensar que me escondi para esperar amanhecer.

Quando amanhecer vão em busca dos homens na fazenda, na esperança que eu chegue de volta em Terminus. Só quando voltarem, se voltarem é que vão pensar em mim e sair novamente. Dois dias. Preciso suportar dois dias. David não tem dois dias. Talvez eu não tenha. Sem água, com os zumbis forçando a porta.

Não vou desistir. Não sei fazer isso, já vi tanta coisa, já enfrentei tantos perigos. Eu vou conseguir. Penso em dormir, a ideia de pegar no sono e David morrer e se transformar não me permite relaxar. Mantenho meus olhos abertos.

Começo a pensar em tudo que vivi. Me lembro da morte do meu pai, foi há muito tempo. Quando os mortos pararam de aceitar o fim e resolveram continuar a caminhar.

Fugimos de carro. Meu pai, minha mãe, três irmãos. Ele se atirou no meio de um grupo deles para nos dar uma chance. Depois fomos perdendo e perdendo. Um por um. Sobramos eu e minha mãe. Ela se casou com Antony. Ele me ensinou a me defender, aprendi sobre luta, armas, caça, então chegamos a Terminus.

Um monte de gente tentando recomeçar. Nos juntamos a eles. Minha mãe e Antony morreram no mesmo maldito dia, de novo se atiraram sobre zumbis para me salvar. Numa busca por suprimentos. Eu tinha dezesseis, talvez dezessete. Carl me vem à mente. O modo como me apoiou. Protegeu.

Talvez tenha sido nesses dias que me vi apaixonada. Demorou para acontecer o primeiro beijo, um pedido oficial de namoro, por uns meses era só nosso amor, puro e doce. A primeira vez dos dois. A suave descoberta dos prazeres físicos.

Ainda posso sentir o sabor de seus beijos, os olhos azuis me fitando cheios de amor, Judy correndo com Scott a nossa volta quase adolescentes, sorrio com as memorias. Seco uma lágrima. Ele queria a esposa perfeita. A garota que lava suas calças enquanto ele aprendia a ser um líder. Não podia fazer isso, não podia permitir que mais ninguém morresse por mim.

Então eu continuei. Primeiro com Daryl e os mais velhos, mesmo sendo tão novinha eu era boa e sempre estava com eles, depois Scott foi tomando seu lugar e eu com ele. Toda partida uma briga, toda volta as pazes.

Ele não podia ter me feito escolher. Não era certo pedir isso, como podia ficar para trás? Meu trabalho sempre foi do lado de fora.

Não demorou um mês e ele estava com Kim. Linda e perfeita. Inutilmente perfeita, incapaz de matar uma mosca. Completamente dependente dele como ele queria. Foi difícil assistir. Doeu e ainda dói, mais ainda quando sem querer meus olhos encontram os dele e sei que ele me ama. Ainda me ama.

O dia amanhece. Quando posso enxergar David vejo sua fraqueza, a boca sem cor, os olhos fechados.

─David. David! – Sussurro chacoalhando ele, David se esforça para abrir os olhos, ao menos ainda está vivo. Faço com que beba mais uns goles de água. Esfrego suas mãos. Elas começam a esfriar. – Não se entrega David. Me ajuda.

─Desculpe Ally. – Ele balbucia esgotado. O alçapão se abre e Helen começa a descer, bem lenta e assustada. Se junta a nós em silencio.

A porta balança com mais força, ela salta para o canto, depois olha para David assustada.

─Eles vão entrar. – Ela diz baixinho.

─Não.

─Ele vai morrer e depois nos devorar.

─Shiu. Claro que não.

─Ela está certa. – David diz sem nem ao menos abrir os olhos.

─E eu armada. Sabe que não pode e não vai me ferir David. Então calem a boca os dois. Estão deixando os zumbis mais atiçados e gastando energia.

O silencio recai sobre nós profundo, as horas vão passando lentas, David agora deitado, molho sua boca mais uma vez com a água. Meu estômago reclama, ignoro, não tem outro jeito.

Quando a noite cai mais uma vez e só o que temos é escuridão e silencio Helen se afasta para perto da escada. Volto a segurar a faca. As horas escuras sempre são as piores, elas agigantam nossos inimigos, dão garras e chifres a eles. Tudo em mim treme, medo, frio, esgotamento, eles vêm, não vou desistir, não vou morrer aqui.

Meus olhos começam a querer fechar, minha cabeça pende para frente me despertando de breves segundos de inconsciência, talvez mais. Não sei dizer. Num desses momentos uma mão toca minha bota. Desperto apertando a faca e o gruído chega em meio a escuridão. Chuto com força, olhos arregalados para o completo breu.

Um vulto se precipita sobre mim, sinto a mão gelada me tocar e tateio o corpo morto de David que avança sobre mim até que sinto o que deve ser seu pescoço. Acerto a faca uma, duas, três vezes, o corpo cai ao meu lado e continuo a golpear num pequeno ataque de pânico, chuto o corpo e me arrasto para longe apertando a faca e tentando recobrar as forças e a razão.

Nenhum movimento, nenhum som. Toco minha pele para sentir se existe algum arranhão, não sei dizer. Tremo sem conseguir controlar meu corpo, os olhos abertos numa cegueira artificial insuportável.

Até que aos poucos o dia vem chegando, primeiro o ambiente vai ganhando contornos e formas, entre elas um corpo sob o piso uns metros de mim, depois a poça de sangue a sua volta, em minhas roupas, mãos, faca.

Quando a luz chega finalmente David está morto, tem várias perfurações na testa, têmpora e peito. Ao seu lado a garrafa de água. Agora pela metade, corro até ela. Abro tremendo, tomo um longo gole. Sobrevivência. No fim é só sobrevivência. Helen se balança sentada na beira da escada como se estivesse em uma crise de nervos, um transe qualquer, balanço a garrafa em sua direção, ela vem lenta e assustada, pega a garrafa, dá uns goles.

─Não vou morrer aqui Helen, eles vêm me resgatar.

Olho meu corpo agora com a luz do dia que entra pelas frestas de janelas. Nenhum arranhão. Me apoio na parede, os zumbis arranhando a porta e as janelas. Me encosto na parede e fecho meus olhos. Eles vêm.

Pov – Carl

Quanto tempo não abríamos covas, foi tolice achar que estávamos indo em frente, é sempre o mesmo maldito ciclo, termina sempre em covas. Kim nunca soube se proteger, esse era meu trabalho e falhei.

Solto a enxada ao lado da última cova. Seco o suor da testa. Os corpos de Kim, Annet e Bob enrolados em lençóis brancos. Minha mulher, eu tinha prometido a ela protege-la, eu nunca pude prometer ama-la, mas jurei protege-la e não fiz.

Um minuto e tudo acabou. Uma mordida tão simples, como pude permitir que ficasse tão perto? Depois de todos esses anos esse tipo de coisa não devia mais acontecer.

─Carl. – A voz do meu pai chega me trazendo paz. Como se ainda hoje ele fosse meu norte. Me movo até ele, caminho apressado, meu pai me abraça. Devia chorar, mas está tudo preso em mim.

Sinto o cansaço me dominar, estou cheio de ser o cara que dá o tiro de misericórdia.

─Pai. – Não consigo falar qualquer coisa. Só sinto seu abraço carinhoso.

─Sinto muito Carl. – Quando nos afastamos um grupo de pessoas já começa a se juntar. É hora de enterrar mais uma parte da minha família. – Quer dizer alguma coisa?

─Não.

─Quer que alguém...

─Pai. Só quero fazer isso em silencio. – Ele aceita. Spencer se junta a nós, Daryl também e depositamos os corpos nas covas. Fico buscando a tristeza da perda e só encontro a culpa por ter permitido que acontecesse.

Com a ajuda dos outros, começo o trabalho dolorido de derrubar terra sobre os corpos. Kim, minha mulher, minha amiga. Tentamos, não era amor, não precisava ser, era companheirismo, um cuidando do outro, decididos a seguir juntos apenas por que sozinhos o peso parecia dobrar.

Agora acabou, eu a perdi, como perdi tantos outros, não por que acontece, por que é a vida. Não é isso, não é uma fatalidade, é apenas a eterna vingança do universo sobre os que restaram. Nunca acaba, no fim é só isso, a morte fora de ordem, pode ser qualquer um, pode ser qualquer hora.

Doutor Chan com seu espirito pacifico se aproxima com as cruzes que levam os nomes dos mortos, desvio meus olhos em silencio enquanto ele faz a última homenagem registrando os que partiram.

Descanse em paz nunca fez tanto sentido como na era dos mortos. Vejo Scott surgir com uma mochila nas costas e seu rifle na mão, envolver Judy num longo abraço. Paul e Kevin com ele. Spencer seca o rosto depois do trabalho e pega seu rifle encostado no muro.

Caminho em direção a eles. Ally, ela não retornou. Não pode estar morta, não ela, Ally sabe o que faz, sempre soube, é forte, valente e decidida.

─Desculpe Judy, eu tenho que ir. Seja o que for eu preciso ver com meus próprios olhos. Ter certeza. – Scott dizia a minha irmã com olhos úmidos. – Ally é forte, não se rende.

─Ela está viva. – Me junto a eles. – Está viva e vou traze-la de volta.

─Carl...

─Vou junto Scott, eu posso, estou bem. Me dá cinco minutos. – Ele afirma, sabe que não vai me convencer a ficar. É tudo que me resta. Caçar Ally é a única maneira de permanecer de pé.

Ignoro todos os olhares, pena, surpresa, conformismo, que se danem todos, eu vou atrás de Ally. Entro em casa sem olhar para nada em especial, apenas troco a camisa suja de sangue, pego minhas armas, uma garrafa de água e alguns pães enfio na mochila e caminho de volta.

Scott ainda mantinha Judy em seus braços, ás vezes ela parece ser mais irmã dele que minha, mas entendo, cresceram juntos, cuidei deles tantas vezes. Nem sei por que estou pensando nisso nesse momento, acho que só quero afastar meus pensamentos de tudo a minha volta.

─Carl, acha que tem condições de ir lá fora?

─Pai, não tente me impedir, não posso ficar aqui. Sou capaz de me defender e ajudar. Não sabemos onde ou como Ally está.

─Talvez eu deva ir com vocês.

─Não. Você fica e ajuda a cuidar de tudo. Nunca se sabe o que pode acontecer, toda essa confusão, mais zumbis podem estar a caminho, as pessoas estão com medo. Nessas horas você é Rick Grimes, o cara que faz as coisas ficarem bem. Eles precisam mais de você e Daryl do que de mim.

Ele aceita, sabe que é verdade. Que a confiança e o respeito que conquistou ainda são o que move essas pessoas.

─Scott é o líder lá fora. – Meu pai me lembra. Nunca esqueço disso, ele conquistou essa posição e assim como respeita minhas decisões aqui dentro posso fazer o mesmo lá fora. – Não deixe que seus ímpetos coloquem todos incluindo Ally em risco.

─Estamos perdendo tempo pai. – Scott está ansioso, faço sinal que podemos ir e só então ele se solta de Judy e caminha ao meu lado.

─Vamos voltar até o ponto em que nos separamos. Deve haver alguma pista. Tenho certeza que ela está protegida em algum lugar a nossa espera. – Scott diz quando pegamos os trilhos.

─Me lembro que quando estávamos andando pela cidade um grupo de zumbis gruíam em uma porta. Pensei que sobreviventes podem ter andando por lá. Por isso todos os zumbis. – Spencer comenta.

─Pode ser. – Scott concorda. – Eles desistiram da porta e nos seguiram e tinham muitos pelas ruas, não foi a primeira vez que estivemos por lá, dessa vez as coisas estavam diferentes.

─Esses caras atacando as comunidades podem ter chamado zumbis. – Digo caminhando ao lado de Scott. – David é bom?

Don e Luke balançam a cabeça confirmando. É com isso que conto, sei que Ally é, e reconheço que errei em querer dela mais do que ela podia oferecer, errei quando achei que podia cuidar dela, não posso e a morte de Kim e sua mãe deixa isso mais do que claro.

Que bom que Ally sabe sobreviver, afinal é sobre isso, sobreviver, apenas sobreviver, nem sei mais por que. Nem sei se algum dia foi diferente.

Sigo caminhando em silencio, imerso em meus pensamentos, culpa, dor, arrependimento, tudo misturado e confuso, o medo sobrepondo aos outros sentimentos, eu não aguento perder Ally, estava satisfeito em apenas saber que ela existia, vê-la chegando e partindo, linda, forte e orgulhosa, de cabeça sempre erguida, com seu pavio curto e sua sede sem fim.

Eu podia ter agido diferente, mas ela também, se tivesse sido menos arrogante e independente talvez ainda estivesse conosco. Balanço a cabeça para afastar o pensamento fatalista. Ela está. Ally não me deixou. Ela está viva.

Ally luta por tudo que quer, menos por mim, aceitou o fim, mais do que isso, colocou o ponto final. A cidade surge pelo caminho que fizeram, todos nós nos tornamos atentos aos caminhos, as primeiras ruas vazias, até que um grupo de zumbis surge ao longe, não são muitos, mas fugimos assim mesmo, desviamos por ruas laterais, despistamos, derrubamos um ou outro pelo caminho até que paramos numa esquina quando um grupo de zumbis arranhava uma porta.

─Ela está lá. – Scott diz convicto. – Por que mais aquelas coisas estariam tão decididas tentando entrar?

─O que fazemos? – Paul questiona.

─Esperem. – Scott se dobra um pouco para olhar melhor, depois se volta. – Temos que tirá-los de lá para entrar. Não dá para dar a volta. Temos sinalizadores ainda?

Spencer se abaixa rápido vasculhando a mochila. Don caminha uns metros com Kevin para derrubar dois zumbis que se aproximavam.

─Dois. – Spencer balança os dois revolveres.

─Certo. Kevin sobe no telhado e dispara na direção contrária. Eles devem seguir em direção a eles, corremos e libertamos Ally e David. Kevin nos encontra aqui e voltamos.

─Só isso Scott, se não for o bastante? Se não funcionar?

─Vai funcionar. Kevin. – Ele se volta para o rapaz que já se organizava em busca de um modo de chegar ao telhado. – Tem umas janelas um pouco depois. Atire nos vidros, acho que os estilhaços devem chamar atenção. – Ele olha para mim.

─Paul e Carl ficam atrás, vamos derrubar qualquer coisa que ficar ou surgir pelo caminho, vocês têm que conseguir entrar, tirar os dois de lá e voltar. Não sabemos em que condições eles estão, então pode ser que precisem de ajuda. Só arrastem eles para longe, depois cuidamos do resto.

Nem discuto, quero mesmo ver Ally, ter certeza que tudo vai dar certo. Afirmo decidido.

─Vou subir. – Kevin toca o ombro de Scott. – Traz ela de volta Scott.

Os sinalizadores sobem pelo céu uns minutos depois, funciona, os zumbis começam a acompanhar, alguns mais decididos, outros menos, depois um tiro estilhaça vidraças e isso termina de convida-los, logo a porta está livre.

Vamos rente as paredes, se um deles nos notar então nada vai convence-los e logo vão estar de volta. Meu coração bate alucinado quando caminho com medo, dez metros, cinco metros, mais um estilhaço nos vidros e os zumbis continuam a caminhar hipnotizados pela esperança de conseguirem o que buscam.

A porta se abre antes de chegarmos, eu a vejo, surgir com a pistola na mão e uma garota a seu lado, uma apoiando a outra. Corremos para ajudar. Don tenta passar por ela em busca de David. Ela segura seu braço negando e entendemos.

Scott e Spencer vão atrás de nós, eu apoio Ally enquanto Luke apoia a outra moça e Paul vai na frente. Quando chegamos ao lugar onde Kevin nos espera Ally fraqueja.

─Aguenta. Vamos te tirar daqui. – Ela afirma. O peso do corpo todo sobre mim.

─Água. – Ela pede e eu retiro uma garrafa da mochila.

─Agora não. – Scott exige. – Temos que ir.

─Ela...

─Ela vai sobreviver. Vamos. – Scott tem esse jeito definitivo quando está do lado de fora. As coisas dão certo por que ele não deixa que sentimentos o dominem. A frieza com que age não lembra em nada o cara gentil e amoroso que é do lado de dentro dos portões.

Nos afastamos, Ally com dificuldade de andar, eu apoiando, alguns zumbis têm que ser derrubados, mas finalmente a cidade e suas ruas perigosas ficam para trás e estamos na floresta.

Dez minutos de caminhada intensa e só depois paramos. Entrego a água a Ally e ela começa a beber desesperada.

─Ei! – Scott tira a garrafa de suas mãos. – Calma Ally. – Ela o olha meio tonta. – Sabe que se beber tudo de uma vez vai passar mal. – Ele devolve a água a ela e Spencer tirava a garrafa da outra garota que fazia o mesmo.

─David... Ele não... – Ela tampa a boca, fica pálida e se solta de mim para no segundo seguinte vomitar.

─Eu disse. – Scott molha sua nuca. A outra moça se senta no chão cansada, Kevin dava a ela um sanduiche. – Não deixe que coma tudo de uma vez. Melhor? – Ally mostra a ele o dedo do meio, Scott ri.

─Estou legal. Vamos. – Ela pega a água de volta, finalmente me olha nos olhos, está aqui e está viva. – Obrigada por vir me resgatar. Não vai dizer que me avisou mil vezes que um dia aconteceria?

─Não. Vou te ajudar a andar. Posso? – Ela afirma. Passa seu braço mais uma vez por sobre meu ombro, retomamos a caminhada. Lenta e silenciosa, não sei o que aconteceu com ela e David, quem é essa jovem, ela não sabe o que eu perdi hoje, mas vamos caminhando de volta para casa. A culpa ainda não abandonou meu peito, mas divide espaço com o alivio.

Notas finais
Ally está salva, então agora vamos tratar um pouco da vida amorosa desse povo afinal eles merecem. BEIJOSSSSSSSSSSSSSSSSSSS