Apocalipse - A Era Dos Mortos

52 capítulo 52 - Cercados


Notas iniciais
Espero que gostem, amanhã posto outro, mas só à noite. Beijos

Pov – Mary

Daryl já deve estar a caminho, eu penso quando mais uma vez escrevo o nome de Scott numa folha de papel, a cada desenho que fazia me pedia para escrever seu nome, e ele fazia muitos desenhos, eu simplesmente não conseguia jogar uma única folha daquelas no lixo, guardava tudo, sei que é uma tolice, que nem posso garantir um amanhã para ele quanto mais recordações de sua infância.

−Oi! Carl me cumprimenta se sentando no beliche ao lado de Scott e sorrindo para o pequeno – Está triste porque não foi junto, não é?

−Um pouco, mas também estou feliz por poder ficar com ele, assim ele não chora, Beth me disse que quando não estamos ele chora o tempo todo.

−Acho que chora mesmo! Carl me conta.

−Vi que Michonne te trouxe mais quadrinhos, acho que ela fica caçando isso para você porque quando saio nunca acho nada assim!

−Ela é uma boa amiga! Ele me diz – Assim como você.

−Eu sei, e você está bem?

Ele dá de ombros, tira o cabelo crescido dos olhos, olha em volta depois sorri distraído.

−Tem muita gente aqui agora, muitas crianças! Ele me conta como se não soubesse.

−Muitas, de todos os tamanhos, fez algum amigo?

−Sim, o Patrick é legal, meio infantil, mas tudo bem, tem aquelas irmãs, Lizzie e Mika, mas Lizzie é meio louca, esse negócio de apocalipse deixa as pessoas meio malucas!

−Deixa mesmo!

−Ela parece não separar muito zumbi de gente viva sabe, fico meio preocupado com isso!

−Foi muito traumatizante para ela, perdeu a mãe, quase foi morta no meio da rua, assim como nós ela passou maus bocados lá fora.

−Mais um motivo para ela odiar essas coisas, não acha?

−Traumas Carl, cada um reage de um jeito! Ele meneia a cabeça, logo desinteressado no assunto.

−Mary, eu fiquei pensando, o Scott sempre fica com você ou o Daryl e pensei que poderia ler para ele as vezes, sabe só me sentar com ele lá fora e ler meus quadrinhos, quando estiverem ocupados, para ajudar.

−É um bom plano! Eu rio dele que me olha sério.

−Como assim?

−Seu pai quer que se envolva mais com as crianças, você não quer fazer isso, então pensou em unir o útil ao agradável! Brinco e ele cora – Fica lendo para o Scott, onde seu pai possa vê-lo, ele acha que está fazendo o que te pediu, e de quebra ainda põe sua leitura em dia.

Carl olha para o chão, sabia que eu estava certa.

−Desculpe! Me diz envergonhado.

−Adoro a ideia! Ele me olha espantado.

−Como disse?

−Scott precisa se acostumar a conviver com os outros, e acho que ler com você vai ser bom para ele, se isso te ajudar com o Rick que bom!

−Então está certo! Carl me sorri – Quem sabe a partir de amanhã, de preferência no horário da leitura da Carol, nem posso pensar em ser obrigado a passar por isso também!

−Feito, mas nada de quadrinhos muito violentos, seja mais brando, se é que me entende!

−Prometo! Ele deixa a cela com um largo sorriso no rosto.

Scott se aproxima com seus rabiscos, nem precisa pedir, eu pego o papel e escrevo seu nome, seus olhinhos brilham e ele volta para seus desenhos, nada de colo, choro, ou qualquer sinal de doença, um pequeno manipulador isso sim.

Pov – Daryl

O carro estaciona e só penso em saber como Mary e Scott estão, Rick e Hershel ficam exultantes com os pequenos animais, enquanto caminho para dentro ainda ouço os planos que faziam, deixo que o resto do grupo conte as novidades e caminho para Mary.

Só carrego o cavalinho na mão, esperando o sorriso de Scott e os olhos preocupados de minha linda garota.

−Achou a gente! Scott me diz assim que apareço na porta, acabo sorrindo para seu olharzinho feliz e depois busco os olhos de Mary, eles me sorriam por entre suas lágrimas de alivio.

No minuto seguinte estava em meus braços e eu a beijo, adoro sentir seu cheiro, e a trago mais para junto de mim, ela passa os braços por meus ombros, depois quando a deixo, apenas por que sei que precisa respira, está sorrindo de novo.

−Nem acredito que está aqui, estão todos bem?

−Todos! Respondo e nos afastamos, olho para Scott que estava de pé nos assistindo – E você garoto, tudo bem?

Ele concorda olhando fixamente para o cavalinho de madeira na minha mão.

−Que isso?

−Um brinquedo para você! Eu entrego e ele me sorri pegando o brinquedo.

−É meu?

−É! Ele se senta na cama – Como foi aqui, ele melhorou pelo visto.

−Amor eu acho que fomos ludibriados, ele não tinha nada, só não queria que fossemos, como fiquei ele simplesmente ficou tranquilo brincando o tempo todo.

−Esperto! Digo orgulhoso, errado, mas inteligente – E você?

Suspiro me sentando com ela no colo, Mary morde o lábio e quero fazer o mesmo.

−Bem, mas... – Ela desvia o olhar, depois me encara – Eu fiquei pensando, na verdade, quando está longe minha mente trabalha contra mim e pensei...

Já sei que vem a insegurança de Mary, a garota assustada e que não se sente no lugar certo que as vezes a domina.

−Não estou arrependido, não vou a lugar nenhum sem você e tudo bem se às vezes tiver que ficar com ele enquanto saio, ainda te amo como antes, nada mudou e a questão é, porque?

−Porque, fico pensando se não estou exigindo muito de você – Ela olha para o menino distraído com o brinquedo, seu tom de voz é baixo – Você nem diz o nome dele, chama de garoto, menino, parece que quer evitar se envolver.

Bingo, ela tinha razão era isso que eu fazia, suspiro.

−Ele também não diz o meu! Muito maduro de minha parte usar esse argumento, ela ergue uma sobrancelha surpresa.

−Acho que é por que não consegue!

−Eu sei disso, apenas esqueça o argumento, mas se quer saber trouxe porcos! Acho um bom momento para contar isso.

−Trouxe o que?

−Porcos! Ela fica confusa – Vamos mostrar para ele? Convido.

−Porcos? Scott está de pé me segurando pela mão completamente pronto – Vamos, vem.

Seguimos com ele que fica bons minutos assistindo os porcos tentarem fugir da caixa ainda na carroceria da caminhonete.

Quando entramos Glenn estava contando tudo sobre nossa saída, nos sentamos com eles no refeitório, Zack estava com Beth a seu lado, atento a história contada de maneira a parecer uma bela aventura, Glenn era bom nisso.

Eu fico pensando em como as coisas são boas agora, em como vão ficar ainda melhores com o tempo, e que posso sim dar uma esperança ao pequeno garotinho, me lembro da carta, do pedido da tia do menino de darmos uma chance a ele, sim ele teria uma chance.

Um mês de inverno, muito frio e nenhuma neve, mas as saídas estavam suspensas, tínhamos comida e abrigo, então não era necessário nos arriscarmos na rua.

−Daryl! Ouço Mary me chamar ainda pela manhã, eu estava de guarda no portão, uma dúzia de zumbis caminhavam pelas cercas e nada mais além disso, ela para ao meu lado – Quem vai te substituir?

−Sasha, que foi? Eu pergunto percebendo alguma preocupação em seu olhar.

−Scott não tem nada adequado para vestir, as roupas mal secam, ele não tem um casaco, seus sapatos estão apertados queria colocar duas meias para aquecê-lo, mas não cabe.

−Entendo! Olho para o céu, a maldita neve ameaçava cair a semanas, mas nada, nem um floco – Podemos sair, quem sabe só nós dois, pegamos a moto e vamos os dois, voltamos antes do fim da tarde se formos agora, quer fazer isso?

−Muito! Ela me diz me abraçando – Obrigada!

−Certo, peça para a Sasha vir, vou preparar a moto!

Ela me beija toda feliz e corre para dentro, quando a encontro Scott está com um bico enorme sentado na cama com Carl do seu lado, Mary carregava a besta nas costas.

−Quero ir! Scott choraminga me pedindo colo, eu o pego e ele esconde o rosto no meu ombro – Deixa!

−Não, mas se ficar bonzinho prometo... – Não sei o que prometer, ele me olha muito interessado na possível promessa.

−Desenhar comigo?

−Sim, muito! Respondo feliz com a promessa.

Devolvo o garoto para cama e Carl abre uma revista em quadrinhos, agora ele lê para o pequeno todos os dias e acaba que Scott prefere a companhia dele a ficar com Beth.

A estrada está vazia e me sinto livre sobre a moto, com Mary abraçada a mim, e o vento batendo em meu rosto, penso que se não tivesse sido um completo imbecil podíamos ter feito isso muitas vezes antes do fim do mundo, mas eu nem ao menos ousei me aproximar dela.

Agora o mundo acabou e um momento como esse é raro. O frio está cortante, mas mesmo assim é libertador estar ali.

A cidade se apresenta aos poucos logo a nossa frente, vamos entrar numa loja achar o que ela quer e correr para casa o mais rápido possível, não quero arriscar principalmente estando só nós dois.

O menino, ficaria arrasado se demorássemos. Desde minha conversa com Mary sobre ele e o modo como o trato esse assunto não sai da minha cabeça, mas eu não fiz realmente nada para mudar isso, continuo mantendo alguma distância dele, não que queira fazer isso, apenas não consigo ser diferente e Mary não percebe, mas se parece muito comigo, acho que ele merecia mais carinho, abraços, palavras doces, mas nos limitamos um pouco, e ele apenas se contenta com o que tem, embora seu olhar peça por mais.

Diminuo a velocidade quando entramos na cidade, vejo um zumbi caminhando perdido, dois ou três dentro de uma barbearia, batendo no vidro atentos ao som da moto e começo a achar que estar de moto não foi tão boa ideia assim, ela é mais rápida, mas muito mais barulhenta.

Vejo uma loja infantil, suspiro muito contente, cada um leva uma mochila vazia nas costas, paro a moto e descemos.

Nada de zumbis nas proximidades, mas sei que aos poucos eles escutam o som e começam a caminhar para nós, e quando saíssemos era possível ter um bom número deles mais próximos, o certo era, entrar, pegar, sair.

Olho para o pequeno edifício a nossa frente, um prédio de quatro andares, com pequenos apartamentos, quantas pessoas viviam em lugares assim, quantos mortos aquilo significava? Em volta, algumas lojas e mais um pequeno edifício ao lado.

−Seja rápida bruxa! Eu peço quando me aproximo da porta.

A loja estava quase intacta, crianças não eram prioridade nesse novo mundo, quase não se via nenhuma.

Abro a porta e entramos, Mary nem para como de costume para fazermos a varredura, eu faço isso enquanto ela vasculhava tudo encontrando aqui e ali algo que enfiava na mochila, depois ela me dá a mochila cheia e pega a minha vazia, coloca sapatos, mais roupas e alguns brinquedos.

Vou para a porta, zumbis surgiam dos dois lados da rua, a porta dos fundos faz um barulho alto e nos olhamos, ela se apressa em minha direção.

−Acha que dá para irmos? Mary me pergunta preocupada quando percebe o número de zumbis que caminhavam dos dois lados da rua.

−Não sei Mary, tenho medo de tentar passar por eles de moto e um... Sei lá, pode te puxar, nos arranhar!

−Amor se ficarmos aqui, eles vão derrubar essa porta de vidro! Ela me diz assustada — Sem contar que nem sabemos o que tem atrás daquela porta lá dentro!

Olho para o prédio a nossa frente, podemos nos esconder lá até eles se dispersarem, não pode estar muito infestado e no momento parece nossa única alternativa.

−Vamos entrar naquele prédio e esperar! Aviso – Por favor fique atenta, vamos correr até lá!

Ela concorda e corremos, desviamos de dois zumbis no caminho, empurro um terceiro a minha frente e forço a porta enquanto ela de costas para mim nos dava cobertura com a pistola na mão, rezo para ela não ter de usá-la queria abrir sem fazer muito barulho, para não chamar atenção dos zumbis do lado de dentro, acontece que não consigo.

−Amor! Ela me apressa e os zumbis estavam próximos agora, chuto a porta e entramos, estava vazio, ao menos o corredor de entrada e procuro prender a porta, pego Mary pela mão e subimos correndo para o primeiro andar, um zumbi caminhava em direção a escada eu o acerto com uma flecha, e sigo pelo corredor, quero um dos apartamentos da frente com vista para rua, onde podíamos verificar o movimento.

Chuto a porta de um dos apartamentos e entramos, era pequeno e cheirava a podre, um cheio insuportável aliás, passo o trinco e puxo um móvel para frente da porta.

Só então olho em volta, Mary estava com a besta em punho e andava pela sala, limpa para nosso alivio.

Vou para janela, um grupo de zumbis caminhava pela rua agora um tanto confusos, meio perdidos sem saber que caminho seguir e só posso esperar que um novo ruído os disperse, era começo de tarde, precisávamos dar um jeito de sair antes da noite chegar.

−Merda, porcaria! Reclamo irritado, porque fui inventar de vir de moto?

−Muitos? Ela pergunta.

−Sim, só nos resta esperar! Reclamo – Maldição! Penso em Scott nos esperando, no mundo de lágrimas que derramaria – Essa porra de fim do mundo sempre querendo nos destruir, era só para pegarmos uma porcaria de umas roupas, mas não, tudo tem que ser essa maldita correria!

Mary caminha mais para dentro do pequeno apartamento, eu fico andando de um lado para outro no meio da sala, vejo Mary caminhar para uma das portas e já ia dizer para não abrir, mas ela é mais rápida que minhas palavras, abre a porta reprime um grito, anda para trás, tropeça com o susto, cai e começa a se arrastar fugindo de algo, completamente perplexa.

Corro imaginando que só uma horda de zumbis presa no quarto poderia ter assustado tanto Mary a ponto de tirar-lhe o foco e a coragem que sempre teve quando o assunto eram mortos caminhando.

Quando chego o que vejo é o zumbi de uma garotinha de pijama rosa, coberta de sangue caminhando faminta e cega para Mary que estava encostada na parede de olhos arregalados, atrás da garotinha os restos de um corpo ainda menor, apenas ossos e o que restou de carne podre agora preta e fétida, acerto uma flecha nela que cai no instante seguinte, retiro minha flecha furioso demais para me dar conta da tragédia que aquele lugar presenciou.

Fecho a porta do quarto que Mary olhava hipnotizada.

−Quase perde a guerra para um maldito zumbi de meio metro! Grito com ela, a ideia de perder Mary por um descuido me tirando do sério, ela não diz nada, está ainda assustada demais para isso.

Eu já caminhava para ela quando a porta da frente começa a ser forçada, parece que o dia não estava nada fácil, corro até lá quando Mary começava a se erguer, olho pelo olho magico, felizmente essa coisa era útil, três zumbis tentavam a porta atraídos pelo nosso cheiro, ou barulho, nada que fosse um problema, não ainda, nem me dou ao trabalho de fazer nada, eles nunca passariam.

Me volto e Mary está de pé diante de mim, ainda muito abatida.

−Muitos? Ela me pergunta.

−Não, apenas três! Respondo caminhando de volta para a janela, lá em baixo tudo parecia igual – Sente-se Mary, vamos ter que esperar, não tem mais nada que possamos fazer! Ela me obedece, se senta no sofá ficamos calados ouvindo os gruídos e arranhões na porta da sala, o tempo todo nos lembrando da encrenca em que nos enfiamos, aqueles malditos não nos deixariam em paz até conseguirem o que queriam.

Estamos completamente cercados, presos em um apartamento com zumbis de todos os lados. O tempo vai passando, Mary está absolutamente silenciosa e eu sei que gritei com ela, fui insensível e tudo isso, mas acontece que não consigo evitar, só consigo pensar que quero tirá-la daqui, que quero voltar para o menino, que não aceito que ele passe a noite sentindo falta de nós.

O dia vai terminando, agora o barulho da porta me domina de um jeito que não consigo pensar em mais nada, Mary já vasculhou a cozinha, nem mesmo água, nada, tudo vazio, precisamos sair desse lugar.

Os zumbis do lado de fora não diminuem, não nos caçam, apenas gemem perdidos pelas ruas, alguns morbidamente parados, os olhos desfocados, gemendo frenéticos e desleixados.

O baque surdo na porta vai me ensurdecendo, meu andar cada vez mais pesado de um lado para outro da sala, não sei ficar preso, não sei esperar, e detesto saber que Mary está assustada e com saudade de Scott, mesmo que se mantenha muda encolhida no sofá.

O sangue ferve em minhas veias, chega dessa porcaria de batida na porta.

−Vá para o quarto Mary! Eu digo colocando a besta nas costas e pegando minha faca, uma hora vou ter que derruba-los melhor que seja agora.

Mary se levanta e deixa a sala atendendo ao meu comendo, nem vejo que caminho toma, estou focado na porta a minha frente, empurro o móvel quando ouço Mary fechar a porta e abro de uma vez a porta da sala, três zumbis se precipitam para dentro, estou furioso, empurro um enquanto acerto o outro e derrubo sobre o terceiro que fica preso no chão debaixo do corpo, eu acerto sua cabeça e me viro a tempo de derrubar o terceiro que já voltava para mim, arrasto os corpos para o lado de fora e fecho mais uma vez a porta.

−Malditos!

Pelo menos agora aquele inferno do barulho irritante termina, respiro cansado, olho pela janela, era noite, estávamos presos naquela porcaria de lugar, vou procurar por Mary, acalmar minha garota e tentar pensar num jeito de leva-la para casa.

Notas finais
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