Apocalipse - A Era Dos Mortos

77 Capítulo 77 - Sozinho


Notas iniciais
Olá pessoas, aqui mais um capítulo, não é totalmente fiel ao episódio, espero que gostem.

Pov – Daryl

Depois de assistir uns minutos meu passado queimar, sigo em frente com minha família, se pudesse ser um pouco honesto comigo mesmo teria que admitir que no fundo estou feliz que não me separei deles.

Mary poderia ter entrado naquele ônibus com meu sorvetinho e agora eu estaria morto, eles são tudo que tenho, não é como se só tivesse me restado eles, não, eles sempre foram tudo que tinha, mesmo antes, caminhamos o resto da noite, não quero parar, não é seguro, principalmente agora que sei que podemos construir algo, deve haver um lugar, qualquer lugar onde meu filho possa ter uma noite de sono, onde minha mulher possa descansar em meus braços.

Pego a estrada porque Mary está cansada e preciso carregar um pouco Scott, ela me entrega meu pequeno, ele nem se abala, se quer abre os olhos, apenas se aconchega, então ela ergue a besta, confio em Mary, quando se trata de zumbis é forte e corajosa.

Uma casa surge, olho para ela e penso que é o lugar que sonhei ter antes do fim, isolada, próxima da mata fechada, adoraria construir um lugar seguro ali, mas sei que isso é impossível.

─Vamos entrar e descansar um pouco! Aviso a Mary – Depois seguimos pela floresta.

─Melhor acordar ele! Ela me pede, sim, invadir uma casa é sempre um risco, não sabemos mais o que encontrar.

─Ei sorvetinho! Eu passo a mão por seus cabelos – Acorda! Sou cuidadoso, olho para Mary e aqueles olhos dourados brilham para mim, nem em mil anos vou entender como é possível.

Scott abre os olhos, me encara e depois olha em volta, pisca e então sorri quando vê a casa.

─Chegamos na nossa casa papai?

Queria dizer que sim, que essa era nossa casa, que seria seguro viver ali, mas não era e jurei não mentir nem iludir nenhum dos dois.

─Não, vamos só descansar um pouco, precisa ficar no chão.

Depois de coloca-lo no chão entre eu e Mary como de costume, seguimos para a casa, forço a porta, está apenas encostada, abro e o ambiente é escuro, parece silencioso, é pequena e isso é bom, uma sala cozinha e banheiro, da porta podemos ver toda casa, uma porta nos fundos, entramos e nada de zumbis, está revirada, tem marcas de sangue e posso imaginar o que aconteceu, fecho a porta, sigo para os fundos enquanto Mary abria os armários a procura de algo para comer, os fundos leva de volta a mata, parece limpo, fecho a porta, coloco proteção na da frente, prefiro fugir pelos fundos no caso de um ataque.

Mary banha Scott na pia do banheiro, felizmente ainda não está muito frio, ela o veste com a última roupa limpa que trouxe, ele fica sonolento depois de comer uma lata de frutas secas, não nos atrevemos a comer, apenas assistimos e é estranho pensar como Mary me transformou, agora assistir ele comer me é suficiente.

Scott adormece deitado num sofá velho e empoeirado, coça o nariz e acho graça, depois enfia o dedo na boca, me dá saudade dos bons tempos.

─Deixa ele! Mary me adverte antes mesmo de eu tentar me aproximar dele para tirar o dedo.

─Eu sei bruxa, no momento estou até gostando.

Ela se senta ao meu lado, passo meu braço por ela e ficamos em silencio assistindo o sorvetinho dormir, Mary está vestida com roupas limpas que encontro na casa, me deixou uma camisa limpa no sofá, me troco e verifico as portas e janelas, meu corpo está cansado, meus olhos pesam e volto para o sofá, cochilo uns minutos, umas horas, não sei, acordo com o velho barulho de mãos arranhando a porta, um solavanco.

Pego a besta e Mary já está com Scott no colo, num minuto estamos prontos, olho pela janela, meia dúzia de zumbis se aglomeram na porta da frente, poderia pega-los, mas estou cansado, e não quero correr riscos.

A porta dos fundos está limpa e saímos pela floresta, anoitecia mais uma vez, caminhamos rápido, entramos na floresta fechada e só diminuo uma hora depois, Scott pede colo, olho para Mary.

─Eu fico atenta!

Pego meu pequeno, depois da crise de culpa que passei as coisas agora estão melhores, me sinto mais esperançoso, seguimos pela floresta e quando amanhece, estamos diante de um cemitério, a nossa frente um casarão desses comuns aqui no sul.

─Acha que podem ter pessoas lá?

Mary me pergunta quando começamos a caminhar, Scott nos meus ombros e a besta nas minhas costas, ela com a dela, Mary cada dia está mais preparada, sabe rastrear, caçar e se defender, acho que de outra maneira não teríamos chegado até aqui.

─Se tiver dou um jeito neles! Aviso confiante.

─Ainda existem pessoas boas Daryl! Ela me critica, talvez exista, mas há muito que não encontro com elas, os bons morreram cedo.

Uma lápide chama sua atenção, paramos diante dela, coloco Scott no chão, sei que a mensagem faz com que se lembre de Hershel.

Amado pai, era assim que ela o via, o primeiro a poder tocar nela depois de mim, pego um ramo de flores e apoio sobre a lápida, é nosso pequeno funeral simbólico, uma homenagem para o homem mais honrado e digo que conheci.

Damos a mão e ficamos em silencio um instante, não é preciso palavras, depois seguimos em frente.

Chegamos a varanda, a porta está reforçada com madeira, mas não está trancada e abro o hall está vazio, bato no batente, assobio, nada, entramos, Mary segura a pistola, eu carrego a besta.

─Está tão limpa! Mary constata – Arrumada!

Realmente cada ambiente que vamos passando está impecavelmente organizado, o chão brilha, assim como os móveis.

─Alguém estava mantendo este lugar, ainda podem estar por ai, cuidado!

A casa era uma funerária, um corpo num caixão nos chama atenção, penso no choque de Scott, mas ele já viveu tanta coisas, não acho que isso seja um trauma para ele.

Toco a pele do rosto do morto e uma massa de maquiagem se solta, um zumbi por baixo da expressão tranquilo de um homem morto, no fim tudo como sempre foi, descemos uma escada e encontramos o lugar onde preparavam os mortos, mais um corpo sobre uma maca, vestido com terno e gravata, o rosto a espera da maquiagem.

─Alguém perdeu as bonecas.

─É lindo! Mary me interrompe, fico calado observando seus intensos olhos dourados transbordarem beleza e esperança – Quem fez isso se importava, queria dar um funeral a essas pessoas, se lembrava que essas coisas eram pessoas, não acha lindo? Fico calado um instante, a mulher mais perfeita que já vi, faço um movimento leve de cabeça, apenas aceitando, não sei se concordo, talvez seja apenas mais um entre as dezenas de psicopatas que sobraram por ai.

─Vamos olhar o resto da casa!

Chegamos finalmente a cozinha, tão limpa e bem cuidada quanto o resto da casa, abrimos portas em busca de comida, então abrimos juntos um armário e lá está ela, a comida.

─Pasta de amendoim, geleia, refrigerante diet, pé de porco, café da manhã de pobre!

─Parece ótimo para mim! Mary começa a recolher as latas, Scott está sentado numa cadeira observando de longe.

─Espere isso está muito limpo, nada de pó, alguém guardou isso a pouco tempo, vamos pegar um pouco e deixar o resto para o caso de voltarem.

Mary me sorri, tão linda e despreocupada, um minuto de paz.

─É como eu digo, ainda existe gente boa no mundo! Enfio um pouco de geleia na boca, dou uma lambida no vidro, ela franze o nariz daquele jeito Mary.

─Que nojo, olha o que vai ensinar seu filho! Brinca e sinto um baque é mesmo isso, meu filho, sou que devo ensina-lo, não sei bem se isso é sorte ou azar dele, mas é o que lhe restou.

─Fica aqui com ele, vou verificar tudo, arrumar alguma segurança.

Tranco toda casa, passo por todas as janelas e portas, arrasto alguns móveis, do lado de fora prendo um fio com latas amarradas para anunciar a chegada de zumbis, depois pela primeira vez em muitos dias sinto alguma segurança.

Encontro Mary na cozinha, sentamos juntos para uma refeição razoável, a melhor que já fiz na vida, depois seguimos para uma sala, um piano, um caixão, e cadeiras espalhadas dão um clima que ao mesmo tempo que é fúnebre me dá uma sensação de paz e tranquilidade.

Mary se senta diante do piano, Scott vai para seu colo, toca as teclas e um som cheio de energia e nenhum significado ecoa pela sala, reverbera na alma, diz muito sobre nós, muito energia, nenhum significado, como se não fizesse mais sentido viver, uma melancolia me invade.

Me deito no caixão, Mary me encara.

─O que está fazendo?

─É a melhor cama que já deitei em anos, não estou brincando.

─Mas não gosto de te ver ai! Ela diz tensa, minha garota, sinto falta dela, como nunca senti.

Desço do caixão, melhor organizar para podermos dormir um pouco, afastamos cadeiras, encontro algumas cobertas e travesseiros, coloco no chão, fazendo uma cama, melhor ficarmos na sala, de qualquer modo é sempre bom estarmos prontos.

─Papai vai dormir aqui comigo? Scott pergunta.

─Vou, sabe o que a mamãe tem na mochila? Ele me olha interessado – Seu cavalinho! Os olhos brilham e pela primeira vez acho que ele pode brincar um pouco, Scott pega o brinquedo.

─Ele chama Flame, cadê a Michonne e o Flame dela? Olho para Mary, seus olhos estão cheios de lágrimas, corremos tanto, passamos por tantas coisas, não paramos para pensar, contabilizar.

─Michonne e Flame estão por ai, correndo pela floresta.

Ele sorri, é suficiente para ele, se distrai com o cavalinho e Mary vem para meus braços, luta contra as lágrimas, me lembro das palavras duras que lancei a ela, me sinto culpado.

─Talvez ainda estejam por ai, desculpe se te fiz pensar o contrário.

─Está certo sobre isso, quero... mais do que isso, preciso acreditar que estão vivos, mas não podemos sair por ai numa busca insana quando temos Scott para proteger, ele é nossa prioridade, então só quero que estejam bem.

Eu a envolvo num abraço apertado, ela se recosta em mim.

─Mas sinto muito a falta do Carl, da Judy! Ela estremece – Eu estava lá, fui a primeira coisa que viu, arrisquei tudo, prometi a Lori e agora...

Mary não resiste mais e chora copiosamente, Scott fica olhando enquanto ela se esconde em mim e se entrega a dor de ter mais uma vez perdido a batalha.

Depois de um tempo as lágrimas secam, ela respira fundo, seca o rosto e se afasta, Scott corre para seus braços.

─Tá triste mamãe?

─Não, estou bem, que tal dormir um pouquinho?

─E os bichos não vem aqui?

─Hoje não filho.

Ele afirma e a abraça, nino meu sorvetinho cantarolando uma música antiga, logo ele está dormindo profundamente e então o coloco na cama, cobre Scott e se deita ao meu lado.

Envolvo Mary em meus braços.

─Sinto sua falta! Mary me diz baixinho.

─Também sinto a sua bruxa, mais do que imagina.

Me movo ficando sobre ela, nos olhamos longamente e então eu a beijo, não quero mais esperar, não sei se um dia teremos de novo um momento como esse.

─Eu te amo! Ela diz no meu ouvido.

─Ama nada, eu que amo mais! Ela ri, me dá saudade da leveza dos primeiros meses.

Nos entregamos a paixão, cheios de saudade, lentos e silenciosos, matando a saudade, chegamos juntos naquele lugar se nós dois conhecemos, que continua igual mesmo depois de tudo, depois a envolvo em meus braços mais uma vez.

─Podemos dormir como no CCD? Ela me pede.

─Sempre bruxa! Eu beijo seu pescoço, respiro em sua nuca, as coisas que Mary gosta e que eu nunca vou me esquecer, ela seca uma lágrima, dessa vez eu sei que é de saudade, entendo, me sinto assim também.

Pela manhã me sento na cama assustado, não devia ter dormido assim, apagamos os dois, sem nenhuma segurança, isso não pode mais acontecer, é um risco que não podemos correr, passo a mão pelos cabelos, Scott me olha abraçado ao carrinho.

─A mamãe está dormindo! Ele me avisa.

─Está, e você, está bem?

─É! Me responde como de costume – Eu tenho um cavalo!

─Tem, eu sei! Ele se aproxima.

Mary se senta assustada, depois quando nos vê respira aliviada, abraça Scott apertado.

─Foi um pesadelo.

Eu imaginei que fosse, seguimos para a pequena cozinha, nos sentamos para comer e o barulho das cordas na entrada me avisa de intrusos.

─Fica com ele! Aviso saindo com a besta, olho antes de abrir, parece um animal, destranco e lá está um cachorro – É só um cachorro! Tento me aproximar, está maltratado pelo tempo sozinho, só tem um olho, ele foge assustado.

Me viro e dou de cara com Mary e Scott.

─Disse que era um cachorro, Scott correu! Mary se explica.

─Fugiu, talvez volte, vamos comer.

Passamos o dia fechados na casa, vez por outra dou uma busca pela casa, o ambiente parece seguro, fico pensando se não poderíamos ficar, quem sabe um tempo, esperar que as pessoas que ali viviam voltem tentar um acordo, uma união.

Anoitece, Mary deixa a mochila pronta, Scott agora não larga seu cavalinho, sentamos para comer.

─Pensei em deixar um bilhete para agradecer a estadia, mesmo se ninguém mais aparecer eu gostaria de agradecer.

─Talvez não precise, pensei que talvez possamos ficar um tempo, e quando voltarem pode ser que fiquem furiosos, pode ser que não, vamos ver e então fazemos o melhor.

─Então acha que agora existem pessoas boas? Dou de ombros – O que te fe mudar de ideia?

─Você sabe! Eu digo, ela sorri – Você! Ela se emociona, me beija e então o cachorro começa a latir, escutamos barulho na varanda.

Scott iria gostar dele.

─Vou dar a última chance ao vira lata!

Caminho para a porta Abro um tanto distraído e zumbis se juntavam aos montes, empurro de novo tentando fechar é impossível detê-los.

─Mary! Mary! Grito por ela, nem mesmo minha besta está comigo, como pude ser tão descuidado, Mary me atira a besta, está com Scott, preciso dar a eles uma chance – Vai! Grito e sem conseguir manter a porta eu deixo que entrem.

─Daryl! Ela me chama.

─Pega o Scott, foge por uma janela, vai!

─Não vou deixar você! Sinto o desespero em sua voz.

─Vai para estrada, te encontro lá! Ela pode, eu sei que sim.

Corro chamando os zumbis que cegos por minha carma nem sequer se dão conta de que não estou sozinho, eu os levo para baixo onde um dia corpos eram preparados para seus funerais e sei que nesse momento é o mais longe de Mary e Scott possível, pego um dos equipamentos ali e empurro a maca com o corpo, acerto todos os zumbis que posso, mas são muitos e estão me cercando consigo sair no último instante e corro para fora.

─Mary! Grito tentando encontra-la em meio aos mortos que caminham perdidos, derrubo mais um, a noite está escura, mais do que o normal, sinto o desespero me invadir, preciso pensar, ela está com Scott, fez o que mandei fazer, foi para estrada, eu caminho o mais rápido que posso, preciso achar minha família, só isso importa.

Sou um caçador, rastrear é parte de mim, então me acalmo, me afasto dos zumbis e encontro seu rastro, sigo decidido, apenas Mary, conheço bem aquelas marcas, são as botas de Mary, tomei o cuidado de decorar suas pegadas, sempre achei que esse dia podia chegar, depois de um tempo vejo as marcas leves que Scott deixa com seu caminhar, ela o colocou no chão, diminuiu o passo porque se sentiu segura, continuo minha busca, a mata vai se abrindo um pouco, estou perto da estrada, Mary não se perdeu no caminho, agora conhece a floresta tão bem quanto eu.

Então quando chego a estrada, eu a vejo, está com Scott a seu lado, aponta a própria besta em minha direção, quando nota que sou eu abaixa a arma deixa que caia no chão e eu a abraço, pego Scott no colo, aperto os dois junto a mim.

─Pensei...

─Nunca, nunca vai me perder! É mais do que uma promessa, nos afastamos um pouco, estendo minha mão a ela –Pegue minha mão, eu estou bem aqui! Nos lembro da promessa nas primeiras semanas na prisão, quando Beth e sua voz de anjo cantava Tom Waits.

─Amo você! Ela me diz, depois olha para Scott – E você também sorvetinho.

─É! Ele concorda sorrindo – Papai achou a gente!

─Já disse, eu sempre acho!

Foram apenas alguns momentos de solidão, mais do que poderia suportar, não posso ficar sozinho, não mais.

Notas finais
E então, gostaram? Decidi não separá-los, ainda não me decidi se vão encontrar o grupo do tal Joe ou não, vamos ver como caminha a série, algumas coisas vou deixar para Beth e Arthur que também estão na estrada, já que decidi focar apenas nesses dois grupos por enquanto. Beijos