Apocalipse - A Era Dos Mortos
74 Capítulo 74 - Fugindo da prisão
Notas iniciais
Pov –Daryl
A noite começava a cair, estamos os três silenciosos, eu ainda não consigo processar realmente o que aconteceu, nem posso, não quero me entregar ao desespero.
Zumbis surgem na pequena estrada, temos uma criança, eles são muitos, com certeza atraídos pelo barulho da guerra que acabamos de travar na prisão, não posso parar para lutar, não ainda, olho para Mary que segura firme a mão de Scott, a floresta é nossa melhor chance.
−Vamos pela floresta! Aviso – Corra Mary, consegue carregar ele? Ela afirma com a cabeça, pego sua besta e a mochila, os zumbis cada segundo mais perto e então corremos, apenas corremos por entre as arvores, a vegetação mudando conforme nos afastamos cada vez mais fundo na floresta, as arvores frondosas dão lugar a pequenos arbustos nos permitindo ter uma visão melhor do que nos cerca, continuamos correndo, fugindo da prisão, dos mortos e do passado, de uma vida de sonhos que nunca poderíamos ter acreditado.
Mantenho Mary sempre a minha frente, ela está doente, o pequeno também, não temos mais nada, apenas a vida que o apocalipse insiste em tentar nos tirar, eu devia saber, nunca devia ter me deixado levar, nunca deveria ter acreditado.
Nos atiramos ao chão exaustos assim que nos sentimos livres do perigo imediato.
Preciso respirar um pouco, apenas isso antes de seguir adiante, assim que recupero as forças me ponho de pé, Mary faz o mesmo, segura firme a mão do garoto que assustado está simplesmente mudo.
−Vem, vamos achar uma clareira e fazer uma fogueira antes que fique escuro demais.
Mary apenas concorda muda, segue ao meu lado, agora com a própria besta em punho enquanto Scott segura firme em sua calça, andamos um pouco recolhemos gravetos e felizmente carrego um isqueiro, faço uma fogueira e nos sentamos silenciosos, o garoto tosse, tampa a boca assustado, olho para ele, Mary abre a mochila, oferece água e os remédios que trazia, fico grato ao menos por isso.
Estão abraçados, tão juntos que parecem uma coisa só, como pude ser tão cego, Michonne esteve certa, o tempo todo certa, devia ter seguido com ela, caçado o maldito e enfiado uma flecha em sua maldita cabeça de demônio, mas não fiz, preferi viver esse conto de fadas estúpido e aqui estamos nós, sozinhos, sem futuro, apenas esperando uma horda qualquer surgir sem aviso e nos devorar.
O garoto abraça ainda mais Mary, que silenciosa o conforta com um carinho nos cabelos, ele fecha os olhos, aperta firme, assustado, quando voltou a ser o garoto?
Quando deixou de ser meu filho e passou a ser apenas a criança perdida que tenho medo de amar e depois perder?
Me sinto culpado, uma culpa tão grande que me corrói a alma e me deixa sem fala e ação. Mary está silenciosa, me lembra a Mary de quando tudo começou, olho para ela que me encara silenciosa.
−Precisamos fazer algo? Ela me diz num fio de voz, me encara esperando por uma reação, não recebe resposta, não tem nenhuma, simplesmente por que não tem nada a ser feito, está tudo acabado – Precisamos fazer algo! Ela repete agora mais firme.
O garoto abre os olhos, me encara como se entendesse sua súplica, como se concordasse com ela, continuo ali, dominado pela culpa e a desesperança.
−Não somos os único sobreviventes! Ela me diz ainda esperançosa, era de se esperar que se sentisse assim, a principal discípula de Hershel – Não podemos ser. Rick, Michonne, podem estar por perto.
Não digo nada, apenas observo o fogo buscando um modo de fazer com que entenda que acabou.
−Maggie e Glenn podem ter fugido pelo bloco A. Eles podem! Ela diz com fé, sei que realmente acredita nisso, mas eu não, no momento só quero um tempo em silencio, um lugar fechado para colocar Scott numa cama, quero as grades fortes e os dias seguros, acho que só quero voltar no tempo e fazer diferente – Você é um rastreador, pode rastrear, vamos!
Sinto sua urgência, a Mary corajosa e forte que ela se tornou assumindo o lugar da garota perdida que sempre obedece, mas ainda não é o suficiente para me tirar da letargia.
−Logo o sol vai nascer, temos que ir agora! Continuo mudo olhando para ela, mas Mary está decidida, fica de pé e me desafia, segura a mão de Scott firme, pega a mochila e suas armas – Se não vai vamos sozinhos! Ela anuncia, eu realmente sei que Mary não vai a lugar nenhum sem mim, só quer me despertar, me fazer sair dali, continuo a observa-la a noite escura a nossa volta, o silencio assustador, tudo me diz que ficar ali realmente não serve de nada, mas não consigo me esquecer do que deixei acontecer, de todos que perdemos, Hershel sendo degolado, toda minha família perdida ou morta, a prisão, e ele, o garoto que um dia retirei de um frízer ali, sem abrigo ou esperança, minha culpa, apenas minha.
Ficamos nos encarando um tempo, medindo forças, essa é minha mulher, a garota que amo, sempre amei e sempre vou amar.
Scott solta sua mão, e caminha em minha direção, não fala comigo desde que saímos da prisão, na verdade não fala nada desde então, ele segura minha mão, olha de mim para Mary, não esconde o medo, sinto os dedos frios dele se apertarem a minha mão.
−Papai! Ele diz apenas, faz tudo voltar a minha mente, é meu, meu filho, meu sorvetinho assustado e carente, Mary tem razão, se sobrou alguém temos que encontrar, me ponho de pé.
−Está tudo bem! Tento tranquiliza-lo, apago a fogueira atirando terra sobre ela, pego minha besta e olho para Mary assisto seu alivio, seguimos em frente.
A noite nos guia, sim eu sou um rastreador e se temos uma pista posso encontrar qualquer um e Mary tem razão sobre o tempo, quanto mais rápido melhor, não tenho esperanças, mas ela quer fazer isso e não tenho intensão de carregar nenhuma culpa comigo. Já tenho o bastante disso por hora.
−Como você está? Pergunto baixinho enquanto caminhamos devagar evitando barulhos – Febre, dor?
−Estou bem, ainda tenho os remédios e acho mesmo que me recuperei! Meu sorvetinho está agora em seu colo, adoraria poder carrega-lo, mas nunca se sabe o que pode surgir e preciso estar em condições de protege-los.
−E ele? Toco a testa de Scott que estava adormecido em seus braços, está fresco embora a respiração esteja um pouco acelerada.
−Bem, vai ficar bem! Ela diz decidida, ficamos mudos mais uma vez.
O dia finalmente amanhece, é mais seguro assim, quando posso ver o que tem a nossa volta, continuamos nosso caminho.
Finalmente acho uma pista, pegadas no chão, me abaixo afastando as folhas, observo atento o que significam, Mary se aproxima com Scott que agora caminhava a seu lado, ficamos olhando o chão e o ambiente em torno das pegadas.
−Podem ser do Luke, ou da Molly! Ela diz cheia de esperanças, eles estavam todos juntos, todas as crianças, Luke, Molly, as irmãos Samuels e ela, nossa pequena bravinha, não quero pensar nisso, não consigo sequer imaginar o que pode ter acontecido com ela – Onde quer que estejam significa que estão vivos! Mary diz atenta a tudo.
−Não, significa que estavam vivos há quatro ou cinco horas! Aviso, detesto ser assim pessimista, mas não quero que ela crie esperanças tolas, são crianças e podem estar sozinhas, na floresta no meio da noite, que chances poderiam ter?
Continuamos a caminhar pela trilha, com certeza passaram por ali, Mary sempre segurando firme a mão de Scott, meu pequeno não me perde de vista, sei o quanto confia em mim, assim como sei o quanto está assustado, isso me dá ainda mais vontade de simplesmente esquecer essa busca e achar um lugar seguro para ele.
Acontece que Mary jamais vai aceitar isso, ela não pode desistir, não perde a fé, admiro isso mesmo sem entender, acreditar, sou um Dixon, coisas boas não duram muito para gente como eu, elas até acontecem, mas acabam, na maior parte das vezes antes mesmo de eu me dar conta de que aconteceram.
Com Mary foi diferente, logo vi o quanto ela era especial e depois veio Scott e então deixei acontecer e então estraguei tudo, sabia que estragaria.
Diminuo ao notar mais sinais.
−Eles aumentaram a velocidade aqui. Saíram com pressa, a coisa ficou feia mesmo.
Mary estremece com minhas palavras, Scott se gruda a ela um segundo, me olha tenso, mas ela logo se refaz, sorri para ele, depois me encara.
−Não mataria ter um pouco de fé!
Ela me reprende, sinto um cansaço me dominar, não tem porque ter esperanças, é tolice, nos fartamos disso e onde estamos agora, no meio de lugar nenhum.
−Fé! Eu resmungo – A fé não nos ajudou em nada – Eu olho em volta, sempre atento aos perigos e sinais – Não serviu de nada para Hershel! Me arrependo no minuto que digo, sei o quanto ele significava para ela, nos encaramos e ela está atordoada, me olha abatida, me recrimino mentalmente, babaca imbecil, ela já não teve o suficiente?
Me dá as costas, começa a recolher uvas, entrega algumas a Scott que mastiga ávido, continua a recolher.
−Scott precisa comer, e vão estar famintos quando encontrarmos eles.
Retiro um lenço do bolso, ofereço a ela para guardar as uvas, é meu jeito tosco e grosseiro de me desculpar, ela me entende, melhor que ninguém, me perdoa porque me conhece e ama, assim como eu a conheço e amo.
Depois de recolher as frutas seguimos em frente, Scott solto apenas a seu lado enquanto saboreia as uvas silencioso.
Seguimos em frente, o fato de Scott ser tão pequeno, de ter que estar sempre no colo ou andando devagar nos atrasa muito, torna a busca ainda mais longa e de algum modo inútil, mas vamos seguindo, de fato temos um rastro e até que Mary se convença não tenho escolha a não ser continuar a rastreá-los.
Encontro dois zumbis caídos, o corpo de um homem e uma mulher, foram abatidos a tiros, tem sangue nas folhagens ao lado, observo atento, Mary para do meu lado, Scott vê os corpos, mas mortos caídos e poças de sangue não são mais um problema para ele, o que o assusta são só que caminham, esses o apavoram, sei disso.
−O que foi? Pergunta Mary.
−Não é sangue de zumbi! Aviso, o que quer dizer eu não sei, alguém ferido, talvez mordido, difícil ter certeza, mas nada parece demove-la da ideia, Mary substitui Hershel brilhantemente no quesito esperança sem fim ou limite.
−A trilha segue em frente, deram cabo deles.
−Não. A rastros de zumbis por todos os lados Mary. No mínimo doze deles.
Ficamos ali, olhando a nossa volta em busca de mais alguma pista, algum detalhe que tenha nos escapado.
Então escuto um grito de Mary, me viro rápido, eu a vejo empurrar Scott para longe enquanto um zumbi a domina segurando firme seus braços, a faca que ela segura na mão fica inútil já que está presa, Scott chora, caído no chão, aponto a besta, mas Mary luta para tentar se livrar, e sei que posso acabar acertando ela ao invés do zumbi, largo a besta e pego a faca. Tudo numa fração de segundo, retiro o bicho imundo de cima dela, caímos os dois no chão então ela se aproxima, me viro com o zumbi sobre mim, ela enfia a faca em sua testa, atiro o corpo para o lado e me levanto, então Mary já está apertando Scott em seus braços, ele se esconde em seu ombro, chora baixinho porque sabe que o barulho atrai mais zumbis.
−Vamos! Eu digo apenas, não tem o que dizer, sempre soubemos que pode acabar a qualquer momento.
A trilha nos leva até os trilhos de um trem que atravessava a floresta nos velhos tempo de um mundo onde apenas os vivos podiam caminhar. Os gemidos nos chama atenção, ficamos um segundo assistindo a cena grotesca de zumbis se alimentando de carne ainda fresca, alguém foi morto a pouco tempo.
Olho para Mary com medo de como ela vai reagir, nos encaramos e armo a besta, precisamos chegar mais perto e ter certeza, vou na frente derrubando os zumbis, tão distraídos em comer que nem me notam.
A cena é grotesca, me aproximo, Mary mantem Scott nos braços, esconde a imagem que ficaria para sempre em seu inconsciente, fixo meus olhos buscando respostas, o que vejo é um pé de sapato de criança.
Mary se aperta a Scott, e se entrega as lágrimas, fico mais afastado, assistindo talvez o fim de suas esperanças, o desespero que a domina, meu coração dói por que não posso fazer nada, simplesmente nada, apenas seguir em frente.
As lagrimas de Mary assustam Scott, volto até eles e pego meu filho no colo, ela precisa desse momento, de finalmente quem sabe compreender onde estamos e que caminho temos que seguir.
Scott se esconde em mim, me aperta assustado.
−Está tudo... – Não consigo continuar, não está tudo bem, não vai ficar, decido que entre eu e meu filho não vai mais haver mentiras ou ilusões, não sei quanto tempo ainda temos, mas seja quanto for será sem mentiras e sonhos tolos.
Mary respira fundo quando mais um zumbi vindo da floresta surge na linha do trem, entrego Scott.
−Vai com a mamãe sorvetinho! Ele se abraça a Mary e seguimos em frente, apenas isso nos resta, quem sabe uma nova pista surja, um novo caminho, alguma esperança, por hora é só seguir em frente.
Caço um esquilo na floresta, anoitece mais uma vez, Scott não tosse mais, acendo uma fogueira, um fogo baixo suficiente para assar o esquilo para ele, Mary limpa o bicho, me lembra os primeiros dias na pedreira, chego a sentir falta disso, alimenta Scott em silencio, então depois de tomar os remédios ele adormece.
−Não sei quanto tempo ainda tenho que dar a ele os remédios, então vou dar até que acabe.
−E você? Ela fica calada um instante, depois me olha.
−Não sinto mais nada, ele precisa muito mais que eu.
−Está certo! Mary não parece realmente doente, está triste, cansada, mas não doente.
−O que vamos fazer?
−Não sei Mary, no momento apenas torcer para amanhecermos vivos.
−Não me chama assim, é tudo que tenho, seu amor e Scott, se continuar assim frio, distante, eu simplesmente não sei se posso continuar.
Olho para ela, Mary tem muita fé em mim, confia demais na minha força, mas não sei se restou alguma, estou tão esgotado, estaria morto por dentro não fosse meu amor por eles.
−Bruxa! Eu digo e ela afirma com a cabeça, arruma Scott em seus braços, mantenho o fogo aceso com folhas secas a nossa volta.
−Acho que precisa dormir, posso ficar de guarda um pouco.
−Não bruxa, você precisa, tem carregado ele a maior parte do tempo, está mais cansada que eu.
−É você quem mata os zumbis, nos alimenta, é você que mantem nosso filho vivo, preciso que fique bem, forte e desperto.
Olho para ela e só queria mais uma noite como aquelas que tivemos, sentir sua pele e seu perfume, me aconchegar em seus seios e deixar o mundo a nossa volta em suspenso, ela é minha vida.
Mary me encara, a luz do fogo deixam seus olhos ainda mais dourados, os envolventes e apaixonantes olhos dourados de Mary.
−Amo você! Eu a lembro, apenas quero que saiba, antes do fim quero que saiba, quero que continue sem jamais duvidar disso.
Eu não tenho medo, não tenho medo de nada, nunca tive, jamais vou ter, mas isso não é, nem nunca foi sinal de coragem, é apenas um fato, aceito o que a vida me manda, luto pelo que acredito, pelos que amo, mas se cair então tudo bem, fiz o que pude, mas isso não se aplica a eles.
Mary e Scott são um caso à parte, eles são todo meu temor, são minha emoção, minhas dúvidas e medos, minha fé e desespero, minha esperança e rancor, saber que o mundo pode me tirar eles me faz sentir morto, perdido e sem ar.
O silencio nos abate, domina, fico ali, olhando hora para o fogo, hora para Mary, apenas assistindo o tempo passar lento e aterrorizante, esperando que mais um dia amanheça.
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