Apocalipse - A Era Dos Mortos
51 Capítulo 51 - Balas e brinquedos
Notas iniciais
Pov – Mary
Essa mulher só pode ser maluca! Eu penso quando subia as escadas do bloco de celas depois de dar banho em Scott, ele estava assustado, era pequeno, mas não era idiota, tinha percebido a briga e não queria que tivesse passado por mais isso, mas fazer o que?
Esse era o mundo agora, eu não tinha escolha sobre isso, morávamos juntas e de algum jeito tinha que aprender a conviver com isso.
−Adorei o que fez hoje! Maggie me diz quando chego no topo da escada.
−Uma hora a pessoa cansa, não sou mais como antes, mudei muito, e gosto de quem sou agora.
−Eu também! Maggie abre um largo sorrido desses que dá para ver que são sinceros – E sou obrigada a admitir que o seu namorado é o grande responsável por isso.
−Com certeza, eu sei que toda essa coragem vem dele, de saber que ele está comigo, em tudo, isso é bom e sabe disso.
−Sei e por isso estou furiosa com a Beth, queria que ela soubesse, mas ela parece decidida a fugir de tudo, de que adianta ficar viva se você não vive, se esconde?
Maggie tinha razão, mas acho que isso Beth teria que perceber sozinha, e sei que ela vai, cedo ou tarde ela vai compreender isso.
−Ela um dia aprende!
−Eu vou descer e encontrar meu pai, ele quer que faça alguma coisa para ele.
−Ok!
Scott me sorri e pede colo, eu o pego e ele me envolve o pescoço, e eu poderia morder aquele par de bochechas.
−Cadê ele? Me pergunta.
−Daryl está ocupado, mas logo ele vem.
−Pode comer bala?
−Depois que jantar, e só uma, amanhã come mais.
Ele suspira, e se encosta em mim, está sonolento e não quero que durma, então decido dar uma volta com ele.
−Vamos procurar o Daryl? Ele concorda no mesmo instante.
Encontro Daryl ajudando Ty no bloco D ele acena quando me vê e me sento com Sasha.
−Ele se apegou mesmo a você! Ela diz fazendo um carinho em Scott, eu concordo com um movimento de cabeça – Pensei em sair de novo amanhã, o inverno parece que não vai ser fácil, imagino que logo teremos neve.
−Por mim tudo bem, acho que MIchonne deve estar voltando, ela não vai arriscar outro inverno na estrada.
−Acho que não, vou falar com o Daryl! Sasha me diz.
Conversamos um pouco e depois Ty se junta a nós, ele estava especialmente contente eu noto.
−Tudo bem? Pergunto e ele sorri.
−Meu irmãozinho mais velho está apaixonado! Sasha o provoca.
−Karen é muito gentil, gosto dela.
−Já percebeu? Ele brinca – Se até você já notou acho que o jeito é falar com ela!
Daryl se aproxima e Scott desce do meu colo no mesmo instante, puxa a calça dele que olha para baixo.
−Que foi? Ele pergunta sem conseguir esconder o constrangimento, sei que é difícil para ele se render diante de toda a doçura do menino.
Scott pede colo, ele o pega, o menino, coloca a mão na frente da boca, e se aproxima do ouvido de Daryl acho que pretende contar um segredo.
−Quero bala! Ele diz baixinho, mas posso ouvir.
−Certo! Daryl responde simplesmente – Vamos? Me chama colocando Scott no chão, me levanto e deixo o refeitório do bloco D.
É noite e antes de subir com Scott faço ele comer um pouco da sopa que estava sendo servida, depois de comermos eu o levo para cama.
−Não vai deixar o garoto comer a bala? Daryl me pergunta.
−Parece que sim! Eu acabo rindo e entrego uma bala para Scott, depois ele se senta na própria cama abraçado ao carrinho – Sasha quer sair mais uma vez amanhã.
−Acho bom! Ele responde.
Os dois olhavam para o saco de balas.
−Desistam! Eu aviso – Boa noite!
Resignados os dois se olham, não sei bem como é educar uma criança, mas deixar que se encha de balas antes de dormir tenho certeza não é boa ideia.
−Que merda! Daryl diz passando a mão pelo cabelo – Esqueci de avisar o Ty que ele precisa trocar a guarda com o Arthur.
−Sei falar merda!
−Sabemos disso Scott! Eu reprimo um sorriso e Daryl também.
−E sabe contar até cinco também, então uma coisa compensa a outra! Daryl me diz quando deixava a cela.
Quando volta Scott já dormia, e fazemos o mesmo, depois é claro de um longo beijo de boa noite que se estende um pouco para as coisas que Mary gosta e assim a noite vai longe.
A saída é adiada para o dia seguinte e depois para o outro, sempre parecia ter algo que impedisse o grupo e então Michonne volta, fico feliz em vê-la bem, sempre ficamos.
As coisas estavam calmas agora, o frio acalmava tudo, zumbis ficavam mais lentos, e nos dias de neve alguns até congelavam, o fato de não terem sangue correndo nas veias, pelo menos não como o nosso, devia ser o responsável por isso.
Mas se a neve chegasse nós também ficaríamos presos e então era melhor sairmos de uma vez.
O dia de sair amanhece congelante, Scott me pede colo assim que acorda, eu o pego e ele simplesmente não me deixa mais, come no meu colo e depois se encosta em mim abatido.
−Amor, acha que ele está doente? Pergunto a Daryl quando subíamos para nos aprontar.
−Quer que chame o Doutor S ou o Hershel?
Ele não tinha febre, não reclamava de dor, apenas estava quieto e pedindo colo o tempo todo.
−Acho que é melhor né, o Hershel está lá em baixo, vou falar com ele.
Daryl me acompanha, Hershel examina Scott, parecia tranquilo.
−Mary ele parece bem, se for alguma coisa não se manifestou, pode ser só manha mesmo, coisa de criança.
−Pode ser, acha que devo ficar aqui? Eu pergunto, não quero sair e deixar o garotinho sofrendo.
−Acho que sim, pelo menos hoje.
Deixamos a cela de Hesherl e seguimos para nossa, estou num grande impasse, quero ir, não gosto de deixar Daryl sair sozinho, mas não quero deixar Scott.
−Prefiro que fique! Daryl me diz assim que entramos na cela – Não vai se concentrar se estiver preocupada.
−Acho que tem razão.
−Eu tenho que ir! Ele me diz – Michonne está de volta ela te substitui.
−Certo! Respondo um tanto triste, gosto de fazer parte disso – Se cuida.
Meus olhos ficam subitamente marejados, ele me beija de leve.
−Não vamos fazer nada demais, é uma saída rápida, voltamos logo, vamos percorrer umas fazendas não muito distante, sabe que nunca vamos muito longe.
Eu concordo com a cabeça sem muita vontade de falar, ele me beija mais uma vez, depois olha para Scott.
−Tchau garoto! Bagunça seu cabelo e seria só isso, mas Scott lhe estende os braços, pede colo.
−Vou junto! Diz quando um relutante Daryl o pega no colo.
−Não pode, fica com a Mary e cuida dela certo?
−Certo! Ele volta para meus braços e ficamos sozinhos.
Não desço para me despedir de Daryl, nem quero vê-lo saindo sem mim.
Scott fica no meu colo mais um tempo, depois decide ir para a cama e fica brincando com o carrinho, eu o olhava pensativa e preocupada.
Minha cabeça começa a trabalhar, sinto medo, como não sentia a muito tempo, medo de algo acontecer com Daryl, medo de ele se sentir pressionado pelo garotinho, medo de perde-lo, afasto isso da mente durante todo dia, brigo com esses pensamentos, não quero ser de novo a Mary que tem medo de tudo, não posso, mas não consigo evitar.
Scott fica tranquilo e começo a pensar que ele simplesmente sabia que eu pretendia sair e por isso ficou grudado em mim, isso me assusta, de muitas maneiras, não posso me dedicar apenas a ele, e ao mesmo tempo quero fazê-lo feliz e sei que deixarmos ele deve apavora-lo, ele só tem três anos e já perdeu tudo, foi encontrado num frízer, isso deve ter causado todo tipo de traumas nele.
E para seu azar justo eu fui encontra-lo, eu que mal consigo lidar com os meus traumas, ele sorri para mim muito tranquilo quando percebe que estou olhando para ele e depois volta para seus desenhos.
Isso realmente é algo que preciso resolver, preciso fazer com que entenda que sempre vou voltar, mas como fazer isso se não tenho mesmo certeza disso?
Pov – Daryl
Arthur e Michonne passam todo caminho conversando sobre armas brancas, eu estava sentado ao lado de Michonne, olhando a estrada enquanto ela dirigia, minha mente completamente voltada para a prisão, pensando em Mary sozinha com o garotinho que podia estar doente.
Era um menino inteligente, carinhoso e tranquilo, ou talvez triste, acho que triste é a palavra mais adequada, ainda não estamos fazendo as coisas do jeito certo, ele ainda não sabe que é nosso, nem mesmo eu sei disso ainda, ele pede o tempo todo tenção, carinho, não é que não quisesse dar isso a ele, o problema é que não sei fazer isso.
Com Mary é diferente, sei dar carinho a ela, não tenho medo de envolve-la em meus braços, fazê-la rir quando está triste, brincar com ela como dois adolescentes, só para ver seus olhos brilhando e aquele sorriso largo, o nariz franzido...
−Cara devia se olhar no espelho! Michonne me desperta e olho para ela sem entender.
−O que? Pergunto de mal humor.
−Pelo amor de Deus, está com cara de bobo!
−Cuida da sua vida! Volto minha atenção para a estrada, ela balança a cabeça e continua a dirigir, cara de bobo, é isso que Mary conseguiu, me transformar num cara que faz cara de bobo e fica sonhando com a namorada só por estar umas horas longe dela.
Entramos numa pequena fazenda afastada da estrada, nada de zumbis, a casa era pequena, térrea e bem cercada, logo atrás dela havia um pequeno galpão, descemos todos e Maggie tenta ver pelas frestas.
−Ouviram isso? Ela pergunta.
−Ouvi, zumbis eu acho! Arthur comenta encostado na parede de madeira.
−Só se forem porcos zumbis! Maggie reclama – Garoto de cidade grande!
−Certo vamos entrar de uma vez, se são zumbis pegamos, se forem porcos tanto melhor! Eu acabo com aquela confusão e Michonne puxa sua espada, armo a besta, e Glenn abre a porta do galpão com um bom chute.
Maggie estava certa, porcos estavam presos num pequeno chiqueiro e nos olhamos contentes.
−Meu pai vai amar isso! Maggie nos diz sorrindo.
−Espere, não podemos pegá-los assim, vamos olhar se tem alguém na casa, não roubamos! Eu os lembro.
−Daryl... – Michonne começa, mas Glenn a interrompe.
−Ele está certo, alguém os estava alimentando, se tem dono não podemos levar.
Fechamos de novo e seguimos para a casa, eu dou a volta por ela, olhando portas e janelas, tudo parece tranquilo e entramos pelos fundos, uma porta apenas encostada, quando abro vemos um rastro de sangue.
−Ainda não está seco, deve ser de hoje ou ontem! Eu aviso passando o pé pelo sangue e seguindo a pista, chegamos a uma sala pequena, um sofá e uma mesinha, copos e pratos espalhados, comida velha, mas não de muito tempo.
O rastro seguia para uma outra porta agora fechada, eu me preparo, dessa vez é Arthur que a arromba, assim que a porta se afasta com a força do golpe posso ver um vulto na cama, a porta volta e depois a empurramos com calma, um zumbi se erguia da cama, um velho, cabelos brancos e roupa de fazendeiro, tinha uma mordida na perna.
Acerto a flecha e ele cai antes mesmo de conseguir deixar a cama.
−Deve ter ficado aqui bastante tempo, foi mordido a dois dias no máximo — Eu digo me aproximando, percebo isso pelo modo como as coisas estavam, os porcos ainda tinham comida, a comida dos pratos ainda não estava completamente azeda e a casa não tinha aquela poeira habitual que sempre encontrávamos onde quer que fossemos.
Vasculhamos tudo, levamos mais suprimentos e recolhemos os porcos, foi uma boa saída.
Antes de deixar a casa vejo sobre um móvel antigo um cavalinho de madeira, o garoto bem que gostaria de algo assim, eu o pego.
−Vamos para casa? Eu os convido quando terminávamos de colocar tudo nos carros, incluindo os porcos em duas caixas.
−Podíamos dar mais uma volta, ainda é cedo! Sasha comenta.
−Não, esses bichos fazem barulho, vamos leva-los, não quero arriscar perde-los.
E a verdade é que quero saber como está o pequeno, se está bem, se ficou doente, Mary está sozinha com ele.
Eles me olham, acho que sabem qual meu verdadeiro interesse.
−Daryl está certo, vamos embora! Maggie me ajuda e entramos nos carros.
Me sinto como nos primeiros dias na pedreira, quando deixava Mary para caçar, mas meus pensamentos ficam com ela, quero chegar logo e preciso admitir ao menos para mim, que quero isso por ela, mas também pelo pequeno.
Olho para o cavalinho de madeira que trago nas mãos, ele vai gostar disso.
Será que agora toda vez que saísse ficaria feito um idiota procurando balas e brinquedos? É o apocalipse afinal, não férias de verão, a culpa é toda da Mary, e daqueles dois potes de mel que são seus olhos, ela que me faz fazer todas essas tolices de adolescente apaixonado, é isso, a culpa é de Mary e que se dane, gosto de ser assim.
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