Apocalipse - A Era Dos Mortos
69 Capítulo 69 - Partida e chegada
Notas iniciais
Pov – Rick
A ideia de que existe um assassino entre nós não sai da minha cabeça, Tyreese acabou por colocar sobre mim a responsabilidade de encontra-lo, dei uma boa olhada em tudo, de certo modo isso me traz lembranças de um tempo que não sei se quero recordar, quando eu ainda era apenas um policial tentando levar a vida e fazer o que era certo.
Mas isso foi a muito tempo, agora sou um sobrevivente tentando fazer o melhor para minha família, me afastei das responsabilidades como líder, fiz por Carl e Judith, principalmente por ele, meu filho estava seguindo por um caminho que achei que não tinha volta o caminho que esse assassino percorreu e que nenhum de nós se deu conta.
A marca na porta me leva a crer que não foi um homem como achei no início, a mão suja de sangue era menor, uma mulher possivelmente e isso me leva a outra questão, quem entre as mulheres que temos aqui faria algo assim?
Tenho uma suspeita e isso é assustador, não quero pensar nisso, seria doloroso saber que ela chegou tão longe, mas o fato é que os sinais sempre estiveram presentes.
Sei de alguém que talvez possa me ajudar a desvendar isso, Mary é observadora, convive bem com quase todos, anda pelo mundo dos que se escondem aqui e pelo mundo dos que se arriscam lá fora, além disso já sofreu as consequências do que hoje vendo com mais clareza eram os primeiros sinais de que algo não ia bem.
Caminho até o isolamento, Hershel aparece no vidro e peço que chame Mary, ela aparece, o vidro é o lugar que escolhemos para nos comunicar com quem está isolado, seu pequeno está no colo, ela parece abatida e sinto pena quando vejo onde sua coragem e amor a levou, Mary está doente também, rezo para Daryl chegar à tempo.
−Sente-se bem? Eu pergunto e ela apenas afirma com um movimento de cabeça, não quero incomoda-la por muito tempo e decido ir direto ao ponto – Sabe o que aconteceu não é? Com Karen e David, como morreram?
−Sei, assassinados e queimados.
−Mary, tem ideia de quem fez isso? Ela me olha, reflete por um tempo.
−Não está fazendo essa pergunta por ai, está?
−Não! Eu respondo.
−Então se veio direto a mim é por que já sabe a resposta, se quer uma confirmação acho que deve apenas perguntar a ela, se bem a conheço não vai mentir, ela acha que está certa.
Fico olhando para Mary um tempo, ela passou por maus bocados na vida, mas sempre se refaz, o pequeno tosse em seus braços, ela acaricia suas costas.
−Obrigado Mary, vá descansar, Daryl é um guerreiro, vai chegar, não se preocupe! Ela concorda e me deixa.
Eu continuo meu dia que está ainda começando, salvo Carol de ser atacada por zumbis do lado de fora, tem algo em seu olhar que me faz pensar que ela mudou, me lembro de Carl me contar que ela anda ensinando as crianças a se defenderem, posso aceitar isso, ela perdeu Sophia, nem sei como foi passar por algo assim.
Mas também desrespeitou o conselho, passou por cima dos desejos dos pais das crianças, perdeu os limites sobre isso, pode ter ido mais longe sobre qualquer outra coisa.
−Carol – Eu a chamo – Você matou Karen e David?
−Sim.
Ela me responde com naturalidade, Mary estava certa sobre isso, é um baque para mim ouvir, pelo tom que usou, pelo peso da decisão que tenho que tomar a partir disso.
Eu decido sair em busca de remédios e suprimentos, algo que possa ajudar aquelas pessoas até Daryl voltar e levo Carol comigo, preciso ter certeza antes de fazer o que vou fazer.
Ela me questiona sobre estar comigo, sobre não confiar mais nela e está certa, eu não confio, a pergunta é, ela faria se fosse Judith ou Carl?
Achamos um lugar, encontramos dois sobreviventes e o tempo todo ela me dá sinais de que realmente mudou, me sinto um estúpido por não ter me dado conta antes.
Está fria como gelo, sua desculpa é que fez por todos, mas isso está longe da verdade, talvez ela acredite mesmo nisso, ou esteja apenas querendo me ludibriar, mas Carol fez por ela, pelo lugar, não pelas pessoas, se sua preocupação fosse as pessoas então faria como Hershel, tentaria um remédio, mas ela passou por cima de tudo e foi pragmática.
Carol a mulher que ela se tornou, resolve problemas de forma simples, faz o que tem que ser feito para conseguir o que quer, não enxerga o mal, e isso a torna um perigo.
Quando incentiva dois jovens claramente indefesos a nos ajudar numa busca por remédios e suprimentos eu a enxergo como realmente é agora, e por mais que doa já sei o que tenho que fazer.
A mulher subjugada pelo marido, a mãe assustada que chorava pela garotinha perdida na floresta está definitivamente morta, restou magoa e egoísmo.
Carol em sua defesa compara o que tive que fazer com Shane ao que ela fez agora, essa comparação nunca poderia ser feita, os motivos e a época as torna opostas, ela está exigindo de mim a liderança que sempre relutou em aceitar.
Eu sei que para ela Daryl seria o líder ideal, mas ele mesmo sempre discordou disso, se é um líder que ela quer é o que vai ter e se tenho de novo que tomar a decisão então ela vai ter que conviver com suas escolhas como eu convivo com as minhas.
Saímos da casa, colhemos tomates e conversamos sobre o passado, Ed, Lori, e Sophia ainda que ela relute em falar sobre isso, eu estou caçando a velha Carol mas não encontro nada lá, nem mesmo seu olhar é o mesmo.
A moça que acabamos de conhecer está morta, tudo está acabado para eles, e precisamos voltar, ou eu preciso, começo a preparar o carro é hora de pôr um ponto final numa história que começou a muito tempo, numa pedreira, quando éramos inocentes e achávamos que tudo um dia ficaria bem, quando nós dois ainda tínhamos tudo.
−Eles poderiam ter sobrevivido. Eu não vou te levar de volta!
Eu digo quando ela faz menção de entrar no carro.
−Karen e David poderiam ter sobrevivido e agora estão mortos, não era uma decisão sua. Quando Tyreese descobrir ele vai te matar.
Carol me olha espantada, acho que já entendeu para onde estamos indo.
−Eu posso lidar com Tyreese.
Me responde agora sem tanta convicção.
−Quando os outros descobrirem eles não vão querer você lá. E se eles não se recuperarem, se todos morrerem disso, se só sobrar nós dois com Judith e Carl, meus filhos... – Deixo isso claro, meus filhos, minha decisão, não dela – Eu não vou querer você lá.
Me dói fazer isso, não com essa mulher diante de mim, essa é fria e rancorosa, mas com aquela que conheci no passado.
−Rick, sou eu.
Ela acha que está acima das regras da prisão, do conselho e de tudo que nos mantem, apenas por que estamos juntos desde o começo, como se isso lhe desse mais direitos do que os que chegaram depois, como se fosse imune.
−Ninguém mais precisa saber, achei que você tivesse parado de tomar decisões por todos.
Ela me acusa como se não tivesse feito ela mesma exatamente isso, tomado decisões por todos.
−Estou tomando essa decisão por mim.
−Eu poderia ter fingido que tudo estava bem – Ela chora enquanto tenta me convencer – Eu não fiz isso, eu tomei uma decisão, eu tinha que fazer algo.
−Não, não tinha.
Agora ela apela para Lizzie e Mika, não vou deixar as duas com ela, Carol vai seguir sozinha de agora em diante.
−Você não é mais aquela mulher frágil, vai se virar bem, conhecer novas pessoas, recomeçar onde ninguém saiba o quão longe você pode ir. Vai sobreviver ai fora.
−Talvez.
Acabo de arrumar as coisas, ela tem arma, munição e suprimentos, Carol vai ficar bem, se acostumar, ela é forte e decidida e na verdade seu grande problema é ter perdido a única coisa que achou que um dia poderia ter, Daryl, mas nem isso tem mais muita importância para ela, ou não aceitaria assim minha decisão.
Acho que no fundo ela nunca o quis, o que importava mesmo era tirar Mary do caminho, Daryl e Carol nunca estiveram tão distantes como agora, ele está na missão mais difícil de sua vida em busca de uma chance para os doentes, ela não pensou duas vezes em tirar a vida de dois deles, não, os fins não justificam os meios, não era assim antes e não é agora.
Eu assisto sua partida, ela sabe o caminho de volta se um dia se sentir pronta para viver de novo como nós vivemos, protegendo os vivos a qualquer custo.
Pov – Arthur
Estou enlouquecendo aqui dentro, não acredito que enquanto está todo mundo lutando por algo eu fico andando de um lado para outro dessa porcaria de sala, uma noite inteira disso.
Daryl ainda não voltou e nem mesmo sabemos se vai voltar, Rick saiu com Carol, Maggie está sozinha lá fora e eu aqui preso.
Mesmo estando com Beth e principalmente por causa dela queria estar sendo útil, Judith está em seus braços e ela fica ainda mais bonita e delicada com um bebê no colo.
Fico assistindo o tempo passar e as coisas acontecerem a nossa volta. Beth fica o tempo todo com o bebê nos braços cuidando e protegendo.
Seu pai deixou o isolamento, Glenn que parece ser muito importante para ela está doente, e ela continua firme como uma rocha, ou finge bem, conversar com a irmã a abalou um pouco, na verdade muito, foi a primeira vez que vi Beth chorar desde que cheguei aqui.
A morte de Zack nos uniu de novo, ela me olha caminhar e sei que isso está irritando ela, mas não controlo minha ansiedade.
−Não nasceu para ficar preso não é Arthur? Ela me pergunta e paro de andar, temos conversado muito desde que nos fecharam aqui.
−Não! Respondo me sentando com ela – Essa coisa toda de apocalipse, desde que tudo começou estou nas ruas e me acostumei.
−Você é forte, ainda que seja tão jovem é forte e decidido, isso é bom, por isso ainda está de pé.
−Você também é uma lutadora.
−Não, eu sou protegida, tem um monte de gente garantindo que eu esteja viva, minha família toda.
−O que só prova o quanto é importante para eles e o que está fazendo agora, cuidar dela, isso é importante também.
Judith está tranquila em seu colo, acostumada a ele, não parece perceber o que se passa a sua volta.
−Estou com medo, não devia, me decidi a apenas agradecer por ter conhecido as pessoas e não chorar mais por elas, mas dessa vez é diferente.
−Porquê dessa vez não são só pessoas, é sua família como costumam dizer.
−Somos mesmo uma Arthur, Daryl e Mary, Glenn, Rick, Carl, Judith e Michonne, passamos por coisas grandes juntos, Maggie e meu pai não são mais importantes que os outros, são tão importantes quanto eles.
−Zack? Eu sei que não devia tocar nesse assunto, mas acontece que não entendo sua postura firme quando ela o perdeu, achei que seria mais dramático.
−Ele me fazia rir, era alegre e engraçado e gostava muito dele, tanto que não tive coragem de fazer o que era certo.
−E o que era certo? Pergunto sem compreender sua posição.
−Dizer a ele que não o amava, que não queria continuar com aquilo.
Meu coração acelera um pouco, então Beth não estava feliz, não queria ficar com ele, eu quase posso ficar esperançoso.
−Achei...
−Nunca, eu sempre soube, mas achei que viver um relacionamento assim mais leve sem grandes sentimentos me faria sofrer menos caso algo assim acontecesse, não foi o que aconteceu, foi difícil perde-lo, mas por outros motivos, por ele e não por mim, entende?
−Sim, eu entendo.
Ficamos em silencio, é noite e não acredito que Daryl ainda não voltou, isso só pode significar que ele não vem mais, olho para ela, é tão linda e delicada, quero muito proteger Beth, posso entender porque sua família a mantem assim sempre protegida, é só olhar para ela que dá vontade de cuidar e proteger.
Estava quase tomando coragem para dizer o que sinto quando escuto Rick chamar Carl, se ele precisa da ajuda do menino então as coisas estão difíceis e não vou ficar aqui e esperar tudo ruir.
−Desculpe Beth, mas tenho que ir, nesse momento sou mais útil lá fora.
−Eu sei! Ela me diz com olhos marejados, eu podia beija-la agora, mas não faço isso, apenas sorrio – Se cuida!
Eu concordo e depois saio finalmente do maldito isolamento, caminho para fora ouvindo uma pequena confusão e perplexo assisto as grades cederem enquanto Carl e Rick ainda estavam lá.
−Merda! Eu praguejo correndo, os dois conseguem fugir e chegam junto comigo até onde deixamos nossas armas, estrategicamente prontas, a verdade é que a muito tempo esperamos por isso, eu ao menos desde o dia que pus os pés nessa prisão.
Eles estão forçando as grades, ela vai cair muito rápido e só nos resta lutar, somos três, eles são um pequeno exército, mas um exército de idiotas que caminham em direção a um fuzil sem reconhecer seu perigo, que se dane, vamos mata-los então.
Rick dá algumas instruções a Carl, eu me preparo, nenhuma dessas coisas vai chegar nem perto de Beth, vão cair um a um antes disso.
Finalmente a cerca cai e começamos o show, atiramos derrubando um por um, eles vem em nossa direção, ávidos e famintos, sempre incontrolavelmente famintos.
Atiramos e atiramos, Carl se mostra firme, sério, é um menino valente e determinado, acho que Rick sente orgulho, é o que parece quando o pego um segundo assistindo ao filho crescer.
Com meu pai foi diferente, eu tinha dezesseis anos e sai pela primeira vez para buscar uma garota para o baile, estava dirigindo meu próprio carro e ele me olhou do mesmo jeito, pena que agora as coisas sejam tão diferentes.
Então estavam todos caídos, e agora começamos a verificar se estão mortos, acertando um ou outro que ainda se mexia, seus gemidos nos avisando.
É estranho como simplesmente nos esquecemos que um dia ali dentro daquelas coisas existiram pessoas e sonhos, vida e esperança, agora é só fome e movimentos mecânicos.
Não pergunto sobre Maggie ou o que se passa lá no isolamento, acho que tenho medo da resposta.
−Pai? Carl chama sua atenção, somos apenas suor e cansaço – Tudo ficará bem!
Me viro e vejo um carro chegando, ele conseguiu, Daryl finalmente está de volta e sei que com certeza traz o que foi buscar, afinal Mary está lá dentro e ele nunca deixaria de lutar por ela.
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