Apocalipse
6 Praga dos Três Dias
Notas iniciais
Depois do sufoco passado naquele inicio de manhã, o grupo finalmente pôde fazer uma pausa. Cerca de 8h e 30min. O céu estava do mesmo jeito, nublado, mas o vento estava forte e úmido, fazia as folhas das árvores que cercavam aquela estrada voar por todos os lados. O vento trazia o cheiro da chuva – mas parecia estar distante.
Lizzie estava irritada e preocupada ao mesmo tempo, tinha usada toda a sua munição no incidente daquela manhã fria. Saltou do compartimento da picape e, com a cara fechada, foi falar com Charles:
— Eu espero que você tenha uma explicação plausível para isso! – seu tom de voz era alto e soava rude.
O homem, por sua vez, tremia e suava frio, era visível a aflição e o pavor que se instalava em seus olhos, por de trás dos óculos. Tudo aquilo teria sido causado pela agitação daquela manhã? Ele estaria bem psicologicamente – e fisicamente? Para a jovem, isso não lhe importava.
— Eu... Não me sinto muito bem... – ele disse arfante, e com certa dificuldade.
Lizzie abriu a porta do carro e o mandou sair, com certa impaciência. Charles saiu cambaleando, suas pernas estavam bambas. Nick desceu em seguida, com ar de preocupação, apressado, foi ajudar o companheiro. A ruiva apenas observava, desconfiada, com os braços cruzados. Permaneceu em silêncio.
— Calma, calma. – Nick disse enquanto abria a porta de trás do carro para que Charles pudesse se sentar. – O que aconteceu?
— Eu... Eu saí pra procurar água e acabei encontrando um bando deles... Mas está tudo bem, eu não fui mordido. – sua voz estava trêmula. Lizzie tinha dúvidas sobre suas palavras, seriam totalmente verdadeiras?
A verdade é que a jovem não conseguia confiar nas pessoas, então se ela não confiasse era o mesmo de não se importar. Enquanto Nick ajudava Charles, Lizzie apenas observava, vez ou outra revirava os olhos. Logo Charles se acalmou, mas Nick achou melhor que ele não dirigisse mais naquele dia:
— E como seguiremos viagem? – o garoto perguntou.
— Dirigindo? – ela disse em tom irônico.
— Eu não sei dirigir...
— Eu não falei que você vai dirigir.
Lizzie pegou sua mochila no compartimento, se pôs atrás do volante, ajeitou o banco e os retrovisores e fechou a porta.
— Você sabe dirigir? – ele questionou duvidoso.
— Se eu sentei aqui...
— Então tá...
Nick sentou no banco do passageiro e pôs o cinto, para provoca-la. Ela revirou os olhos e colocou seu walkman pra tocar, uma musica calma. Deu partida no carro.
***
Lizzie acordou com a luz do sol em seu rosto. Estava no banco de trás do carro, sentada, com a cabeça encostada no vidro. Uma música calma e agradável tocava na rádio. Seu pai estava atrás do volante, e no banco do passageiro Steven observava a paisagem. Ela voltou a olhar pela janela: estavam seguindo por uma estrada de terra, rodeada por várias árvores, Lizzie achou muito bonito. Abriu o vidro para sentir a brisa fresca daquela manhã de sol – que não estava forte.
O barulho chamou a atenção de Steven:
— Bom dia, Mão Leve! – ele a cumprimentou.
— Bom dia Steven, bom dia pai... – ela esfregou os olhos.
— Suponho que esteja com fome... – disse seu pai, olhando-a pelo retrovisor. – Já estamos chegando, aí você poderá tomar café em uma padaria ou algo assim.
Ela assentiu com a cabeça e voltou a olhar pela janela. As flores caíam das árvores, colorindo a estrada e espalhando seu suave aroma, os pássaros cantavam, avisando que havia amanhecido. Parecia ter vários deles, todos escondidos nas árvores. Ela viu também alguns esquilos e coelhos que eram tão ligeiros quanto ela.
— Você gosta de paisagens assim, não é? – Steven perguntou, fitando-a pelo retrovisor.
— Sim... É simples, calmo e bonito... É algo para se apreciar, porquê um dia alguém destruirá tudo isso, toda a vida que flui na floresta, a flora, a fauna... Certamente já está sendo destruído, com a poluição, desmatamento...
— Isso foi profundo... – ele disse sorrindo. – Você seria uma boa filósofa.
Ela sorriu.
— Quem sabe um dia? – e volta a observar a paisagem.
***
No outro dia de manhã, Charles estava aparentemente melhor, mas era Lizzie que estava atrás do volante, ainda. Embora parecesse estar se recuperando, o homem estava pálido e suava frio. A ruiva mantinha suas suspeitas.
O grupo já estava em Toronto, só era possível confirmar isso porque Nick avistara uma placa com essa informação. Ela questionou o fato de terem que dar toda essa volta – porque era mais fácil ir à direção do Sul, e estavam indo à Sudoeste – e Nick lhe explicou que havia uma barreira feita por outro grupo, estes que, além de saquear quem passasse por ali, matavam.
Lizzie podia sentir o cheiro do mar, embora não o avistasse, Ela gostava de praia – mesmo que os mares das praias do Canadá fossem gelados demais para entrar – gostava de apreciar as ondas, o encontro do céu e do mar, e principalmente quando o sol se punha.
Alguns minutos depois, já era possível ver o mar, atrás de uma barreira de infectados... Lizzie parou o carro metros antes e se pôs a pensar.
— Como vamos passar por eles e chegar ao porto? – indagou Nick.
— Eu não sei... – disse a ruiva, coçando o queixo. – Acho melhor não arriscarmos, estamos sem munição...
— Ou, podíamos jogar o carro em cima deles... – começou Charles. – deste modo o carro explode e cria uma distração...
Lizzie achou aquela ideia absurda e ao mesmo tempo genial. Mas tinha seus riscos:
— É uma boa ideia, mas e se o carro se desviar do caminho, ou se não alcançar o alvo, ou até mesmo não explodir? – questionou a jovem.
— Eu posso ficar no carro e garantir tudo isso. – Charles disse confiante.
— Você está louco?! – começou Nick, indignado. – Não vai sobreviver se fizer isso!
— Mas é a intenção, eu estou me sacrificando. – continuou o homem decidido.
— Mas Charles-
— NICK, EU FUI MORDIDO! – a voz do homem soou mais alta do que ele queria.
As suspeitas de Lizzie estavam corretas, ela estava orgulhosa de sua intuição e ao mesmo tempo triste pela garotinha. Ellie estava em choque, olhava para o pai em desespero, o que iria fazer sem ele? A menina não tinha mais ninguém...
— Olha... – continuou o homem. – Eu menti, e sou perigoso para vocês, além de por Ellie em risco também, sei que eu não vou aguentar por mais tempo, eu estou morrendo... Eu devo fazer isso, para que minha filha tenha uma chance de sobreviver. Nick, por favor, eu estou confiando em ti para que as leve para Washington.
Nick estava em choque, mas concordou tristemente.
— Então devemos nos apressar. – disse Lizzie impaciente.
Todos desceram do carro e tiraram suas coisas. Ellie se despediu de Charles aos prantos e depois os dois adolescentes se despediram. Lizzie tirou uma garrafa de álcool da mochila e despejou nos assentos do carro, nas portas e no compartimento.
— Faça o seguinte: — ela começou, direcionando-se a Charles. – vá um pouco mais para a direita, buzinando, mas vocês tem que ir o mais rápido possível, depois você tem que fazer o carro capotar, é simples, você vira todo o volante para a esquerda e puxa o freio de mão. E depois, você acende esse isqueiro. – entregou seu velho isqueiro para o homem.
Charles assentiu com a cabeça. Antes de partir, entregou seus óculos à garota:
— Eu não quero ver... E Lizzie, por favor, me prometa que vai cuidar de Ellie como se fosse sua irmã.
— Eu prometo.
O homem respirou fundo e deu partida no carro. Lizzie mandou os demais a seguirem, foram mais a esquerda, na direção do porto, correndo. O som ensurdecedor da buzina não deixava Lizzie pensar direito, ela estava agindo por instinto. Era notável a inquietação da jovem, ela estava irritada por perder um membro do grupo. Há muito tempo isso não acontecia...
Já estavam perto do porto quando ouviram o som da explosão. Ellie começou a chorar de novo, o que fez Nick tê-la que carregar no colo. Lizzie jogou suas coisas em um iate, não muito grande, mas deveria aguentar a viagem. A ruiva ajudou Ellie e Aika a subirem, enquanto Nick empurrava o iate.
Na segurança do iate, eles observavam o carro em chamas e os infectados chamuscados.
— Você não parece surpresa... – comentou Nick ao seu lado.
— E não estou. Eu já sabia... – disse ela, com indiferença.
— Sabia? – ele indaga espantado.
— Digamos que eu sei quando uma pessoa está mentindo.
Lizzie se afastou e foi para um canto fazer as atualizações em seu diário.
20 de Abril de 04 P.A.
Dia de perdas. Charles morreu, mas como um heróis, graças à ele, estamos indo para New York em um iate. Eu nunca estive em um iate, mas Nick disse que sabe pilotar. Só espero que não aconteça como Titanic...
Sobre minhas suspeitas, estava certa, Charles foi mordido. Minha intuição não falha... Mas estou preocupada com Ellie, ela está desolada... Eu prometi ao falecido que cuidaria dela, mas eu mal consigo cuidar de eu mesma junto da Aika, imagina cuidar de uma criança...?
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