Apocalipse
8 Me Lembro de Você
Notas iniciais
Lizzie estava confusa, aquele rosto maltratado com o tempo não lhe era familiar, aqueles olhos cansados acompanhados de olheiras escuras, aquele cabelo bagunçado que chegava aos ombros junto com uma barba igualmente grande. Ela não reconhecia aquele homem, e a dor de seu braço não lhe deixava pensar direito. A garota estava insegura, em nenhum momento abaixou a arma, seus dedos estavam engatados no gatilho.
— Como sabe meu nome? — ela indagou.
— Porque você me disse, quando nos conhecemos. — ele respondeu, com um sorriso esperançoso.
— Eu não te conheço! — ela cuspiu as palavras
O homem engoliu em seco e abaixou o olhar por um instante, ficando com uma expressão séria, escolhendo as palavras seguintes.
— Você não se lembra? — ele questionou, levantando o olhar, quase suplicando para que Lizzie tentasse se lembrar. — Você adorava me ouvir tocando violão, em Ottawa.
Ottawa. Essa palavra esclareceu sua mente como uma vela acessa na escuridão. Lizzie ponderou por alguns instantes, encarando o chão, mas suas mãos se mantinham firme.
— Josh...? — sua voz saiu falha, ela não tinha certeza se era mesmo seu amigo de longa data.
O homem abriu um sorriso sincero. Lizzie abaixou a arma lentamente.
— Sabia que não tinha se esquecido! — Josh se aproximou a abraçou-a.
— Como sabia que era eu? — ela indagou, ainda não acreditando que Josh estava vivo. Retribuiu o abraço.
— Como não se lembrar desse cabelo cor de fogo?
Lizzie riu levemente. Aquele pequeno momento de paz foi interrompido por um gemido de dor vindo de Nick, a garota o afastou e se aproximou do amigo ferido.
— Nick! Fica comigo! Eu vou te tirar daqui, eu prometo, mas você tem que resistir!
Porém, Nick já tinha perdido a consciência. Lizzie ponderou por alguns instantes pensando no que fazer.
— Josh, preciso da sua ajuda. — ela disse confiante.
— Claro Li, só me diz o que fazer.
— Eu preciso de um carro. Tem algum por aqui?
— Claro, você pode até escolher. Mas precisamos chegar ao estacionamento, no subsolo.
— Certo... — ela olhou o braço ferido. — Eu também preciso da minha mochila, para poder tratar do meu braço. Sabe onde está minha mochila?
— Deve estar lá em cima, no último andar, no fim do corredor...
— Ok... Você pode levar ele? — Josh assentiu — Eu quero um carro grande e espaçoso, de preferência uma picape.
— Tá, eu vou levá-lo.
Josh foi até Nick e passou um dos braços por trás do pescoço e a outra mão livre segurava a cintura, tendo uma estabilidade maior. Lizzie foi até onde Ellie estava escondida e passou as orientações para a garotinha, depois seguiu seu caminho à procura de sua mochila.
Era entediante ter de subir todos aqueles degraus, mas era por uma boa causa. Seu braço esquerdo já estava coberto de sangue, que pingava deixando um rastro, a dor era quase insuportável, mas ela era forte psicologicamente, podia suportar até estar livre daquele pesadelo.
Ela já estava arfante quando chegou ao último andar, parou para tomar um fôlego e seguiu pelo corredor de onde tinha surgido, passou pelo banheiro onde fora trancada e por fim chegou à parte desconhecida do corredor. Tinha apenas uma porta. Ela respirou fundo e abriu devagar com a mão esquerda, com a direita ela segurava a arma firmemente.
O cômodo tinha grandes janelas no fundo, com uma enorme mesa redonda no centro e nas laterais alguns armários. Haviam dois homens em volta da mesa, se divertindo enquanto mexiam nas mochilas. Lizzie apontou a arma para o rosto do homem que mexia em sua mochila e falou:
— Não se mexe em bolsa de mulher, sabia? — sem hesitar, puxou o gatilho.
O outro homem mal teve tempo de se proteger, ela atirou nele logo em seguida.
Apressada, ela correu até sua mochila, suas coisas estavam reviradas e desarrumadas, Lizzie era uma pessoa organizada, mas agora não tinha tempo para isso, apenas jogou suas coisas para dentro outra vez. A mochila de Nick e a de Ellie estavam lá também, a de Ellie parecia não ter sido tocada, enquanto a de Nick estava na mesma condição que a sua. Ela começou a colocar as coisas de volta, mas parou quando pegou uma foto, tinha quatro pessoas, uma delas era Nick, ao lado dele uma garota bonita, com cabelos loiros e curtos, com um sorriso radiante: Atrás de Nick estava um homem robusto, vestido com um terno preto, tinha um sorriso discreto em seus lábios, semelhante ao pai de Lizzie. E por fim, uma mulher loira atrás da garota. Lizzie guardou a foto na mochila junto com o resto das coisas de Nick.
"Está faltando algo..." ela pensou olhando em volta. "Ali! O pé-de-cabra!" Ela correu até ele e o puxou de cima do armário, junto com as outras armas que pertenciam ao grupo. Depois disso ela saiu e cômodo e furtivamente desceu.
Não teve problemas na volta, apenas se preocupou em não ser vista. Ela voltou ao cômodo onde pegou as armas e encheu sua mochila com munição e algumas outras armas. Depois tomou caminho para as escadas, indo em direção ao estacionamento. Enquanto descia, encontrou alguns homens que rondavam pelo prédio, mas ela achou que não seria preciso matá-los.
Chegando enfim ao subsolo, estava um breu, ela não conseguia ver muita coisa, apenas algumas luzes de lanternas que rondavam por entre os carros. Lizzie começou a andar adiante, pé ante pé, quase sem respirar, quando sentiu um braço enlaçando sua cintura e puxando-a para trás, ela começou a se debater e tentar gritar, mas sua boca foi tapada.
— Calma, sou eu... — Josh disse em seu ouvido.
Ela parou de se debater e ele a soltou. Josh fez um sinal para ela o seguir e saiu andando pelo estacionamento, quase encostado na parede. O homem guiou-a até um carro, ele entrou no lugar do motorista e Lizzie no passageiro, a garota olhou para trás para checar se Ellie, Nick e Aika estavam lá. Ela pôs o cinto.
Josh esperou por algum tempo até as luzes das lanternas desaparecerem de sua visão, e só então ele ligou o carro. O ronco do motor era suave. O farol estava baixo, mas iluminava boa parte de subsolo, agora ela entendia o porquê de não ter encontrado nenhum carro: parecia que todos os carros da região estavam guardados naquela enorme garagem. O homem deu partida no carro.
À medida que passavam pelo corredor de carro, Josh pisava cada vez mais fundo no acelerador. Já estavam a mais de 100 por hora quando Lizzie avistou a parede em sua frente. O desespero tomou conta de seu corpo.
— Josh nós vamos bater!! — ela gritou.
O homem pareceu não ter ouvido, pisava cada vez mais fundo. Lizzie, com seu instinto de proteção, só teve tempo de virar-se para trás e colocar o cinto em Ellie, que estava agarrada à Aika, assustada. Então eles se chocaram. O solavanco fez com que a garota batesse a cabeça no mesmo lugar onde tinha feito o corte, ela tentou se segurar, usando o braço ferido, mas só conseguiu piorar as coisas.
Para a sua surpresa, eles não se chocaram contra uma parede, e sim com uma barreira. A entrada do estacionamento era tapada com algumas tábuas, todas pregadas juntas, de modo que era impossível de passar até a luz do sol. Já estava de noite, a luz fria do luar iluminava o local.
Josh pisou fundo no freio outra vez, subiram por uma rampa e logo estavam na rua, ele começou a guiar o carro para o mais longe possível do prédio.
Lizzie encostou-se ao banco e fechou os olhos.
— Para onde, Li? — Josh perguntou.
— Washington. — ela respondeu e virou-se para conferir se Ellie estava bem.
A menina estava agarrada a collie ainda, mas estava um pouco pálida. Lizzie voltou o olhar para frente.
— Caralho, Josh, quase que tive um ataque cardíaco... — ela passou a mão no rosto e suspirou.
— Eu te assustei? — ele riu.
Lizzie deu um soco de leve no braço do amigo. Ela puxou sua mochila e tirou o walkman.
— Eu encontrei... — ela disse sorrindo.
— Woow!! — ele ficou surpreso e riu. — Deve fazer bastante tempo que você tem isso...
— Nem é muito tempo assim, só alguns meses...
— Hum... Então você ainda estava no Canadá.
— Estava sim. Mas aí eu encontrei o Nick, ele me pediu ajuda para chegar até Washington, ele disse que tem uma cidade de sobreviventes lá.
— Interessante... Mas o que ele estava fazendo lá?
— Longa história... Mas o que você está fazendo aqui?
— Bom... Lembra que antes de isso tudo acontecer eu ia viajar para cá, nos EUA? — Lizzie assentiu. — Então, eu fiquei preso aqui e encontrei aquele grupo...
— Legal... Pelo menos você tá vivo...
Josh sorriu.
Passaram por algumas ruas até encontrarem o início de uma floresta. Ele parou o carro e o desligou. Lizzie desceu para conferir se Nick estava bem. O jovem ainda estava desmaiado. A ruiva passou a mão em seu rosto e chamou seu nome, ele gemeu e virou a cabeça levemente. Ela chamou-o de novo e dessa vez ele despertou, lentamente.
— O que aconteceu... — ele indaga confuso, sentando no banco do carro.
Lizzie sorriu e o abraçou.
— Eu é que deveria te perguntar isso... — ela disse. — A gente saiu do prédio, estamos seguros agora.
— Ah, sim, eu me lembro... — ele passou a mão na cabeça e desceu do carro.
Lizzie pegou sua mochila e tirou de lá o kit médico, ela iria tratar dos ferimentos de Nick antes de tratar dos seus.
— O que aconteceu? — ela perguntou, começando a limpar os ferimentos.
— Bom... Tinha amanhecido já, eu estava me preparando para ir procurar comida enquanto você dormia, a Ellie já tinha acordado e tava brincando com o gato dela. Eu pedi pra ela não sair de lá e só te chamar caso visse alguém desconhecido ou um infectado... Eu já estava de saída quando vi um carro parando próximo ao local que estávamos, eu recuei para trás e agachei, te acordei... Você ainda estava sonolenta quando dois deles entraram, eles tinham armas, e nós estávamos sem munição, então eu consegui desarmar um deles e estávamos trocando socos, quando o outro te desmaiou, ele estava com um pedaço de madeira na mão...
Lizzie passou a mão na cabeça.
— Isso explica a minha amnésia... Mas continue...
Nick tomou fôlego:
— Depois chegaram outros três homens, eles pegaram você e a Ellie, levaram para o carro, a Aika estava comigo, mas logo eles me deram uma pancada na cabeça, eu fiquei tonto e minha visão ficou embaçada, mas ainda estava consciente quando eles nos jogaram no carro, depois disso eu desmaiei. O resto você sabe, ficamos em salas diferentes... Eles me torturaram, perguntaram se tinha um grupo maior e coisas assim, eu neguei, mas eles perceberam que eu estava mentindo... Eu não poderia dizer sobre Washington...
A ruiva ponderou por alguns instantes e sentou-se no chão, já tinha tratado dos ferimentos de Nick, agora só faltava os seus. Ela pegou uma pinça para tirar as balas de seu braço.
— Quem é ele? — Nick indagou.
— Esse é o... — ela apertou os olhos e prendeu a respiração enquanto retirava a bala. — Josh... Lembra que eu falei dele?
— Ahh... Prazer em conhecê-lo. — ele sorriu e apertou a mão do homem.
— O prazer é todo meu. — ele sorriu de volta.
— O Josh ajudou a gente a sair de lá... — ela molhou um pano com álcool e começou a limpar. — Se não fosse por ele, estaríamos lá ainda...
— Eu duvido, do jeito que você estava matando todo mundo lá... — Josh comentou.
Ela balançou a cabeça e começou a enfaixar o ferimento, depois levantou e se olhou no retrovisor do carro. Limpou o ferimento na testa e depois o ferimento de Ellie, e colocou um band-aid.
— Bom... — ela sentou-se no banco do passageiro da frente — Agora temos um carro e munição... Melhor descansarmos e partirmos amanhã cedo.
Os rapazes assentiram.
***
04 de Maio de 04 P.A.
O dia hoje foi bem intenso... Descobri que fui sequestrada, quase estuprada (outra vez)... Mas, por sorte, encontrei meu velho amigo Josh, ele nos ajudou a sair daquele prédio e agora vai com a gente para Washington.
Conseguimos um carro e munição, o que é essencial.
Mas, em meio ao sequestro, o gato da Ellie foi assassinado.
Ela guarda o diário e volta a observar as estrelas, e a lua cheia. Como ela gostava da lua... As vezes ela tinha vontade de ir para lá e ficar sozinha, flutuando no ar.
Mas o seu momento de sossego foi interrompido por um leve puxão em sua blusa. Ellie. Ela senta-se no chão, ao lado de Lizzie:
— O que aconteceu com o Cinza? — era assim que ela chamava o gato.
Lizzie engoliu em seco e a abraçou.
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