Notas iniciais
Yoo Leitores! Aproveitando esse domingo + feriado, trago-lhes mais um capítulo. Tive alguns problemas com a digitação, mas finalmente terminei!! o/ Sinceras desculpas >< —Boa leitura! ~May ♥

Outra manhã fria se iniciava. Lá fora, o céu nublado começava a clarear, o vento úmido e gelado soprava, fazendo as portas semiabertas baterem e itens mais leves voarem sem rumo. Um típico dia frio em Ottawa.

No interior do shopping o silêncio era absoluto e a luz do sol quase não penetrava no hall principal. Lua já estava acordada, deitada em uma cama macia da loja de colchões do segundo andar, com os braços cruzados atrás da cabeça e apoiando os pés descalços no pelo quente e macio de Aika, que dormia aos pés de sua cama. Dias antes, quando o sol estava do auge de calor na região, Lua tinha lhe dado um banho. Ela encarava o teto, imaginando sua vida sem a série de acontecimentos catastróficos que o soro trouxera, pensava em seu pai, e o péssimo exemplo que ele era, mas ainda sim sentia sua falta, ela realmente o amava, mesmo não sabendo se estava vivo. Lembrava-se também de sua tia, e a desgraça que trouxera para sua triste vida...

“Bobagem...” ela pensava, “não devo me sentir culpada, nem tampouco arrependida... Afinal, foi legítima defesa!”. Ela não conseguia se esquecer daquela madrugada chuvosa, o sangue morno se espalhando pelo assoalho, sua tia em choque e a enorme sensação de satisfação que o crime que cometera a sangue frio o trouxera, o canivete em suas mãos, com sangue fresco, o mesmo que manchava o assoalho.

Lua chacoalhou a cabeça, na tentativa de afastar os pensamentos ruins de seu passado obscuro, verificou se Hades ainda estava dormindo — e estava — ele dormia pesadamente, como se o caos daquele novo mundo não o preocupasse. Ela saiu da loja com sua mochila nas mãos, com extremo cuidado para não acordar seus parceiros, principalmente Aika. Sentou-se em uma das cadeiras da praça de alimentação, aquela que ficava do lado da janela. Pegou seu diário:

22 de Dezembro de 03 P. A.

Já faz quinze dias que estamos no shopping, sem precisar me preocupar, aqui tem de tudo: um ‘enorme estoque’ que dá para o inverno todo, água, um ótimo lugar para dormir, eletricidade... Tem sido bem calmo.

Tem o Hades também. É bom ter alguém para conversar, embora ele seja um pouco teimoso... É uma boa pessoa, Aika parece ter gostado dele também. Ele tem uma obsessão em encontrar sua irmã, quer encontrá-la a todo custo, em algumas vezes o apanhei tentando sair escondido, eu o repreendi e tentei explicar pela milésima vez que a perna dele não está 100% para ele partir.

Por hora só isso.

Ela guardou o diário na mochila suja e rasgada e contemplou por alguns instantes à paisagem lá fora: a neve branca e gelada caía suavemente e cobria o chão com uma camada branca, a mesma que impedia a luz passar pelo teto solar do hall principal. O inverno já deveria ter chegado a alguns dias, pois a camada parecia estar um tanto alta, até seus joelhos, essa era sua estimativa. Ela se levantou e foi até o banheiro, pôs a mochila em cima da pia e acendeu uma vela, porque estava escuro.

Lua tinha pegado roupas limpas em uma loja. Tirou sua blusa e ficou avaliando seu corpo e procurando qualquer arranhão, qualquer hematoma, ou até mesmo alguma cicatriz. Nada. Ela só tinha perdido peso, consideravelmente, e ela sabia, pois havia se pesado na farmácia. Vinte quilos. Agora estava com quarenta. Ela tirou de sua mochila uma caixa com lenços de panos, todos limpos, umedeceu e depois passou em seu corpo pouco sujo. Sentiu arrepios ao fazer isso, pois a água estava gelada. Depois trocou de sutiã e vestiu uma camiseta regata branca, que ficava justa, uma blusa cinza de manga longa que cobria até metade de suas mãos, esta ficava um pouco mais solta.

Ela tirou sua calça, sentou-se na pia e fez a mesma coisa. Trocou a calcinha e vestiu uma meia calça, uma calça jeans xadrez (preta e branca), colocou uma meia branca e calçou uma bota preta, que faltava apenas um palmo para chegar ao joelhos. Feliz e confortável com suas roupas novas, ela se admirou no espelho por alguns instantes. Após isso, lavou seu rosto, penteou seu longo cabelo ruivo e o trançou para o lado esquerdo, de modo que ficasse para frente, chegando à metade de sua barriga. Depois juntou suas velhas roupas sujas e rasgadas, apagou e guardou a vela, pegou a mochila e saiu.

Voltando para o parque de diversões, onde passava a maior parte do tempo, uma mochila preta na vitrine de uma loja de artigos de viagem lhe chamou a atenção. Ela entrou e pegou a mochila. Avaliou-a por dentro e por fora: era bem espaçosa, tinha muitos compartimentos e era bem confortável. Na etiqueta estava escrito “Uma mochila perfeita que lhe acompanhará em suas incontáveis aventuras”. Ela sorriu, achou o slogan criativo. Pôs sua mochila vermelha no chão, já não estava como antes: estava encardida de fuligem, seiva de árvores e pingos de tinta, manchada de sangue coagulado, rasgada por espinhos e galhos pontudos, remendada com linhas frágeis que ela desfiava de suas camisetas, e tinha até um zíper estourado, de tanta coisa que carregava antigamente. Ela olhava com compaixão a mochila que a acompanhava em sua escola, seus pequenos crimes e até viagens.

— Já passamos por tanta coisa... – ela disse baixinho, como se a mochila fosse respondê-la. – Mas agora sua jornada chegou ao fim.

Ela despejou tudo no chão, e sua bússola rolou para baixo de uma prateleira, quando conseguiu pegar percebeu que naquela loja tinha de tudo que precisava: mapas, não só do Canadá, bússolas, lanternas a prova d’água, baterias, canivetes suíços e russos, isqueiros, agasalhos grossos, apitos, cobertor isotérmico impermeável, rádios portáteis... Ela ficou admirada, era como se tivesse descoberto um paraíso. Ela puxou a mochila preta para si e começou a enchê-la.

No bolso maior ela colocou uma capa de chuva, uma lanterna a prova d’água, mapas de outros países, kit médico, um pacote de velas fechado (que estava em sua antiga mochila), caixas de fósforos, um isqueiro, uma bússola nova, cordas, um canivete suíço, um kit de sobrevivência, uma caixa com lâmpadas para lanterna uma caixa com baterias, e duas garrafas vazias de 1,5 litros. No bolso do meio colocou seu diário, um mapa do Canadá, um rádio portátil, alguns fios de cobre e zinco, fita isolante, fita crepe, algumas ferramentas, luvas novas e algumas baterias soltas. No bolso menor colocou o canivete suíço, sua vela bússola, velas, fósforos e isqueiro. Ela preparou uma mochila para Hades também, porém não tinhas alguns dos itens que Lua colocou na dela.

Ela voltou para a loja de colchões. Hades já estava acordado, brincava com a collie.

— Toma, arrumei pra você! – ela diz sorrindo.

— Mas eu já tenho uma mochila...

— Mas não tem nem a metade dos itens de sobrevivência que eu coloquei aqui. – ela diz em um tom convencido.

— Ok... – ele pega a mochila e avalia. – Você tem uma também... Igual...

— Na verdade da pra diferenciar, eu coloquei alguns broches. – alguns deles eram o de uma borboleta laranja, o de asas douradas e uma pata roxa. Eram seus favoritos. – Se você quiser arrumo uns pra você.

— Não, obrigado... O que tem aqui?

— Diversas coisas que eu achei essencial.

— Hum... Obrigado.

— Tenho algumas coisas para fazer, se não se importa... – ela foi em direção à porta.

— Sim, claro. – ele diz explorando o que tinha dentro da mochila.

Ela foi sem a mochila, seguida da collie. O som de sua bota batendo no chão era tão suave que mal se ouvia, apenas as unhas de Aika batiam no chão, a garota já estava acostumada com o som, não ligou muito. A primeira coisa que ela fez foi ir à loja de roupas, ela vestiu a collie com uma jaqueta grossa e rasgou as barras para que ela não tropeçasse. Depois foi para o mercado. Procurou por churrasqueiras portáteis, e só levou a parte onde ficava o carvão e uma grade. Ela foi carregando aquela enorme peça até que ficasse próximo do chafariz do segundo andar, ela deixou ali, junto da grade e voltou. Dessa vez trouxe consigo um saco de carvão.

[***]

Era mais de seis da tarde quando ela finalmente parou para descansar, tinha tirado a neve dos painéis solares que ficavam no telhado, ligado a energia, arrumado sua velha mochila para sair com ela naquele dia, reforçado a barreira que bloqueava cada entrada, inclusive a do estacionamento.

Ela saboreava uns bolinhos com suco de uva, em seu lugar habitual na praça de alimentação (do lado da enorme vidro com visão para rua), quando avistou Hades de longe, correndo sobre a neve, com certa lentidão, como se tentasse se afastar antes que ela pudesse vê-lo. Lua pegou sua velha mochila e saiu correndo.

Ela correu o mais rápido que pôde, certamente ela era mais rápida que ele, por causa de sua perna ainda ferida. Não demorou muito para ela o alcançar:

— Você tá ficando louco?! – ela o puxou pela gola da jaqueta.

— Calma! Calma! – ele se soltou. – Eu pensei ter visto alguém correndo por aqui e vim checar...

— Sei, sei... – ela diz irritada. – Olha, eu sei que você quer procurar sua irmã, mas acho que você deveria esperar até a primavera e-

— Não! Com certeza não era a minha irmã. – ele passou a mão na cabeça. – era maior, tinha o cabelo mais escuro, e parecia estar ferido.

Ela o olha desconfiada. Logo o silêncio é quebrado, Lua ouve o som de um miado suplicante e olha em volta. Em cima de uma árvore tinha um gatinho cinza e branco, tremia de frio e estava magro de fome. Ela vai até ele e sobe em cima da árvore. Com cuidado, ela o pega e vê se está ferido, como não viu nada o colocou dentro de sua blusa, dentro de sua regada, sobre seus peitos, e fechou a jaqueta. Hades observava:

— Que sorte a do gato... – ele desvia o olhar.

— O que quis dizer com isso? – ela volta a olhá-lo com desconfiança.

— Quis dizer que ele tem sorte por você tê-lo encontrado, sei que cuidará bem dele...

Ela desce da árvore. Os dois já estavam voltando para o shopping quando ouvem um grito de uma garotinha:

— PAPAAAAAAI!! – o som parecia estar perto.

Lua puxou seu pé-de-cabra e correu na direção do som, virou a esquina e viu um carro, rodeado de infectados, e uma garotinha aos prantos gritando por socorro. Lua entregou sua pistola carregada para Hades:

— Me cobre. Pega Aika! – ela gritou apontando para o carro.

Aika saiu em disparada, passava por entre os infectados, enquanto Lua a seguia golpeando-os. Ela parecia ter tudo sobre controle, Hades não precisou usar a arma. Ela rapidamente chegou ao carro, com toda sua força quebrou o vidro do passageiro e chamou a menina:

— Venha! – ela disse impaciente.

Ela pegou a garotinha no colo olhou em volta, procurando uma passagem, quando viu um homem ferido, com expressão abalada. Assim que a vê seus olhos se arregalam e ele corre em sua direção:

— Solte minha filha! – ele diz em um misto de preocupação e ameaça.

— Seu desnaturado! Como deixa a menina assim?! Já pensou se ela é mordida?! – o homem abaixou a cabeça quando ela ralhou com ele. – Não é hora de ficar mal, temos que sair daqui.

Ela começou a correr, esquivando-se dos infectados. A garota a abraçava apertado, e seu pai o seguia, Aika ia à frente, como da última vez.

Estavam quase chegando quando Lua ia ser mordida, mas de repente a arma que Hades segurava dispara, o sangue jorra em seu rosto e nos cabelos loiros da garota, ela fecha seus olhos para não entrar neles, e com um olho aberto, ela chega ao outro lado. Eles correm de volta para o shopping.

[***]

Quando entram, Lua põe a garota no chão e vira-se para seu pai, com uma expressão séria.

— Obrigado... – a voz dele soou fraca.

— Não foi nada. – ela respondeu limpando o rosto sujo.

— Sou Charles, e essa é minha filha Ellie. – a garota o aperta.

— Pode me chamar de Lua, e esse é o Hades. – ela aponta para o garoto. – Você está ferido, foi mordido?

— Não... Felizmente. Foi um corte.

Ela faz sinal para ele o seguir e vai para a farmácia, acende a luz e pede se sente no balcão e levante a camisa. Parecia um corte raso, como se tivesse pegado de raspão, mas sangrava. Ela limpou o corte e enfaixou. Ele agradeceu e os dois voltaram para o hall. A garota parecia com frio, tremia, com os braços em volta do corpo na esperança de se aquecer. Inútil. Lua pede que Ellie a siga. Hades fica no hall com Charles, e percebendo a apreensão dele comenta:

— Lua é uma boa pessoa, pode não parecer, pelo jeito durão dela, mas depois que você a conhece percebe que ela é bem gentil.

Charles encara o garoto que brincava com o canivete antes de dizer algo:

— Vocês se conhecer a quanto tempo?

— Duas semanas. Ela me salvou, assim como salvou você. Veja. – ele puxa a barra da calça e mostra a perna enfaixada. – eu caí sobre uma lança e não conseguia levantar, aí ela veio e me ajudou...

Charles passa a mão em sua cabeça, observa o hall, as entradas bloqueadas, a fonte vazia, o local escurecendo... Logo Ellie desce as escadas rolantes paradas correndo, vestia um conjunto de moletom rosa, parecia bem feliz.

— Papai, Lua está chamando vocês.

Charles segue Hades para o andar de cima. Para sua surpresa, Lua estava tentando ascender uma fogueira na parte da churrasqueira que ela tinha pegado mais cedo.

— Quer ajuda? — Hades pergunta com um sorriso sarcástico.

— Sim, por favor, senhor do fogo... — ela revira os olhos.

Hades sorri e se agacha ao lado dela. Ele coloca um pouco de carvão na churrasqueira, põe um pouco de álcool e tira um pedaço de papel do bolso junto com um isqueiro. O papel ardia em chamas laranja, Lua observava, ele fazia fogueiras com tanta facilidade... Ela sempre teve dificuldades, era raro conseguir ascender uma fogueira para iluminar as matas escuras ou se aquecer do frio. Ele coloca o papel no carvão molhado com álcool e assopra carinhosamente. Logo as chamas começam a aumentar.

— É assim que se faz... — ele diz sorrindo.

Lua dá um sorriso leve e se levanta:

— Fiquem à vontade. Eu já volto.

Logo desapareceu na escuridão do corredor. O sol já tinha se posto, estava totalmente escuro, um verdadeiro breu. Ela tinha um medo secreto de locais escuros, o adquiriu logo após o mundo morrer em caos. Lua tirou de seu bolso uma vela e ascendeu com um de seus isqueiros. Ela se sentia mais segura com uma chama acesa, mesmo que aquela chama tão frágil pudesse se apagar com sua respiração pesada. Ela passava pelos corredores do mercado, uma mão segurando uma cesta e a outra segurando a vela. Pegou alguns potes de macarrão instantâneo, uma mamadeira, um pacote de leite em pó, duas leiteiras e alguns talheres. Logo estava de volta.

Sobre a grade, ela colocou as duas leiteiras e encheu com água de uma garrafa que trazia na mochila vermelha, em uma delas despejou o leite em pó. Logo a água já estava fervendo. Eles despejaram a água no copo do macarrão instantâneo e começaram a comer, enquanto Lua encheu a mamadeira com leite para alimentar o gatinho. Ellie pareceu fascinada com a pequena criatura a moça aquecia em seus braços.

"Parece que teremos um longo inverno..." ela pensou enquanto observava o gatinho ingerir o leite.

Notas finais
Se gostou comenta, se não gostou comenta também! O que importa é você se manifestar o/ Não seja um leitor fantasma e.e No próximo capítulo as coisas começam a ficar interessantes e.e — Boa madrugada ~May