Apocalipse
34 Assuntos Inacabados
Notas iniciais
Madrugada escura, os ares estavam parados, permitindo que uma densa neblina tomasse conta do local. Mal conseguia distinguir onde estava, sabia apenas que deveria seguir a luz do carro, que seguia em sua frente. Já estava começando a se arrepender da ideia de voltar ao Canadá, com o tempo atual, mas todos foram a favor de sua ideia. Isso há cinco dias.
A ruiva estava quase dormindo sobre o cavalo, seu sono era mais forte que o frio, sua mente estava vazia e podia jure que via a silhueta de uma garota, distante, na névoa. Talvez fosse algum infectado rondando naquela hora, ou talvez estivesse em sua paranoia.
— Hey, não durma. — disse Nick, sua voz estava próxima, mas não saberia dizer de onde vinha.
— Não estou dormindo... Ainda. — ela respondeu.
— O que vai fazer depois que chegar ao Canadá? — ele indagou. — Vai continuar com o Vincent?
— Você sabe que não, Nick. Mas se você preferir ir com ele...
— Não. Eu vou com você.
O sol começava a surgir, lento e um pouco fosco no céu nublado, ameaçando nevar. O carro parou, e logo a dupla parou atrás. Lizzie olhou em volta, tentando habituar-se, mas era como estar em uma caixa branca: não conseguia ver nada para trás e nada à esquerda, e o que surgia em sua frente parecia se alguma construção, com uma barreira de entulhos bloqueando as entradas. "Mas olha só que bonitinho... Uma resistência..." ela pensou consigo mesma, lembrando-se do ocorrido em Washington.
Vozes ecoaram de dentro da construção, como se debatessem sobre o grupo do lado de fora.
— Hey! — Vincent, que saía de dentro do carro, exclamou na direção das vozes. — Ouvimos o seu rádio, podemos entrar?
Um silêncio ecoou. Tudo que se ouvia era o som de passos e o sibilar de vozes.
— Tudo bem. Mas não é por aqui que entra. — uma voz respondeu. — vai um pouco mais pra frente até chegar em um portão.
Seguindo as orientações, Vincent voltou para o carro, dando partida e beirando uma grade que ladeava a construção, chegando até um portão. Aguardaram alguns instantes e o portão foi aberto, dando passagem para o grupo. Foram orientados para seguir um pouco mais pra frente, passando por outro portão, este com grades mais resistentes, e deixarem o carro e os dois cavalos em uma área coberta.
A ruiva desceu do cavalo e o amarrou em uma cerca de madeira que ficava sob a parte coberta, depois voltou-se para Nick, que tinha acabado de fazer o mesmo. Vincent desceu do carro, parecia que só ele estava acordado, para falar com um homem que se aproximava.
— Saudações, viajantes! — disse com um sorriso, era a mesma voz que ecoara antes. O homem era um pouco baixinho, um pouco calvo e com dentes tortos, cabelo preto e olhos castanhos. — Creio que o tempo não esteja tão bom para viajar... Que coragem, hein? Então vocês ouviram a transmissão?
— Eu ouvi há alguns dias atrás... — respondeu Vincent. — Vocês vão voar para a Austrália, certo?
— Certo. — o homem rebateu. — Vocês virão conosco?
Vincent assentiu positivamente. O homem sorriu e voltou o olhar para a dupla, que ainda estava próxima aos cavalos, estreitou os olhos e se aproximou.
— Eu não a conheço de algum lugar? — indagou, se referindo a ruiva.
"Eu não sei, todos dizem a mesma coisa..." ela pensou consigo mesma, arqueando uma sobrancelha e depois olhando para o rapaz.
— Não... — ela respondeu.
— Em todos os anos que eu trabalhei com aviões clandestinos, eu tenho certeza que já a vi... Tem certeza? Não foi você que veio dá... Hum... Acho que era algum país da Ásia...
— Eu nunca saí da América... E nunca andei de avião também.
— Mas a garota era muito parecida! Se não me engano ela queria ir pra Vancouver, no Canadá... — o homem coçou o queixo e fechou os olhos por uns instantes.
"Eu sei onde fica Vancouver..." ela pensou consigo mesma e esboçou um sorriso de canto. Nick a cutucou com o cotovelo, como se quisesse dizer alguma coisa, mas invés disso, voltou o olhar para o homem.
— Essa garota por acaso não tinha cabelo preto? — o rapaz indagou.
O homem voltou a abrir os olhos e enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta.
— Sim, ela tinha, parecia até que tinha passado carvão no cabelo... E era liso como o dela.
— Beleza, obrigado. — o rapaz sorriu. Com um movimento de cabeça, o homem deu meia volta e se retirou.
— Acha que é a Lilian? — a ruiva escorou em um pilar de madeira que sustentava a cobertura, e o fitou com um sorriso.
— Por que não seria? — ele indagou, sorrindo. — O baixinho disse que era um avião clandestino... E se ela quis fugir?
Lizzie balançou os ombros e desviou o olhar, observando o resto do grupo seguir o homem, junto com Vincent, para o outro lado do que parecia um pátio, desaparecendo na névoa.
— De qualquer forma, eu não me importo mais... Ela não fez nada pra impedir que minha mãe a levasse, e com certeza não faria nada para voltar ao Canadá... — fez uma pausa e cruzou os braços, ainda escorada no pilar. — Além disso, ela estava na Austrália, e tinha cabelo enrolado.
Nick sentou-se no chão, abraçando os joelhos e descansando a cabeça sobre os mesmos. Por uns instantes fechou os olhos e suspirou.
— Você é muito rancorosa... Você guarda mágoas de todo mundo? — Nick indagou, ainda de olhos fechados.
— Talvez... — ela balançou os ombros outra vez e voltou ao seu cavalo. — Mas quem se importa?
— Eu me importo! — ele virou-se para a garota, franzindo o cenho. — Se você guarda mágoas de mim, eu tô provavelmente fodido.
— Ainda bem que sabe. — riu e depois puxou o diário da mochila.
15 de Dezembro de 04 P.A.
Achamos o local das transmissões que Vincent citou antes de sairmos de N.Y., não dá pra saber o que é ainda, mas pelo jeito que o homem que nos deixou entrar falou, acho que é uma pista de pouso, e provavelmente tem aviões também... Mas não chega a ser um aeroporto. Parece que eles vão para a Austrália, eu também iria, deve ser verão lá, mas eu vou pro Canadá, outra vez.
O homem citou uma garota parecida comigo, que pegou um avião clandestino com destino para Vancouver, mas eu não acho que seja a Lilian, ele disse que a garota pegou o avião na Ásia e também tinha cabelo liso. Mas a Lilian estava na Austrália...
Seria uma má ideia ir para a Austrália? Não há nenhuma garantia de que a minha irmã esteja viva, mas... Bem, não importa.
Guardou o diário na mochila e jogou a mesma nas costas. Vincent tinha voltado e estava conversando com Nick sobre alguma coisa. Logo, Nick pegou sua mochila e se retirou, indo na mesma direção em que o grupo tinha ido antes, deixando o homem com a ruiva. Ela esticou o corpo e depois escondeu as mãos nos bolsos.
— Então... Eu tenho uma coisa pra você. — disse Vincent, fitando os próprios pés. — Mas antes, eu tenho uma coisa pra te contar.
Ele fez uma pausa e suspirou, levantando a cabeça e olhou no fundo dos olhos esmeralda da garota.
— Como você sabe, eu era policial antes do apocalipse, mas eu não trabalhava em Ottawa ainda, eu trabalhava em uma penitenciária em Quebec, e só voltei à Ottawa por causa da Agnes. Mas enfim, quando eu trabalhava na penitenciária eu conheci seu pai. Era um homem muito gentil a primeira vista, não arrumava confusão com os outros presidiários, não questionava as ações dos policiais, ficava sempre na dele... Quase não pude acreditar que um homem como ele tinha sido preso. — fez outra pausa e deu uma leve risada. — Teve um dia que eu perguntei a ele: "Por que você está aqui?", ele abaixou a cabeça e respondeu: "Fui para o mau caminho para conseguir cuidar da única filha que ainda tenho". Eu ainda estava intrigado e queria perguntar o motivo, mas me chamaram para fazer outro serviço.
A ruiva esboçou um leve sorriso, tentando imaginar a expressão de seu pai naquela época. E então Vincent continuou:
— Ele me contou de sua vida, e eu até tive pena dele, mas teve um dia que seu pai me disse que havia um homem muito pior solto por aí, que ele tinha as provas necessárias para prendê-lo, mas que não poderia fazer anda a respeito, por que o mesmo homem tinha revelado onde ele estava, e posteriormente foi preso. Mas ele não entrou em detalhes. Um pouco depois eu pedi transferência pra Ottawa, pra ficar mais perto da Agnes, ela tinha me dito que estava grávida. Eu contei ao seu pai e ele me disse: "Já que você vai para Ottawa, me faça um favor: quando confiscaram as coisas que eu tinha na noite em que fui preso, pegaram uma chave pequena, preso a um chaveiro com uma bola de sinuca. Minha filha deve estar em Ottawa, com a tia dela. Por favor, leve a chave e entregue para ela.”.
— E como você tem certeza que sou eu? — indagou a ruiva, arqueando uma sobrancelha.
— Ele tinha um colar com um pingente, a única coisa que ele me pediu pra trazer para ele, e eu não pude recusar. Depois que eu entreguei o colar ao seu pai, ele me mostrou a foto que tinha dentro: era ele abraçado com uma menina ruiva de olhos esmeralda. — Vincent fechou os olhos por um tempo, talvez recordando da foto. Lizzie lembrou-se do presente de aniversário que deu ao seu pai: o colar com o pingente. O homem abriu os olhos outra vez e continuou. — Eu peguei a chave e trouxe comigo. Até desconfiava que fosse você. Quando eu ainda morava em Ottawa, antes de ter que substituir um colega na penitenciária, a Olívia já era minha vizinha. E ela não tinha filhos. Mas era difícil de encontrar você, quase nunca estava em casa, e quando estava eu estava no trabalho ou você estava com a tia, então eu não poderia entregar a chave sem que ela visse.
Lizzie concordou com a cabeça, ela sabia melhor do que ninguém como a tia se comportava em relação a sobrinha.
— Eu não gostava de ficar em casa, era um porre, estávamos sempre discutindo. Então eu preferia ficar no shopping, pelo menos eu tinha a companhia do Josh, que não ficava pegando no meu pé... — ela comentou.
O homem deu uma leve risada, antes de continuar.
— Eventualmente eu acabei esquecendo da tal chave... Mas estava mexendo na minha mochila há pouco e encontrei-a. — remexeu o bolso e tirou o chaveiro com a bola 8 de sinuca, entregando-a para a garota. — Bem... Está entregue agora. Seu pai disse que você saberia pra que ela serve.
— Obrigada, de qualquer forma. — ela sorriu, guardando a chave no bolso. Sabia exatamente de onde era aquela chave, já viu o pai usando-a muitas vezes, e sempre teve curiosidade em saber para que servia.
— Você vai voltar para o Canadá, certo? Vai procurar o Oliver?
A ruiva assentiu.
— Então eu nem vou tentar te convencer, sei que seria inútil. Mas caso encontre seu pai, mande lembranças a ele, por mim. — sorriu. — Vamos indo, está começando a nevar outra vez.
Vincent deu meia volta e seguiu caminho, seguido pela ruiva. O silêncio reinava. Logo, tudo foi desaparecendo, como se a neblina tomasse conta de tudo. A garota observou em volta, procurando com os olhos algo para se localizar, mas tudo o que via era o chão, coberto de neve, sob seus pés e os flocos de neve caindo suavemente. Aos poucos, outras construções foram surgindo no horizonte, grande e larga, como um grande celeiro feito de metal.
— Já viu uma dessas antes? — Vincent indagou. — É uma garagem de aviões.
— Não, nunca tinha visto uma dessas antes... — respondeu, observando a grande construção.
Adentraram. Era bem grande e espaçoso, de um lado tinha alguns aviões e do outras pessoas dormindo em colchões no chão, era um grupo grande. Ainda passando os olhos no local, notou também o que seria um fogão improvisado em um canto e o seu grupo próximo de um dos aviões, conversando. Ainda seguindo Vincent, eles se aproximaram. Lizzie se pôs ao lado de Íris, que tinha Ellie no colo.
— Nós partiremos amanhã cedo, caso conseguirmos encher o tanque com gasolina. — explicava o homem baixinho que os recebeu. — Por ora pode ficar à vontade! — sorriu e se afastou.
O grupo se entreolhou e depois Vincent tomou a atenção para si:
— Bom, o certo seria nos ajudarmos, já que parte de nós vai para a Austrália...
— Como assim "parte de nós"? — Nathan indagou, colocando o cachorro Snow no chão.
— A Lizzie vai pro Canadá, e quem quiser ir com ela está à vontade para escolher.
O grupo se entreolhou mais uma vez. A ruiva sentou em um canto, encostando as costas na parede de metal e a collie foi ao seu encontro, deitando-se em seu colo. Íris sentou ao lado da ruiva, ainda com Ellie no colo, antes de começar a falar:
— Acho que não seria uma má ideia ir para a Austrália... Já estive lá uma vez, é um bom lugar pra morar.
— Você já esteve lá antes do apocalipse. — Lizzie acrescentou.
— Por que não resolvemos isso depois? — sugeriu Úrsula. — Vamos ver o que podemos fazer para ajudar.
Vincent concordou e os dois se retiraram. Nathan e Nick foram olhar os aviões, deixando as garotas sozinhas.
— Então, Lizzie... — começou Íris. — Você ainda não comentou nada sobre aquele assunto...
— Verdade... Eu tinha até esquecido... — Juliette comentou e sentou-se na frente das duas.
— Que assunto? — indagou a ruiva, como se não lembrasse, quando na verdade evitou qualquer assunto parecido na última semana. Fechou os olhos e começou a brincar com os pelos de Aika.
— Aqueles assuntos sobre você e o Nick, que você ficou de falar... — Íris insistiu.
— Ahh tá... Aquele assunto. — fez uma pausa, provocando ainda mais a curiosidade das duas garotas. — Sobre o que querem saber?
— Vocês tem algum relacionamento? — Juliette perguntou.
— Nada de muito sério. — a ruiva rebateu, abrindo um dos olhos para ver a reação da outra, que parecia aliviada.
— Você ainda não respondeu aquela minha pergunta... — Íris voltou a falar, com um sorriso de canto. — O que vocês fazer quando estão sozinhos? Sem rodeios.
— Hum... Eu diria que a gente fica conversando. Mas na maioria das vezes eu tenho que mandar o Nick calar a boca... Acho que só. Não tem muita coisa pra fazer.
— Ok, vou fingir que acredito... — replicou Íris, com um sorriso de canto.
— Então vai lá e pergunte a ele. — Lizzie voltou a abrir os olhos, fitando a garota ao seu lado. — O que eu teria a esconder de você? Não somos amigas?
Íris ficou surpresa e depois sorriu.
— Sim, somos.
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