Apocalipse
44 A Promessa
Notas iniciais
A madrugada fria passou-se lentamente. Ninguém conseguiu voltar a dormir, permaneceram de olhos bem abertos, alternando o olhar entre os membros de ambos os grupos. A tensão se amenizou quando a luz do dia invadiu o local, iluminando cada semblante sério.
O homem negro que estava sentado perto da lareira era Dylan, tinha os cabelos curtos e escuros, a barba a fazer, as olheiras eram quase imperceptíveis, usava o uniforme policial da prisão, manchado de sangue, e a mão repousava no cabo da katana. O olhar estava fixo em Lizzie, media os mínimos movimentos da ruiva com o olhar, como se a qualquer momento ela fosse fazer algo.
Nick sugeriu que o outro grupo tirasse os corpos da casa e os enterrassem em algum lugar, enquanto limpavam o sangue. No tempo em que faziam isso, pensavam em uma desculpa, até chegar a conclusão de que seria melhor se voltar para a prisão antes de Dylan e fingir que nada tinha acontecido.
Algumas horas depois, quando todos tinham arrumado suas coisas, voltaram ao carro e partiram rumo à prisão. A viagem foi silenciosa, o grupo aproveitou para recuperar algumas horas de sono perdido na madrugada enquanto Lizzie dormia.
Ao chegarem, a ruiva passou pelo portão e tomou uma vaga no estacionamento, depois desceu do carro e se alongou, bocejando demoradamente. Abriu a porta de trás e Aika saltou do banco, se espreguiçando na neve fria. Acordou os outros e juntos seguiram para dentro.
A tenente Miller estava distribuindo ordens para alguns homens quando o grupo se aproximou e, após terminar, voltou-se a atenção para os mesmos e sorriu:
— Então já voltaram. — disse ela. — E todos inteiros... Venham comigo.
A loira saiu acompanhada de Nathan, Íris e Ellie, enquanto os outros três permaneceram no lugar por uns instantes, até que dobrasse o corredor.
— Vamos procurar o pai, ele deve estar preocupado. — sugeriu Lilian, a irmã apenas assentiu.
Deram algumas voltas pelo local, até encontrarem o homem na ala médica, conferindo alguma coisa nas prateleiras. O local se assemelhava bastante a um consultório médico. Lilian chamou a atenção de Oliver, que sorriu ao ver os três inteiros. Ele abraçou Lilian primeiro, enquanto acariciava os cabelos.
— Eu estava preocupado... — disse ele após soltar a filha. — Vocês estão bem?
Lizzie assentiu positivamente, por mais que seu olhar demonstrasse o contrário. Oliver levantou seu rosto pelo queixo e analisou as olheiras da garota com um olhar clínico.
— Alguém tinha que ficar de vigia. — disse a ruiva antes que o pai perguntasse.
Ele bagunçou seus cabelos e depois a abraçou. Oliver voltou o olhar para Nick e notou a collie sentada ao lado do mesmo, abriu um sorriso largo e agachou na frente da mesma, remexendo sua pelagem preta e branca. Aika abanava a cauda e dava rápidas lambidas no braço do homem.
— E depois de tantos anos você continua viva! — ele exclamou para Aika, ainda surpreso em vê-la.
— Mas também, olha só quem é a dona... — Lizzie comentou em seu tom sarcástico, fazendo o pai rir. — Tô indo guardar minhas coisas e fazer algo útil.
Oliver assentiu o observou a ruiva saindo do local junto com Nick, Aika ainda lambeu sua mão antes de seguir a garota.
Voltaram para a cela em silêncio. Lizzie jogou sua mochila em um canto e em seguida se jogou em sua cama, abraçando o travesseiro e bocejando demoradamente. O rapaz colocou sua mochila em outro canto e escorou na parede.
— Vai dormir? — ele indagou.
— Não. Tenho coisa melhor pra fazer. — a ruiva respondeu, ainda de olhos fechados.
— Ah, claro... Tipo o quê? — rebateu em tom de deboche. — Você já não dormiu de noite, se não dormir agora vai ficar o dia todo fora do ar. Não que você ja não faça isso diariamente.
Lizzie franziu o cenho e voltou o olhar para o rapaz, que sorria em deboche. Nick sentou na beira da cama, apoiando os cotovelos em seus joelhos, ainda fitando a garota, dessa vez sem deboche.
— Tira um cochilo pelo menos... — o rapaz insistiu.
— Mas você é chato, hein? Puta merda! — a ruiva rebateu, virando para a parede.
O rapaz riu do ato.
* * *
Com cautela, Lizzie atravessou o corredor pé ante pé. Sabia que se fosse pega àquela hora da madrugada não poderia ir ao evento da semana sucessora. Passou o corpo pela brecha da porta e fechou-a em seguida, depois tateou o ar em busca de sua cama.
Deitou sob as cobertas e relaxou o corpo, sentindo as costas doerem por causa das horas que passaram arqueadas para frente, e os olhos fixos na televisão. Mas tinha valia a pena, acabara de terminar outro jogo. Em compensação, perdeu quatro horas de sono, e agora tinha apenas duas até o despertador tocar.
Estava quase dormindo quando ouviu o remexer das cobertas na cama ao lado, e logo a outra gêmea tomou um espaço na cama. Era possível sentir a respiração ofegante de Lilian.
— O que foi agora? — Lizzie sussurrou.
— E-eu te acordei? — a morena rebateu no mesmo tom, mostrando preocupação na voz. — Desculpa...
— Eu já tava acordada... — bocejou e depois puxou a coberta um pouco mais, se encolhendo. — Outro pesadelo?
— Uhum... — Lilian sussurrou quase sem voz. — Tinha um homem com um chapéu engraçado e um bigode com a ponta enrolada, ele tava me perseguindo...
— Por que você não chutou a canela dele? — disse a ruiva em tom de divertimento.
— Eu não conseguiria... Ele era muito alto...
— Seus pesadelos são engraçados... Uma vez eu sonhei que tinha um esqueleto atrás de mim, ele carregava uma espada maior que ele. Mas foi divertido, a gente tava brincando de esconde-esconde... — fez uma pausa e virou-se para a irmã. — Você não precisa ter medo dos seus pesadelos... Eu estou aqui pra te proteger...
— Você promete que vai me proteger? — Lilian indagou, ainda insegura.
— Prometo.
* * *
Perturbada por alguns barulhos na cela, a ruiva acabou despertando. Bocejou e esticou o corpo no colchão, sentindo que Aika estava deitava sobre seus pés. Girou o corpo e percebeu que Nick era quem fazia os barulhos, rasgando algumas embalagens de plástico. O rapaz estava virado para a mesa encostada na parede, onde tinha algumas peças de roupas jogadas. Ele estava sem camisa, e de costas para a ruiva.
A garota ficou em silêncio, observando o que o rapaz fazia. Era possível ver a cicatriz no ombro de Nick, feita pela bala do rifle. Ele colocou uma camisa cinza de manga longa e em seguida um colete, depois virou-se, se assustando ao ver a garota acordada.
— Você tá acordada a muito tempo? — ele indagou.
— Quem vai saber? — a ruiva rebateu com um sorriso sarcástico, depois mediu o rapaz de cima a abaixo, notando que ele vestia um uniforme policial. — Conseguiu um trabalho de polícia?
Ele riu da pergunta e escorou na mesa em segunda, puxando uma jaqueta preta e tirando as etiquetas.
— Parece que sim... A tenente acha que eu tenho potencial pra liderar um dos grupos, porque eu tinha sugerido que seria mais sábio fazer patrulhas dentro do perímetro externo da prisão. Além de melhorar a segurança, seria bom para tirar os infectados também, assim facilitaria a entrada e saída de carros...
Observou e rapaz vestir a jaqueta enquanto se arrumava na cama, tirando os pés debaixo de Aika e sentando na cama, apoiando as costas na parede e esticando as pernas.
— Concordo com a tenente... — Lizzie começou. — Você seria um bom líder mesmo, porque você se importa com as pessoas.
O rapaz sorriu com o elogio e sentou no chão para amarrar os tênis.
— Eu achava que ela ia escolher você para esse trabalho. — ele comentou.
— Não... Eu ainda apoio a ideia de "cada um por si". — a ruiva sorriu.
Nick levantou e conferiu as roupas novas, checando se não tinha esquecido nada, depois voltou-se para a garota, sentando na beira da cama.
— Talvez eu volte ao escurecer, ou eu volto amanhã... Se eu não morrer, é claro... — disse com um sorriso sarcástico.
— Cala a boca! Idiota! — ela fingiu um tom irritado, dando um leve tapa no braço do rapaz, fazendo-o rir.
— Tenta não surtar e não matar ninguém enquanto eu estiver fora. — disse ele, beijando sua testa em seguida. Levantou novamente e pegou recolheu a mochila do chão, jogando-a sobre os ombros.
— Não prometo nada... — a ruiva rebateu em tom de brincadeira, tirando outra risada de Nick.
Observou o rapaz se retirar da cela com certa relutância, enquanto acenava com a mão. Espreguiçou-se e ponderou sobre a ideia de voltar a dormir, ficando mais algum tempo na cama. Acabou decidindo fazer alguma coisa de útil.
Jogou as cobertas para o lado e levantou com um impulso, fazendo a visão escurecer por alguns instantes. Apoiou-se na cama de cima para não cair e esperou tudo clarear novamente. Achou estranho, mas deduziu que fosse a fome, afinal, a última vez que comeu alguma coisa foi na noite anterior. Calçou seus tênis e pegou a jaqueta que estava sobre a mesa, notando que a visão começava a ficar embaçada e um mal estar repentino. Precisava comer alguma coisa.
Saiu da cela, deixando a collie sozinha, e seguiu com passos rápidos até a escada, descendo com pressa. Oliver estava conversando com um homem vestido com um jaleco branco, que lhe mostrava algo em um frasco. Notou que Lizzie descia as escadas e sorriu, chamando-a para mais perto.
— Essa, doutor, é a minha filha Lizzie. — disse Oliver, puxando a ruiva para mais perto. O homem de jaleco ajeitou os óculos e analisou a garota com cuidado. — Esse é o doutor Derek. Ele pesquisa a cura do vírus.
Lizzie o fitou de cima a baixo e depois assentiu.
— Muito progresso com as pesquisas? — a ruiva indagou com um sorriso.
— Sinto que estou perto de terminar um protótipo de amostra... — Derek respondeu calmamente.
— Já que você acordou, Liz, leva isso aqui pra sua irmã. — disse Oliver, entregando alguém frascos de remédio para a garota. — Ela tá na ala médica.
Lizzie assentiu e pegou os frascos, seguindo pelos corredores. A sensação de mal estar continuava, além da visão embaçada. Sentia que a qualquer momento poderia desmaiar. Chegou à ala médica com passos rápidos, e ao parar na porta a visão escureceu outra vez. Bambeou um pouco, como se estivesse sendo chacoalhada, e se apoiou no batente da porta. Quando a visão clareou outra vez, notou Lilian sendo prensada contra a parede oposta, e um homem segurava uma pistola contra a sua cabeça, e segurava seus pulsos com a outra mão, pedindo silêncio.
Logo reconheceu o homem, lembrou-se do dia em que ameaçou o loiro no refeitório, aquele era justamente o homem que ameaçou levantar e agir contra a ruiva. Seu olhar encontrou o da irmã, que lhe suplicava ajuda. Em silêncio, colocou os remédios em um balcão e caminhou em silêncio, pegando um suporte para soro que estava em um canto. Seu corpo estava trêmulo, e já não sentia mais tanta firmeza em seus passos, mesmo assim precisava agir. Temia que pudesse desmaiar.
Chegando próximo ao homem, segurou com firmeza o suporte e acertou a cabeça do homem com força, fazendo-o cair para o lado. Chutou a arma para o outro lado do cômodo e pediu para a irmã se afastar, enquanto golpeava o homem com força, abrindo cortes na cabeça. Lilian observava a cena em choque, sabia que a irmã era capaz de fazer loucuras, mas vê-la golpear o homem com tanta indiferença era assustador.
A visão da ruiva escureceu novamente, desorientando-a, apenas por alguns instantes, contudo, foi o tempo necessário para o homem levantar e revidar, tirando a arma da mão da garota. Ele tentou acertar a ruiva com um soco, porém, ela conseguiu esquivar a tempo e revidar com um soco. O homem se recuperou do golpe com rapidez e lançou-se sobre a garota outra vez, agarrando seu pescoço com força, parando apenas quando colidiram com a parede oposta.
A garota ainda tentou desvencilhar-se, mas foi em vão, estava fraca. O homem apertou o pescoço com mais firmeza e levantou a garota do chão, o ódio estava estampado em seu rosto. O pouco ar que Lizzie ainda tinha começou a se esvair, e ela lutava para arrancar as mãos de seu pescoço, afundando as unhas nas costas das mãos do homem, fazendo o sangue escorrer, entretanto, o homem não se abalou.
Lilian começava a entrar em desespero, neste ritmo a irmã iria morrer. Pegou a arma do chão e apontou na direção das costas do homem. Seu corpo todo tremia, o que dificultava fixar-se no alvo, mas conseguiu puxar o gatilho, fazendo o som da bala ecoar como um trovão. O homem urrou de dor e soltou a ruiva, voltando-se furiosamente para a outra gêmea. Antes que o homem a agarrasse outra vez, ela conseguiu gritar por socorro, porém, seu corpo havia parado de responder, estava paralisada pelo medo.
Enquanto estava caída no chão, Lizzie sentia o ar voltar a circular pelos seus pulmões, mas a visão estava totalmente escura, como se subitamente anoitecesse. Sentia suas forças esvaindo, estava começando a perder a consciência. "Você promete que vai me proteger?" a voz de Lilian ecoou em sua mente, e o grito de socorro da irmã a trouxe de volta à realidade. Ainda fraca, forçou um pouco mais os músculos, conseguindo se por de pé, ainda com a visão totalmente turva. Chacoalhou a cabeça freneticamente, até que conseguisse ver alguma coisa.
Seu alvo estava do outro lado do cômodo, tapando a boca de Lilian e a puxando para fora do cômodo, com dificuldade. O ódio que sentiu naquele momento foi o que lhe deu forças para continuar, mesmo com a visão um pouco turva. O ódio era seu poder. Correu na direção do homem e se jogou em suas costas, fazendo-o soltar a outra gêmea. Ele cambaleou para trás, ainda com a ruiva em suas costas, tentou alcançar algo no balcão para golpeá-la, contudo, a ruiva perfurou um dos olhos do homem com os dedos, usando o orifício como apoio para puxar a cabeça para trás.
O grito de dor não poderia ser mais satisfatório, mas não era o suficiente, Lizzie queria mais, queria ouvir o sangue escorrer. Antes que o homem fizesse alguma coisa, fechou as mandíbulas com força no pescoço do homem, onde havia uma artéria. Sentiu os dentes rasgando a pele do pescoço e abrangendo a área da artéria, e logo em seguida veio o sangue, que escorreu pela sua boca. Com o impulso que a dor lhe proporcionou, o homem arriscou a ruiva de suas costas, jogando-a no chão com violência. Quando percebeu, lhe faltava um pedaço do pescoço, o sangue começou a jorrar e, por mais que ele tentasse estancar com as mãos, não seria possível, a artéria já tinha sido rompida.
Lizzie ainda teve forças para levantar um pouco o corpo dolorido e cuspir o pedaço que faltava no pescoço do homem, ainda com o sangue do mesmo em sua boca. Abriu um largo sorriso ao ver o homem cair no chão, e uma poça maior se formar em volta do corpo. Viu que Oliver e Jon invadiam o local em seguida, atendendo ao chamado de socorro da morena, mas acabou perdendo a consciência em seguida.
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