Apocalipse
40 A Ameaça em Vermelho
Notas iniciais
— Você lembra quem tinha um olho azul e outro cor-de-mel, pai? — a ruiva indagou, fitando os olhos do pai.
Oliver empalideceu. De fato era uma surpresa a menção repentina de tal pessoa, seu semblante sorridente passou para um semblante preocupado, ele engoliu em seco e respirou fundo.
— É sobre ele que quer falar? — o pai indagou, mostrando-se inquieto. Lizzie assentiu positivamente. Oliver voltou o olhar para a outra gêmea, notando que a mesma ainda conversava com Nick.
Fez um sinal para a ruiva a seguir e tomou rumo às escadas, indo para o andar de cima. Voltaram à cela em que a ruiva tinha passado a noite, sentando-se no colchão da cama de baixo. O pai voltou o olhar para Lizzie, esperando que ela começasse.
— Eu encontrei o seu amigo Vincent, aquele policial que te ajudou... Já tínhamos nos encontrado em Ottawa antes, mas foi depois do apocalipse que ele me entregou a chave, e, há alguns dias, eu encontrei a sua carta. — disse a ruiva, remexendo sua mochila e tirando alguns papéis da mesma, mostrando a carta para Oliver. — E eu não te acho o pior pai do mundo.
O homem passou os olhos nas escritas do papel, abrindo um leve sorriso, depois devolveu o papel para a filha:
— Mas o que o David tem haver com isso? — o pai indagou, tentando ligar os pontos.
— Eu tive a grande infelicidade de encontrá-lo em Washington, e para a minha decepção, ele se lembrava de mim. É uma longa história, mas o que importa é o grande ápice da nossa "guerrinha", ele, com a ajuda de mais alguns aliados, conseguiu destruir uma cidade de refugiados quase que por completo, conseguiu me colocar contra o Nick e ainda me fez ser expulsa da cidade... E como prêmio, levou a irmã do Nick com ele.
Oliver assimilou a informação e ponderou a respeito, ficando algum tempo em silêncio. Lizzie remexeu a mochila outra vez, tirando o frasco com os olhos de David, mostrando ao pai, que ficou um pouco perturbado.
— O que... Exatamente você fez? — ele indagou, ainda fitando os olhos no frasco.
— Eu o matei. — Lizzie respondeu, sem poder conter o sorriso ao lembrar-se do ato. — Eu não teria conseguido sem o Nick, já que foi ele quem preparou o palco... Depois que ele destruiu a cidade e fugiu, nós conseguimos encontrá-lo, ele tinha estuprado a irmã do Nick, além de deixá-la para morrer... Nós o fizemos pagar com a vida todos os seus pecados, todas as vidas que ele tirou, todas as crianças que ele estuprou, todas as pessoas que serviram de refeição para ele... Inclusive o Steven, que ele assumiu ter matado, junto com a família dele.
A ruiva guardou o frasco de volta na mochila e mostrou-lhe algumas das fotos que tirou na sessão de tortura de David, mostrando-o multilado, com múltiplos cortes pelo corpo, além de uma poça de sangue que se estendia pelo chão. Oliver pegou a foto para ter certeza de que era realmente o homem, seu semblante tinha um misto de alívio e choque.
— Ele não foi o único pai, na noite no apocalipse eu matei o tio Andrew, e na tarde em que o David pôs em prática seu plano de destruir a cidade, eu matei a tia Olívia, sem contar todos os outros que queriam a minha vida, ou corpo.
Sem dizer nada, Oliver se aproximou e abraçou a filha, espremendo-a contra seu corpo, fechando os olhos.
— Tudo bem, Lizzie, eu entendo.
— Não pai, não está tudo bem, eu sou perigosa, não consigo viver em grupos grandes... Cedo ou tarde eu vou surtar e matar mais alguém. Eu sou um imã de problemas.
Mantiveram o abraço por algum tempo, até Oliver a soltar a ajeitar seu cabelo avermelhado, sorrindo para a filha.
— Não se preocupe, nada de ruim vai acontecer. — ele disse, fazendo a filha se tranquilizar.
Levantou e saiu da cela, aguardando que a ruiva fizesse o mesmo. Lizzie fechou sua mochila e colocou-a junto com a de Nick, depois saiu da cela, com seu andar manco. Voltaram ao andar inferior.
* * *
Passaram-se alguns dias. Enquanto se adaptavam as normas da prisão, se recuperavam de seus ferimentos. Os dias eram bastante banais, como se a rotina diária se repetisse eternamente.
Como sempre, Lizzie observava o movimento dos policiais que, nos fins de tarde, acendiam as tochas do lado de fora da prisão, além de fazer um último check-up no perímetro, verificando se estava tudo trancado. Os olhos esmeralda alternavam entre as torres de vigia e o portão principal, onde um aglomerado de infectados parecia aumentar a cada dia, porém, ninguém se encarregava de atraí-los para longe, ou simplesmente matá-los.
— Hey, Liz. — a voz de sua irmã ecoou ao seu lado, chamando sua atenção.
Estava tão distraída com seus pensamentos que mal ouviu os passos da gêmea na fina camada de neve. A ruiva voltou o olhar para o lado, notando que Lilian agachava ao seu lado.
— Não está muito frio aqui fora? — a morena indagou, abraçando o próprio corpo.
— Está. — Lizzie respondeu, abraçando seus joelhos.
Lilian, que sempre observava o quão quieta a gêmea estava nos últimos dias, gostava de tentar adivinhar o que a irmã estaria pensando. Era como se Lizzie tentasse manter a distância imposta pela separação dos anos.
— Pensando no passado, de novo? — Lilian indagou.
— Não. — a ruiva fez uma pausa, ajeitando os cabelos soltos com flocos de neve. — Penso que um dia aqueles infectados acabarão entrando... Eventualmente teremos que sair para procurar suprimentos, certo? Se ninguém tomar uma providência, pode gerar uma catástrofe.
A morena ficou em silêncio por alguns instantes, voltando o olhar para o portão principal, que estava a metros de distância. Sorriu para a irmã, voltando o olhar para a mesma:
— Você nunca viu o lado bom das coisas, não? Você poderia pensar que, se eles entrassem, os policiais seriam mais rápidos e os matariam antes. — levantou e voltou o olhar para o céu, que começava a escurecer, depois estendeu a mão para a irmã ajudando-a a levantar. — Vamos entrar.
Lizzie, após tirar a neve da roupa, se pôs a seguir a irmã, voltando para o interior da prisão. A maioria dos sobreviventes que habitavam o local estavam presentes, e seguiam para o refeitório. Por mais que o local fosse protegido do vento frio e da neve do exterior, ainda tinha um aspecto gelado, como se não fosse possível esquentar o interior da construção.
As duas seguiram para o refeitório, tomando uma mesa vazia próxima da parede. A ruiva, apoiando os cotovelos na mesa e entrelaçando os dedos na frente do rosto, observava o movimento no local, que parecia ser mais quente.
— Cadê o pai? — Lizzie indagou.
— Ele tava resolvendo um problema com a tenente, mas já deve estar voltando. — a gêmea respondeu calmamente, sorrindo para a ruiva. — Já volto.
Pelo canto dos olhos, a ruiva observou Lilian levantar da mesa e seguir até um balcão, onde estavam servindo sopa quente. Enquanto esperava a morena retornar, passava os olhos sobre as outras mesas, observando os grupos interagirem entre si, mas não tinha o mínimo interesse em saber sobre os assuntos que comentavam. Parou quando percebeu que um homem a olhava de volta, parecia ter a mesma idade que seu pai, além de ter o cabelo e uma barba grandeambos loiro escuros. Ele sorria discretamente enquanto parecia medir a ruiva.
Lilian voltou, colocando uma tigela na frente da irmã e outra no lugar que sentaria. A ruiva agradeceu e mexeu o conteúdo com uma colher, notando que havia macarrão e pedaços de carne, junto com um caldo grosso.
— No que está pensando agora? — a morena indagou, levando uma colher à boca.
— Pensando em como minha border collie está... Quero ir buscá-la logo... — Lizzie respondeu, ainda mexendo a sopa, enquanto soprava para esfriá-la.
— Mas você vai ficar?
Após provar um pouco da sopa, sentindo o caldo quente a esquentando por dentro, voltou o olhar para a irmã:
— Não sei, mas é provável que sim... Pelo menos até o inverno acabar. — deu um leve sorriso, levando outra colher à boca. — Mas você não me disse como chegou aqui ainda, e nem o porquê.
— Ah... Sobre isso... As coisas começaram a ficar difíceis na Austrália, eu comecei a ficar com depressão, além de que a mãe colocava muita pressão em mim. O relacionamento dela parecia estar perfeito, os dois quase nunca discutiam, então eu acho que ela sentia falta de alguém pra brigar, ou coisa do tipo... Ela tentava discutir comigo, mas nunca tinha motivo pra discussão, então ela queria que eu me esforçasse ao máximo nos estudos e nas tarefas de casa. Mas era difícil... Você sempre foi mais inteligente.
— Talvez. — a ruiva respondeu. — Eu sabia me virar com os estudos.
— Pare de tentar fazer eu me sentir melhor, você sabe que é verdade. — ela sorriu, cutucando de leve o ombro da irmã. — Eu consegui uma bolsa de estudos e comecei a fazer enfermagem, aos dez anos. Era bem legal. Mas não era o bastante pra mãe, ela queria que eu fizesse sempre mais. Então, alguns meses antes do nosso aniversário de treze anos, eu conheci um cara que fazia voos clandestinos. Ele transportava todo o tipo de coisa ilegal, drogas, armas... Com a ajuda dele, eu fui pra Vancouver, um pouco antes do apocalipse.
— Mas a gente não tava mais em Vancouver. — a gêmea rebateu.
— Eu percebi. Então eu comecei a procurar vocês, mas aconteceu o apocalipse...
— Que pena. — a ruiva disse com sarcasmo, sorrindo de canto enquanto degustava sua sopa. Fingindo-se de brava, Lilian lhe deu um empurrão.
Ambas ficaram em silêncio, enquanto tomavam suas sopas. Lizzie voltou a pensar sobre algum assunto aleatório, voltando a si apenas ao ouvir a menção da palavra "ruiva", como se fosse um sussurro distante. Levantou a cabeça, procurando com os olhos quem supostamente teria mencionado a sua pessoa, parando no mesmo homem que a fitava antes, agora ele estava cochichando algo com outros dois homens na mesma mesa, entretanto, ainda fitava as gêmeas.
A ruiva respirou fundo e fechou os olhos, tentando ouvir o que eles sussurravam. Lilian, notando o ato da irmã, e pressentindo que algo a incomodava, voltou o olhar para a mesma, tomando fôlego para falar:
— O que foi?
— Nada... — a ruiva respondeu, mantendo a voz calma.
— Como nada? Você geralmente faz isso quando tenta manter a calma, e na maioria das vezes não consegue.
— Relaxa, eu tô bem.
Ainda desconfiada, a morena voltou a tomar sua sopa. Aos poucos, Lizzie começou a se concentrar na conversa daquela mesa em específico, mesmo que ainda fosse difícil entender todas as palavras com clareza, mas tinha certeza que eram comentários indecentes. Manteve-se calma, tentando esconder a inquietação de sua irmã.
Quando mais tentava se concentrar em não ouvir, mais os comentários chegavam aos seus ouvidos, contudo, sua paciência se esgotou por completo ao ouvir o nome de sua irmã na roda de conversas. Com um impulso, levantou-se do banco, saindo do mesmo com rapidez.
— Lizzie! Lizzie! — sua irmã a chamava, prevendo que estava prestes a fazer algo por impulso.
Ignorando os chamados de Lilian, a ruiva seguiu até a mesa em que eles estavam, abrindo um falso sorriso. Os homens se endireitaram na mesa, enquanto observavam a garota se aproximar. Quando estava perto o bastante, Lizzie desfez o sorriso, passando para seu semblante mortalmente sério, cerrando os pulsos e acertando um firme soco no rosto do loiro, fazendo o mesmo cambalear para o lado.
Outro homem presente na mesa ousou levantar e agir, quando ela voltou seu olhar vazio e sedento por sangue em sua direção, fitando no fundo dos olhos:
— Isso não é assunto seu, fica na sua. — ela disse com firmeza e em tom frio.
Aguardou o loiro se recuperar do golpe, passando a mão no rosto, agora inchado, e levantando-se, ficando maior que a ruiva.
— Agora fala na minha cara, o que vocês estavam cochichando. — ela o desafiou, lançando seu olhar vazio no semblante do homem.
O loiro apenas estreitou os olhos, enquanto tirava um canivete do seu bolso, apontando-se para a ruiva. Lizzie exibiu seu sorriso psicótico, rindo em deboche do ato. O homem avançou, procurando acertar a lâmina no pescoço da garota, entretanto, ela recuou e depois se voltou para frente, agarrando com firmeza o braço do homem e o torcendo, pegando a faca em seguida.
A garota se apressou e se pôs atrás do homem, ainda torcendo seu braço. Chutou a dobra dos joelhos, fazendo o adversário abaixar, segurando com firmeza a lâmina contra o seu pescoço exposto, e puxando seu cabelo para trás, fazendo a cabeça ficar levantada. A ruiva aproximou o rosto de seu ouvido, mantendo-se séria:
— Mais um comentário indecente e eu terei o prazer de queimar o seu corpo vivo. — riu, enquanto imaginava o corpo contorcendo-se nas chamas, aproveitando para fazer um longo corte no pescoço do homem, como uma assinatura de sua ameaça.
Soltou o loiro, chutando-se para cima da mesa, jogou o canivete no chão e seguiu na direção da saída, notando que a tenente, acompanhada de Oliver e Nick, assistiam a cena, um tanto abismados.
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