Apocalipse
7 O taco
Os infectados pálidos correram em nossa direção. Não pensei no homem e tentei me concentrar apenas em Matt e em mim. Puxei seu braço com a maior força que consegui encontrar e corri. As botas que estavam em meus pés faziam com que meus passos fossem macios, e não pesados. Meus músculos estavam rígidos e sentia minhas têmporas doerem. Meu maxilar estava apertado e meus olhos castanhos, fixos no final do corredor. Me apoiei nas prateleiras que tinham suco de tomate e fiz uma curva fechada, fazendo com que meu pé resvalasse e com que eu perdesse o equilíbrio por segundos. Desviei o olhar para trás. Meu corpo endureceu e raspei meu ombro magrelo pela parede do supermercado. Congelei. Os infectados cravavam seus dentes no homem que antes tinha quase atirado em minha cabeça. Era horrível. O líquido vermelho que saía dos ferimentos se misturava com a gosma que saía da boca dos infectados. Eu estava tremendo. Cinco doentes nos seguiam. Minha mente voltou a funcionar, eu dei as costas e segui em frente. Mattel tinha passado por mim no tempo em que eu tinha parado para olhar para o homem.
Tínhamos cruzado diversos corredores até chegar nas portas duplas. Elas continuavam no mesmo estado de quando havíamos chegado. Estilhaçadas e tortas. Eu já tinha ultrapassado Matt, apesar de ser mais baixa, era mais ágil. Empurrei o que sobravam das portas com o ombro, tropecei e rolei no asfalto. Senti o impacto diretamente em minha coluna, como se o arco tivesse sido cravado em minhas costelas. As costas de minha mão tocaram o asfalto, para que eu conseguisse levantar, mas os estilhaços de vidro penetraram minha pele branca. Olhei para a porta do estabelecimento. Mattel fazia o mesmo que eu, mas caindo em pé. Ele levantou os casacos e retirou uma pistola. Atirou uma vez. Eu nunca tinha escutado o barulho de uma arma e entendia como era fácil tremer ao segurar uma. Era estranho ter em mão algo tão letal e perigoso. Atirou uma segunda e não acertou até a terceira, atingindo o nariz de um deles e fazendo com que o mesmo despencasse. Entendi que se fosse depender das armas de Matt, estaria morta em segundos.
Repeti o que Matt fazia, mas minha mão aparentava tremer muito mais. Acertei dois deles. Minha pele sangrava e faziam com que as pequenas gotículas do líquido quente molhassem o metal frio da arma.
–CORRE. — berrei para Mett, que entendeu o comando segundos depois.
Seguíamos pelas ruas sem ao menos parar. As casas não permitiam abrigo longe dos olhos dos doentes, que pareciam incansáveis, até que vi a loja de esportes em uma esquina escura. A memória da loja favorita de minha mãe voou pela minha cabeça. Era um esconderijo perfeito. Empurrei a porta e ela estava aberta, rastros de sangue faziam o caminho da saída, que seria a minha entrada. Matt percebeu meu plano e correu para dentro. Me escondi atrás de uma série de araras e meu amigo fez o mesmo. Observei entre a cortina de casacos os outros três infectados que passavam pela rua aonde estávamos a 5 minutos atrás.
Os músculos tencionados de minhas costas relaxaram e senti a dor em minhas mãos ficar mais forte. Deslizei o arco e a aljava por meu ombro, deixando que ele caísse no chão sem medo do barulho. Caminhei até uma cadeira almofadada no centro da loja e joguei todo o peso de meu corpo sobre ela. Mattel se aproximou de mim e ficou em pé em minha frente. Ele ainda transpirava e sua respiração estava pesada.
Nos olhamos sem falar, porque até agora não sabíamos ao certo o que tentávamos enfrentar, mas agora tudo estava mais claro.
-Eles diminuem a velocidade à medida que ficam mais doentes. Não é? – Matt sabia tanto quanto eu que a resposta era um mistério, mas a resposta “sim” era um tanto reconfortante.
-Acho. – falei.
Matt sentou no chão e encostou a cabeça em meus joelhos. Percebi que o silêncio, antes nada presente na minha vida, iria se tornar normal. Me levantei.
-Preciso arrumar essa mão. – falei olhando para ela como uma menina olha para uma boneca quebrada.
-Vidro?
-Aham.
-Vem cá então. – falou Matt enquanto cavoucava dentro da nova mochila. – Achei um quite de primeiros socorros e achei bom pegar.
Sentei em sua frente enquanto ele abria uma pequena caixinha vermelha com um cruz em branco, o que me lembrou a bandeira da Suécia, que me fez pensar automaticamente porque os símbolos dos quites eram assim. Nada muito relevante.
Matt pegou uma pinça, uma lupa e começou o trabalho. Apenas fechei os olhos e deixei que ele fizesse o que fingia saber fazer. Demorou alguns minutos, quinze, dez. Não sei dizer. Só fiquei parada sem me mexer e deixei o ar entrar e sair de meus pulmões. Meu amigo enrolou na palma de minha mão uma tala, que se tingia pouco a pouco de manchinhas vermelhas escuras. Pronto, ele disse, e brincando beijou meus dedos frios.
-Vamos dormir? – o garoto já retirava um daqueles sacos de acampamentos de dentro da mochila. Rolou a minha pelo chão e a sua em meu lado.
Enrolei meus braços em volta do pescoço de Matt. Estava frio e meu corpo tremia. Nenhum barulho vinha de fora e seria uma noite perfeita para dormir, mas eu sentia que tanto eu quando Matt não conseguíamos despregar os olhos.
-Matt?
-O que, Maggie?
-Eu não vou dormir.
-Eu também acho que não vou.
Um silêncio percorreu o espaço entre nós, com apenas as respirações pendentes no ar.
-Amanhã vamos sair da cidade. Ok?
-Ok. – ele respondeu.
Fechei os olhos e dormi, o que eu não esperava que iria conseguir fazer.
Fale com o autor