Eu acabei percebendo que sempre dormia com a lateral do meu rosto encostada na jaqueta preta de Matt. Acordei com o movimento exagerado de seu braço. A moto estava parando lentamente. Um homem estava deitado no meio do asfalto negro. A noite caia sobre o céu completo com estrelas, parecendo diamantes.

–Magg, acorda. — meu amigo sussurrou para mim, virando a cabeça para trás e deixando que eu encarasse seu perfil.

–Já acordei — respondi de volta em um tom baixo. — O que você vai fazer?

Matt não me respondeu, apenas desceu da moto e caminhou em direção ao homem, silenciosamente. Eu fiz o mesmo, depois de baixar o pé metálico da moto. O garoto não se abaixou do lado do homem, apenas ficou o observando.

–Está respirando. — eu falei em seu ouvido. — E não parece ser um infectado. Está muito quieto para ser um.

–Talvez eles fiquem assim quando não tiver nenhuma presa por perto. — explicou Matt.

Ajoelhei-me ao lado do homem e toquei seu ombro. Sua mão agarrou meu pulso e seus olhos se abriram, eram mais imensos que o normal. Estavam vermelhos como o olho de qualquer infectado. Ele era forte e não largou meu braço, mesmo depois de eu ter tentado recuar. Matt segurou o braço do infectado mas antes que conseguisse fazer qualquer movimento violento, o homem no chão começou a falar. Seus dentes estavam sujos de sangue e percebi que sua outra mão estava na barriga. Ele deixou que ela caísse e eu vi uma faca enfiada em seu estômago.

–Eu... eu estou infectado. Bem infectado. In. Fectado. Eu me matei sabia? Eu tentei. Mas esse vírus me faz ficar vivo. Sabe o que é? A cabeça, mate a cabeça e você me mata.

–Você se matou? — eu perguntei.

–Não é óbvio, menina morena burra? — sua visão se semicerrou. — antes que ser virado por esse vírus. HAHA. RIMOU. — Ele berrou, a única coisa óbvia ali era que aquela frase não tinha rimado. — Meche com a cabeça da gente sabe? O vírus. Ele te deixa tranquilo, e toma conta do seu corpo devagar. Na primeira hora nem dá pra sentir, mas depois você não controla mas isso aqui. — ele apontou com a mão para as pernas, sem mover a cabeça que estava deitada no asfalto. — Nem isso aqui. — ele colocou a mão em sua têmpora. — Mas sente tudo. Tudo.

Fiquei paralisada, com a boa entre-aberta olhando para o infectado. Queria gravar tudo que ele dizia, mas sabia que aquilo não era possível no momento. Ele continuou a falar.

–Mas quer saber? — Ele disse apontando o dedo indicador em minha direção, como se me desse uma lição de moral. — O vírus deixa o corpo quando você não tira a cabeça. Ele também odeia frio. Frio, frio, frio. Canadá. Alasca. HAHA. — ele riu de um jeito pavoroso. Seus olhos não me encaravam. Eram vazios e com as veias vermelhas saltadas encarando o horizonte, como se já estivesse morto a tempos. Perguntei-me o que faríamos com ele, definitivamente não poderíamos levar conosco. Uma ideia me ocorreu.

–Matt, pegue dentro da minha mochila. Tem o mapa e uma caneta.

Matt correu para a moto e abriu minha mochila, rapidamente pegou os objetos que eu pedi a ele e voltou os trazendo na mão. Entregou a mim e comecei a anotar tudo que o Infectado tinha nos contado. Circulei no mapa o Alasca e Canadá. Escrevi a palavra "frio" ao lado e o coloquei no bolso, junto com a caneta. Virei-me para o homem e o encarei. Seus olhos agora encaravam o céu. Seu corpo não se movia.

–Temos que mata-lo. — eu disse, virando meu corpo para Matt e pegando o facão em seu cinto.

–O homem está consciente, Magg. Não.. — sabia que ele iria descordar de mim, mas engrenagens começaram a funcionar em sua cabeça. — Tudo bem. Eu vou voltar para a moto, você quem vai fazer isso, eu me recuso.

Meu amigo voltou para a moto e enquanto arrumava as coisas, eu me virei para o homem, que não parecia perceber minha presença.

–Você ainda está aí? — eu perguntei, esperando que ele não me respondesse, para que pudéssemos ir, mas ele respondeu.

–Faça logo. — os olhos dele encararam os meus. Levantei minha bandana à boca. Segurei os cabelos do homem e encostei a lâmina em seu pescoço. Ela era opaca, mas se destacava na escuridão que tomava campo. Foi uma questão de segundos e sangue esquentava o asfalto frio e infinito da estrada. Carreguei seu corpo até o acostamento, deixando um rastro. Voltei para Matt e ele me encarou, seu olhar era de culpa. Parecia uma criança com medo. Por um momento pensei que poderia ser apenas o reflexo de meus sentimentos, sem saber se era bom ou ruim sentir medo naquela nova terra que vivíamos.