Apocalipse
2 Billy e Wailly
– O que você tem na mochila?
Matt revirava o estojo, dinheiro, carteira e a comida trazida de casa, fazendo com que tudo caísse no chão.
– Certo, temos um sanduíche, 20 dólares, minha carteira, meu celular, um canivete, lápis e canetas. E você? — O garoto olhava diretamente em meus olhos, como se temesse olhar para qualquer lugar e ver outras pessoas devoradoras de gente.
– Fósforos, uma banana, um saco de biscoitos, os livros da escola, tema de álgebra, IPod, bateria, celular e uma garrafa d'água.
– É, as suas coisas são melhores que as minhas. — Matt afirmou com um sorriso. — Mas por que cargas d'água você tem fósforos?
– Emergências.
– Tipo?
– Se eu tiver que tacar fogo em um amigo que só me faz perguntas idiotas. – sorri.
Estiquei a mão para que ele me ajudasse a levantar do asfalto.
– E agora? — Matt perguntou.
– Não sei. Alguma ideia do que foi aquilo?
– Zumbis. — seria uma resposta engraçada, se não fosse possível ser verdade. Mas sempre que víamos zumbis em filmes, sabia de corpos em decomposição e não maratonistas que corriam sem perder o fôlego.
– Olha, eles correram até nós e estavam em um estado bom... quero dizer, de aparência. Eles não pareciam mortos-vivos.
Me virei para trás, vendo o caminho que já tínhamos percorrido. Poderíamos ir pra casa e ver nossos pais, poderíamos voltar para a cidade e descobrir o que tinha acontecido e... poderíamos morrer antes de completar qualquer uma dessas possibilidades.
– A gente deve decidir o que fazer. Agora. – eu disse
Ele virou para mim e encarei seus olhos castanhos. Eram como os meus e neles eu via medo. Seria assim quando ele me via? Eu não poderia mostrar pânico ou fraqueza, porque minha mente não trabalhava direito quando isso acontecia.
– Caminhar pra casa é meio inútil agora, não acha? — ele disse.
– Por?
– Estamos perto da cidade. Na cidade temos supermercado, armas, roupas e...
– Pessoas devoradoras de gente que invadem ônibus escolares de adolescentes sonolentos. Mas ainda acho que você está certo. — completei meu pensamento — Seria inútil ir pra casa. Lá tem comidapara alguns dias e quando faltar, vamos precisar recorrer á cidade.
– Que droga, não é?
– É.
Nos viramos para frente, em direção a cidade, antes que qualquer ideia fizesse com que mudássemos de decisão.
- Para a cidade então?
- Cidade. – confirmei e tentei sorrir para meu amigo da forma mais reconfortante possível.
****************************************
Caminhamos por fazendas. Não queria passar pelos restos metálicos do ônibus e nem descobrir que alguma daquelas pessoas tinha sobrevivido. Era fácil chegar à cidade. Os prédios altos completavam o horizonte deixando marcas no céu. Matt checava seu relógio de minuto em minutos, o que me irritava, mas depois de um tempo, depois de me perder em meus mais profundos pensamentos, a única coisa que me ligava ao mundo real era meu andar acelerado. Poderia ser uma doença, mas eles não pareciam zumbis. Tinha possibilidades de ser algo que se propagava, deixando um humano agir como um animal e sua pele só ficaria envelhecida e decomposta depois de algum tempo. Talvez.
Nos aproximávamos dos prédios altos.
– Levamos duas horas e trinta minutos. -declarou Matt. — e agora?
Pensei. Se a cidade estava lotada de pessoas doentes era algo lógico que qualquer criança burra conseguiria perceber, precisávamos de armas, comida e abrigo
– Matt, aonde o seu pai comprava armas de caça mesmo?
– Billy e Wailly. Quer caçar? Compre aqui. — repetiu Matt em um tom zombeteiro o logo da loja. Odiava profundamente que seu pai caçasse. Odiava seu pai, na realidade, mas era um parente e eles tinham que falar quando ele queria pegar os ovos mexidos na mesa do café mas estavam longe de seu alcance. — É ao norte. Mas é prudente ir lá primeiro do que no shopping. Deve ter muita gente lá e se não morrermos pelos zumbis, as pessoas nos matam.
–Desespero. — disse.
–É. Vamos pra loja e depois, ao shopping. — completou Matt.
Fale com o autor