Apocalipse
4 187
Passamos pelos corredores que se encontravam no mesmo caos da sala de recepção. O hospital inteiro estava sendo utilizado como estadia para quem não estava em casa. Homens com roupas hospitalares azul-bebê passavam carregando macas com corpos imóveis, com as mãos sangrentas e tentando posicionar tubos para que o paciente respirasse melhor, fazendo com que ele dependesse de uma máquina. Me imaginei no lugar deles. Incapacitada enquanto as pessoas lá fora ficavam doentes e matavam umas as outras. Eu teria que ficar sentada, dividindo o quarto com pessoas tão feridas quanto eu, esperando que tudo passasse sem saber do que fugia e se um dia viveria como antes. Matt se encaminhava para uma porta de madeira pintada de branco com o número 187 feito de plástico pregado em sua superfície. Desviava dos objetos no chão, das macas que passava, dos pacientes que tentavam chegar a algum lugar e de médicos que empurravam algumas pessoas para abrir espaço sem dar importância. Cheguei perto de meu amigo depois de quase ter sido atropelada por uma garota que usava uma cadeira de rodas e escutei o "clack" da maçaneta girando, logo seguido pelo ranger da porta.
Entrei na sala e meu olhar caiu imediatamente sobre os corpos nas macas. Eles estavam amarrados com elásticos fortes ás camas improvisadas com a respiração arfante e violenta, revirando a cabeça para todos os lados com as veias de seus olhos vermelhas, quase ocupando as partes brancas que restavam de suas escleróticas[1]. A porta se fechou atrás de mim e imediatamente me encostei na parede. Era o mesmo cheiro que tinha sentido dos seres que invadiram nosso ônibus. Fulgor, chorume, fezes e corpos mortos. O fedor que inalava dos corpos presos às camas penetrava em minhas narinas, me deixando tonta. Tapei meu nariz com as mãos e respirei com a boca, sem duvidar de que não queria sentir aquela fedentina novamente.
Havia três enfermeiros no quarto e 5 corpos. Um homem, uma mulher e a irmã de Matt. Tubos transparentes estavam injetados nos braços e pescoço dos corpos inquietos. Um líquido branco atravessava os canos até os doentes, fazendo com que seus súbitos ataques ficassem mais lentos, algo que eu não entendia. Passei perto deles e assim que sentiram minha presença tentaram se levantar de todos os modos, mas as amarras não permitiam. Angel tinha os cabelos loiros com mechas castanhas presos em um coque alto. Ela usava uma máscara branca que deixava a mostra apenas as suas grandes íris azuis cor do mar, como os do pai de Matt, uma de suas únicas semelhanças. Ela era pequena, baixa e com uma barriga volumosa. Senti o gosto de bile em minha boca assim que olhei para o corpo em que ela mexia, literalmente. Era uma mulher com a mesma aparência dos outros doentes, mas aonde deveria estar a pele que cobriria sua barriga, se espalhavam tripas e órgãos que não me dei o trabalho de definir. O que mais me chamou atenção no corpo que Angie examinava com os dedos gordinhos cobertos por luvas era que os olhos da mulher estavam abertos. Chegamos perto e senti seu olhar sobre nós dois.
– Oi, mana. — a voz de Matt se sobrepôs a todos os sons que aconteciam, ente eles os gemidos dos doentes, as portas que batiam lá fora, os nomes sendo chamados e os sons de choros que passavam pelo corredor.
Angie levantou o rosto rechonchudo. Não conseguia ver seus lábios, mas tinha certeza que se pudesse eles estariam abertos, expressando o terror e surpresa que se misturavam.
– O QUE VOCÊ FAZ AQUI?
Eu poderia ter certeza que ela não tinha me notado.
– Quero saber o que está acontecendo.
– Quer saber o que...
Angie não completou a frase. Agora ela parecia fervilhar de raiva, deixando que sua testa franzisse, formando pequenas rugas e fazendo seu rosto se ruborizar. Ela olhou para o cadáver, que ainda nos encarava e saiu pela sala, fazendo um leve aceno com a mão para que a seguíssemos. Os outros enfermeiros não pararam de trabalhar e injetar o soro nas veias dos corpos presos, sem ao menos perceber que tínhamos nos retirado.
Percorremos os mesmos corredores com as paredes descascadas até chegar a seu fim, aonde se encontrava uma porta. Angie retirou de dentro das vestes um longo cordão que em sua ponta, pedia uma chave oxidada. Com um leve girar a porta se abriu. Entrei logo, seguida de Matt e Angie. Era uma sala normal, com uma grande janela que deixava à exposição a visão dos prédios altos e de outras cidades ao longe, mas as construções pareciam mazelentas completas por ruas ermas. Uma grande mesa se encontrava no meio do pequeno cômodo e a sua frente, duas cadeiras acolchoadas. Angie se colocou a nossa frente, sentou-se e começou a arrastar os papéis para o chão como se agora não tivessem nenhum valor. Matt sentou ao meu lado e, como se tivesse começado um interrogatório, fixou os olhos na irmã.
– Você sabe o que está acontecendo. Explique.
Matt foi direto e simples. Nunca tinha o visto tomar uma posição daquele modo. Seus olhos azuis claros estavam fundos e sua postura estava rija. Ele não era assim. Eu estava acostumada com o Mattel antigo, o que me carregava nas costas e que me ajudava quando eu precisava.
– Matt, primeiro me explique como veio parar aqui. – respondeu a irmã.
Esperei que ele descordasse, mas não teve objeção. Contou desde o momento em que acordara de manha e comera seus ovos mexidos até ali.
– Teria sido mais inteligente procurar comida e armamento em qualquer outro lugar, menos aqui. Se bem que tenho dúvidas se a doença não se agravou mais.
Silêncio. Eu não escutava mais as rodas pesadas das camas lá fora sendo carregadas nem as discussões por bens que alguém roubou de outro ninguém. Apenas a voz de Angie pendurava no ar, mesmo seus olhos estarem virados completamente para explicar a seu irmão tudo aquilo.
– Ela começou na última sexta-feira, a dois dias atrás, em uma cidade próxima aqui. Vocês viram como deixam as pessoas. Eles parecem os zumbis daqueles filmes que eu odeio ver. — a irmã de Matt brincava com seus dedos, fazendo com que eles girassem um em volta do outro, como uma criança faz quando está contando uma história. — É transmitida por um líquido que começa a crescer na boca dos infectados e o único jeito de passá-la para alguém é inserindo essa gosma nas veias ou em áreas perto do cérebro. Mordidas.
– Como começou? — questionou Matt.
– Há boatos de que alguns médicos trabalhavam com o vírus da raiva e ele infectou um dos doutores sem eles descobrirem. Depois de um tempo do cérebro entrando em contato com esse vírus, o infectado se torna um animal, lentamente. As pessoas que vocês viram provavelmente estavam nos primeiros estágios de entrar na "Fase da Loucura", que é como chamamos. Eles se lembram ainda da vida passada e, aos poucos, vão esquecendo. O cérebro se decompõe, basicamente, como o resto do corpo. Passos começam a ficar mais lentos, eles perdem a habilidade de falar e só conseguem focar em uma coisa por vez, como ações básicas. Perseguir a presa, comer, sentar e etc.
Angie terminou de explicar e eu olhei para Matt, sendo retribuída. A cabeça da irmã de meu amigo estava olhando para seu colo, como se não tivesse coragem de ver nosso pavor. Eu ainda queria perguntar e antes de entender que não tinha direito de interromper o silêncio, as dúvidas escaparam de minha boca.
– Você estava mexendo em uma mulher, quando entramos na sala. Ela estava viva e infectada, mas a barriga dela estava toda aberta e ela parecia estar completamente lúcida. Como?
Suas íris azuis me encararam como se tivesse me notado o tempo inteiro, mas eu sabia que ela apenas ignorava minha presença.
– O vírus é como um parasita, mas ele não se alimenta de nós até morrermos. Na realidade, depois de um tempo, perdemos a consciência de nossos atos. Só é possível eles serem mortos se o vírus morrer e já que ele está alojado no cérebro, enquanto a cabeça não for, digamos "danificada", ele sobrevive.
Então se queremos matá-los, primeiro a cabeça, pensei e logo me arrependi. Se fosse viver aquilo, se diversas pessoas estivessem passando por esse vírus, eu teria que matá-las enquanto vivas.
– Essa doença não matou só a cidade. Ela se agravou, não foi?
Eu sabia a resposta. Se aquele imenso grupo que Mattel e eu queimamos no ônibus tinha conseguido sair da cidade, outros também tinham. Provavelmente existiam vários infectados, milhares e eu estava ali, procurando informações enquanto o Sol se recolhia atrás dos prédios. Assim que percebi o que acontecia lá fora um arrepio fez com que todos os cabelos de meu braço se eriçassem como se tivesse entrado em baixo do chuveiro com água gelada no inverno.
Cutuquei o ombro de Matt e ele virou para mim.
– Está ficando escuro.
Ele demorou para entender. Seus olhos se arregalaram e vi suas pupilas se dilatarem. Percebemos a mesma coisa. A cidade estava desabitada e qualquer pessoa veria e perceberia o hospital a noite. O grande bloco cinza, iluminado com os barulhos chamativos. Uma árvore de natal em meio a uma floresta de pinheiros.
Levantei-me e Mattel fez o mesmo.
– Vão fazer o que agora?
– Angie, ninguém pode ficar aqui.
– O que? — a mulher perguntou. Nós não tínhamos tempo. — Não posso sair daqui. Tem outras pessoas para atender.
– Você vai morrer se ficar. Olha, esse hospital vai ficar mais chamativo que um letreiro luminoso neon de uma sex shop depois que escurecer completamente. Eles vão vir e as pessoas que ainda não estão infectadas, vão pegar o vírus. — expliquei desesperada para sair dali, sentindo as paredes me prendendo e a porta branca da sala sem abrir, nos deixando ali.
Angie sentou-se na cadeira e Matt não teve nenhuma reação, apenas caminhou até ela e a abraçou muito forte.
– Eu te amo, Angie.
O momento durou alguns segundos e saímos pela porta branca, deixando a irmã de meu melhor amigo sentada em um consultório do hospital St.Thomas.
Passamos pelos mesmos corredores ocupados por pessoas, doentes e mendigos. Desabrigados e os outros. Os restos. Os que sobraram e que provavelmente iriam para qualquer lugar depois de morrerem. Não avisamos ninguém.
Abri as grandes portas de St.Thomas e olhei em volta. O crepúsculo pintava o céu, o deixando em várias cores. Tínhamos pouco tempo.
Corri em um ritmo constante, temendo o tempo em que o Sol se esconderia dando espaço à Lua. Meus membros tremiam e eu sentia a adrenalina percorrer meu corpo. Meus pulmões precisavam de ar e minhas pernas doíam, mas todos os sinais eram ignorados por minha mente, que suprimia um desejo insaciável de sobreviver.
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Um prédio velho pintado com diferentes tons claros de amarelo estava com a porta de vidro estilhaçada. Não tínhamos mais tempo para procurar abrigo. Entramos nos cadáveres que restavam da construção e esperamos.
[1]- Parte branca do olho.
Notas finais
PS: Não esqueça de deixar review!!!
-A.D.
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