Era uma linda manhã de outono. A brisa refrescava levemente aqueles que transitavam pelas ruas de Nova York, agora lotada de pessoas. A manhã parecia seguir normalmente. As lojas estavam abrindo e estampavam em suas vitrines as novidades da estação. Podia se ver estudantes que buscavam ir até seus respectivos colégios e adultos que seguiam mais um dia para conseguir o sustento de sua família. As ruas estreitas estavam lotadas de carros e o barulho de seus motores era audível. Para todos, tudo aquilo parecia, realmente, um dia normal.

Mas nem tudo são flores. Por trás da aparência impecável da cidade encontrava-se um extremo problema social.

As pessoas não estavam mais vivendo como antigamente. Seus novos interesses passaram a ser exclusivamente supérfluos. Estavam cada vez mais longe uma das outras. Preocupavam-se apenas com seu próprio ego e pareciam não ser mais capazes de sentir. Era a era tech, a era da moda, a era da pressa. Apressavam-se por mais tempo que lhes restasse, e ainda sim reclamavam de que isso era tudo que lhes faltava. Não criavam mais laços afetivos, apenas vínculos extremamente frágeis e suscetíveis a rompimentos a qualquer momento. Por trás do luxo, estava a miséria e, por trás da visão extremamente calma, escondia-se o caos. Muitos pareciam não ter mais a chance de sonhar. Não estávamos mais vivos.

Charlie é uma das pessoas que se sente assim. Atualmente, trabalha em um pequeno café na quinta avenida, embora gaste quase todo seu salário para pagar o aluguel de sua casa, que divide com alguns colegas de escola. Sua namorada, Susie, havia acabado com ele há apenas algumas semanas e suas lembranças o deixavam inquieto.

Nesta manhã, estava caminhando pela rua que seguia todos os dias para chegar ao local onde passava horas e horas de trabalho árduo.

Alguma coisa não parecia lhe soar bem neste dia. Olhava para os prédios que há muito haviam sido construídos na rua, deixando-lhes marcas aparentes da época de sua construção. Olhava para as pesssoas, olhava para a rua movimentada. Nada de diferente parecia estar aparente, mas, talvez, o que estava sentindo não pudesse ser visto.

Andou por alguns instantes e lá estava o mesmo Coffee Company do outro lado da rua. O edifício possuía dois andares e possuia uma extensa varanda para os clientes na parte da frente. Seu letreiro era moderno, mostrando o nome do estabelecimento em letras brilhantes dentro um simplório retângulo marrom situado entre o primeiro e o segundo piso. Já trabalhava aqui há alguns meses mas talvez a correria o impedisse de ver a beleza deste local. Perto da sacada havia um pequeno jardim destinado à plantação de diversas flores. Estava pronto para atravessar a rua e pegar algumas delas para dar à qualquer uma de suas colegas de trabalho. Não procurava motivos, apenas estava convicto de que com certeza o faria. Mas, no instante em que seus pés se locomoviam para atravessar a rua, foi atingido por um imenso barulho de uma multidão que corria até o local que estava agora. Todas pareciam muito assustadas e não pareciam ter um rumo ao certo. O que estava acontecendo? Não teve muito tempo para pensar. Ficou ali observando, até um homem com aparência envelhecida, longa barba e um estranho gorro na cabeça esbarrar em seu ombro.

– Desculpe! – gritou o estranho.

– Espere! – falou, correndo para tentar alcançá-lo em meio à tanta confusão. – O que está acontecendo?

Neste momento o indivíduo parou e encarou-o por um instante. Ambos estavam ofegantes, mas logo voltou a correr. Charlie o seguiu.

– Calma! Me escuta – gritou desesperado.

O desconhecido fingia não estar ouvindo e continuava seguindo seu caminho. Para onde ele está indo? À medida que as ruas passavam, a presença das pessoas pareciam estar cada vez menos frequente. Os prédios iam ficando menores e o espaço entre eles era tão curto que parecia não existir. O jovem trabalhador do café já estava pensando em desistir quando o homem pareceu, finalmente, parar. Estavam no meio da rua, em meio de toda a confusão.

– Agora pode me dizer que diabos aconteceu?

– Começou. – falou calmamente. — Eles estão voltando.

– Eles quem? Desembucha logo que confusão é essa.

– Logo você verá. Não há mais motivo para nossa presença nesta vida. Faça o que eu faço, e não se arrependerá.

– Espe... – Não conseguiu terminar o que estava dizendo. O homem puxou um punhal de seu bolso e agora o encarava. – Não faça nada, espera! – tentou dialogar.

De repende, o sujeito começou a correr em sua direção, agora com a faca em cima de sua cabeça, preparada para o ataque. O medo subiu pela sua espinha fazendo o suor florescer de sua testa. Os pelos de sua nuca eriçaram de medo enquanto se preparava para alguma posição de defesa. Mas, para sua surpresa, o homem desviou ao se aproximar dele e enfiou a lâmina em algum desconhecido que transitava pela rua.

– Não se esqueça.

Charlie estava em estado de choque. Quem era aquele sujeito? O que queria? O que havia acontecido que tanto lhe assustara? Não conseguia pensar em respostas e para nenhuma dessas perguntas e seu corpo parecia não responder mais aos seus estímulos. Quando achou que finalmente havia chegado a sua hora, o estranho fez o que mais lhe assustou até ali: enfiou a faca em sua própria nuca. A morte era certa.

Estava perplexo. Não sabia como reagir a tal situação.

Pensou em se aproximar do homem e ajudá-lo, mas estava demasiado assustado para isso. Além disso, não gostaria de que pudesse haver qualquer suposição de homicídio nesta fase de sua vida.

Pensou em correr. Fazer o que todas as pessoas que havia visto após a confusão estavam fazendo quando as viu: correr sem qualquer rumo ou direção. Simplesmente fugir. Fugir daquilo que os assustava, do que não compreendiam.

Todos os pensamentos que rodeavam sua mente o deixaram ali parado por cerca do que se pareceram horas. Mas, agora, algo estranho acontecia: O homem, que há pouco havia morrido em sua frente, agora se levantava. Levantava-se com extrema dificuldade embora sua vontade de ficar em pé fosse visível. Charlie estava em estado de choque mais uma vez. Simplesmente observou o morto se aproximar com a pele agora visivelmente acinzentada e seus lábios levemente entreabertos. A figura emitia sons incompreensíveis que se pareciam com gemidos. Olhou fixamente em seus olhos, agora com a íris totalmente alaranjada de alguma forma esquisita e assustadora.

O medo deixou-o incapaz de se locomover mais uma vez, embora, agora, compreendesse o que o homem havia lhe dito: a infecção havia começado.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.