Apenas você
21 Capítulo 21
Notas iniciais
–Dave cê acha mesmo que aquele cara que apareceu pro Marty estava falando a verdade?- Mindy falou por telefone, depois que o amigo foi visita-los e contou o ocorrido, ela decidiu investigar, e no momento, estava deitada de bruços com um binóculos em cima de um prédio baixo, para o que parecia ser o armazém, realmente era a única estrutura daquele tipo no lado leste da cidade, ela não usava a roupa de Hit Girl, até porque isso chamaria atenção, mas por precaução estava apenas com sua máscara nos olhos, vale lembrar que ela e Dave vinham fazendo isso a 3 dias, revezando entre eles, enquanto o outro treinava ou fazia coisas importantes.
–Acho, porque não? Certo que é tudo muito estranho, mas quem sabe?- ele responde.
–Bem, é que eu estou aqui a 4 horas hoje e ainda não vi nada nem nos dias anteriores, esse lugar tá abandonado, só vejo pessoas comuns passando por aqui.
–Eu vou aí em 3 horas, aguente- ele riu.
–Ai, não é nada demais, posso aguentar isso tranquilamente- ela subestimou.
Logo um silêncio tomou conta da linha entre os dois, como se o assunto tivesse acabado, mas Dave novamente resolveu brincar com a namorada, sabendo exatamente o que ia acontecer.
–Amor, já estou sentindo saudades!- ele quase grita do outro lado da linha.
–Que porra é essa Dave?! Vai ficar de sacanagem pro meu lado agora? Que drama ridículo- ela revira os olhos, mas logo apoia o queixo no chão gélido que na verdade era o teto, virando um pouco a cabeça fazendo sua mão e o telefone ficarem mais acima, sorrindo levemente enquanto ouve a risada de Dave do outro lado da linha. Mas sempre bisbilhotando o local pelo binóculos.
–Sabia!- ele tentou dizer entre as gargalhadas.
–A propósito, já conversou com a jf?
–Eles estão lá dentro conversando agora, eu vim aqui fora pra te ligar, eles estão bem doidos ultimamente com isso de o Bandaged explodir o QG.
–Imagino- Hit Girl também sabia que Dave também estava um pouco furioso com isso, mas com o tempo a raiva passou, e o pensamento positivo tomou um pouco da conta dele.
–Provavelmente vão conversar um pouco mais, eu aposto que a maioria vai desistir, exceto a Miranda que parece que quer voltar...
–A Night Bitch tá aí?
–Sim.
–Hm.
–O que? Você não tá com ciúmes né?
–HAHA, eu? Não, que tipo de cara você seria de me trocar por ela?
–Seria um bem retardado.
–Imbecil também.
–Um desmiolado, burro.
–Idiota e...
–Um traíra.
–É- Mindy novamente sorriu, na verdade, ela não parava de sorrir, afinal ela estava falando com Dave.
–Você sabe que sentir ciúmes de mim é meio bobo de sua parte.
–Olha cara, não abuse de sua sorte- ela o ameaçou.
–Tá bem, tá bem, como está sua costela?
–Já até me esqueci dela.
–Que bom, vou ter que desligar aqui, vejo você mais tarde.
Ela guarda o celular, e volta a ficar totalmente atenta a sua missão, a noite cai e não demora muito até ela ver Dave com uma mochila nas costas, um pouco antes de 3 horas, diga-se de passagem. Ele já sabia o local onde ficavam, então ele foi direto, observando para verificar que ninguém estava vendo.
As vezes tudo ficava em silêncio naquela rua, não era muito movimentada, o que se podia ouvir era o barulho do vento, e no momento ele subindo na escada, chegando cada vez mais perto, pelo som Mindy podia identificar tudo, quando ouviu um passo diferente soube que ele já estava a vendo. Ele chega por trás, se deitando de bruços ao seu lado.
–Oi- ele diz, sorridente, embora seja um sorriso parcialmente forçado, já que a situação de Todd ainda estava meio duvidosa, e ele vinha se preocupando com isso, se seu amigo não pudesse voltar a andar, seria um pouco difícil as coisas, já que durante 2 anos, o amigo mais próximo que Dave teve foi ele, e isso apenas levou a uma fortificação da amizade entre eles.
–Oi- Mindy responde um pouco demorada, seus pensamentos devaneavam sobre essas coisas, de tempos em tempos.
–E então?
–Não vi nada ainda, mas finalmente!- ela estende as mãos — Consegui ver uma luz se ascender por um ou dois segundos.
–Então tem alguém lá dentro.
–Obviamente sim, talvez ele tivesse chegado enquanto não estávamos aqui, não dá pra saber muito bem.
Eles pararam um pouco ficando em silêncio, Mindy ficava atenta pelo binóculos, mas ela percebeu o calor que ele tinha quando se encostou a ela, parecia que ela começou a se aconchegar nele, mesmo sem mexer um musculo para isso, Dave as vezes era um sofá bem confortável, ainda mais para Hit Girl.
–Eu trouxe comida- ele diz, como se estivesse provocando, tudo que Mindy fez foi olhar bem para sua cara, quando ela virou o rosto pode ver que ele estava mais perto.
–Estava morrendo de fome- Ela passa a língua entre os lábios- O que você tem aí?
–Fiz sanduíche com frango, bastante molhos, salada, e tudo que tem direito, e que você gosta, ah, também tem um suquinho, alguns.
–Nossa- ela arregalou os olhos, se sentando- Toma- ela bateu o binóculos no peito dele- Vigie.
Dave segurou o equipamento, indo para a mesma posição onde ela estava, Mindy se sentou e começou a comer, definitivamente o que ela estava fazendo a deixou com sede e fome, ficar ali parada não é a melhor das coisas. Pensou em não comer tudo para dividir com ele, acabou olhando para dentro da mochila e observou que havia mais coisas para comer ali, sorriu em pensar que ele havia se preocupado com sua alimentação, já que nos dias anteriores ele trouxe pouca comida. Para falar a verdade a alimentação era uma regra básica para ambos, então sempre deviam estar atentos.
Mindy inconscientemente acabou pegando no sono assim que terminou a refeição, ficou sentada com a boca levemente aberta, e com uma postura que sinceramente não seria nada boa para sua coluna, Dave depois de muitos minutos entretido no armazém percebeu que aquilo estava silencioso demais e acabou virando para trás e vendo a situação, começou a rir, tentando conter o barulho para não acorda-la, mas isso só resultou em mais barulho de vento saindo por entre os dedos que tampavam sua boca.
–Mas que merda?- Ela abre os olhos perguntando, logo levando um dedo para limpar seu queixo um pouco babado- Ah, merda- ela disse ao perceber a situação em que estava.
Ela se senta melhor enquanto o namorado ri, Mindy se alonga e sente suas costas estralarem.
–Desculpa, não consegui me controlar- ele fala ainda entre alguns risos.
–Quanto tempo eu dormi?-ela o olha cada vez menos sonolenta.
–Eu sei lá, uns 40 minutos, talvez menos.
A noite continuou lenta e acabou ficando entediante, não havia estrelas no céu, mas a escuridão era relativamente calma, as vezes algum carro passava, e o barulho dos pneus rodando no asfalto era um calmante e tanto. Já que prestar atenção no armazém que parecia ter alguém se movimentando cada vez mais lá dentro, e não se deixar prestar atenção a outra coisa, os dois trocavam caricias, seguravam as mãos, e com o polegar acariciavam, Mindy podia perceber com seu tato uma cicatriz na mão de Dave, o qual ela lembra de ter colocado um curativo. Já Dave percebia que a pele da garota era mais grossa e áspera perto do polegar, já que ela usava aquela região para bater em alguns golpes que ela utilizava. Mas enquanto apenas Kickass estava pelo binóculos, em certo ponto Mindy olhou atentamente para ele, sua mania de engolir a saliva ou mexer os lábios para a direita por um segundo estava presente, ela também sabia que a mania dos lábios ele havia adquirido dela, e depois de muito tempo em silêncio, começam a conversar novamente.
–Esqueci de te contar- ele começa – Aqueles dois heróis lá de Los Angeles, apareceram de novo, mataram sozinhos 15 membros de uma gangue que traficava drogas pela cidade, eu até que não iria falar nada, eles são bons, mas já descobriram quem é a garota, só me lembro primeiro nome, que é Emmanuelle- Dave tenta remedar todo um sotaque soberano, mas só leva Mindy a rir.
–Emmanuelle? Isso é o que? francês?
–Eu acho que sim- ele diz meio atropelado.
–Não ia demorar muito para descobrirem quem ela é, ela não usa mascara.
– É mas o do cara continua um mistério, e não conseguem achar ela- ele tira os olhos do armazém.
–Acho que depois devíamos tirar um tempo e pesquisar mais sobre eles, antes que possa ser tarde demais- a garota diz, apontando novamente para o Armazém, fazendo Dave voltar a observar.
–Sinceramente eles parecem ser mais evoluídos que o RNB e o Toxicman, digo mentalmente também.
–É, mas sempre estamos com um pé atrás, ainda estamos com esses dois daqui, imagina o de lá que nem conhecemos.
–Você tem razão.... ei ei, o que é aquilo?!- Dave se mexe bruscamente para se ajeitar.
Mindy tenta olhar, e consegue ver mesmo de longe a grande movimentação que começou a ter, pelo binóculos Dave viu algumas camionetes chegarem, um grande numero de homens saindo dos veículos, tiraram algumas cadeiras e partes do que parecia ser uma mesa, mas o que chamava muito atenção, é que todos eles estavam armados, mas especialmente um chamou ainda mais sua atenção atenção, não possuía canelas ou pés, tinha ferro no lugar, escondia uma das mãos e parecia dar ordens, mas Kickass se assustou ao ver que conhecia aquele rosto.
–Mindy, olhe! Olhe! É o Chris!- ele ficou estagnado de surpresa, dando o binóculos para Hit Girl espiar.
–Meu Deus! Mas como?!- ela também ficou surpresa.
–Eu, e... eu achei que ele estivesse... achei que ele tivesse morrido aquele dia- Kickass não consegui pensar no como isso foi acontecer.
[...] longe dali [...]
–O Chris já foi arrumar o lugar e fazer o reconhecimento junto com os capangas....- Pantera vai até a porta do quarto de Bandaged, ela segurava seu arco e flecha. Mas congelou ao vê-lo.
Ele estava sem as bandagens, sem todas aquelas faixas pelo seu corpo, o que ela viu já havia visto antes, mas não tão claro como agora, costas com um lado deformado, uma cicatriz gigante espatifada ali. E do lado de suas costas mais algumas outras que ela já viu um pouco em alguns casos.
–Bom- ele somente diz, não vira a cabeça, seu cabelo se mexia de acordo com o que ele estava fazendo na mesinha, para falar a verdade ele tomava alguns comprimidos, ela não sabia direito dizer o que era, ou porque ele estava tomando aquilo.
–Você nunca contou sua história, porque você é todo fodido? Parece que voltou de uma guerra- ela riu.
–É, digamos que é isso- ele a olhou, seu rosto era a parte menos deformada de seu corpo, mas ainda sim havia algumas cicatrizes.
–Hmm- ela levou em tom de brincadeira- E porque você esta do lado do mal?
–Porque eu gosto do mal- ele coloca as mãos nos bolsos da calça, porém com uma pose e cara nem um pouco amigáveis, parecia começar uma mania e entortar o pescoço.
–Porque você está respondendo minhas perguntas? Tipo normalmente você não responde.
–Não sei, talvez ache que você é inútil e porque eu quero te matar- ele diz em tom sério, se aproximando. Pantera tem uma falha no peito e o aponta a flecha por reflexo de medo, certamente ele estava falando sério, até mesmo Ralph já havia dito que ele era imprevisível. Ele fica parado, e começa a rir descontroladamente, nunca havia rido daquele jeito, ou pelo menos ela nunca havia visto, era bem diabólico- É brincadeira, vadia- ele diz, debochado e erguendo as mãos.
–Certo que você gosta do coringa... ah porra, estou vendo que cheguei em hora errada- ela fecha a porta bruscamente, brava com o humor negro irritante do vilão. Em alguns dias ele ficava assim, especialmente depois que tinha uma boa luta ou crises de adrenalina- Com certeza deve estar animado com algo- ela cochicha para si mesma.
Vê um capanga parado ali, fazendo a segurança do lugar.
–Cuidado, ele tá animadinho hoje- ela o alerta. Passando reto.
Pantera caminha até o centro de treinamento, pega um alvo e sai para fora, coloca a uma distância de 150 metros, e começa a treinar a noite, ela puxa e atira forte, a flecha acerta o centro, não exatamente, ficou quase fora da bolinha vermelha, que tinha o tamanho de uma palma de mão. Atirar flechas era um de seus pontos mais fortes, embora ela não gostasse muito de usa-la.
Já no quarto de Bandaged, o vilão fica sentado em sua cama, olhando os comprimidos, já havia tomado muitos e ainda sim possuía o sentimento dentro de si, ele resolve pegar o medicamento mais forte, mas esse ele tinha que colocar em uma seringa, enfiou a agulha no braço e injetou, mas parecia que a crise ficava mais forte.
–Se acalme!- ele grita consigo mesmo- Porra!
Ele se levanta e soca a parede, ela racha e ele sente a dor nos dedos, geme um pouco, mas solta uma risada curta, questão de segundos e sua expressão muda para uma de medo ou arrependimento, um enjoo repentino o toma, e ele se arca ao chão, vomitando todos os comprimidos que havia tomado contra sua ansiedade. Bandaged perdia a noção da realidade, seu ataque de psicose estava começando a ficar descontrolado, ele pega o telefone, e liga para Ralph.
–Ralph! Ralph!
–Bandag... mas o que? Porque você está assim?
–Estou tendo uma crise, tranquem-me aqui.
–Espere, já d....
–Tranque antes que eu faça merda!- ele grita mais alto.
–Estou dando as ordens agora.
Ele ouve um enorme barulho em sua porta, algo foi colocado ali, ele olha sua janela, onde uma grade com enormes agulhas e espinhos foi colocada, tudo aquilo já era planejado caso isso ocorresse.
O que ninguém sabia, era a história que ele tinha, como começou, o que ele fez, pra onde foi, Bandaged é o tipo de pessoa problemática e imprevisível que ninguém gostaria de ser amigo, em boa parte de seus dias ele tinha apenas o seu gosto por maldade e seu dom para briga que foi aprimorado com muito treino, mas em casos como esses... em casos como esses ele tinha surtos, que duravam horas, dias, ou por volta de uma semana, Bandaged sofria psicopatia, e ele possuía crises raras dela, infelizmente ou felizmente, ele estava tendo agora, ele era inteligente o suficiente para avisar Ralph antes que chegasse ao ápice. Ele não possuía mais orientação do tempo, falava sozinho e incoerentemente, via figuras sagradas, chorava quando via as satânicas, se jogava contra a parede, ele era um perigo para si mesmo, socou a cabeceira da cama até se partir em alguns pedaços, pegou as madeiras quebradas e começou a joga-las por todos os lados, uma delas voltou e cortou a região das costas, ele gritou vorazmente em raiva.
–Me tirem daqui!!- ele gritou enquanto tinha alucinações.
Pantera observou o fuzuê de longe, horrorizada foi até o corredor, onde viu que no lugar da porta, havia cordas e um enorme armário cheio de pesos, muitos homens ali, ouviu um grito e logo aquele armário se mexeu, era Bandaged se jogando contra a porta, ela não estava entendendo muita coisa, mas isso foi até Ralph chegar.
–Ele ainda está assim?- ele pergunta aos capangas.
–Sim, senhor, parece que ele não quer parar- logo ele é empurrado pelo chefe, que queria abrir caminho até uma região da porta.
–Mas o que é que esta acontecendo aqui?- A vilã o pergunta.
–Não achei que pudesse guardar esse segredo até mais uma crise, mas acho que agora você já deve saber que ele sofre de psicopatia, é como uma síndrome. Esse quarto já é preparado para ele, caso ele tivesse surtado lá fora, teríamos que o trazer para cá, sorte que ele já estava aqui- Ralph tenta responder o máximo possível.
–Porque não nos contou. Tem noção de como isso podia ser perigoso? Eu estava falando com ele a uns 10 minutos atrás... caralho- Pantera ficou realmente nervosa ao saber o perigo que havia tido, não era a toa que Bandaged havia a tradado daquele jeito.
–É, quando ele luta ou faz coisas exigentes a crise começa, mas quando a crise é forte ela vem sem estimulo na maioria das vezes, quando eu estava preso, tinha dado as ordens para um capanga de confiança, é o que sempre fica de vigia no corredor dele- ele começa a rir- Sempre quis que ele tivesse essa crise junto com o Kickass ou Hit Girl.
–E o que você vai fazer agora?- ela o pergunta.
–Falar com ele, como eu disse, esse quarto é preparado- ele vai até o lado da porta, descasca um pedaço da parede e lá há uma espécie de janela, fina, apenas um braço passaria por ali.
–Oi, como vai?- Bandaged fala animado do outro lado.
–Oi, cara.
–Vai se foder!
–Olha, somos os amigos ok? Sabe quem eu sou?- o chefe parecia nervoso, e quase recebe um soco, Bandaged enfia o braço pela janela, cortando em algumas partes, mas dava pra ver que ele já estava sangrando antes.
–Vai se foder!- ele repete.
–Sabe quem eu sou?- Raplh pergunta, sem resposta- Tome seus comprimidos.
Naquela hora Pantera descobriu como Bandaged havia ganhado tantos machucados, parece que a combinação dos problemas mentais que ele tinha não o fazia perceber o que estava causando ao seu corpo.
–Espera, você é o....- ele para de falar, como se se distanciasse.
–Bem, tome seus comprimidos e descanse, esqueça a pergunta- Raplha se levanta, fechando a passagem e com uma cara pensativa.
–Escuta aqui!- Pantera o segurou, os capangas começaram a se distanciar, indo para longe dali- Quando você me contratou deveria ter me dito que tinha a porra de um psicopata no grupo!- ela gritou a ele, escutando o vilão fazer barulho no quarto.
–Otto não vai fazer mal nenhum a você! Porra!
–Otto? Então esse é o nome dele!
–Merda, é é.
–Pai! Pai! Me lembrei, você era amigo do meu pai- Bandaged gritou perto da porta.
Ralph apenas olhou para Pantera, virando as costas, andando novamente até seus aposentos na mansão. Depois de tanto teatrinho as coisas se revelaram no primeiro surto.
–Otto? Talvez seja por isso que Bandaged o respeite mais- Ela sussurrou baixinho para si mesma.
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