Apenas uma tarde de sexta
1 Relembrando o passado
Esperava que fosse apenas uma tarde de uma sexta-feira de feriado. Não esperava nem mais, e nem menos. A mesma monotonia estava se repetindo por semanas, talvez pudesse afirmar que estivesse se repetindo há meses.
Todos os dias do final de semana eu sentava em frente ao computador e tentava terminar a minha história. Peguei uma grande xicará de chá que fiz com os sachês restantes do armário, um cobertor, fechei as janelas e fiquei encarando o monitor, esperando algum tipo de milagre surtir efeito em minha mente cansada, enquanto uma chuva que havia tornado o dia em noite caía como o plano de fundo da minha janela. Não havia inspiração. Nenhuma. O incessante piscar daquela barrinha na hora de escrever me dava agonia. Quando me dei conta, o chá já havia acabado.
Mais um dia que eu fracassei em trabalhar naquela história. Meus leitores virtuais ficam desapontados quando eu demoro muito para escrever, não que eu não queira mantê-los entretidos, mas a questão é que não consigo. Tantas coisas rondavam a minha cabeça naquele instante que eu estava atordoada.
Levantei-me, verificando se o meu coque ainda estava intacto. Ainda com o cobertor nas costas, me dirigi até a sala, onde sentei no sofá e peguei o meu celular. Precisava relaxar um pouco, não podia ficar tão desesperada para escrever palavras... Ora, são só palavras... Mesmo que a palavra “palavra”, em si só, já seja algo difícil de se ler. Já leram várias vezes a palavra “palavra”? Começo a ficar agoniada tentando pensar como alguém conseguiu cogitar que ela teria esse som, de verdade.
Abri o celular, e, como uma boa pessoa moderna, me dirigi ao Facelook. Antro dos caras bonitos, da política, do romance, das amigas, da vida atual! Mentira, é uma grande merda, convenhamos. Não tem graça nenhuma aquilo, só serve para ver vídeos de gatinhos e cachorros. Ainda assim, me dirigi rumo à esse porto.
Logo na primeira postagem, um poema genérico de romance. Me mantive firme e forte, e segui para a próxima postagem. A mesma coisa. E de novo, e mais uma vez, e novamente, e repetia-se o ciclo. De repente, minha lista inteira de amigos estava apaixonada... E eu não? Talvez não tivesse encontrado a pessoa certa ainda, ou talvez eu já tenha perdido ela...
Bom, hora das lembranças. No início desse ano, eu havia conhecido um rapaz que começara a trabalhar comigo. Não que ele fosse especial, mas, de certo modo, ele me despertava um certo interesse. Ele era alto, sempre de cabelo curto, perfumado, e sempre vestia o mesmo terno cinza. Aparentando ter cerca de 25 anos, tomava o mesmo café, cumprimentava as mesmas pessoas na mesma ordem, passava pelos mesmos corredores pelos mesmos caminhos. Todo dia ele não mudava seu modo de fazer as coisas.
Observava ele do outro lado do escritório, e a única coisa que ele não fazia igual era o seu sorriso. Aquele sorriso assimétrico, duvidoso, que puxava a pele de seu rosto. Talvez a marca registrada dele não fosse a sua rotina exata, mas o jeito como ele sorri, que me deixava boba.
Alguns meses após eu ver ele pela primeira vez, encontrei-o sozinho em um restaurante próximo de onde trabalhavamos. Olhei para os lados, pensei se deveria me sentar com ele, mas a vergonha puxou meu braço e disse que eu não deveria. Decidi, então, observá-lo. Da vidraça do restaurante, vi que ele sempre se sentava no mesmo lugar, e pedia o mesmo sanduíche de mortadela com batatas e um refrigerante.
Todos os dias eu o via comer, criando coragem para ir falar com ele, enquanto eu comia meu hambúrguer do outro lado da rua. Nunca fui alguém que se preocupasse com meu peso por ter sido sempre magra, antes que vocês me apedrejem por não ter comido barrinhas de cereais. Eu me lembro que um dia, por algum motivo aquém desta dimensão, ele quebrou a rotina: ele virou a cabeça e olhou diretamente na minha direção. Eu, perdida, vendo ele, acabei caindo de costas do banco. Vergonha à parte deste dia, após terminar meu turno de sentinela de refeição, voltava ao escritório por outra rua, para que eu não acabasse trombando com ele todos os dias e ele começasse a suspeitar.
Como ele era sempre o último a sair, aproveitava para pegar o elevador logo depois, para sentir o seu cheiro. Era uma sensação maravilhosa, como se eu estivesse abraçada à ele. Apesar de ter outras preocupações, meu maior medo nessa época era perder esse homem para alguma outra mulher, coisa de menina apaixonada, não dizendo que o risco não era real, mas vejam só, era algo preocupante.
Alarme depois de alarme para me acordar de manhã, o tempo passava e eu não conseguia sussurrar uma palavra sequer para ele, apenas encarar ele na calada da minha baia. Durante os breves intervalos para beber água que nós tinhamos, meus colegas de trabalho comentavam sobre os noticiários: a escalada de tensão entre o nosso país e uma superpotência emergente era destaque. As tropas estavam sendo mobilizadas nas fronteiras para uma possível guerra. Não que eu acreditasse que isso fosse acontecer, porque já era a terceira vez que isso ocorre em dois anos. Mas, mesmo que falassem nas maiores tragédias, a vista daquele rapaz me alegrava.
Me arrumei no sofá, coberta e deitada. Alguns meses depois do dia que eu capotei do banco, a guerra havia eclodido. O alistamento obrigatório convocou todos os homens que tinham até 30 anos. Cartazes espalhados pelas ruas incitavam os jovens a participarem, enquanto propagandas tomavam de assalto os canais televisivos. Todos os abutres da mídia se alimentavam de imagens do fronte. Trincheiras queimadas com bombardeios de fósforo branco; pilhas de corpos de soldados jogados em um campo aberto e a filmagem de um avião de guerra caindo em cima de uma equipe de cinegrafistas eram os destaques.
O rapaz da empresa, e muitos outros, foram convocados. Nunca mais houve a mesma rotina. Nunca mais houve o mesmo perfume no ar ou o mesmo terno passado do mesmo jeito.
Algumas semanas depois, as notícias afirmavam que muitos estavam morrendo nas primeiras semanas para ataques químicos e biológicos. Nas ruas, televisões ligadas pescavam multidões com imagens extremamente violentas de soldados com máscaras de gás correndo dos ataques de gás mostarda. A guerra estava evoluindo para um extermínio em uma escala nunca antes vista. Homens e mulheres voltavam para casa após serem dispensados por terem sido desmembrados ou por terem sido julgados inaptos a voltarem ao combate por traumas psicológicos. A cada imagem, minhas chances de voltar a vê-lo eram menores. Provavelmente ele não voltaria vivo, e, se voltasse, voltaria igual à eles.
A comunidade internacional condenava ambos os nossos países, mas não fez nada além de discursos de como os soldados ficavam tristes ao matar outros soldados e civis. Assim sendo, implicaram um embargo econômico. Ao longo do tempo, os produtos começaram a ficar escassos. A gasolina disparou, a comida começou a faltar e os produtos mais básicos como sabão ficaram em falta nas prateleiras dos supermercados. Manifestações nas ruas tomaram proporções violentas quando a Força Nacional foi chamada para coibir que elas ocorressem, e a Lei Marcial foi instaurada. Mesmo assim, eu não conseguia tirar ele da cabeça.
Um trovão corta a minha linha de pensamento. Estava perdida nos meus pensamentos, enquanto a chuva aparentava estar piorando. Ligo a televisão, e abro novamente o Facelook. A primeira postagem era uma imagem em preto e branco, dizendo em letras garrafais “Sinto saudades de você”. Sério mesmo? Jogo o celular para o lado e ligo a televisão. E lá estava, mais uma matéria sobre a guerra. Suspirei. Enquanto meus pensamentos ainda eram vagos, algo me chamava a atenção. Um sorriso, entre os soldados ao fundo, era assimétrico. Com a sua farda suja e desgastada, eu não consigo conter o meu choro. Sabia, a partir daquele momento, que ele ainda estava vivo.
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