Apenas uma garota...

28 Capítulo 27 - Revelações


Notas iniciais
Olá! Esse capítulo está agendado porque eu consegui terminar o capítulo, galerus! Weeeeee Espero que gostem e nos vemos nas notas finais :D

Ah, como eu detestava os sábados. Era um tédio muito mais que infeliz. E lá estava eu, assistindo uma comédia romântica qualquer.

Bem, resumo das últimas duas semanas: normais. Graças ao pesadelo com Melinda, fui mais à casa dela, com medo de que o pai dela pudesse encontrá-la. Isso nos deixou mais amigas. Ela desabafava comigo sobre os problemas de relacionamento com Ben e eu tentava ajudá-la na medida do possível, além de conversarmos sobre outros assuntos.

Jaden estava bem no emprego dele. Adele ficou um pouco cismada, mas Robert adorou ver o filho trabalhando e lutando pelo que era dele.

Fizemos algumas provas, mas nada muito complicado. Ah, teve também o jantar de ação de graças, que Adele chamou a minha mãe e eu para participarmos, o que foi uma gentileza e uma prova irrefutável de amizade. Conversamos bastante com os Pendlebury naquele dia.

Mr. Collins estava satisfeito com nosso desempenho como arqueiras, saímos junto com o namorado de Clint e ele foi bem aceito, Dave trocou alguns beijos com a garota do poema, porém depois viu que não era o que ele queria e não quis mais nada com ela.

"Shelly", Elizabeth murmurou na minha cabeça. Sobressaltei-me. Geralmente, era eu quem chamava por ela, era bom ouvi-la de vez em quando.

"Diga", pedi.

"Abra a porta", pediu em tom incisivo.

"Abrir a porta? Mas não tem ninguém..." me interrompi quando ouvi batidas na porta. Lentamente, fui até lá, a abri e encontrei um Jaden pálido e atordoado, segurando um papel entre os dedos trêmulos.

— Jaden? — chamei a atenção, preocupada. — O que houve?

— Eu... posso entrar? — ele indagou perturbado.

— Claro! — concordei abrindo passagem. Ele cambaleou até uma poltrona e jogou-se lá. Sentei-me ao lado dele e peguei a sua mão. Estava fria e trêmula. — Vou pegar um copo d'água para você.

— Não precisa, eu só... preciso... — dito isso, ele enterrou a cabeça entre as mãos.

— Jaden, o que aconteceu?

Ele não respondeu, olhando para qualquer canto do piso, distraído.

Elizabeth, o que houve com ele?"

"Tem certeza de que você não sabe?", ela rebateu com uma pergunta. O raio de compreensão passou pela minha mente e meus ossos gelaram. Tomei o papel das mãos dele e nele estava escrito, centralizado no topo:

"Estados Unidos da América

Estado de Massachussets

Cidade de Boston

Certidão de adoção"

No restante do papel havia seu nome, nome dos pais adotivos, idade de cada um, o nome de uma testemunha, um carimbo judicial.

Tabarnak.

— A minha vida foi uma mentira. — Jaden murmurou, parecendo irritado e atordoado.

— Como você achou esse papel?

— Estava embaixo da cama deles.

― Não fique assim, por favor. — tentei chamar sua atenção, sem muito sucesso. — Agora, pelo amor de Deus, me deixe pegar um copo d'água para você.

Levantei-me e Jaden enterrou a cabeça entre as mãos novamente. Rapidamente, fui à cozinha e peguei um copo d'água, mas parei na pia, passando água no meu rosto, tentando me acalmar. Era a confirmação de tudo e eu não sabia como agir.

"Elizabeth, o que eu faço?", indaguei, perdida.

"Recomendo que você seja rápida."

"Por quê?"

Ouvi a porta se fechando com força. Ah, não. Corri até a sala e Jaden não estava mais lá. Droga. Coloquei uma sapatilha, bebi a água que era para ele saí de casa e vi Jaden entrar em sua casa. Isso não vai ser bom. Corri até lá e, antes de abrir a porta, ouvi Jaden concluir uma pergunta em tom decidido e frio:

― ... antes que eu sou adotado?

Um silêncio sombrio pairava naquela casa.

"Jaden está prestes a ter um surto", Elizabeth informou, apressando-me.

― Respondam-me! ― ele pediu autoritário, a voz mostrando o quanto ele estava decepcionado e destroçado. Ele berrou: ― Respondam-me!

Não aguentei. Abri a porta e me deparei com uma Adele branca como uma parede, um Robert taciturno e Jaden com o rosto rubro de raiva.

― She-Shelly? ― a mulher gaguejou. ― Shelly, por favor, volte em...

― Ela já sabe. ― Jaden informou, um tom tão grave que me sobressaltei. ― Deixe ela aqui. Eu quero respostas.

― Jaden, por favor, se acalme. ― pedi, pegando em seus ombros e olhando em seus olhos. Havia tanta dor e decepção neles que os meus olhos quase se encheram de lágrimas. ― Vamos com calma, ok? Sente-se, por favor.

Jaden concordou em se sentar e eu me sentei ao lado dele no sofá.

― Por favor ―, pedi ao casal ― comecem a falar. Chega de segredos. Jaden, prometa que vai só ouvir. Depois você dá o seu julgamento, ok?

Ele assentiu. Adele respirou fundo, passou a mão pelo rosto lívido e pareceu tensa como a corda de um arco quando começou a narrar os fatos:

― Tudo começou em uma noite chuvosa. Encontramos você em Norwell, Massachusetts, em uma rua escura e deserta. Você estava perdido e parecia ter três anos. Nós o levamos para casa e os meus erros começaram. Não por te levar para casa, mas sim por não ter comunicado a polícia. Eu queria ficar com você para ter um filho para amar. O remorso passou por mim várias vezes ao longo dos anos. Mas eu tinha me apegado tanto a você, Jaden...

— O que aconteceu depois que você me levou para casa? — Jaden cortou.

— Você ficou gripado, afinal, toda aquela chuva tinha que fazer algo em um corpinho tão pequeno. Em um dia que sua febre estava alta, você saiu andando sozinho pelo primeiro andar. Ouvi você falando e fui atrás de você. Você estava na beirada da escada e eu não consegui lhe segurar a tempo. Quebrou alguns ossos e bateu a cabeça seriamente, apagando qualquer lembrança que você tivesse antes. E quando você acordou e me chamou de mamãe, tão indefeso e machucado, soube que não ia conseguir te deixar mais.

Olhei de soslaio para Jaden, que ouvia tudo sem olhar para Adele, olhando algum ponto indefinido, os cotovelos apoiados nos joelhos, os dedos entrelaçados, a fisionomia séria. Adele olhou para mim, como se me pedisse ajuda, mas limitei-me a assentir, querendo que ela prosseguisse com a história.

— Então ―, ela continuou com lágrimas rolando pelo rosto ― pedi ajuda a uma colega minha, que era dona de um orfanato em Boston, para que fizesse esse certificado de adoção, para que você fosse nosso filho legalmente, como se você houvesse saído de lá. Depois, finalmente saímos de Boston e fomos a Sacramento, onde Robert tinha conseguido um emprego bem favorável.

― Jaden ― Robert iniciou, sua voz profunda fazendo-se ouvir na sala. ― Você tem todos os motivos para estar chateado conosco, mas fizemos o que achávamos melhor na época.

― O melhor para quem? ― Jaden questionou erguendo os olhos para o casal que estava diante de si.

― Para mim. ― Adele respondeu.

― Adele... ― Robert tentou intervir, mas foi cortado.

― Não, Robby. Ele precisa saber da história toda. ― ela respirou fundo antes de prosseguir: ― Eu queria ter um filho porque eu havia perdido Peter num parto de alto risco e... não posso mais gerar nenhum filho. Fiquei muitos meses em depressão e quando finalmente estava começando a superar, achei você. Eu queria um filho para amar e consegui. Apesar dessa história, amei você não como substituição, e sim como algo único. E ainda amo.

Olhei para Jaden, em expectativa. Ele parecia abatido, sério, triste, chateado.

― Vocês ocultaram isso de mim esse tempo todo. ― inquiriu sério. Levantou-se e andou pela sala, as mãos na nuca. Adele parecia prestes a desmaiar. Queria poder dizer que meu amigo perdoou seus pais adotivos e que estava disposto a procurar seus pais biológicos, mas não foi o que aconteceu. Pelo menos, não de imediato. ― Vocês me enganaram. Houve mais de uma chance de vocês me dizerem a verdade, mas não o fizeram. Por quê?

― Tivemos medo de perder você... ― Adele tentou, mas Jaden cortou:

― Mas não perderam? Perderam-me com a mentira que vocês sustentaram durante 17 anos. ― Os olhares do casal foram para o chão. ― Não posso ficar aqui. ― Jaden decidiu, parando abruptamente. ― Pegarei minhas economias e algumas roupas e irei a um hotel qualquer.

― Não, Jaden, por favor... ― Adele pediu.

― Não tentem me impedir. Por favor.

Adele me olhou em súplica.

― Jaden ― pedi pegando em seu braço ― se você não quer ficar aqui, não posso fazer nada além de lhe apoiar e oferecer a minha casa para você ficar.

― Shelly, eu nunca pediria isso a você.

― Exato. Você não pediu, eu estou oferecendo. E seria extremamente indelicado de sua parte recusar.

Ele pareceu ponderar um pouco e respondeu:

― Tudo bem.

E subiu a escadaria. As palavras de Elizabeth ecoaram novamente pela minha mente: "Abra a porta".

"Não foi só no sentido literal, não foi?", indaguei a ela.

"Garota esperta", foi a sua resposta.

― Obrigada, Shelly. ― ouvi a voz de Robert espalhar-se novamente pela sala. ― Não seria bom deixa-lo sozinho.

― Eu fiz apenas o que minha consciência pediu. ― retruquei em um sorriso fraco.

"Sou sua consciência agora?" Elizabeth disse em tom divertido.

"Eu o faria mesmo se você não houvesse dito nada", rebati.

― Robert, pegue um copo d'água para mim, por favor. ― Adele pediu com os olhos marejados. O marido rapidamente foi à cozinha e a mulher enterrou a cabeça entre as mãos.

― Ele apenas está se sentindo enganado por quem mais confiou a vida toda. ― comentei tentando amenizar a situação. ― Vai passar.

Não acho que você tenha ajudado”, Elizabeth comentou.

Percebi isso agora”, respondi, me sentindo uma destruidora de sentimentos.

Adele limitou-se a ficar quieta. Robert levou o copo a sua esposa, que bebeu a água rapidamente. Pouco tempo depois, Jaden desceu a escadaria, carregando a mochila da escola, uma pequena mala e o inseparável violino. Olhei para os três e senti o coração apertado. Eles não mereciam passar por aquilo. Jaden, provavelmente sem saber o que falar, rodou nos calcanhares e saiu porta afora.

― Desculpem-no. ― pedi e o segui, ouvindo Adele começar a soluçar.

Jaden já estava no caminho para ir à minha casa.

­― Ei! ― gritei. Ele olhou para trás. ― Espere por mim!

Ele parou de andar.

― Desculpe.

― Tudo bem. ― retruquei quando o alcancei. Andamos e abri a porta da minha casa. Jaden sentou-se na mesma poltrona e esfregou a testa com o indicador e o polegar.

― Minha cabeça está prestes a explodir.

― Vamos lá para cima, não sei se uma magrela como eu pode subir essa escada com todo esse peso. E você pode descansar um pouco. ― coloquei a mão em seu ombro. ― Eu posso lhe dar algum analgésico, certo?

Ele assentiu, suspirando. Subimos a escada e eu o acomodei ao quarto de hóspedes.

― Há toalhas naquele armário e, fora isso, as gavetas estão vazias. ― comecei fazendo esclarecimentos. ― Há um banheiro no fim do corredor, caso esse esteja com algum problema, mas acho que não. Sinta-se à vontade em seu quarto temporário! ― fiz um cumprimento tentando fazê-lo sorrir, que ele o fez de forma fraca. Já era um sucesso. ― Trarei um remédio para você, ok?

Jaden assentiu, distraído, como se não estivesse ali. Fui ao quarto da minha mãe procurar a maleta de medicamentos, peguei um comprimido para dor de cabeça, desci a escadaria, peguei um copo d'água e subi de novo. O garoto estava sentado, do mesmo jeito que eu o deixei, o olhar perdido em qualquer coisa. Olhei triste para ele.

― Jaden? ― chamei. Ele ergueu a cabeça. ― Tome isso, quem sabe alivia sua dor de cabeça.

Ele pegou o comprimido, mal o olhando, jogou-o na boca e engoliu a água. Peguei o copo dele e perguntei:

― Você quer arrumar suas coisas?

― Eu quero tomar banho. ― Jaden decidiu levantando-se.

― Sinta-se à vontade. ― repeti. ― Estarei no meu quarto, acho que você sabe onde é.

Ele deu de ombros. Saí do quarto e fui ao meu, sem saber direito o que ia fazer.

"Alguma sugestão do que posso fazer?", indaguei mentalmente a Elizabeth.

"Aí é com você, Revenry". Que. Ótimo. Limitei-me a aperfeiçoar os desenhos que eu já havia desenhado. Depois de aproximados trinta minutos, ouvi batidas na porta. Joguei os desenhos embaixo da cama e convidei:

― Entre, Jaden.

Ele estava com sandálias, uma calça folgada e uma camiseta que deixava à mostra os seus bíceps muito bem torneados. Os cabelos estavam molhados e o seu perfume cítrico e suave invadiu minhas narinas.

― Sente-se melhor? ― indaguei.

― Um pouco. Talvez menos atordoado. Ainda fico me perguntando quem eu sou de verdade incessantemente na minha cabeça. Acho que faz parte.

― Sente-se. ― pedi batendo de leve no colchão da minha cama. Jaden obedeceu. ― Você quer falar como se sente ou quer fazer algo diferente?

― Não sei.

― Talvez falar o que você está sentindo faça você se sentir melhor.

― Talvez. ― ele murmurou, começando a ficar pálido novamente. Esperei pacientemente que ele começasse a falar: ― Eu me sinto completamente perdido. As coisas que me fizeram ser o que eu sou aconteceram porque eu estava com eles, porque eles... ― ele parou, como se tentasse engolir um sapo. ― Eles me roubaram. Se essas coisas foram baseadas em uma omissão tão importante, o que eu sou, afinal, um produto dessa sujeira toda? Moldaram-me sobre uma mentira que construiu uma vida que eu não deveria ter.

Fiquei em silêncio por algum tempo, procurando as palavras certas para dizer. Peguei suas mãos frias e disse com suavidade e firmeza:

― Jaden, nem tudo em nossas personalidades é influência dos nossos pais. Você gosta de tocar violino e isso não foi uma coisa imposta. Você gostaria de criar algum animal, mas eles não o quiseram. Você tem coisas únicas em sua personalidade que ninguém poderia mudar porque são unicamente suas.

Ele suspirou, parecendo concordar.

― Vamos almoçar. ― convidei. ― Acho que tem comida o suficiente para nós dois.

E tinha mesmo. Jaden não comeu muito do macarrão com almôndegas, mas disse que estava bom. Compreendi as razões dele, mas insisti para que ele tomasse o suco de maracujá para acalmar os nervos. Depois do almoço, fui acessar o computador enquanto Jaden sentava-se na minha cama.

― Vou jogar Call of Duty. Quer assistir? ― perguntei.

― Pode ser.

― Se quiser, pode deitar ou ficar de ponta cabeça, você decide.

Ele deu um sorrisinho fraco e acabou por deitar de lado, olhando para o monitor. Morri algumas vezes, mas faz parte. Quando terminei três partidas seguidas, às 2:30 p.m., lembrei que Jaden comentou a primeira, pouco comentou a segunda em seu início e não comentou a terceira. Virei-me e ele estava adormecido, meio abraçado ao meu travesseiro, o rosto inexpressivo semiafundado. Levantei-me lentamente, peguei um livro e desci a escadaria. O garoto precisava de um tempo, um descanso. Quando ia começar a ler o livro, Elizabeth reclamou em minha cabeça:

― Ei! Agora podemos conversar!

Fechei o livro e procurei focar minha mente.

― Vamos lá. A mãe dele é Angel Lancaster, certo?

― Angel Channing Lancaster, para ser mais exata. ― Elizabeth informou. Recuei.

― Isso foi interferência direta. ― observei.

― O Universo faria você encontrar os Lancaster para Jaden, de uma forma ou de outra. Essa é a condição em que eu posso ajudar: quando um fato é tão inevitável que se torna facilmente visível e permitido, temos Tommy, afinal. Uma dica? Eu esperaria o garoto pedir ajuda. Não sei se seria bom se ele descobrisse sobre seus sonhos e sobre os pais dele em tal estado mental.

Fiquei em silêncio mental por algum tempo, preocupada.

― Está tão ruim assim? ― indaguei.

― Os pensamentos estão confusos e acelerados demais. ― ela respondeu, como se tivesse descoberto isso da pior forma. ― Você fez bem em dar suco de maracujá para ele. Vou ver se consigo ajuda-lo indiretamente.

― Ok.

Levantei-me, bebi água e então fui ler meu livro. Passei quase duas horas lendo até que minha mãe chegou.

― Oi, Shelly. Como foi o dia?

― Um pouco conturbado. Não para mim, exatamente.

Ela sentou-se no sofá, atenta.

― O que houve? ― ela indagou. Falei todo o ocorrido. ― Pobre garoto. Ele é bom e sincero, não merecia ser enganado dessa forma. Onde ele está?

― Dormindo no meu quarto. Dei a ele um analgésico e suco de maracujá. Deitou-se depois do almoço para me ver jogar Call of Duty, mas acho que dormiu entre a segunda e a terceira partida.

― Fiz bem em deixar suco de maracujá. ― minha mãe comentou com ar preocupado.

― Verdade. ― concordei.

― Melhor chama-lo ou ele não dormirá a noite. Farei um lanchinho para nós. ― ela sorriu ao dizer a última frase.

― Ok. ― concordei quando ambas nos levantamos. Abracei minha mãe e fui ao meu quarto.

Chegando lá, encontrei Jaden ainda dormindo, só que de barriga para cima, o antebraço esquerdo na sua testa, os lábios entreabertos o suficiente para ver os incisivos superiores do meio, um ronco surpreendentemente suave, diferente da foca triste com serra elétrica de algumas semanas atrás.

― Jaden. ― chamei, me esforçando para não rir. Ele fechou a boca, tirou o braço de cima da testa, onde havia uma marca vermelha, ficou de lado. Ri pelo nariz e chamei novamente, dessa vez sacudindo-o de leve: ― Jaden, acorde.

Jaden abriu os olhos devagar, ainda meio desorientado. Sentou-se na cama, esfregou os olhos e ao me ver quase rindo, indagou com voz grave e lenta, sorrindo:

― O que você fez no meu rosto, Revenry?

― Oh, nada. É engraçado ver você dormindo. Você abre a boca e ronca como um porquinho recém-nascido. ― comparei, finalmente rindo.

Ele jogou o travesseiro na minha direção e perguntou, meio vermelho:

― Você realmente precisava dizer isso?

Gargalhei.

― Não, não precisava. Você nem ronca alto! Já é um sucesso. ― depois de algumas risadas de ambas as partes, informei: ― Enfim, minha mãe está nos chamando para comer. E também para não lhe deixar dormir a tarde toda ou você não dormiria a noite.

― Sua mãe é uma sábia. ― ele murmurou, a voz ainda grave.

― Por que sua voz fica grave quando você acorda?

­― Porque eu não a uso quando estou dormindo.

― Sente-se melhor? — perguntei.

― A dor de cabeça passou mais. ― ele garantiu. Sorri, otimista.

― Vamos descer? ― convidei.

― Oh, claro. Vou só lavar o rosto. O banheiro é ali? ― Jaden perguntou apontando para a porta fechada que havia no meu quarto.

― Uh-huh.

O garoto foi ao banheiro e eu arrumei a cama. Descemos, encontramos minha mãe e uma mesa com três sanduíches e três copos com limonada.

― Oi, Jaden ― minha mãe cumprimentou com simpatia. ― Shelly me contou que você vai precisar passar uns dias por aqui. Qualquer coisa que precisar, estamos sempre dispostas, ok?

― Obrigado, Ms. Revenry. ― ele agradeceu de forma sincera.

­― Vamos comer. ― ela convidou.

Enquanto comíamos, minha mãe discorreu sobre o emprego dela, que ela fazia parecer fantástico. Ouvindo-a narrar, ficava com o pensamento de que ela teria sido uma ótima jornalista. Depois, Jaden pediu:

― Posso dar uma volta por aí?

― Uh... claro. ― respondi. Minha mãe concordou com a cabeça.

― Não volte muito tarde ― ela pediu. Quando ele saiu, suspiramos. ― Ele me pareceu tão distraído e chateado.

― Acho que vai ser bom ele ter um tempo para si. ― comentei.

― Espero que sim, minha filha. ― ela concordou olhando o sanduíche de Jaden, que só fora comido pela metade.

****************

Às 7:57 p.m., Jaden voltou, meia hora depois que tinha começado a chover. Ou seja: ele chegou um tanto encharcado. Minha mãe e eu estávamos no sofá, assistindo uma comédia romântica.

― Acho bom trocar de roupa, querido. ― minha mãe recomendou, preocupada.

― Ok. Obrigado. ― ele agradeceu num sorriso fraco.

― Deixe de me agradecer tanto, menino! Shelly, você já deu uma toalha a ele?

― Sim, mãe.

― Então sinta-se à vontade, Jaden.

― Ob... — minha mãe o encarou em um sorriso divertido e ele mudou a resposta: — Certo.

Depois de uns minutos, Jaden desceu novamente e minha mãe perguntou se ele queria jantar, mas ele disse que tinha comido algo na rua. Então, ela nos convidou para jogar pôquer. Ela era boa.

Às 11:00 p.m., minha mãe foi dormir e nos mandou fazer o mesmo. Jaden foi ao seu quarto temporário e eu fui ao meu quarto. Tentei dormir, mas não estava com sono. Depois de quinze minutos deitada, ouvi Jaden começar a tocar seu violino em pianíssimo "Let It Be", de forma lenta. Ele tocava tão bem... fechei meus olhos e fiquei o ouvindo, sentindo a esperança familiar que essa música me proporcionava, até que ele parou de tocar. Ouvi ruídos de passos, indo de um lado a outro, lentamente. Decidi ir ao quarto ao lado. Chegando lá, Jaden estava mesmo indo de um lado a outro. Ele parou ao me ver.

― Pare de fazer isso, cara. Você deve ter andado até demais. ― pedi sentando na cama. Meu amigo sentou-se ao meu lado.

― Está sendo incômodo demais?

― Para a minha preocupação, sim. Como nossos quartos são praticamente colados, dá para ouvir o barulho da madeira rangendo. Acalme-se.

― Está tudo fervilhando ainda.

Olhei para suas mãos e vi que as juntas dos seus dedos estavam vermelhas e um pouco feridas. Segurei-as, comparando suas mãos grandes e largas com as minhas, magras e compridas.

― O que houve?

― Treinei um pouco de boxe. Precisava descontar minha frustração em algo.

― Você treinou sem luvas?

― Apenas com umas faixas desgastadas que enrolei na mão.

― Agora consigo entender os arranhados. Espere. Volto já.

Peguei algodão, álcool, uns curativos adesivos e voltei ao quarto onde Jaden estava.

― Não precisa disso.

― Você sabe que precisa.

Comecei a esterilizar os cortes e cobri os cortes maiores com os curativos.

― Você não é uma enfermeira ruim ― ele comentou.

― Quando eu era criança, vivia caindo daquele carvalho e quando fui aprender a andar de bicicleta, vivia arranhando os joelhos. Minha mãe fazia curativo todas as vezes e eu observava. Sem falar que é o mínimo que posso fazer depois de você salvar minha vida.

― Aquele dia foi bem desesperador.

Sorri e ficamos um tempo em silêncio até que perguntei:

― Você pensa em achar seus pais biológicos?

"Não force a barra", Elizabeth pediu. Jaden aquiesceu.

― Acho que ainda é cedo. Eu quero, mas quero ordenar meus pensamentos também.

― Entendo ― murmurei.

― E então, Shelly, como você está com tudo isso? ― ele perguntou olhando para mim atentamente.

― Bem, eu estou preocupada com você, triste pelo o que lhe aconteceu, pensando se você vai perdoar Adele e Robert.

"Você ao menos me ouve quando está com Jaden Lancaster?" Elizabeth resmungou em minha cabeça.

Jaden parou de olhar para mim e criou um súbito interesse pelo armário.

― Ainda é tudo muito recente. Hoje quando acordei, ainda era o filho de Adele e Robert Pendlebury. Horas depois, descubro que era mentira e que eles mentiram sobre muitas coisas. Levará algum tempo até que eu me acostume.

― Entendo. ― suspirei. ― Vamos ver algum filme?

― Pode ser.

Fomos à sala, assistimos Green Mile (chorei com o final e Jaden riu da minha cara) e, logo em seguida, 50 First Dates. Eu estava com tanto sono que nem me lembro de qual era o terceiro filme. Eu apenas apaguei.

Notas finais
♫ Meu mundo caiiiu... ~Maysa feelings~ Olá, tudo bem? 3 capítulos... ain, que ansiedade :3 Contagem regressivaaaa o/ Enfim, críticas, comentários, sugestões e reclamações abaixo vvvvvvvvvvvvvv Até o próximo o/